Entrevista: Emmanuelle e Christian Boudier falam sobre a edição 2025 do Festival de Cinema Francês

entrevista de João Paulo Barreto

Com um total de 21 filmes que serão exibidos em mais de 60 cidades de todo o Brasil entre 27 de novembro e 10 de dezembro de 2025, o já tradicional Festival de Cinema Francês do Brasil, antes conhecido como Festival Varilux, é uma excelente oportunidade para o fã de cinema ficar por dentro do que de mais recente foi produzido na França, além de revisitar (ou conhecer) clássicas produções do país. Presente no Brasil, a veterana e premiada atriz, Isabelle Huppert, apresenta a estreia do seu novo filme, “A Mulher Mais Rica do Mundo” (“La Femme la plus riche du Monde”, 2025).

Baseado em fatos reais envolvendo o conflito entre Liliane Bettencourt e sua filha, Françoise Bettencourt Meyers, donas da fortuna oriunda da marca L’Oréal, o filme protagonizado por Huppert a traz no papel de Marianne Ferrère, idosa que se torna amiga do fotógrafo Pierre-Alain Fantin (Laurent Lafitte), cuja personalidade magnética atrai não somente a amizade de Marianne, mas uma soma exorbitante de dinheiro com o qual a mulher decide presentear o “novo amigo”.

Além de Huppert, quem também estará aqui é o ator e diretor francês Pierre Richard, cuja popularidade no país europeu é imensa. Assim, o festival também servirá de uma porta de entrada para muitos cinéfilos brasileiros que não têm muita familiaridade com a obra do veterano artista de 90 anos. No Brasil, Richard vai apresentar seu novo trabalho como cineasta, o longa “Sonho, Logo Existo” (“L’Homme qui a vu l’ours qui a vu l’homme”, 2025), seu retorno à cadeira de diretor após um hiato de quase 30 anos.

Dentre as oportunidades , estão alguns dos filmes que foram exibidos no Festival de Cannes deste ano, como “O Segredo da Chef” (“Partir un Jour”, 2025), de Amélie Bonnin, drama com tons de comédia e musical que traz sua protagonista, a chef do título, voltando às suas raízes familiares após problemas cardíacos de seu pai. Outro destaque é o novo filme dos Irmãos Dardenne, “Jovens Mães” (“Jeunes Mères”, 2025), agraciado com o prêmio de Melhor Roteiro em Cannes e, segundo análise aqui no Scream & Yell, “firme na denúncia de que o machismo é devastador”. Conheça a programação completa aqui.

Emmanuelle e Christian Boudier, curadores do Festival de Cinema Francês, falam sobre a edição deste ano. Leia abaixo!

Em 2025, o festival apresenta uma homenagem a Pierre Richard, veterano ator com mais de uma centena de trabalhos e que, este ano, retorna à cadeira de diretor, função que não ocupava desde 1997. Sendo um dos nomes mais conhecidos na França, o festival apresenta uma oportunidade do público brasileiro se familiarizar com sua obra. Poderia falar um pouco sobre essa oportunidade de, ainda em vida, homenagear um cineasta e ator tão valoroso do cinema francês?
Emmanuelle Boudier – Pierre Richard é, sem dúvida, um dos atores franceses mais famosos e certamente o mais popular e amado. No início de sua carreira, o diretor Yves Robert lhe disse: “Você não é um ator, você é um personagem”. Esse personagem distraído, azarado e atrapalhado arrancou risos e empatia de toda uma geração de franceses, mas não temos dúvidas de que ele também é atemporal, como Danny Kaye e Jerry Lewis, suas fontes de inspiração. Embora Pierre seja muito conhecido na Europa e até mesmo na Ásia, ele não é tão conhecido pelo público brasileiro. Queríamos que esse público o conhecesse um pouco melhor por meio de uma retrospectiva de cinco filmes e também graças ao filme que ele mesmo dirigiu recentemente, “Sonho, Logo Existo”, um filme que, mesmo não sendo estritamente autobiográfico, revela a sensibilidade desse “personagem”.

Além da presença dele no Brasil, outra veterana que estará aqui é Isabelle Huppert, um dos nomes mais representativos da atuação no mundo. Seu filme, “A Mulher Mais Rica do Mundo”, baseado em fatos reais, aborda temas como a sombra do nazismo, a corrupção e a frivolidade de uma classe economicamente dominante. Na sua opinião, como o filme poderá dialogar com o público brasileiro, cuja familiaridade com temas semelhantes em nosso cenário político também lhe traz reflexão?
Emmanuelle Boudier – O filme “A Mulher Mais Rica do Mundo” é de fato inspirado em uma história real, ambientado em um contexto político bastante atual, pois aborda o tema dos ultrarricos. Em um momento em que a França e o Brasil debatem a questão da tributação dos ultrarricos, o filme ressoa com a atualidade. Mas esse não é o tema principal do filme. O que ele aborda diretamente é uma questão humana, ao retratar uma mulher poderosa e rica que, no entanto, cai sob a influência de alguém que busca explorar sua fortuna. A beleza e o encanto dessa comédia residem na observação desse mecanismo de manipulação e na maneira como a personalidade interior de uma mulher aparentemente fria e calculista é gradualmente revelada.

Emmanuelle e Christian Boudier

Existe um equilíbrio perceptível na curadoria do festival na busca por trazer ao público brasileiro que gosta do cinema francês da atualidade, bem como aqueles que focam nos clássicos, além de representar uma oportunidade para os cinéfilos assistirem a filmes premiados em festivais recentes. Como funciona esse processo curatorial para você?
Emmanuelle Boudier – Nosso objetivo é ser uma vitrine representativa do cinema francês e, ao mesmo tempo, atender aos diversos gostos do público do festival. Nossos dois principais critérios são a qualidade e a diversidade. Também acreditamos ser importante transmitir uma imagem da França que evite clichês. Outro critério fundamental é dar visibilidade a talentos emergentes, sejam diretores ou atores, e por isso sempre incluímos filmes de estreia na seleção. Enfim, sabemos que o público gosta muito de comédias, por isso sempre apresentamos bastante, mas temos cuidado em escolhê-las de maneira que elas tenham um pano de fundo que faça o espectador refletir.

Há mais de quinze anos, o Festival de Cinema Francês traz para o Brasil uma seleção de obras recentes que passaram pelas telas do país europeu. Neste aspecto de distribuição e exibição em cinemas, a França, inclusive, possui uma cota de telas, juntamente a uma regulação voltada para as demandas do VoD e do streaming. No Brasil, após anos de um imbróglio que se arrastou por muito tempo, finalmente foi votado um projeto de lei que exige o pagamento da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine) pelos canais. Conhecendo bem o exemplo da França, quais ações eficazes o setor do audiovisual brasileiro precisa seguir no intuito de alcançar aqui esse mesmo equilíbrio que se alcançou na França em relação às produções nacionais exibidas no streaming e, por consequência, uma valorização das mesmas?
Christian Boudier Eu acho que o que sempre foi central e fundamental na França, que não é o caso infelizmente no Brasil, é a cronologia das mídias. Regras legislativas que garantem para cada mídia um período de exclusividade e uma ordem bem definida entre cinema, VOD, TV paga, TV aberta, etc. E isso é muito importante porque sempre garantiu a solidez e a força da exibição dos filmes nos cinemas. Isso porque as pessoas sabem que vão ter que aguardar muitos meses para poder ver um filme depois do lançamento no cinema. Hoje. a cronologia das mídias até chegar ao VOD, que é como se fosse o aluguel do filme, é de quatro meses. Tem um canal chamado Canal Plus, um canal pay-tv que é o maior financiador do cinema francês, possui uma janela de 6 meses depois do lançamento no cinema para exibição. A Disney Plus, por exemplo, negociou um acordo recentemente para um prazo de 9 meses. O prazo da Netflix é de quinze meses. Ou seja, nenhum filme lançado no cinema pode aparecer na Netflix antes de 15 meses. Já na Amazon, esse prazo é de 17 meses. E os canais abertos ficam entre 22 e até 36 meses quando não tem coprodução. Ou seja, realmente, se essa escala é muito importante porque cada negociação com cada ator, com cada operador audiovisual se faz com essa regra. Por exemplo, a Disney Plus, no ano passado, conseguiu diminuir a janela de quinze para nove meses porque o canal aceitou investir mais dinheiro na produção de filmes franceses. É isso que não existe no Brasil. Aqui, conseguimos algo que é muito legal que foi impor cotas de financiamento das plataformas para o conteúdo nacional. Isso é bem importante. Mas é uma pena, porque poderíamos ter conseguido mais usando também essa ferramenta das janelas das mídias. Porque isso, realmente, na França, ajuda muito. Você faz uma negociação: “Você vai botar mais dinheiro no cinema francês e, em contrapartida, você vai conseguir um prazo mais curto.” Isso seria legal no Brasil, aliás, também para defender o cinema. Porque hoje o público sabe que qualquer filme que ficar no cinema, com exceção dos blockbuster, talvez, mas, enfim, mesmo com os blockbuster, algumas semanas depois estes também já estão disponíveis para assistir em casa. Isso é ruim para a imagem da percepção, da importância de ir para o cinema, de ver um filme porque você sabe que ele vai estar disponível daqui a pouco na sua casa. Isso é uma pena. Acho que é um grande problema no Brasil é esse. E, enfim, por outro lado, o cinema francês vai muito bem com esse sistema, que é muito complexo, mas não o suficiente. Ano passado foi um recorde pós-covid para os cinemas que tiveram 181 milhões de espectadores nos cinemas. 2024 foi o ano mais forte depois da covid,  E a cota de mercado do cinema francês chegou em 44,4%, algo ainda mais forte que o cinema americano. Outra coisa que é bem importante na França: há mais ou menos 45% de cota de mercado do cinema francês e 45% pro cinema americano. Isso significa que, no meio, tem 10%, que são outros filmes latino-americanos, europeus, asiáticos, que têm 10%. Ou seja, quase 20 milhões de pessoas assistem a esses filmes. É um cinema independente, um cinema diferente. E isso também é um critério muito importante para a saúde do cinema na França. Ou seja, essa janela grande, aberta para a diversidade do cinema. Não é o caso no Brasil. Aqui, não tem mecanismos para se incentivar essa diversidade cinematográfica. O bom é que tem incentivos para o cinema brasileiro e isso é muito legal. Mas entre esses incentivos para o cinema brasileiro e essa força natural de marketing, de promoção do cinema americano, a cota que vai ficar para o cinema francês, por exemplo, para o cinema europeu, para o cinema de outros países do mundo, vai ficar cada vez mais reduzida. E isso é uma situação que a gente está vendo claramente. Hoje, tem cada vez menos lançamentos de filmes de outros países, porque o mercado está muito difícil. Os cinemas têm cada vez menos salas disponíveis para lançar um filme francês, um filme alemão, italiano, espanhol, etc. É uma situação grave. Reduzir a oportunidade e a diversidade de ofertas para o público brasileiro é muito triste. Não é legal. É a essa situação que estamos tentando resistir com  a organização do Festival de Cinema Francês em todo o país, sem deixar de tentar convencer a um maior número de cinemas e cidades, para que o público brasileiro possa ter esse acesso a outro tipo de cinema nas salas.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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