Ao vivo: Planet Hemp encerra sua história sorrindo em grande noite com Black Alien, João Gordo, Pitty, Seu Jorge e Emicida

texto de Fabio Machado
fotos de Natália Michalzuk

No horário em que esse texto for publicado, diversos portais e veículos já terão falado sobre o show de encerramento do Planet Hemp realizado no último 15 de novembro no Allianz Park, alguns em tempo real. Normal. É da natureza jornalística soltar a notícia o quanto antes, ir atrás do furo, garantir views, essas coisas. Muito se falou sobre a “experiência”, a festa, os “feats”, todo o gurufim (se você não sabe o sentido dessa celebração, o Scream & Yell já havia explicado bem antes, na época da coletiva que anunciou a última leva de apresentações da banda). Mas passado o fervo do momento, o que ficou para dizer além do factual e das palavras-chave de sempre?

Baianasystem & B Negão

Primeiro, o sentido de uma noite cujos laços vão além da festa. Laços que estão nas raízes do Baianasystem, anunciados pelo próprio Marcelo D2, que fez as vezes de mestre de cerimônia do evento: “os caras acabaram de ganhar um Grammy Latino e vieram direto pra cá”. Se alguém ainda tinha dúvidas sobre a influência, uma voz anuncia nos alto-falantes antes da chegada de Russo Passapusso e os demais integrantes do coletivo baiano ao palco: “Se não tivesse Planet Hemp, não haveria Baianasystem”. Nada mais justo que a primeira música (“Reza Forte”) tenha a participação de BNegão e do próprio D2, efetivamente colocando o público do Allianz – que ainda estava preenchendo os espaços do estádio – para pular e dançar.

Russo Passapusso

O som do Baianasystem herdou o peso e a retórica flamejante do Planet, mas ao mesmo tempo junta o seu próprio dendê com arranjos que vão do samba ao erudito, da guitarra baiana de Roberto Barreto ao piano do maestro Ubiratan Marques – que dispara referências que vão da Marcha Fúnebre a Beethoven. Mas tudo isso seria só um detalhe para os nerds de música se a música não fizesse o essencial: botar o povo para se mexer sem parar. E é efetivamente o que acontece durante todo o setlist, com destaque para “Cabeça de Papel” (onde veio a primeira palavra de ordem de Passapusso: “ABRE A RODA!”), “Lucro”, “Balacobaco” (com um monólogo da atriz Alice Carvalho nos telões) e a participação do rapper Vandal com “Ballah ih Fogoh”. Vale também falar da versão surreal de “Summertime”, numa levada ao mesmo tempo dub e trip hop com a bela voz de Claudia Manzo.

No palco, o Baianasystem é acima de tudo um espetáculo bonito de olhar, com motivos circenses e dançarinos representando personagens presentes nas narrativas do conjunto. E fora do palco, o público se deixa levar, gira nas primeiras rodas da noite, acende isqueiros e faz a arquibancada parecer um enxame de vaga-lumes. Com todos esses elementos, o coletivo nem precisaria de qualquer reconhecimento externo ou da validação da geração anterior simbolizada por D2: a música, com sua ancestralidade que olha para o futuro, já fala por si.

Planet Hemp

Mas não é só o vínculo entre os baianos e os cariocas anfitriões que movimentava a noite. Havia também a relação óbvia do público com o Planet Hemp e com as músicas que foram trilha sonora de gerações inteiras nesses 32 anos. Grupos de amigos e familiares que viram o conjunto nos anos 1990 e que agora se preparavam para revisitar essas memórias nessa última ponta. E mesmo quem começou a acompanhá-los mais recentemente com o disco “Jardineiros” (2022) teria a oportunidade de aprender mais sobre a história do Planet – e do Brasil – através do documentário que serve também como introdução do show, trazendo uma linha do tempo que se inicia a partir de 1967, quando o país estava em plena ditadura militar, e que passa por outros momentos-chave da nossa política, da cultura e da vida de Marcelo D2, BNegão e os demais integrantes do grupo.

A expectativa ia aumentando, e volta e meia a voz de D2 ecoava nos falantes para botar ainda mais pilha no estádio que, a essa altura, já estava cheio. Com o marco de lançamento do disco “Usuário” (1995) nos telões, era a deixa para D2, BNegão, Nobru, Formigão, Pedrinho e Ganjaman entrarem no palco para dar início ao gurufim. E um show que já chega com Planet Hemp tocando “Dig Dig Dig (Hempa)” e “Ex-quadrilha da Fumaça/Fazendo a cabeça” não tem como ser menos que explosivo, ainda mais com as emoções à flor da pele de todos que lá estavam no estádio, cantando as letras de memória. O ambiente já naturalmente esfumaçado teria um reforço extra de fumaça e fogo dos sinalizadores nas porradas “Distopia” e “Taca Fogo” (com participação relâmpago de Luiza Machado, esposa de D2, nos vocais), com uma iluminação vermelha tomando conta do palco e combinando bem com o clima de descarrego daquele momento. O vermelho às vezes era trocado pelo verde, cor mais do que adequada em temas como “Legalize Já” e “Jardineiro”. E em outros momentos surgiam algumas pequenas viagens audiovisuais, como no respiro psicodélico de “Onda Forte”.

Planet Hemp & Emicida

Mas para além do show de luz e fumaça, existe outro fator fundamental a ser falado sobre essa noite. As amizades feitas em torno do Planet Hemp foram lembradas a todo o momento por D2, que lembrou dos já falecidos Fábio Costa (um dos fundadores do Garagem, casa de shows underground do RJ), Fábio Kalunga (homenageado também na skatepunk “Salve Kalunga”) e Marcelo Yuka (cujo nome e voz aparece no último disco do Planet Hemp). Os amigos e amigas que ainda estão por aqui foram igualmente saudados por D2 e marcaram presença no palco, a começar por Zé Gonzalez, o DJ Zegon, nas pickups reforçando a banda.

Pitty

E também nas participações de Seu Jorge e Emicida, que brilharam fazendo “Nunca Tenha Medo” e “AmarElo” junto com destaque também para a percussão e um naipe de metais certeiro nos arranjos. Seu Jorge ainda ficou mais um tempo para tocar flauta em “Biruta” e cantar na dobradinha “Cadê o Isqueiro/Quem tem seda?”, essa com mais uma bela participação dos muitos Isqueiros em atividade na plateia. Mais uma representante da Bahia marcou presença logo depois: Pitty, relembrando as versões de “Admirável Chip Novo” e “Teto de Vidro” que ela já havia feito acompanhada dos rapazes em outras ocasiões.

Seu Jorge

Outros camaradas ficaram mais para o final e chegaram de surpresa, ajudando a cravar a noite na memória afetiva dos fãs. Certamente é a impressão que fica pela reação do público quando D2 anunciou a chegada do Mr. Niterói, Gustavo Black Alien, parte essencial da história do Planet Hemp e também dono de uma carreira solo igualmente notória. Com ele no palco, fizeram “Contexto” e reprisaram “Queimando tudo”. A emoção do reencontro era palpável no Allianz, e ainda iria ficar melhor. Após uma breve despedida, a formação clássica volta disparando “Dezdasdezesseis”, seguida pelo cover de “Crise Geral” do Ratos de Porão – que rolou também em Porto Alegre, mas dessa vez chamaram João Gordo na voz.

João Gordo & Black Alien

E com essa formação – e uma pequena ajuda de milhares de backing vocals – chamaram o groove de baixo hipnótico de “Mantenha o respeito” para encerrar o show, dessa vez para valer. E no meio disso tudo, ainda teve muita coisa. Em pouco mais de 2 horas de show, São Paulo reviveu 32 anos de muita história com “100% hardcore”, “Adoled”, “Hip Hop Rio”, “Phunky Budda”, a tradicional homenagem a Chico Science com “Samba Makossa”… e ainda teve BNegão gritando Palestina Livre e mandando “todos os governadores milicianos tomarem no cu”, além de mais rodas imensas, sorrisos, lágrimas, abraços, fumaça, participações fora do script (ou nem tanto), bagunça no palco, dever cumprido, registros histórico. E com uma coragem várias vezes kamikaze, como também falou BNegão mais cedo. Isso tudo é Planet Hemp.

Planet Hemp

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos. A foto que abre o texto é de Jazmin Hicks / Linear Labs

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