Entrevista: Naimaculada traduz o caos urbano em “A Cor Mais Próxima do Cinza”

entrevista de Alexandre Lopes

Quando a Naimaculada surgiu, em 2022, poderia ser apenas mais uma banda de rock saindo do underground paulistano. As primeiras gravações nasceram em um pequeno home studio, com estética “indie rock bem mixuruca” (como os próprios integrantes descrevem) e uma leveza despretensiosa. Mas com o tempo, o quinteto formado por Ricardo Paes (voz), Luiz Viegas (baixo), Pietro Benedan (bateria), Gabriel “Frodo” Gadelha (sax e flauta) e Samuel Xavier (guitarra) decidiu fugir da mesmice e abraçar um projeto mais ambicioso: traduzir São Paulo em notas, batidas e frases que respiram ruas, metrôs e calçadas.

Segundo o grupo, o disco ganhou essa nova direção após conversas com Rafael Ramos sobre a possibilidade de assinar com a DeckDisc. Assim, a Naimaculada resolveu regravar o material e deixá-lo mais profundo, como um diário de sobrevivência urbana – incluindo principalmente as percepções da vivência de Pietro no projeto Solidariedade Vegan (que distribui alimentos e outros ítens para a população em situação de vulnerabilidade) e pelos pontos de vista de Ricardo e Samuel, por pegarem transporte público diariamente para trabalhar na metrópole e depois retornarem a seus municípios. Depois de regravações, mudanças de rota e sucessivos adiamentos, o grupo chegou a “A Cor Mais Próxima do Cinza” (2025), o álbum de estreia que surge após dois anos de convivência e observação atenta da cidade. Nele, São Paulo é tratada como personagem e metáfora; “É um álbum sobre São Paulo, mas qualquer pessoa pode se identificar com alguma coisa dentro dele”, resume Pietro.

Produzido pelo guitarrista e mixado por Chediak, o disco não representa a São Paulo dos cartões-postais, mas a das vielas sujas, dos ônibus lotados de trabalhadores e das madrugadas insones dos boêmios e das pessoas em situação de rua. Há até mesmo algo de cinematográfico no álbum, como se cada faixa pudesse ser trilha de um filme que nunca foi feito. O espírito é semelhante ao de “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), de Rogério Sganzerla: um olhar marginal e poético em preto e branco sobre a metrópole e seus fantasmas. E as fotos de Marcos Hermes para a capa (abaixo) e contracapa reforçam essa estética. Cada música é uma pequena crônica urbana, uma reflexão sobre caos e beleza, sobre anonimato e expressão. A obra parece dizer ao ouvinte “não tente entender essa cidade, apenas sobreviva a isso”.

Musicalmente, “A Cor Mais Próxima do Cinza” é difícil de etiquetar: as faixas se recusam a escolher um só caminho, transitando entre o rock, o jazz e o soul. Os próprios membros se dividem entre chamar de progressivo ou art rock. Mas o que fica claro é que o álbum passeia por momentos de delicadeza da MPB, com a voz por vezes rouca, por vezes em transe de Ricardo Paes, a guitarra mutante de Samuel Xavier, o baixo funky e pós-punk de Luiz Viegas, o sax entre o jazz e o pop de Gabriel Gadelha e a bateria de Pietro Benedan, que equilibra o peso do metal e do hardcore com as dinâmicas do funk e do jazz.

As harmonias ecoam a vanguarda brasileira dos anos 70 e 80 – Jards Macalé, Itamar Assumpção, Lobão, Angela Ro Ro -, mas a Naimaculada faz isso sem nostalgia, filtrando essas referências por uma ótica contemporânea. Há faixas que soam como lamentos, outras como manifestos e os arranjos se desdobram como conversas em uma mesa de bar, onde todos têm algo a confessar. Os singles “Eu Sei”, “Não É Sobre Peixes” e “Choro de Outono” dão uma boa ideia da sonoridade do grupo, mas é nas faixas “Epítome” e “Luz-Sé” que está o real potencial de fogo da Naimaculada, principalmente na útima, que chega a quase doze minutos – com direito a uma rápida citação a “Shine On You Crazy Diamond” do Pink Floyd na guitarra. A banda articula uma poética do desencaixe e o resultado é uma viagem que segue a própria estrutura da cidade: improvisada, desigual, viva.

“A Cor Mais Próxima do Cinza” é, afinal, uma escuta do colapso urbano e uma tentativa de reconstrução a partir dele. Em uma São Paulo saturada de projetos parecidos, a Naimaculada se destaca não por buscar originalidade, mas por se permitir vulnerável, espiritual e coletiva, tentando, como tantos de nós, encontrar sentido no meio da entropia. E, talvez por isso mesmo, parece mais viva que a maioria. Agora temporariamente desfalcado de um integrante (Frodo está em um intercâmbio na China por um ano), o grupo se prepara para sair em uma mini-turnê pela região Nordeste, a partir de 20 de novembro. A banda passará por cidades como Feira de Santana, Salvador (BA), Aracaju (SE), Recife (PE), Natal (RN) e João Pessoa (PB).

Nesta entrevista ao Scream & Yell, a Naimaculada fala sobre suas influências e referências, o luto que deu origem ao nome da banda, os bastidores da produção de “A Cor Mais Próxima do Cinza” e o desafio de traduzir o caos e a espiritualidade de São Paulo em músicas que, embora nascidas aqui, ressoam em qualquer lugar do mundo.

Por que Naimaculada? O que quer dizer o nome?
Ricardo: Naimaculada é um nome em homenagem ao meu avô que faleceu durante a pandemia. Ele era pai de santo num terreiro que ficava na rua Imaculada Conceição, na frente da igreja Imaculada Conceição, em Osasco. A pandemia foi um divisor de águas pra mim e acho que da maioria das pessoas da nossa idade. Teve um impacto muito foda que eu não terminei a escola estudando presencialmente, eu fazia online, tá ligado? E meu avô acabou falecendo em 2021 de Covid e eu falei: “Por que não Naimaculada?”. E aí essa é a pira: uma homenagem ao meu avô Antônio Apolinário Lopes.

A banda começou em 2022. Como vocês se encontraram e decidiram formá-la?
Ricardo: Eu estava lá no começo, mas a primeira formação não era com o pessoal que está hoje. Fui apresentado ao Pietro e uns três ou quatro meses depois, ao Luiz. E aí se formou o primeiro trio Naimaculada, que foi o que começou o que a gente é hoje. Esse trio foi convidado para participar da Arena de Éfeso, um evento que aconteceu em 2022 e que foi uma reunião da cena. Lá eu conheci o Ilegal (que fez o site Desconhecido Juvenal), a rapaziada da D’artagnan Não Mora Mais Aqui e da Tubo de Ensaio. Nesse dia conhecemos o Frodo, ele estava com Covid e usando máscara. Ele ficou em cima do palco o tempo todo, e a única coisa que fez foi um solo de palmas! E a gente ficou: “Mano, o que foi isso?” E a gente ainda tava naquelas de fazer cançãozinha indie. Aí no dia 8 de dezembro de 2022, a gente se trombou na fila de um show do Jards Macalé. O Frodo me reconheceu e falei: “Você é o cara da Tubo de Ensaio que toca sax, né? O que você vai fazer amanhã?” E ele: “Nada”. Eu falei: “Então você vai tocar no nosso show”. E desde então o Frodão está com a gente. Em março daquele ano, organizei um festivalzinho em um teatro em Osasco junto com a rapaziada da prefeitura. Aí eu trouxe a banda que o Samuel fazia parte na época, a Luare. Esse foi meu segundo contato com ele – o primeiro tinha sido num show no Butantã, que eu me apaixonei perdidamente pelo jeito dele tocar, mas ele se jogou no chão. Aí eu virei pro Luiz e falei: “Ele só não pode se jogar no chão” (risos).

Luiz: Foi um contato quase de olheiro de futebol, sabe? (risos) A gente foi ver um show e o Samuel estava lá tocando demais, destruindo na guitarra. A gente se olhou e falou: “ Esse é o cara, esse é o guitarra”. A gente estava começando a pensar melhor o que queria pra banda, porque o som que a gente fazia já não nos representava mais. Era um popzinho meio blasé. Se você ouvir os singles antigos do Naimaculada, dá pra perceber bem isso. Foi nesse período, ali por meados de 2023, que a gente começou a moldar o que seria o nosso primeiro álbum. E aí o Samuel começou a mandar uns vídeos tocando nossas músicas que ele via nos shows. A gente ficava: “Caraca, o cara é zica, toca demais”. A gente brincava que ele tocava nossas músicas melhor do que a gente mesmo. Eventualmente, chamamos ele pra um ensaio e pronto, ele começou a tocar com a gente.

Samuel: No meio disso tudo, também teve o advento de quando eu conheci o Ricardo e o Luiz, naquele festival de Osasco. Eu ainda estava em três bandas ao mesmo tempo. Com o passar de uns dois ou três meses, acabei saindo de todos esses projetos e passei um tempo na Argentina com minha namorada, e nesse período comecei a trocar muita figurinha com o Ricardo. Eu mandava umas ideias, tipo “ó, pensei nisso aqui” e ele respondia “e o que você faria em cima dessa música?”. Quando eu voltei da Argentina, a gente se juntou. Nessa época, a formação ainda tinha o Tuco no baixo e o Luiz e o Ricardo nas guitarras, o Frodo no sax e o Pietro na bateria. Com a minha entrada, a gente fez alguns shows assim, e por vários motivos, o Tuco decidiu sair da banda. Aí o Luiz voltou pro baixo, eu fiquei sozinho na guitarra e é meio que nesse momento que a gente entende: “ok, essa é a banda”.

Luiz: Eu sinto que foi nesse momento que a formação atual se firmou, que a gente percebeu que o que tinha ali era realmente especial, sabe? Samuel na guitarra, eu no baixo, Frodão no sax, Ricardo na voz e Pietro na bateria. Pra mim, foi quando as estrelas se alinharam. Tanto que uma das primeiras músicas que saiu dessa formação foi “Epítome”, que acabou virando a faixa de abertura do álbum.

Ricardo: Mas ó, se eu posso acrescentar uns fun facts… o Samuel entrou mesmo porque ele foi infiltrado num ensaio nosso. Ele foi emprestar o pedalboard pra mim, porque eu estava querendo testar uns pedais. Eu ainda me aventurava nesse rolê de ser guitarrista. Aí ele gravou o ensaio todo escondido, deixou o celularzinho lá no canto, gravando tudo. (risos) E quando fui falar com ele depois, percebi que ele já conhecia as músicas, sabia qual era a intenção das coisas. E pra mim, quando ele entrou com esses pitacos de guitarra, já foi o início dele como produtor, porque ele começou a modificar tudo. Aí ele colou num show nosso e tocou “Quântica” com a gente e foi uma puta experiência, tá ligado? Com todo respeito a mim e ao Luiz, que somos bons criativamente, mas a gente não é guitarrista. Quando você vê um guitarrista de verdade tocando, você sente. A gente até tem boas ideias, mas não sabe executá-las com essa pegada…

Luiz: Com essa maestria do Samuel e as ideias que ele tem.

Samuel: É, mas boa parte do que eu faço nesse primeiro álbum não são necessariamente ideias que eu trouxe de cara pra mesa. Eu cheguei, vi a fundação ali e pensei: “vou construir algo em cima disso, transformar um pouquinho mais”. Acho que o meu papel nesse disco é muito mais de produtor do que de compositor. Estou sempre adicionando alguma coisa, mexendo aqui e ali… mas o cerne mesmo, o núcleo das ideias, veio muito mais desses três bonitos aí (risos). O Frodo também chegou muito com isso. Geralmente o núcleo – Luiz, Pietro e Ricardo – vinha com umas ideias, e aí o Frodo falava: “Pô, por que a gente não faz assim? Faz desse jeito, eu crio uma parada em cima e a gente testa”. E a gente meio que ajudava a amarrar as coisas nesse primeiro momento. Só depois, quando a gente viu que já tinha escrito o álbum todo e assinado com a Deckdisc, é que eu e o Frodo começamos a colocar mais a mão mesmo, com mais afinco, ajeitando direitinho.

Naimaculada / Foto de Marcos Hermes

Queria perguntar para vocês de onde surge essa mistura de referências. Veio naturalmente ou foi uma escolha consciente? Vocês disseram que as primeiras músicas tinham uma linguagem mais pop, mas como é que partiu para algo mais diferente?
Ricardo: Acho que foi uma brisa de começar a escutar outros sons e de conviver com gente da cena. O que realmente influenciou o Naimaculada a mudar de estética sonora foi perceber que o som que a gente estava fazendo era mais do mesmo e aí se descobrir de novo. Eu via tanta banda com uma identidade cravada em 2022, e achava isso bizarro, brother. Eu falava: “Caralho, como é que essas pessoas sabem quem são com 17, 18 anos?”. Os caras vinham falar de Dostoiévski, Nietzsche e o caralho. E eu sou caipirão, osasquense, tá ligado? Tudo pra mim era novo, era descoberta. Então foi uma brisa ouvir D’artagnan e Tubo de Ensaio pela primeira vez e pensar: “Caralho, dá pra fazer isso”. Acho que acabou sendo uma mistura de novas referências e também fomos meio provocados pelas outras bandas, caindo nisso acidentalmente. Mas a parada da antropofagia já era algo que a gente defendia antes, eu e o Luiz já tínhamos isso enraizado. A gente já tinha essa coisa de engolir o que vem de fora, consumir, e depois devolver do nosso jeito, à nossa maneira.

Luiz: Pra mim foi uma parada meio de esponja musical, sabe? Da gente realmente ouvir bandas com sons muito fora da curva. E isso fez a gente expandir o ouvido mesmo, começar a consumir músicas fora do que estava acostumado. Acho que esse foi um ponto de virada. E cada membro do Naimaculada gosta de uma coisa diferente, mas no fim sempre tem certos aspectos de cada um que acabam virando essa cola, sabe? É o que dá liga pra música.

Samuel: Eu acho que dificilmente tem uma coisa que conecta todo mundo ao mesmo tempo dentro da banda. Mas sempre tem alguma coisa que conecta eu e o Luiz, alguma que conecta o Luiz e o Frodo, outra que conecta o Pietro e o Ricardo. E a gente sabe trabalhar muito bem isso, até sem pensar muito. A gente só vai fazendo. Existe meio que uma política não falada entre a gente: se alguém tem uma ideia, vamos testar e fazer. Porque não adianta se privar de criatividade em nome de uma coisa que é só estética, de se colocar dentro de uma caixinha de gênero ou de estilo musical.

Luiz: Uma coisa que a gente manteve alinhada é que nossas referências têm um propósito. Por exemplo, “Epítome”, que tem basicamente três partes principais: primeiro um groovezinho, depois o stoner, e depois a descida. A gente nunca fez nada só por fazer. Sempre tentamos pensar no contexto da música, no que ela pede. Tem banda que, às vezes, joga um break de metal, depois um samba, misturam um monte de coisa e nem sempre faz sentido. A gente sempre tenta deixar essas transições coladinhas. E acho que isso vem muito das nossas referências, de entender cada elemento e conseguir juntar tudo de forma coerente.

Ricardo: Respeitando as referências, né? Sem querer fazer piseiro Black Sabbath. (risos)

E como costuma ser o método de composição? Ricardo traz uma letra, cada um chega com uma ideia? Como funciona?
Samuel: Então, acho que isso tem dois momentos. Antes era aquela fase de chegar com algo mais ou menos montado. O Ricardo chegava com uma ideia estruturada, e a gente trabalhava em cima disso. Depois do nosso contato com o Porta Maldita, a gente começou a ter mais espaço para ensaiar com tranquilidade. O Arthur cedeu o lugar pra gente ensaiar e aí a gente podia passar as músicas e ainda ter um tempinho livre pra criar algo novo. Aí o Ricardo vinha com uma harmoniazinha, uma mini ideia, um riff, e a gente transformava aquilo numa música inteira. “Choro de Outono” saiu assim, né? Ricardo tinha só a harmonia da introdução, e a música inteira se formou praticamente sozinha ali, todas as partes se encaixando quase que automaticamente.

Luiz: Nesse álbum especificamente, tem certas músicas que a gente trabalhou muito no estúdio, então foi um trabalho quase conjunto. E teve outras que vieram prontas de algum dos membros e foram tocadas assim mesmo. Por exemplo, “Eu Sei” o Ricardo trouxe a música pronta. Foi uma das primeiras que a gente tocou na banda. Mas tem outros casos. “Deus o Diabo Na Terra do Sol” é uma música que eu trouxe a letra e um pouco da harmonia, e a gente foi trabalhando em cima. Então dá pra dizer que é um meio-termo. Mas também tem músicas que são 100% trabalho conjunto dos quatro. E eu sinto que, pra esse futuro segundo álbum, vai ser quase tudo assim: a gente trabalhando junto no estúdio, trazendo certas ideias de casa e lapidando ali certinho.

Ricardo: Os processos são muito coletivos. Eu sei que tem muita coisa que está assinada com meu nome como compositor, mas todos os processos foram coletivos. Claro, tem coisas que eu trouxe do meu quarto, que são mais pessoais, tipo “Eu Sei”, “Não É Sobre Peixes” e “A Cor Mais Próxima do Cinza”, eu escrevendo na minha cama. Mas “Epítome” foi totalmente nós juntos, desenvolvendo ali, pensando eu, Luiz, Pietro e Samuel.

Luiz: Dos processos que mais lembro do álbum, tem um dia específico que gosto de mencionar, um dos mais impactantes: quando trouxemos “Quatro Quina” e a ideia de “Luz-Sé” pro ensaio. Na época, a gente ainda não ensaiava no Porta Maldita; tinha só um lugar que a gente conseguia usar por duas horas, no máximo. Aí a gente chega com “Quatro Quina”, que foi quase toda moldada no estúdio. A letra foi trazida pelo Ricardo, acho que até com o Pietro junto. Mas daí a gente quis elevar para um maracatuzão louco e ainda sobrou tempo e fizemos outra. Daí eu trouxe a primeira parte de “Luz-Sé”. E a segunda parte a gente foi trabalhando e juntando o conceito.

Ricardo: É louco como, em determinado momento, o processo de composição tem muito a ver com a sonoridade. Eu já escrevi algumas musiquinhas que algumas pessoas gostam, de vir a letra antes de música. Mas geralmente começo com uma harmonia e fico trabalhando aquilo. Eu sou apreciador desse tipo de trabalho. Ficar ali, tocando, até que surge uma melodia que é uma tradução da sensação que a harmonia quer passar. Na minha cabeça, consigo misturar isso com o tema que quero levar pra música. E eu acho que todos nós vemos meu papel como mais um instrumento. A letra é consequência do instrumental, do que o Pietro, o Samuel, o Luiz e o Frodo estão tocando. Como um desabafo do que a sonoridade está passando. Aí eu dou um jeito de transformar tudo isso em palavras. Em músicas mais recentes, como “Recrudescer” [ainda inédita] a gente brinca de mudar partes da música no meio do mesmo trecho, mudar estilos, testar o fluxo. E é sempre nesse diálogo entre instrumental e letra que o resultado acontece.

Pietro: Antes não era assim. Mas a gente foi amadurecendo muito como grupo e virou uma coisa de todo mundo. Chegou no ponto em que a letra virou consequência do instrumental. E isso vem muito das referências que a gente começou a escutar durante o processo de composição do álbum. Eu e o Luiz, por exemplo, passamos a ouvir muito Black Midi depois do show deles em São Paulo. Comecei a explorar coisas que antes eu não tinha abertura. Tipo “Ah, deixa eu ver que porra é essa de Radiohead”, tá ligado? É abrir a cabeça, perceber que, no processo de composição, é preciso se expor a novos sons pra deixar o álbum mais rico. Acho que isso fica muito claro em duas faixas que gravamos por último: a abertura, “Epítome”, e, se não me engano, a oitava faixa, “Choro de Outono”. Essas músicas foram as últimas a serem gravadas e representam o momento em que a gente parou e falou: “Tá bom, agora todo mundo escreve, agora todo mundo compõe junto em estúdio”. E foi numa dessas conversas que surgiram esses dois sons.

Qual foi a música mais difícil de gravar no álbum?
Pietro: Acho que “A Arte É Culpada” foi uma música bem complicada de fazer, porque ela é curta, só 1 minuto e 30. Além de ter sido um trabalho difícil pra caralho do Cauã Aguiar, o cara que dá voz na faixa, a música teve milhões de versões. O texto que ele fala mudou várias vezes. Na primeira versão, ele continuava falando mesmo depois da música já ter acabado. Aí ele alterou o texto. Vocês não fazem ideia do inferno que foi gravar. Como a música é curta, a gente gravou umas 15 vezes pra chegar num resultado legal. No final, usamos a versão 2. Foi bem complicada.

Luiz: Pra mim, uma das músicas mais difíceis de gravar foi “A Cor Mais Próxima do Cinza”, pela quantidade de instrumentos e pela introdução do teclado, do órgão, no final. Foi um negócio muito difícil de encaixar certinho, especialmente o solo no final. A gente também teve que pensar bastante em como a estrutura da música ia funcionar gravada. Pelo menos, do que eu lembro, foi um processo bem chatinho, mas acabou ficando mais próximo do que eu recordo.

Ricardo: Assim… eu não tive trabalho nenhum, só cheguei lá, gravei e fiquei vendo eles gravarem. Literalmente. Pra mim foram, tipo, dois, três takes no máximo, porque esse álbum é muito sobre expressão. Depois disso, perde o feeling, entende? A gente até fala muito sobre isso: quando você começa a repetir, começa a ficar robotizado. Aí rola aquele lance de “ah, vou fazer de novo, terceira vez”, mas aí já vira um bagulho mecânico, fácil demais. Então, geralmente, a gente tenta fazer em um ou dois takes só, pra evitar esse desgaste de ir pro terceiro, que provavelmente já ia parecer um quarto…

Pelo que o Ricardo já falou, já dá para entender que o Ricardo deve ser a favor da coisa mais espontânea e rápida e o Samuel, como todo produtor, deve ser o cara que fica lá esmiuçando as coisas…
Pietro: Cara, rolou muito do Ricardo falar: “Ô, esse é o último take, hein?” E a gente “Não, mano, vai até ficar bom”, tá ligado? (risos) Eu lembro disso acontecendo direto. Tipo: “Ricardo, eu vou fazer só em um.” A gente “não, mano, vai até ficar bom!’

Ricardo: É, é o lance que eu falei de não perder o feeling. Esse álbum é muito sobre isso. Não é um álbum que a gente gravou com metrônomo, sabe? É um álbum que depende muito da sincronicidade do Pietro, do Luiz e do Samuel, do quanto eles conheciam as músicas. Então, pra eles, o processo foi provavelmente mais árduo. Antes das vozes, eu não tinha feito nada além de parte das letras (risos).

Samuel: Eu acho que ninguém aqui vai acreditar, mas pra mim uma das músicas mais difíceis de gravar foi “Eu Sei”. A gente mexeu nessa música um milhão de vezes e não sabia o que fazer com as guitarras. Até que, nos 45 do segundo tempo, eu sentei em casa e falei: “OK, arranca isso, arranca aquilo, faz ambiência, guitarra só no refrão.” Saiu super rápido, mas demorou pra gente entender o que realmente era necessário. “Luz-Sé” foi a última música a ter algo gravado. Quase todas as bases eu regravei em casa. “A Arte É Culpada” foi muito difícil também: três versões de voz em três estúdios diferentes. Uma dor de cabeça enorme, porque a gente não conseguia encaixar a métrica da voz no instrumental e nem como funcionaria o texto. Até que um dia, o Pietro deu a ideia de fazer dois takes com tal entonação, dois com outra, mais dois com outra. Foi maçante gravar tudo bonitinho, escutar, dar uma separada, mas depois eu falei pro Chediak: “Esses são os takes que estão legais, faz seu negócio”. Mas a maior parte das coisas tem esse lance do feeling de poucos takes. A maioria dos solos foram primeiro, segundo ou terceiro take, no máximo. É tudo muito do momento: grava e o que sair, saiu. Às vezes brinco que gosto de fingir que estou gravando em fita. Pra mim, se tiver que regravar, você grava um refrão inteiro, um verso inteiro, ou não grava nada.

Naimaculada / Foto de Marcos Hermes

Tem gente que já comparou o som de vocês com Pink Floyd, Jethro Tull, Cazuza, Milton Nascimento e até Lobão dos anos 80. Como é que vocês recebem essas comparações?
Samuel: Eu acho muito foda.

Pietro: Acho muito divertido. Gosto quando alguém chega e fala algo que ninguém nunca tinha pensado antes. Tipo, esses dias meu pai está divulgando o álbum pros caras da velha guarda, os caras que não têm nem Instagram, tá ligado? Aí chegou o Paulo Zinner, grande batera da Rita Lee, do Tutti Frutti, e ele comparou o Ricardo com a Angela Ro Rô. Aí pensei: “Caralho, ninguém nunca tinha dito que o Ricardo parece com a Angela Ro Rô.” Essas coisas são muito legais. É divertido quando comparam a gente com bandas ou músicos nada a ver. Tipo, eu nunca tinha sido comparado com outro batera, ou a banda com algo que não tem nada a ver… é muito divertido.

Luiz: Gosto desses “nada a ver”. Uma comparação que eu achei legal foi com Morphine, uma banda só com batera, baixo e saxofone. Quando eu escutei, falei: “Cara, nunca ouvi nada assim.” E é meio Naimaculada, mano.

Samuel: a título de maluquice, eu lembro de um comentário na nossa session do Bootlegs Malditos no YouTube, teve um cara que disse que o Naimaculada lembrava Tool pra ele (risos).

Ricardo: Se for pra falar sobre referências, eu acho que esse álbum puxa muito do rock dos anos 80 mesmo, de tudo um pouco. É um álbum com músicas que têm temas familiares, experiências…

Samuel: É muito setentista também, né?

Ricardo: É, anos 70 também, sim. Mas falando da minha parte, tem muito Jards Macalé, por conta da questão harmônica. Quando componho, penso muito nisso. Jards, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Luiz Melodia, pessoal da Lira Paulistana. Curto muito essas coisas. Mas talvez as referências mais claras minhas sejam Tim Maia e James Brown, que eu tento trazer pro mundo do rock progressivo. E tem muito do Cazuza, do Frejat, do Lobão nos anos 80, curti muito o trabalho deles. Tem Ângela Ro Rô, todas essas coisas que a gente escutou nos anos 80… Legião Urbana também, por que não? É algo que conversa muito comigo, com a minha primeira infância. Composições que pensava harmonicamente, lembro de escutar rockinho dos anos 80, ser adolescente feliz e militar pro Lula (risos).

Se vocês tivessem que definir o que vocês fazem para alguém que nunca ouviu a banda, vocês diriam que é rock progressivo?
Pietro: Eu resumo em prog sim.

Samuel: Hoje um cara colocou sobre nós no Rate Your Music “art rock” no meio. Eu acho que também colocaria, principalmente que pelo lado que a gente tem ido combina bastante. A gente está meio “foda-se” pro bagulho de gênero, do que é exatamente que a gente está fazendo, é mais sobre o que a gente quer passar com as músicas. Mas acho que eu ficaria entre esses dois: progressivo e art rock.

O disco saiu em 22 de setembro, depois de ter sido adiado algumas vezes. O que aconteceu para ter essas mudanças de data? Foi questão de gravação, mixagem, o que?
Pietro: Tem um background insano, né? Quando a gente gravou, nem imaginava que ia assinar com uma gravadora. O álbum tinha outra estética, outra ideia, a gente não falava sobre um assunto específico. Não desrespeitando o estúdio anterior, mas era um porãozinho, um lugar muito pequeno e uma gravação amadora, num home studio. No começo isso funcionava pra gente, porque não tínhamos grandes pretensões. Arrisco dizer que a ideia do álbum era fazer um indie rock bem mixuruca, saca? E aí durante as gravações eu puxei o Ricardo de canto e falei assim: “Pô, Ricardo, eu queria falar sobre a questão das ruas de São Paulo”. Aí teve a ideia de mudar a estética, virar um bagulho mais profissional, mais sério, preto e branco. E o álbum já estava para sair, com data de single, só que aí do nada surgiu a oportunidade da gente ir pro Rio de Janeiro e conversar com o Rafael Ramos [da DeckDisc]. Em nenhum momento ele expressou muito interesse, ele só falou: “Ó, cola aí no Rio de Janeiro para nós trocar uma ideia”. Cancelamos as datas que a gente tinha pensado para lançar os singles porque se abriu uma oportunidade de lançar por uma gravadora, que era algo que a gente não imaginava que ia acontecer tão cedo assim. E antes de ir pro Rio de Janeiro, a gente já estava com a dúvida sobre quem ia chamar para fazer a mix do álbum. Expressamos essa preocupação pro Rafael Ramos e ele indicou o Chediak, que teria tudo a ver. Aí que de fato começou a produção do álbum. E nisso a gente já tinha gravado há uns meses.

Samuel: Eu meio que assumi o papel de produção do álbum, porque como o Chediak é mais DJ e não tinha o hábito de mixar bandas, eu tive que trazer esse conhecimento para ele, porque é de onde eu venho. E a gente foi juntando forças com o que ele sabia fazer, com as ideias e a sensibilidade que ele tinha e a minha. E eu meio que tomei esse negócio para mim, porque o resultado seria infinitamente diferente se isso não tivesse acontecido. Antes da Deck, era para sair no final do ano retrasado. E aí depois da Deck, a gente falou “não, começo do ano seguinte”.

Pietro: E aí todo o processo de assinar com a Deck também demorou bastante. Então foi um bagulho que adiou bastante, mas ainda bem.

Samuel: Acabou sendo a nosso favor.

Vocês tinham outras músicas que chegaram a gravar e que não entraram no disco. Ainda pensam em lançar essas faixas ou esse material não tem mais a ver com vocês?
(Risos gerais da banda)

Pietro: Tem uma música em específico que ainda vai ver a luz do dia, só que em outro momento. Mas tem uma que acho que infelizmente nunca vai ser lançada. Não nessa década, eu acho! (risos)

Luiz: É, essa vai ser “lost media” por uma cota…

Ricardo: Só por cima do meu cadáver! (risos)

Pietro: Era uma música que funcionava muito bem ao vivo e quando a gente levou ela pro estúdio, ela soou muito estranha e a gente decidiu simplesmente engavetá-la para sempre.

Luiz: É até engraçado isso porque foi uma das primeiras músicas que lembro de ter feito junto com a Naimaculada. Então, é uma música que já estava meio datada.

Pietro: Essa música que a gente engavetou era o título do álbum que a gente engavetou porque era uma merda, entendeu? Então, é isso. Acho que vai demorar para alguém escutar ela em algum momento.

Vocês falam muito sobre São Paulo como inspiração para esse disco. Como vocês acham que pessoas que não são da cidade podem se conectar com esse disco?
Pietro: O álbum é baseado em várias visões de lugares diferentes. Tem a visão do Ricardo, que não é de São Paulo, mas passa as noites na cidade e conhece muitos lugares pela primeira vez. Na época da composição, essa visão foi pivotal pro álbum. Tipo, fazer um disco sobre São Paulo com o olhar de alguém que está descobrindo a cidade… Acho que isso deixa o álbum tão profundo. Tem a minha visão, que veio do trabalho que a minha mãe faz [Solidariedade Vegan, que distribui alimentos e outros itens para a população em situação de vulnerabilidade]. Isso se resume em moradores de rua, garis, garotas de programa, cracolândia, os noias da rua… A galera que muitas vezes é ignorada pelo cidadão médio paulistano. Falamos muito sobre esses “fantasmas de São Paulo”. E tem também a visão do Luiz e do Samuel, que complementa tudo.

Samuel: Meu ponto de vista é parecido com o que o Pietro falou sobre os “fantasmas de São Paulo”. Só que eu gosto de dizer que em São Paulo todo mundo é, em algum nível, um fantasma. Ninguém percebe ninguém, só pensa na correria do dia a dia. Eu cresci no extremo leste de São Paulo, numa cidade dormitório chamada Cidade Tiradentes, que é super afastada, demora pra chegar em qualquer canto, e muita gente sequer sabe que esse lugar existe. Eu sempre vivi saindo daqui pra fazer qualquer coisa, na correria, no cansaço. Aprendi desde pequeno a me locomover de busão, a saber onde podia entrar e onde não podia. Com isso, percebi que as pessoas não necessariamente se importam com o que você está fazendo ou pra onde está indo, porque todo mundo está tão apressado quanto você.

Luiz: A minha visão é mais sociológica e psicológica, ligada ao sentimento que a cidade transmite pra todo mundo. Muito além das letras, que falam de alguém que não é de São Paulo tentando se integrar, eu sinto que as melodias refletem essa correria, esse corre-corre urbano, essa tensão constante. Desde os 17 anos eu sempre trabalhei, peguei muito metrô, vivi muita correria. Observei várias situações, muita tensão, e fui passando isso pra musicalidade da banda. Tanto que essa musicalidade ambígua que a gente faz, uma hora uma música linda sobre amor, depois quebradeira, depois um progzão, pra mim, vem muito disso.

Pietro: Virou um álbum bem interpretativo. E isso cai na outra pergunta, de como que pessoas de outros cantos podem interpretar esse álbum. Cara, às vezes fico até impressionado como a filosofia dele se encaixa em coisas bem diversas. Tem músicas que você pode entender de mil maneiras, o álbum inteiro você pode interpretar de mil formas. Apesar de ser sobre São Paulo, em qualquer lugar do mundo tem moradores de rua, gente sem grana correndo atrás pra trabalhar, trabalhadores que acordam cedo. Então, sim, é um álbum sobre São Paulo, mas qualquer pessoa consegue se identificar com alguma coisa dentro dele. E isso rolou meio sem querer. Não vou dizer que foi genialidade nossa, foi meio sem querer mesmo.

Samuel: Acho que também tem a ver com o fato de que boa parte das composições, principalmente as últimas que a gente fez, nasceram em momentos em que todo mundo tava estressado com a vida na cidade. “Choro de Outono” e “Epítome” vieram desses momentos. Eu, por exemplo, trabalhava 5×2 e tinha que sair de casa às 5:30 da manhã, chegar no trabalho 7 e pouco, sair às 5:30 da tarde no horário de pico, pegar transporte lotado com instrumento, correr pra ensaio, resolver outras paradas, voltar pra casa, chegar entre 11:30 e meia-noite, comer algo, dormir e acordar 5 da manhã de novo. Todo mundo estressadíssimo com essa rotina, e essas músicas acabaram saindo exatamente desse momento, dessa pressão e correria.

Ricardo: Acho que eles já elucidaram bem os pontos, mas sobre narrativa, composição lírica, tem muito a ver com observações minhas sobre a cidade. Eu sou de Osasco e nunca tinha andado na Faria Lima, fui lá pela primeira vez e escrevi uma música. Porque os sons me inspiraram, porque esse contato com um mundo que não existe na cidade que eu habito faz diferença. Aos 22 anos, Osasco te limita culturalmente, te restringe. Aí eu saio de lá em 2021 e começo a trabalhar em São Paulo. Esse álbum é sobre esse processo. Desde a primeira vez que desci na linha vermelha até a última vez que desci na Fradique Coutinho, escrevendo “Choro de Outono”. É meio sobre isso… sobre o que eu via, sobre o que eu sentia que as pessoas sentiam dentro do trem. Eu passei dois anos nesse período e aí nasceu muita inspiração. “Epítome” é uma música que fala muito da minha rotina e do Samuel, que tinha que conciliar milhares de coisas. A gente fugia da mesmice e tentava captar tudo isso no som.

Atualmente o Frodo não está mais em São Paulo. Ele está estudando na China, fazendo intercâmbio, é isso?
Ricardo: É isso. Acho até que já poderemos começar a usar isso de estratégia de marketing…

Luiz: Acho que a gente já podia lançar que ele está preso lá na China. (risos)

Pietro: Assim, ele foi pra China, só que ele não responde a gente há dois meses. (risos)

Ricardo: É, está meio assim (risos). Ele tem aparições muito pontuais. Ele consegue VPN para ver uns bagulhos, às vezes ele consegue abrir o Instagram, aí ele abre o Insta, mas ele só consegue ver as coisas, não consegue comentar, compartilhar nem nada. Então, ele foi para lá para estudar por mais ou menos um ano e vai ficar esse períodão lá.

E enquanto ele estiver lá quem vai fazer os shows com vocês é o Iago Tartaglia, da banda Gastação Infinita?
Pietro: Isso. Mas a gente também vai usar esse período para também trazer outros convidados. Talvez o Lukas, da Monstro Enigma, né?

Ricardo: A gente tem ideia de trabalhar com Pedro Abujamra, de repente em algum show mais intimista, tipo acústico.

Pietro: É triste não ter o Frodo aqui com a gente no momento do lançamento do disco, porque ele é o glacê desse bolo gigante de casamento que é o Naimaculada. Só que isso também abriu portas para a gente fazer coisas muito loucas nesse período.

O disco teve participações de Tuco Cerutti, Antônio Braz e Cauã Aguiar. O que cada um fez no disco?
Samuel: Cauã Aguiar escreveu e canta em “A Arte É Culpada”; o Antônio Braz, nos sintetizadores de “A Cor Mais Próxima do Cinza”; e o Tuco, que era baixista da banda antes, tocando baixo acústico em “Não É Sobre Peixes” e “Eu Sei”.

Contracapa do álbum “A Cor Mais Próxima do Cinza”, da Naimaculada

Vocês já pensam em qual vai ser o próximo passo da banda em questão de disco depois desse lançamento?
Pietro: A gente é um bando de ansioso… Somos quatro pessoas muito ansiosas e às vezes, a gente entra numa onda boa de escrever três músicas em um mês, saca? E cada vez mais isso vem acontecendo. Então, sim, a gente já tem algumas coisas desse próximo projeto e muitas ideias futuras. Mas o tempo vai responder.

Samuel: Já foram conversadas algumas dessas ideias, mas a gente não bateu martelo e falou: “É isso”. Então a gente segue compondo. Desde que a gente acabou o processo de composição do álbum, já saíram inúmeras músicas. E a gente tem tocado essas músicas novas nos shows para testar, para entender como elas funcionam ao vivo e como que a gente se sente tocando também. Eu já cheguei a brincar comentando para outras pessoas que a gente está lançando álbum tendo metade do segundo já feito, tendo dois terços dele.

Luiz: Eu ia falar isso; que estamos lançando o primeiro álbum com metade do segundo já feito e muitas já na boca do povo, sabe? (risos) Tem músicas que a gente toca desse novo álbum desde o meio do ano passado. (risos)

Samuel: Tem uma específica que o pessoal tá vindo perguntar para mim desde que a gente lançou o álbum agora, que é “Recrudescer”, que é uma música que tem uma versão ao vivo dela no Centro da Terra no nosso YouTube. Mas às vezes tem que se brecar nesse negócio, né? A gente ainda tem que divulgar o primeiro, então não tem tanto luxo de poder pensar no segundo tão rápido assim.

Pietro: É que na Naimaculada é um bando de doido. Então às vezes a gente chega e fala: “ó, já pensei na próxima capa”. “Já tem um título aí”, “tem que ter tantas músicas”, tá ligado? A gente nunca para de pensar no próximo. Ainda mais que a gente tá fazendo esse álbum há tanto tempo. A gente tá louco para lançar as músicas novas.

E como estão os planos de shows e turnês?
Ricardo: Vai ter uma turnê Naimaculada aí, a gente vai fazer umas datas no Nordeste, rodar alguns estados. Temos muita vontade de conhecer o Nordeste através da nossa música, através da nossa arte.

Agora uma pergunta chata, mas que é necessária. Pelo fato do Pietro ser filho do João Gordo, vocês têm recebido acusações de nepotismo? Do tipo “a banda foi contratada pela DeckDisc só porque o baterista é filho do João Gordo”? Como vocês lidam com isso?
Pietro: Cara, já me chamaram muito de nepo baby. Só que não é um bagulho que eu fico ofendido, saca? E também não é um negócio que fico esfregando na cara das pessoas. Tem muita gente que eu conheci primeiro por meio da Naimaculada e que depois chega assim “mas você é filho desse cara?”. A pessoa não sabia. E assim, o que eu posso dizer? Não é como se fosse ruim. E mesmo que eu quisesse, essa ponte não ia rolar. Eu não considero muito isso do nepotismo, porque a Naimaculada é uma parada completamente diferente do que o Ratos de Porão faz.

Samuel: Fora que é uma parada totalmente independente. Ninguém está bancando a gente para fazer esse rolê. Inclusive toda a gravação do álbum, mixagem e masterização foi paga com dinheiro de show da banda.

Ricardo: Dinheiro dos nossos trabalhos e do nosso próprio bolso, nossa correria.

Pietro: É, até hoje a gente não teve nenhum tipo de impulsionamento de nenhum lado, de nenhuma maneira, tá ligado? E também não me ofende. E quando alguém me chama de nepo baby, eu falo: “Ah, cara, eu posso fazer o quê, mano? É meu pai, você ia querer ser filho dele também”. E tipo, se for usar isso ao meu favor, só onde eu puder acrescentar em lugares que fazem sentido com o nosso projeto.

Samuel: E para quem reclama ou gosta de vir chorar por causa desse tipo de coisa, eu viro e falo: “Faça melhor”. É só isso.

Pietro: É, mano… Resumindo, quer chamar de nepobaby, pode chamar. Pode falar da Naimaculada. Quanto mais falar, melhor.

Ricardo: A gente segue a estética MC Melody. Fale bem ou fale mal, mas fale de mim. Pode falar. (risos)

Tem alguma coisa que vocês acham que precisa falar que não estava nas minhas perguntas que a gente não falou?
Pietro: Ah, agradecer, né? Nunca é demais agradecer a toda a turma que fez parte desse lançamento. As pessoas que a gente trabalha junto, que é a Sol, o Tuta, o Rafa Penna, o Tutti Moura Pictures, Rafael Pascoalini, Marcos Hermes, a Bebel. Mas agradecer também muito nossos amigos da D’Artagnan Não Mora Mais Aqui, da Tubo de Ensaio, da Ballburya, da Desatentos, a galera que esteve muito no começo. Agradecer todo mundo que fez parte disso daí, agradecer o Lauiz, o Chediak. O Zomer que liberou o estúdio pra gente gravar, agradecer o Gabiroto, que a gente gravou coisa na casa dele. Agradecer o Black Hole e o Porão da Cerveja que vieram antes do Porta Maldita na nossa história. E a gente só conseguiu conhecer essas pessoas e criar essas conexões por causa desses lugares.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br

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