texto por Alexandre Lopes
fotos por Bruno Fuzzo
Uberaba (MG) é uma cidade com cerca de 356 mil habitantes, moldada há décadas pela lógica do agronegócio e por um cardápio musical em que o sertanejo, o pagode e o pop ocupam o centro das atenções. Ainda assim, por baixo desse verniz de normalidade radiofônica, pulsa uma outra história: a de uma cena rock/punk/metal independente que insiste em existir cercada de conservadorismo, falta de apoio institucional e olhares desconfiados. E é nesse contexto que o Festival Farinha Podre acontece.
Organizado pelo coletivo Ópera Cultural desde 2022, o evento é menos um “festival de rock” no sentido clássico e quase um experimento social: um espaço em que guitarras distorcidas, punks, metaleiros, hippies, curiosos e pontos de Exu podem dividir o mesmo ar rarefeito.
Em 2025, o Farinha Podre chegou à sua oitava edição nos dias 8 e 9 de novembro no estacionamento do Praça Uberaba Shopping, com entrada franca. Aprovado no Edital da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc), o evento trouxe headliners como Ratos de Porão e Ventania em diálogo com bandas locais e de cidades vizinhas, refletindo uma Uberaba rural e conservadora, mas que, por algumas horas, escutou o que costuma ficar à margem, com intervenções artísticas, discursos antifascistas e rodas de pogo, com a chance de reescrever o presente e apontar para o futuro.
Dia 1 – Sábado, 8

No sábado, 8 de novembro, o estacionamento do Praça Uberaba Shopping virou ponto de encontro de roqueiros e famílias com crianças correndo entre o asfalto, o espaço kids e a praça de alimentação. No som, o DJ Wagner Jr. costurava os intervalos com discotecagem em vinil e a sensibilidade de quem sabe que um festival também se faz nas pausas entre bandas; no microfone, o radialista Ulices Gama funcionava como mestre de cerimônias, apresentando as atrações com a familiaridade de quem fala para seus vizinhos e amigos.

Às 17h em ponto, quem inaugurou o palco foi a Morango do Horror, banda vencedora da seletiva na categoria Cover. O jovem grupo apresentou um pequeno inventário do punk e do hardcore nacional. “Oi, Tudo Bem?”, do Garotos Podres, foi um aceno a essa tradição, mas também soando como provocação para a própria cidade. Em seguida, “Boy do Subterrâneo”, do Replicantes, “Medo”, do Cólera, e “A Marca dos 3 Noves Invertidos”, do Zumbis do Espaço, desenharam um mapa afetivo de parte do underground brasileiro. Entre uma música e outra, a vocalista Isabela afirmou que “o punk não morreu” e a baixista Jéssica tomou o microfone para dedicar “Isto é Olho Seco” a um amigo falecido. A satírica “Maradona”, do Merda, e “Surfin’ Bird”, na versão eternizada pelos Ramones, completaram um set que flertou com hardcore melódico no fim.

Depois do impacto inicial, o festival fez uma curva estética com o grupo de dança Fadas Namastchicas. A atração trocou o peso das guitarras por coreografias ao som de música espanhola de pegada cigana, seguidas de uma performance solo de uma dançarina com faca e véu ao som de “Tuareg”, de Gal Costa. Em meio a um festival de rock em uma cidade do interior, a apresentação deixou no ar um gesto de ancestralidade feminina que funcionou como respiro e manifesto de que a arte não depende apenas de instrumentos e amplificadores.

Às 18h30, o peso voltou com a Sons of Guerrilha, anunciada como cover de Rage Against the Machine e vencedora da seletiva na categoria Regional. Hits como “Bulls on Parade” e “Guerrilla Radio” foram os destaques, com o vocalista Bruno Ferreira assumindo o papel de frontman inflamado. Em um dos momentos centrais do sábado, ele interrompeu o exercício de imitação de Zack de la Rocha para contar a história da filha Ísis, que tem uma condição rara e conscientiza o público sobre a Síndrome de Pierre Robin. Depois desse momento de entrega, “Bullet in the Head” soou menos como um cover e mais como expurgo. Houve espaço para que o grupo enfiasse uma sequência de músicas do Limp Bizkit, com direito a uma criança na plateia dançando empolgada com sua boneca sereia na mão. Na parte final, a banda ainda encaixou uma escolha duvidosa que estranhamente funcionou: “Lose Yourself”, de Eminem.

Às 19h30, o palco passou para a Legius, vencedora da seletiva na categoria autoral. O quarteto de Uberlândia mostrou um som que navega entre rock alternativo, post-grunge e um flerte com o metal progressivo moderno, incluindo vocais rasgados e melódicos. Com uma terceira guitarra, o grupo montou um paredão de riffs enquanto apresentou faixas em inglês, antecipando o material do primeiro álbum, “Glass to Sand”, lançado dias depois. Após as músicas próprias, vieram covers de Drowning Pool (“Bodies”), Linkin Park (“One Step Closer”) e uma sequência de faixas do Slipknot, incluindo “Duality”. Quando a garoa começou a cair às 20h23, primeiro tímida, depois mais firme, a banda se despediu do público, que enfrentou a chuva em vez de recuar.

Às 21h, a atmosfera mudou novamente, agora em direção à psicodelia de Ventania e sua banda hippie. A abertura com “Cogumelo Azul” funcionou como portal de entrada para um universo onde o estacionamento do shopping se transformou em acampamento imaginário de estrada. Ventania, figura de culto em festivais alternativos pelo Brasil, encarna um bardo andarilho, simultaneamente caricatura e xamã. O repertório passeou por “Eu Quero Chá de Cogumelo”, “Maconha”, “Marasmo”, “A Malucada Pirou” e “Só Para Loucos”, hinos de uma contracultura inspirada em Raul Seixas. Não é à toa que o público pediu “Toca Raul” e foi atendido com “Maluco Beleza” e, mais adiante, “Metamorfose Ambulante”, desta vez com o baixista Netão assumindo o violão enquanto Betão segurava a cozinha na bateria. A chuva, que poderia ter sido inimiga, virou elemento cenográfico, com pessoas dançando sem se importar. O show se estendeu por quase uma hora e meia, encerrando o sábado em coro coletivo da multidão, risadas, muita fumaça, chuva e promessas de reencontro no dia seguinte. Se ainda restava alguma dúvida sobre a fome de Uberaba por um festival de espírito independente, o primeiro dia respondeu com generosidade.

Dia 2 – Domingo, 9
No domingo, o Farinha Podre voltou a ocupar o estacionamento com uma cara ainda mais politizada e pesada. Mulheres no front, um crossover que não pediu desculpas ao trazer Exu para o centro do palco, um dos nomes históricos do punk brasileiro funcionando como comentarista feroz da conjuntura nacional e uma banda negra de metal fechando a noite sob ameaça de silêncio forçado. É como se o festival passasse de afirmação de existência à explicitação de um conflito.

Após uma breve apresentação com mantras e instrumental viajante do Projeto Arya, a Celulites começou seu show às 17h23. Vencedora da seletiva na categoria Feminina, a banda formada por Isabela Melo (vocais), Jéssica Valeriano (guitarra e vocais), Kaká Ciriani (baixo e vocais) e Isabella Capuzzo (bateria e vocais) entrou sem pedir licença, ocupando o palco com presença forte. Músicas como “Não Dói”, “Cansei” e “Amélia” funcionaram como micro-crônicas sobre o papel feminino na sociedade em formato de porrada, desmontando o machismo cotidiano e a figura da mulher submissa com acidez e raiva.

“Coreto” comentou sobre idiotas colando lambes nazistas pela cidade e emendou a linha certeira: “Quando foram ver, só tinha ideia torta, ameaça fascista, vamos ter que resolver na bota”. “Pedrada”, de Chico César (na releitura pesada do Mukeka di Rato), ampliou o leque de referências. Mas o grande momento veio quando Chaene Gama, do Black Pantera, dividiu os vocais em “Me Perco”, das Mercenárias: o encontro de duas gerações e recortes de luta (feminista e antirracista). “Rebel Girl”, do Bikini Kill, apareceu em versão um pouco mais lenta e, na reta final, a faixa autoral “Holocausto” fechou o set com mais peso e uma letra crítica ao País, enquanto três punks na plateia engatavam uma briga de travesseiros como se fosse para contrastar com a seriedade do tema.

Às 18h25, o Uganga assumiu o palco com a naturalidade de quem carrega mais de três décadas de estrada e se recusa a virar peça de museu. Nascida em 1993, a banda mantém de sua formação original apenas o vocalista Manu Joker – também ex-baterista do seminal Sarcófago. O som do Uganga destoa do crossover oitentista clássico de D.R.I., Excel ou Cryptic Slaughter, embora dialogue com todos eles. O que se escuta é uma mistura de hardcore, thrash, algo de rap e batuques e referências à música mineira; um “crossover livre, com cheiro de coturno, incenso e ganja”, na definição do próprio Manu. No Farinha Podre, a banda entrou costurando faixas, sem muita pausa para respirar.

Em meio ao show, a van do Ratos de Porão cruzou parte do público, que foi direcionado à direção oposta pelos bombeiros e funcionários do festival. Enquanto isso, “A Profecia”, “Tem Fogo!” e “Nas Entranhas do Sol” surgiram como pedradas capazes de reorganizar corpos no espaço; as rodas se abriram no asfalto e os espectadores responderam no grito. Em dado momento, Manu lançou a pergunta: “Se pode falar de diabo, por que eu não posso falar de Exu?”, atacando com “Exu Não Passa Pano”, e depois colocando um ponto de umbanda para tocar no PA. Um gesto simples, mas carregado: trazer Exu, figura constantemente demonizada em regiões conservadoras, para o centro de um festival de rock, não foi somente convocar uma presença espiritual, mas expor as camadas de preconceito religioso de parte do público ali presente. Perto do fim, o guitarrista dedicou o show ao pai e à avó, mostrando que também há laços familiares em meio ao peso.

Após pouco mais de uma hora de preparativos no palco – foi a vez do Ratos de Porão finalmente iniciar seu set, às 20h21. Sob o grito alongado de João Gordo – “Ubeeeeraaabaaa!”- o efeito foi imediato: o público entrou em parafuso com rodas de pogo e os que não se arriscaram a participar, observavam curiosos a execução frenética de Jão na guitarra, Juninho no baixo e Boka na bateria, que mais lembrava uma máquina de moer pessoas. O set entregou exatamente o que se esperava de um RDP em 2025: um relato furioso sobre o país calcado em clássicos do hardcore e thrash alternados com deboche, com João arriscando comentários políticos. “Antes de tudo, muito obrigado”, começou João. “Segundo: estamos aguardando ansiosamente a prisão real de Bolsonaro”, jogando luz sobre um desejo que provavelmente ecoava em boa parte da plateia (ainda que o ex-presidente condenado tenha vendido o segundo turno de 2022 na cidade). Houve também a dedicatória a “mais de 120 pessoas que morreram no Rio de Janeiro, um monte de gente inocente, em nome do progresso”, em chacina disfarçada de operação policial nos complexos do Alemão e da Penha.

Em seguida, veio “Amazônia Nunca Mais”, “Alerta Antifascista”, “Morrer”, “Caos”, “Difícil de Entender”, “Crocodila” e da reflexão “Pela inversão de valores, RDP agora é o sistema”, antes de “Crucificados Pelo Sistema” explodir nos ouvidos e pelas gargantas de várias gerações presentes ali. João perguntou quem estava vendo o Ratos pela primeira vez e este repórter se recorda de ver jovens, crianças e até senhoras com cachorros no colo presentes nesse momento. Gordo comentou a beleza de um festival gratuito – “de graça, até injeção na testa” – e não poupou críticas à repressão policial, citando o uso de gás lacrimogêneo pelo governo de Minas Gerais. Entre as músicas, também surgiram escrachos com “Nós Somos A Turma” com a linha de baixo de “Another One Bites the Dust” do Queen, tudo filtrado por um humor que sabe ser incômodo e vocalizado por meio de guturais. O show terminou às 21h19, deixando no ar a sensação de ter assistido a algo que não foi só um concerto, mas um editorial brutal em tempo real sobre o Brasil que ficará na memória (e ouvidos) de Uberaba.

Coube ao Black Pantera fechar o domingo e a edição 2025 do festival em estado de coito interrompido. A banda, formada nesta mesma Uberaba, subiu ao palco às 21h54 e bastou a abertura com “Candeia” para que a temperatura emocional do espaço subisse. Se o Ratos de Porão funciona como crônica de uma geração que sobreviveu à ditadura e ao neoliberalismo dos anos 80 e 90, o Black Pantera encarna um presente que se recusa a aceitar a normalização do ódio. Os riffs de guitarra e baixo funcionam como marretas, a bateria acerta o peito, e o público responde aos gritos de Charles e Chaene Gama de “Fogo Nos Racistas” como se estivesse participando de uma assembleia, reafirmando a posição clara contra racismo, fascismo e toda forma de opressão.

Em muitos festivais, discursos como esses podem parecer vazios, mas aqui cercados por uma região que ainda sente o peso do conservadorismo, soam necessários. Não é à toa que, às 22h22, após “Tradução”, a realidade voltou a se impor: a organização anunciou que o show precisava acabar por reclamações de vizinhos por “perturbação do sossego”. O choque entre a intensidade da apresentação e a burocracia da queixa resume uma parte importante da história do rock e do metal em cidades do interior brasileiro. A resposta da plateia foi imediata e em coro: “eu não vou mais embora”, na melodia de “Seven Nation Army”, do White Stripes. O canto virou pressão e o Black Pantera – com Dona Guiomar, mãe dos irmãos Charles e Chaene, presente no palco – esticou mais um pouco o show, empurrando o limite entre o permitido e o desejado. O final chegou às 22h31, com banda e público se despedindo na borda da frustração e com a sensação de que aquele laço não se encerrou ali.

No fim das contas, a oitava edição do Farinha Podre mostrou que Uberaba está pronta para abraçar um festival de espírito alternativo, transformando o estacionamento de um shopping center em uma arena onde mulheres lideraram o ataque com um punk feminista afiado, veteranos do hardcore reafirmaram que experiência não precisa virar acomodação e uma banda preta personificando o presente em ebulição, politizado e barulhento. Tudo isso em um evento gratuito, organizado por um coletivo que insiste em apostar em cultura pesada em um território em que o “sossego” ainda é usado como argumento para calar vozes dissonantes.

E não foi só sensação: os números ajudam a dimensionar a demanda pelo festival. A organização estima que no sábado, durante o show de Ventania, circularam entre 1.200 e 1.500 pessoas. No domingo, o cenário foi maior: no show do Ratos de Porão, acima de 2 mil pessoas, número também corroborado pelas impressões dos fiscais do Departamento de Posturas que entregaram as queixas sobre o som. Somando-se a isso uma margem de ao menos 20% de pessoas que circularam pelo festival em outros horários, a estimativa é de um público total superior a 4.500 pessoas nos dois dias – um crescimento de cerca de 200% em relação à edição de novembro de 2023, a maior até então.

Mas o que se viu ali não foi apenas a soma de seus shows e espectadores; foi um lembrete de que o interior não é receptor passivo do que chega das grandes capitais, mas produtor de linguagem, estética e discurso. Uberaba experimentou por dois dias uma outra forma de se narrar – mesmo que ainda com várias questões e atrasos a serem resolvidos. Mas como um dos organizadores pontuou em entrevista prévia ao Scream & Yell: “a cultura é viva e só precisa de espaço para se manifestar”. Pode ser um gesto pequeno em escala nacional, mas para quem esteve ali, foi a consolidação de uma cena independente que não quer se calar.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.