Entrevista: Ícones do Dunedin Sound, neozelandeses do The Bats falam sobre novo álbum, “Corner Coming Up”

entrevista de Heberton Barreira

Com suas músicas pop influenciadas pelo folk rock e deliciosamente doces, belamente harmonizadas e em grande parte livres de angústia, The Bats representa o lado mais suave do Dunedin Sound, movimento musical e cultural surgido na Nova Zelândia no início da década de 1980. No mais recente capítulo da banda, Robert Scott (vocal principal, guitarra rítmica e teclados) revela uma visão tão introspectiva quanto perspicaz sobre o processo criativo de “Corner Coming Up” (2025), 11º álbum de sua discografia.

Ativos desde 1982 com a mesma formação (que além de Robert ainda traz Paul Kean no baixo, Malcolm Grant na bateria e Kaye Woodward na guitarra solo e vocal), o Bats quase batizou seu disco novo como “Tidal”, a nona faixa do registro, em referência à constância e ao movimento da vida. Para Scott, a alegria está nos detalhes sutis da música, nos momentos que só se revelam quando se dedica tempo e atenção. Ele lembra que, embora seja possível desistir diante de desafios, o verdadeiro valor está em fazer o esforço de seguir pelo caminho certo e avançar na esperança de tempos melhores.

Segundo Scott, o Bats praticamente não segue “o jogo” da indústria musical, mantendo a integridade e a liberdade artística em primeiro lugar. Cada decisão, cada escolha de arranjo e cada letra expressam não apenas a habilidade técnica, mas também a convicção de músicos que seguem suas próprias regras. Entre acordes e arranjos cuidadosamente moldados, suas palavras soam como um lembrete: a música é tanto uma arte quanto um ato de perseverança, e cada nota carrega a força de quem nunca para de buscar o melhor — e é exatamente isso que Robert Scott revela nesta conversa, feita por e-mail, que você lê a seguir.

Ouça “Corner Coming Up” na integra abaixo

O conceito de “Corner Coming Up” está condensado na faixa título, onde há uma carga de incertezas, esperança, superação, que acaba sendo conduzida por todo o álbum, com um alerta que algo diferente está chegando, uma curva está vindo. O que esta “curva” representa para vocês depois de quatro décadas na estrada?
Sempre há uma curva, um desafio, algo a encarar ou enfrentar. Tive um problema sério de saúde há três anos — foi uma grande curva, algo que, por sorte, consegui contornar. Conforme a gente envelhece, pode ser que apareçam mais dessas… ou, com sorte, menos.

O álbum “Foothills” (2020) fez vocês revisitarem o próprio arquivo. Essa viagem ao passado influenciou a criação de “Corner Coming Up”?
Na verdade, não foi bem assim — era mais uma questão de que tinha chegado a hora de fazer um novo álbum. Eu sabia que as músicas estavam prontas, e a questão era reunir a banda para decidir como iríamos abordá-las e de que forma queríamos apresentá-las. É diferente a cada vez — as coisas mudam de um álbum para outro — mas, felizmente, pra gente não mudou tanto assim. Conseguimos entrar em sintonia rapidamente com as músicas e fazer jus a elas.

As canções deste disco cobrem um território emocional vasto. Em “Song for the End”, um riff que instiga a levantar e saudar o dia, na ânsia por paz e neutralidade.  A ideia da canção está por aí mesmo? Sobre administrar essa ansiedade, encontrar um meio-termo possível num mundo exigente?
Sim, é isso mesmo — você resumiu bem, disse tudo. Às vezes, só depois de um tempo é que eu consigo dar algum sentido às palavras: “É isso mesmo que eu quis dizer? É isso que eu quero expressar? Será que saiu do jeito certo?” E as pessoas acabam encontrando o próprio significado no que ouvem. Eu não costumo deixar as coisas muito explícitas — o sentido pode ficar meio escondido às vezes.

Em “Smallest Falls”, a resistência silenciosa de seguir em frente parece refletir tanto na letra quanto na própria estrutura da música – aquela melodia que insiste em continuar, como um caminhante numa trilha difícil. Há uma beleza na perseverança, na persistência de seguir o caminho mesmo sob a tempestade, esquecendo a dor. Você diz: “O mato agora bloqueia qualquer esforço.” Essa metáfora de obstáculos intransponíveis vem de batalhas pessoais que você teve que enfrentar?
Sim, bem parecido com o que falei na primeira resposta — é sobre se esforçar pra superar as coisas, tentar resolver o problema ou a situação que você estiver enfrentando. Você pode até desistir, mas, na verdade, o importante é fazer o esforço de seguir pelo caminho certo e avançar pra tempos melhores.

Quatro décadas de estrada tecem uma cumplicidade rara. Cinco anos sem gravar desde “Foothills”, certo? Ao entrarem em estúdio para o “Corner Coming Up”, essa história toda se traduziu numa linguagem quase telepática? Houve momentos em que um simples olhar ou um acorde eram suficientes para que todos soubessem exatamente para onde a música deveria ir?
Sim, isso é parcialmente verdade — o tempo entre os álbuns meio que se dissolve, e a gente logo entra no nosso ritmo, caindo rapidamente nos nossos padrões de tocar. A pergunta é sempre: o que essa música precisa? Trabalhamos bastante nas nossas partes — especialmente a Kay e o Paul, já que essas músicas são mais novas para eles. Eu já tenho os acordes definidos, e daí vem a parte dos arranjos — que é toda sobre tomar decisões.

Quando você se aprofunda nas experiências pessoais que alimentam suas letras, como decide até onde levar essa intimidade sem perder a conexão com quem ouve? Existe um momento em que o pessoal se abre para o universal em seu processo de escrita?
Acho que eu acabo compartilhando bastante, mas muitas vezes os temas e detalhes ficam meio escondidos. Sou meio tímido, então não revelo tudo. E, pra ser honesto, acho que as pessoas nem têm tanto interesse assim em saber muito sobre mim.

O álbum tem uma energia vital impressionante, mesmo nas partes mais introspectivas e/ou melancólicas. Em “Eyes Down”, por exemplo, a melancolia se transforma numa espécie de solenidade celestial. É difícil equilibrar essa melancolia reflexiva com o otimismo luminoso  de outras faixas como “Lucky Day” e “Loline”?
Sim, “Eyes Down” é bem diferente, porque só eu gravei ela. Gosto de tocar piano, mas sou meio cru nisso. Aquela era uma demo caseira, e eu gostei da vibe dela, então, no estúdio, apenas a passei pelos equipamentos, adicionei uma guitarra e alguns vocais de apoio.

Numa indústria que vive transformando paixão em produto, aquela ideia de tratar a banda como um ‘hobby’ sagrado – parece se manter intacta no coração do The Bats. E, num mundo cheio de expectativas e pressão, como é que vocês protegem essa essência da lógica comercial?
A gente realmente não pensa muito nesse lado das coisas — pelo menos eu não penso. O foco é mais o que é melhor pra música e pra banda. Sempre cuidamos de nós mesmos e praticamente não jogamos “o jogo” da indústria.

Em “Tidal”, há uma melancolia que empurra o ouvinte para a frente, como uma maré interna. Essa imagem de uma força natural, ao mesmo tempo ritmada e um pouco imprevisível, ressoa de alguma forma o modo como vocês veem a própria trajetória? Como uma maré que vai e vem, mas sempre com a constância do oceano por trás?
Ah, essa é uma maneira bonita de ver as coisas, e sim, você está certo — a maré é uma das poucas coisas realmente constantes no mundo, caindo e subindo a cada dia, empurrando e puxando. O álbum ia se chamar “Tidal” originalmente. A gente sempre acha difícil dar nomes para os álbuns.

Sobre a capa de “Corner Coming Up” – cinco palmeiras sob um sol intenso, pintadas na parede do que aparenta ser um boteco isolado à beira de uma calçada – remete a uma tranquilidade e uma beleza no ordinário. Alguma história por trás da pintura?
Sim, é um mural pintado por um amigo nosso, o Paul McNeil, em Portugal. Ele nos enviou a foto, e assim que a vimos, soubemos que era ela a capa.

Ao ouvir bandas como Guided By Voices, Superchunk, Yo La Tengo e Pavement carregando a influência sonora dos The Bats, que tipo de ressonância isso cria em você? É uma sensação de legado, de continuidade, ou algo mais pessoal?
Acho que cabe ao ouvinte fazer essas comparações entre bandas. Eu, pessoalmente, tenho dificuldade de perceber essas conexões — a música é divertida assim. Mas é bom saber que estamos na companhia de bandas tão maravilhosas.

Mergulhando numa curiosidade que atravessa oceanos: a música sempre foi uma conversa global, mesmo antes dos algoritmos. Enquanto o Dunedin Sound ecoava pela Oceania até alcançar o Ocidente, há algum artista ou movimento musical desse lado que tenha deixado sua marca na sua sensibilidade musical? Chegou a ouvir alguma banda ou artista do Brasil na época?
Essa é boa — a maior parte da música que curtimos veio da Europa e dos Estados Unidos, praticamente nada da América do Sul. Mas eu sei que existe música maravilhosa no Brasil, e é ótimo saber que há interesse pelo nosso trabalho ao redor do mundo. Isso é uma das principais coisas que me mantém motivado.

Ian Chapman define o The Bats no seu livro “The Dunedin Sound: Some Disenchanted Evening” como a “arte melódica cativante com um toque cortante”. Essa “lâmina” que Chapman identifica – onde você acredita que ela mora na música de vocês? Seria uma questão de letra, uma discórdia sutil na guitarra, ou algo na própria respiração das canções que mantém o ouvinte sempre um pouco alerta, mesmo na doçura?
Humm, complicado… acho que o “corte” ou a “aresta” está mais na instrumentação — especialmente no baixo e na guitarra solo — do que nas letras. Acho que também temos nosso próprio som, e isso ajuda.

Matthew Goody, no livro “Needles & Plastic“, relembra que “Daddy’s Highway” (1987), apesar de não ter entrado nas paradas, foi saudado como um marco — um disco coeso que mostrou sua evolução como compositor, com Paul Collet no ‘Press’ chamando-o de ‘a gravação mais ousada dos The Bats até então’. Olhando para trás, o que tornou aquele álbum tão especial e decisivo para a identidade de vocês? Na época, vocês tinham a sensação de que estavam alcançando um ponto de virada?
Bem, foi o nosso primeiro álbum completo, e estávamos tocando bastante e evoluindo rápido. Naquela época, eu estava realmente pegando o jeito da composição. A primeira parte do álbum foi gravada em Glasgow e o restante quando voltamos para a Nova Zelândia, o que torna tudo interessante. Então, não foi exatamente um ponto de virada, mas sim um começo sólido e importante.

Até chegar no “Corner Coming Up”, foram várias curvas. Depois de tantas, o que ainda sustenta e alimenta essa constância tão singular dos The Bats?
Acho que a alegria está em buscar aqueles momentos mais sutis na música e na gravação — você aprende a cada vez que faz algo assim. O desafio de criar um grande corpo de trabalho que será apreciado nos próximos anos, algo sólido para deixar para trás… todo mundo gosta de ser apreciado, né? Então eu sempre espero que possamos lançar trabalhos novos e fortes que serão curtidos no futuro. A música é uma força muito poderosa neste mundo conturbado.

Heberton Barreira é estudante de jornalismo, bandolinista e animador stop-motion. Criador do @yayatedance

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