Cinema: “A Própria Carne” é um atestado das muitas lições que o terror brasileiro ainda tem a aprender

texto de Davi Caro

Expectativa é mesmo uma coisa complicada. Quando o projeto do longa “A Própria Carne” foi anunciado, em uma iniciativa conjunta do diretor Ian SBF – conhecido por seu trabalho junto à turma do Porta dos Fundos – e dos produtores Alexandre Ottoni, vulgo Jovem Nerd, e Deive “Azaghal” Pazos – criadores de conteúdo que ajudaram a praticamente inventar o podcast no Brasil – as possibilidades pareciam infinitas, além de promissoras. Um terror de época, ambientado durante a Guerra da Tríplice Aliança (na qual uma união entre Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai deixou mais de 400 mil mortos entre 1864 e 1870), roteirizado por mãos mais do que competentes (quem já escutou os ricamente elaborados episódios de RPG do Nerdcast sabe bem), comprometidas em retratar o período escolhido com fidelidade, e sem dosar a medida quanto ao gore. Parecia bom demais para ser verdade.

À despeito de qualquer ressalva – e haverá algumas, como se verá adiante – é necessário reconhecer o esforço comendável que possibilitou a existência de “A Própria Carne”, elaborado através da combinação de forças da Neebla Filmes e da Nonsense Creations. Seja do ponto de vista técnico, relacionado a cinematografia da produção, ou mesmo em relação ao argumento que deu lugar ao roteiro, é notável a intenção de realizar um projeto de terror como, ainda hoje, pouco se vê em grandes salas. O percurso em direção à conclusão destas expectativas, no entanto, é no mínimo acidentado. Algo que, por diversas vezes, inevitavelmente transparece na tela.

Em meio ao macabro conflito que derramou sangue ao Sul da América Latina, três soldados desertores – Gustavo (Jorge Guerreiro), Gabriel (Pierre Baiteli) e Anselmo (George Sauma) – cruzam a floresta procurando evadir os militares que os caçam, após o primeiro destes haver sido ferido em um conflito prévio. Se esgueirando pela floresta, o trio encontra uma fazenda dilapidada, habitada por um fazendeiro no mínimo suspeito (Luiz Carlos Persy) e uma garota (Jade Mascarenhas). Enquanto aguardam uma chance de saírem da região – e salvarem suas vidas – os rapazes pouco a pouco se dão conta de que não estão sozinhos na fazenda. E, aos poucos, uma sinistra trama que envolve os habitantes do lugar onde se abrigaram começa a se revelar, com um potencial ainda mais destrutivo do que o conflito do qual, a duras penas, eles buscaram escapar.

Conceitualmente falando, é um enredo que deveria funcionar, e muito bem. Ao longo das mais de uma hora e meia de duração, a produção estabelece um ritmo que acaba construindo tensão e que se vale de tomadas quase totalmente silenciosas para cativar o espectador (merecedora de destaque, inclusive, é a trilha sonora de Bruno “Govis” Gouveia, que já possui extenso histórico de colaborações com Ottoni e Pazos). É na realização da trama, entretanto, que “A Própria Carne” se perde. Passagens mal resolvidas, pontas soltas que permanecem sem resolução e uma conclusão abrupta acabam por macular, ainda que não totalmente, a experiência de acompanhar o filme. A cinematografia, por sua vez, conjura bem o clima claustrofóbico e paranoico do assustador ambiente no qual o roteiro se desenrola, apesar de determinados trechos onde um trabalho de edição um pouco truncado fica mais evidente. Neste sentido, a inspiração em trabalhos como o inesquecível “O Enigma de Outro Mundo” de John Carpenter (1982) é fácil de perceber.

“A Própria Carne” se garante em, pelo menos, duas frentes: primeiro, na escalação do elenco – sobretudo do principal antagonista. Luiz Carlos Persy já havia fincado seu nome em outro projeto ambicioso vinculado à marca Jovem Nerd, tendo participado do primoroso áudio-drama “França e o Labirinto” (lançado em parceria com o Spotify e contando com Selton Mello como protagonista). Aqui, Persy toma para si trejeitos que poderiam ser caricatos de tão arquetípicos, e os converte em uma performance magnética e memorável. É até injusto falar do restante do elenco, responsável por um trabalho em grande parte competente – em que pese a falta de desenvolvimento de determinados personagens, que acabam sendo relegados a uma unidimensionalidade decepcionante – frente ao desempenho do vilanesco fazendeiro. O outro acerto do filme está no uso de efeitos práticos. Boa parte da sujeira estética almejada pela direção de Ian SBF tem como alicerce os litros de sangue que jorram na tela, e a abordagem (dolorosamente) realista de tomadas mais violentas com certeza satisfaz os entusiastas de vísceras prostéticas. Ainda mais levando em consideração o desfecho do filme, tão enigmático quanto anti-climático.

A sensação que fica ao final de “A Própria Carne” – se estendendo ao pós-créditos, diga-se de passagem – é a de uma oportunidade bem pensada, planejada e esquematizada, mas cuja realização se mostra aquém do prometido e esperado. Decisões criativas inovadoras e bem embasadas (com o também podcaster Icles Rodrigues, do “História FM”, servindo como consultor histórico) são fundamentais, e o esforço em seguir a inspiração com os melhores resultados em mente são perceptíveis aqui. No entanto, nem um, nem outro são capazes de carregar um longa com tamanha ambição, e expectativa, nas costas. Resta saber se os ganchos indicados ao fim do filme terão sequência; a ideia de um trabalho brasileiro calcado no horror cósmico é, pelo menos, instigante. O que é possível constatar agora, porém, é que “A Própria Carne” serve como um testamento ao grande potencial que o terror brasileiro possui. E às muitas lições que ainda restam a serem aprendidas pelo caminho. Afinal, de boas intenções, o inferno está cheio – seja ele real ou imaginário.

 Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

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