Em noite mágica, Yo La Tengo dá aula de rock and roll em São Paulo

texto de Marcelo Costa
fotos de Fernando Yokota 

“Ontem no (Balaclava) Festival havia alguém bem em frente (do palco) perguntando se nós íamos tocar uma canção que nunca, nunca, nunca tocamos“, comenta o guitarrista Ira Kaplan em certo momento do show do Yo La Tengo no Cine Joia. “Eu perguntei a ele: por que você está pedindo ESSA música??”, diz Ira. E o rapaz respondeu: “Eu vi vocês tocando essa canção em um vídeo online”. Ira teve que se dar por vencido: “Oh, ok, nós fizemos isso uma ÚNICA vez”. O pedido, no entanto, ficou martelando a cabeça do guitarrista, que em sua segunda noite seguida em São Paulo, decidiu atendê-lo: “Então vamos fazer de novo. Ela está no nosso primeiro álbum, que saiu há muito tempo (1986), e foi escrita por Dave Schramm. Vamos enviá-la de volta para Hoboken, e esperamos que Dave fique feliz com isso”.

A tal música era “The Way Some People Die”, uma emocional canção (sobre suicídio) de Dave Schramm, que tocou guitarra no Yo La Tengo até o lançamento do primeiro disco, “Ride The Tiger”, em 1986, e inclusive canta a canção no álbum, motivo pelo qual (imagina-se) a banda nunca tenha a tocado ao vivo… até uma apresentação em agosto de 2025 em Nova York… e agora em São Paulo. A maneira despojada que Ira contou a história no Cine Joia, a enorme empolgação do público diante de um lado B praticamente desconhecido da banda, e a execução absolutamente lírica da música pelo trio (que ainda conta com James McNew no baixo e Georgia Hubley num kit reduzido de bateria) cristalizam, de certa forma, a magia que rondou o velho cinema do bairro da Liberdade, em São Paulo, em plena numa segunda-feira.

Apresentado como um show “acústico”, essa (segunda) noite do Yo La Tengo em São Paulo (em 2025) mostrou, desde o começo, que seria incomum e inesquecível. O trio abriu o set com uma delicada (e quase surf) versão instrumental do hino “Blitzkrieg Bop”, dos Ramones, cover que eles gravaram no meio dos anos 1990 para um fanzine japonês, e registraram na deliciosa coletânea dupla de raridades “Genius + Love” (1996). No encarte do CD (que a Trama lançou no Brasil no começo dos anos 2000 – procure nos sebos, procure), Ira conta sobre a versão, tocada em arranjo fiel ao álbum: “O arranjo remonta à nossa breve encarnação como banda de casamentos – éramos muito melhores em tocar música para jantares do que para fazer dançar”. No Cine Joia, risos, sorrisos e um “hey ho” aqui, um “let’s go” acolá acompanharam o trio.

Na sequência, o segundo single do icônico álbum “Painful” (1993), “From a Motel 6”, faz velhos fãs se beliscarem. O arranjo extremamente delicado, despindo as microfonias turbinadas da versão original, fez lembrar do texto de um crítico, Robert Christgau, que definiu o Yo La Tengo de “Painful” como uma “brincadeira de pessoas que gostam de sair no sábado à noite e fazer algum barulho – e depois voltar para casa assoviando“. O show seguiu com “Seasons of The Shark”, uma das faixas mais aceleradinhas do calminho e sixtie “Summer Sun” (2003), e que aqui se adequa ao tom melódico e lírico da noite. Com três canções no show, já dá pra sacar algo incrível: o público, cerca de 1000 pessoas, veio para ouvir a banda, e permanece totalmente em silêncio enquanto as canções, calcadas no violão de Ira, no baixo elétrico de James e conduzidas, muitas vezes, com baqueta escovinha por Georgia, preenchem o ambiente delicadamente. Uma conversa lateral seria fatal, mas todos estão quietos e fixos no palco e no som ouvindo (e cantando) um repertório maravilhoso de canções desconhecidas.

Além de “The Way Some People Die”, Ira Kaplan irá resgatar “I Want to Be with You”, um single de 1969 da Bonzo Dog Doo-Dah Band, banda britânica precursora do Monty Python (“Pedi para James cantar uma música de um dos nossos músicos favoritos, o grande Neil Innes”, explica Ira. “James a regravou em seu projeto solo Dump”, revela), atenderá um pedido da esposa Georgia que quer fazer um cover da grande banda de Arthur Lee (“A Message to Pretty”, do primeiro disco do Love, de 1966, será a escolhida) e irá buscar na memória “Griselda”, cover de The Holy Modal Rounders que o Yo La Tengo registrou no álbum “Fakebook” (1990). Calma, tem mais “obscuridades”: se no show “acústico” da Argentina, nove dias antes, rolou um cover de Black Flag (“Nervous Breakdown”), o punk rock foi representado em São Paulo por “Right Side of My Mind”, canção que abre o EP “Inside My Brain”, de 1980, do grupo punk californiano Angry Samoans. “Acho que ouvi alguém pedir essa”, diz Ira, mas, provavelmente, 99% dos presentes nunca tenham ouvido a canção – o que não a impede de ser celebrada como um hit pela plateia, devota.

Lá pelas tantas, Ira Kaplan avisa: “Essa a Georgia costuma cantar (nos shows acústicos), mas acho que hoje vou assumir o vocal”. E vem “Tom Courtenay”, um dos hinos do Yo La Tengo, para delírio e sonho de todos os presentes. A aula mágica de rock and roll não pára: uma garota pede “Yellow Sarong”, música que o grupo novaiorquino avant-garde The Scene Is Now lançou em seu álbum de 1985, “Burn All Your Records”, e que o Yo La Tengo regravou no álbum “Fakebook”. Ira não apenas atende o pedido como homenageia: “Essa vai para a cidade de Nova York, para os nossos amigos Chris Nelson, Phil Trey (ambos da banda The Scene Is Now) e todos os membros do grupo”. Se você procurar a versão original dessa canção no Youtube, um dos vídeos (de três anos atrás) traz um comentário – “O Yo La Tengo me trouxe até aqui” – e uma resposta: “Me too”. Ou seja, a sensação é de que a banda usa o show (e sua própria carreira) para lançar luz sobre pequenas pérolas esquecidas do rock n’ roll alternativo… e funciona (não apenas pela beleza das versões, mas como redescoberta dos originais).

Alguém pede “Satellite”, canção que fecha o álbum “May I Sing with Me”, de 1992, e a banda atende numa versão suave, arrastada e ainda mais silenciosa que as demais – se uma agulha caísse no chão do Cine Joia, todos ouviriam. A noite ainda conta com “Last Days of Disco” e “Our Way to Fall” (ambas do maravilhoso “And Then Nothing Turned Itself Inside‐Out”, de 2000), “Moby Octopad” e uma arrepiante versão de “Damage” (de “I Can Hear the Heart Beating as One”, de 1997), com Ira arrancando microfonia de seu violão com auxílio dos pedais, além de “Black Flowers” e “Pass the Hatchet, I Think I’m Goodkind” (duas do ótimo “I Am Not Afraid of You and I Will Beat Your Ass”, de 2006). No bis, “Center of Gravity” numa lindinha versão bossa nova, mais um cover obscuro, “Count Me In” (“Todos gostam de Gary Lewis & the Playboys e tenho certeza de que vocês não são exceção”, diz Ira), e fechando a noite, “My Little Corner of the World”, cover de Anita Bryant que eles regravaram nos anos 90 (e que aqui contou com a participação hilária de um integrante da produção da banda, assoviando).

Em pouco mais de 100 minutos, o Yo La Tengo conseguiu algo raro em shows (e cinemas!) na atualidade: silêncio. E respeito. E atenção. Nos intervalos entre as canções, as pessoas pediam músicas, incentivadas pela própria banda, mas durante a execução era foco total no trio. Chama a atenção também o respeito ao repertório escolhido e, principalmente, ao lirismo da música: em tempos em que artistas no palco parecem reféns do público, que acha que é dono da banda (e do set list a ser tocado no show) porque pagou o ingresso, o Yo La Tengo deixa cavalos de batalha na coxia (ausentes em São Paulo, “Sugarcube”, “You Can Have It All” e “Autumn Sweater”, por exemplo, estiveram no show acústico em Buenos Aires) resgatando canções e histórias como se estivesse dando uma aula de rock indie norte-americano (e mundial). A plateia, descaradamente apaixonada pela banda, apenas acompanhou entre suspiros em meio a uma noite de magia musical. Você já se apaixonou por um show, caro leitor? Esse foi paixão à primeira ouvida! <3

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br

One thought on “Em noite mágica, Yo La Tengo dá aula de rock and roll em São Paulo

  1. Perfeito o texto. Vi os dois shows mas acho que esse show intimista a maioria das pessoas entenderam que estavam vendo algo muito especial desde o primeiro minuto. A banda parecia mais solta e até mais feliz, de alguma forma. É lindo o barulho e ruído do show “normal” mas ouvir as canções desconstruídas nas versões mais simples foi incrível.

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