Entrevista: Cadão Volpato e Thomas Pappon falam sobre a editora Seja Breve e o livro “O Enterro Do Velho Punk”

entrevista de Alex Antunes

Cadão Volpato e Thomas Pappon são uma dupla bem conhecida no rock independente de São Paulo. São os principais compositores e únicos membros em todas as gravações do grupo Fellini (sete discos físicos entre 1985 e 2020, se incluindo a compilação de faixas inéditas “A Melhor Coisa Que Eu Fiz”; é uma das carreiras mais longevas e prolíficas do underground local).

O Fellini é um estranho no ninho – fofo, cult, mas estranho – no mundo pós-punk. Os traços desse subgênero foram se apagando desde o primeiro disco, ganhando ingredientes cada vez mais idiossincráticos, como o peculiar “samba de bateria eletrônica”.

Mas agora Cadão e Thomas estão reunidos em outra linguagem. O livro de contos de estreia de Thomas, “O Enterro Do Velho Punk”, sai pela recentíssima editora de Cadão, a Seja Breve. Aproveitando a presença de Thomas em São Paulo (ele é jornalista da BBC em Londres), também para shows do grupo Smack, com Sandra Coutinho das Mercenárias e Edgard Scandurra do Ira, me encontrei com os dois para um café no Copan.

Conheço esses dois desde que estudamos na Escola de Comunicações e Artes da USP, no final da década de 1970. Período que Cadão tem retratado em alguns de seus livros, particularmente em “À Sombra Dos Viadutos em Flor” (2018) e “Abaixo A Vida Dura” (2024). Eu levei umas suposições para o café – e o que eu achava que ia ser uma surpresa para Cadão.

Acho que o que liga vocês há tanto tempo, em termos musicais, é um “ouvido afetivo”. Porque os textos do Cadão, como vimos nas letras de música, e depois nos livros, têm uma visão que parte da realidade mas com uma certa doçura… E o Thomas, acho que também é assim na relação com a música, as coisas que compõe parte de memórias musicais afetivas. E eu digo isso como pós-punk que está no extremo oposto, o do choque da desconstrução burroughiana da linguagem (risos). Agora o livro do Thomas tem também um pouco disso?
Thomas – Acho que sim, que faz sentido isso.

Cadão – Tem. Assim que montei a editora com o Bera (o também escritor e jornalista Bernardo Ajzenberg), no final do ano passado, uma das primeiras pessoas que convidei a escrever foi você, não é, Thomas? Mas imaginei que fosse pelo caminho da não-ficção. Sobre discos, sobre filmes…

Thomas – Eu pretendia escrever sim. Mas depois de me aposentar. Um romance policial. O Itamar Alves, que me entrevistou para (o site) AmaJazz, acha que esses contos têm a ver com o que eu faço no jornalismo – principalmente o podcast Que História!, em que eu pesquiso nos arquivos da BBC histórias reais, mas surpreendentes. (No posfácio do livro, Daniel Benevides – outro da cena de São Paulo, era o vocalista do 3 Hombres, banda também fundada pelo Thomas – também vai por aí: “Essa busca pelo lado alternativo das coisas […], casos bizarros, marginais na História, reais, mas difíceis de acreditar”). O conto que dá título ao livro, por exemplo, parte da morte de um vizinho meu, do qual eu sabia alguma coisa, mas o que o meu filho Samuel me contou sobre o enterro me levou a escrever.

Quando eu bati o olho no título do livro – e na ilustração do Cadão, o magrão da capa – achei que fosse sobre o enterro do nosso amigo Minho K, o Celso Pucci (risos)…
Thomas – Aahahah, não é, mas o Minho K está lá né, na primeira história, “A noite Ruim”, sobre os amigos que viajam à Bolívia, e têm aquela paranoia com drogas. Ele é o Dino do conto. Foi o primeiro conto que escrevi, baseado naquela clássica viagem nossa. Escrevi em uns dias de folga. Gostei do resultado, e emendei com o do punk inglês, que escrevi em mais dois dias.

Esse foi fácil de reconhecer. Aliás isso me lembra de uma viagem do Minho K à Bahia, a Salvador, para cobrir algum show ou festival, na qual ele fumou acho que um skank muito forte, e depois ficou procurando o Daniel e eu nos armários do hotel; ele tinha certeza de que nós também estávamos na cidade (risos).
Cadão – E então o Thomas nos mandou o livro – a ordem dos contos permaneceu a que ele sugeriu –, e nos surpreendeu. O Bera apenas pediu que ele escrevesse mais alguma coisa. E Thomas mandou o último conto, “O Intérprete”.

Thomas – Os sete contos estão na ordem em que foram escritos.

Thomas Pappon e Cadão Volpato nos anos 80

Interessante, porque eu fiquei com a impressão de esse último é o que tem mais elementos autobiográficos, não no sentido da história do personagem – que eu já sei que é inventada –, mas por ter mais de sua observação sutil das coisas da Inglaterra, da imigração… Me dá a impressão de que você foi se sentindo à vontade com a escrita, no processo. Por exemplo, o conto “Dr. Velastan” é uma narrativa bastante objetiva, mas que tem essa piscada bem literária que é a última frase… Me faz pensar na literatura, no “realismo poético” do Cadão. Então falemos da editora. A Seja Breve também é afetiva?
Cadão – O nosso objetivo inicial é que os livros se paguem. Então até fomos conservadores nas tiragens iniciais. Mas os pedidos nos surpreenderam, estamos fazendo reimpressões para dar conta (os cinco primeiros títulos, lançados em maio, foram “Notícias do Trânsito”, do próprio Cadão, “Que Não Se Repita – A Quase Morte da Democracia Brasileira”, de Eugênio Bucci, “Lugares Para Chorar no Recife e Outros”, do DJ Dolores, “O Príncipe do Box”, de Fabio Altman, e “Despaixão”, de Paula Lopes Ferreira – seguidos por E”u Te Amo, Cretin” de Milly Lacombe e o “Velho Punk”).

Tipo, vocês já encontraram um nicho?
Cadão – Os livros, apesar de serem tanto de ficção quanto de não ficção, se parecem visualmente com uma coleção (todos têm ilustrações do próprio Cadão na capa). Acho que isso os destaca na livraria. Mas sim, estamos aprendendo a fazer, deste lado do balcão. Como sempre, aliás. Meu primeiro livro de contos foi parar na Iluminuras meio por acidente (“Ronda Noturna”, de 1995). Acabei lançando quatro livros de contos lá. Antes eu tinha proposto meu primeiro livro muito aleatoriamente para o Caio Graco Prado, da Brasiliense, com quem eu trabalhava (risos). Depois publiquei na Cosac Naify, e alternando na Editora do Sesi, Faria e Silva, Numa. Só os autores que são grandes vendedores têm exclusividade, adiantamentos. Na Seja Breve, adotamos esse mote dos livros curtos, mas talvez eles não sejam todos sempre tão breves.

Thomas, tem uma amiga minha, a Carla Gronwald, que mora na Alemanha, e diz que o humor infame de algumas postagens minhas parece humor de alemão (risos). E eu quase temi que o seu humor pudesse passar do ponto, naquele contexto bastante irônico de um dos contos, o que trata dos bastidores da volta de uma banda e de seu vocalista narcisista e pedante (“Alea Jacta Est”)… (risos).
Thomas – Aahahahh. É um ambiente que conhecemos bem, né.

Por falar em cantores. Você era o cara que era instrumentista, que já tido bandas antes da universidade. Foi você que levou o Cadão, que sempre foi escritor, a cantar?
Cadão – Aahahh, não, na ECA eu já tinha feito umas participações com os Marcianos de Papel, do Inácio Zats (cineasta, músico e cartunista).

Alex Antunes: Eu me surpreendi com o livro do Thomas. Claro, tendo trabalhado com ele na Bizz nos anos 1980, sempre soube que ele escrevia bem, como jornalista. Mas gostei de mais essa “atravessada” na linguagem, movida pelo afeto, pelo interesse orgânico, pela bola devolvida pelo Cadão. Sobre um possível livro policial, ou de suspense: o conto “A Festa de Sete de Setembro” seria um perfeito episódio do Que História!, se não tivesse uma camada ficcional. A coisa se passa no meio diplomático e intelectual brasileiro em Londres, durante a segunda grande guerra.

Na recepção de 7 de setembro de 1940, estão presentes personagens reais, como o embaixador Moniz de Aragão e o cineasta Alberto Cavalcanti. Thomas se baseou nos registros históricos da BBC e em biografias de pessoas presentes. O que o embaixador não sabe é que há um crime em preparação, e o que esse crime tem a ver com a prisão de Olga Benário… Quando a Luftwaffe ataca e as sirenes soam. Poderia ser o embrião de um livro de suspense histórico, ao modo do escritor Robert Harris, do sagaz “Conclave”, e colaborador de Polanski em “O Escritor Fantasma” e “O Oficial e o Espião’ (e roteirista do filme ‘Enigma”, de Michael Apted, que cria uma espécie de Alan Turing heterossexual), e que Thomas aponta como influência.

Mas, reforçando meu ponto, de que a publicação desse livro do Thomas fecha uma espécie de círculo – e de que Cadão era escritor antes de qualquer outra coisa, assim como Thomas era músico –, apresentei-lhes uma pasta com o manuscrito de “Crimes Do Bonde Para Operários”. Nada menos que um livro perdido de contos de “Carlos Adão Volpato”, datado de 1982-83. Essa cópia ficou comigo desde que moramos juntos, em 1984.

Diz a última página: “É realmente o corpo do Conde Matarazzo esmagado nos trilhos”? Siga a história.

Uma das formações do Fellini

– Alex Antunes (@deathdiscomachine) é jornalista, escritor, pesquisador, curador e produtor.

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