Owen no Jai Club, São Paulo (6/11/2025)
texto de Jullie Piva, fotos de Douglas Souza
Dois anos depois de uma apresentação lotada na Casa Rockambole, em São Paulo, Mike Kinsella voltou para mais um show intimista na cidade. Com um público pequeno, mas muito engajado, o novo show de seu projeto Owen, numa quinta-feira, contou com abertura de Cyro Sampaio, com setlist que conta com músicas próprias, covers – de Exaltasamba a Daniel Johnston – e com sucessos do grupo carioca Menores Atos, em que é vocalista. Na sequência, Mike entrou em cena exclamando “Eu amo esse país” e abrindo seu set com “Bad News”, do álbum “At Home with Owen”, de 2006. Como já havia revelado em entrevista ao Scream & Yell, o artista também trouxe composições de seu mais recente lançamento, “The Fall of Sioux” (2024), como “A Reckoning” e “Mount Cleverest”.Em meio a piadas e conversas diretas com o público, Mike parecia muito mais à vontade do que em 2023 – show em que um dos cabos que usava começou a dar curto deixando-o nervoso. Dessa vez, a paciência do músico foi novamente testada quando, no meio da apresentação, uma corda de seu violão arrebentou. No entanto, ele notou que no palco havia outro violão (que pertencia ao Cyro), o pegou, testou e deu seu parecer no microfone: “it works!”. Como não poderia faltar, a noite contou com três músicas do American Football no set, como a clássica “Never Meant” e “Uncomfortably Numb”. Esta última gerou um momento engraçado com o público cantando a parte de Hayley Williams, que participa da faixa original, e com o músico interrompendo a música algumas vezes por se perder entre sua voz e o coro na Jai Club. Mas o auge da noite foi quando o músico, ao receber pedidos de músicas que não sabe mais tocar ou cantar, disponibilizou o violão e palco para dois fãs tocarem suas músicas e ele mesmo cantar, segundo ele, “como num karaokê”. Uma delas foi “Love Is Not Enough”, de 2013, faixa em que o artista teve dificuldade de lembrar a letra, mas que acabou dando certo. Para um artista que já revelou se sentir vulnerável no palco, Mike demonstrou que pode dividir sua tensão com o público, o convidando para também fazer parte dos holofotes, em uma noite que mais parecia um encontro entre amigos do que um show propriamente dito. Com ajuda de umas cervejas e algumas caipirinhas, o músico parecia se sentir acolhido, atendendo todos os pedidos de fotos e autógrafos.
Cap’n Jazz no Cine Joia, São Paulo (8/11)
texto de Jullie Piva, fotos de Fernando Yokota
Mais de 30 anos após começarem a tocar juntos e lançarem seu único álbum, o Cap’n Jazz passou por São Paulo em show que comprova que suas músicas lotadas de afeto, energia e rigor atravessam gerações. No sábado, 8 de novembro, após apresentação da curitibana Marrakesh, um enorme grupo de jovens de 20 e poucos anos se manteve na beira do palco do Cine Joia para dar moshs e por vezes cantar com (e sem) o vocalista Tim Kinsella. Havia uma sensação de estranhamento e surpresa no ar, mais por parte do público, do que pela banda. “Eu acho ótimo. Se nosso público rejuvenesce, quer dizer que ainda é rentável”, disse Tim em breve conversa com o Scream & Yell após o show, enquanto atendia fãs e autografava discos de seus diversos projetos, como do próprio Cap’n Jazz, além de Joan of Arc e Owls. A noite começou com “Basil’s Kite”, uma das mais explosivas do “Shmap’n Shmazz”, de 1994 – álbum que foi quase inteiro executado durante a noite, além das extras da coletânea “Analphabetapolothology”, de 1998. Como era de se esperar, a energia se manteve alta com as queridinhas “Ooh Do I Love You”, “Little League” e “Oh Messy Life”. Durante toda a noite, via-se uma cena digna de um filme de viagem no tempo: fãs que rondam os 40 anos assistindo à nova geração de público dos irmãos Kinsella subindo ao palco e se jogando na multidão. Isso porque o mesmo aconteceu no show do Owen, projeto solo de Mike Kinsella (baterista do Cap’n Jazz e irmão de Tim), com as devidas proporções: jovens de 20 e poucos anos subindo ao palco e tocando músicas que o artista nem se lembrava mais. Atestando o clima de ampliação de faixa etária, Tim também se jogou no público, mas precisou de ajuda da produção para voltar algumas vezes. Durante o bis, muitas pessoas ficaram e não saíram do palco durante o cover de “Take On Me”, original do A-ha, que faz parte da “Analphabetapolothology”. A atitude frustrou parte da plateia que não ouvia, tampouco via a banda no palco, principalmente depois de Tim desistir de ficar com o microfone. Para finalizar, “¡Qué Suerté!” acabou por representar bem a noite em que antigos ídolos se mantêm relevantes e, portanto, têm possibilidade de continuar fazendo o que o público gosta de ouvir. Afinal, o choque de gerações não é exclusividade dos antológicos irmãos Kinsella.
Nilüfer Yanya no Cine Joia (12/11)
texto de Bruno Capelas, fotos de Fernando Yokota
Nos últimos anos, uma série de mulheres poderosas empunhando guitarras têm chamado a atenção ao revisitar o rock alternativo dos anos 1990 – de Soccer Mommy a Blondshell, passando por Waxahatchee ou Beabadobee, os exemplos abundam. Dessa geração, um dos nomes que mais chama a atenção é o da inglesa Nilüfer Yanya: filha de pai turco e mãe de ascendência irlandesa e barbadiana, a cantora busca se diferenciar da geração não só pela impostação vocal de tom grave, mas também por misturar ao clima guitarreiro certo tempero sonoro que remete ao seu DNA. Tal distinção, às vezes em segundo plano em discos como o bom “My Method Actor”, de 2024, ficou mais evidente na apresentação solo da cantora no Cine Joia, em São Paulo, em meio a uma maratona de shows na capital paulista. A exigente sequência talvez tenha pesado no fato do espaço do bairro da Liberdade estar preenchido apenas pela metade, com um mezanino sequer utilizado. Quem veio, porém, não só cantou, como também fez a cantora corar com gritos de “Ni-lü-fer! Ni-lü-fer!” e “Nilüfer, eu te amo”. Tímida, a britânica respondeu com graça, abrindo o show com algumas das melhores de suas canções, como “Method Actor”, “Ready for the Sun (touch)” e “Like I Say (Runaway”). Um dos hits do mais recente trabalho, esta última foi menos impactante ao vivo do que em estúdio, talvez graças à dinâmica loud-quiet-loud imposta pela banda de apoio no refrão. Enquanto isso, outro bom momento guitarreiro foi quando a cantora tocou sozinha a balada “Heavyweight Champion of the Year”, sucedida pelas belas “Call It Love” e “Binding”. Ao longo do concerto, porém, as guitarras vão cedendo parte de seu espaço para o saxofone e os sintetizadores de Jazzi Bobbi. Inicialmente, essa disputa acontece em jams entre as canções. Depois, surge integrada aos temas, levando a sonoridade noventista para certo transe oriental, como acontece bem em “Trouble” ou em “midnight sun”, que encerrou o show por volta das 22h30. Antes do fim e sem bis, Nilüfer executou ainda uma bela versão de “Rid of Me”, de PJ Harvey, que, apesar de passar perto do papel carbono, vale muito o destaque. Com pouco menos de 90 minutos, a britânica fez uma apresentação forte, que, em outros tempos, até poderia concorrer a show do ano. Pena que, em dias tão corridos, não arrisque nem ficar no pódio daquela semana – que dirá do mês. Coisas de um calendário mais maluco que o da CBF.
– Jullie Piva é jornalista e escreve sobre música desde 2010 para diversos sites, artistas e projetos.
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
– Douglas Mosh é fotógrafo de shows e produtor. Conheça seu trabalho em instagram.com/dougmosh.prod
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/


