entrevista de Danilo Souza
Prestes a completar 20 anos de carreira em 2026, e após uma década inteira vivendo em São Paulo, a Vivendo do Ócio muda de ares e se vê de volta à Salvador, sua cidade natal, e o reencontro com suas raízes e os abraços amigos marcaram decididamente “Hasta La Bahia” (2025), o sétimo disco do quarteto, lançado em setembro de maneira independente, um álbum em que a banda segue apostando no rock, mas com cada vez mais elementos brasileiros.
Além de respirar ares locais, “Hasta La Bahia” também registra a presença de heróis da cena baiana: Martin Mendonça, guitarrista da banda de Pitty, outro que trocou a correria da capital paulista pelo aconchego da capital soteropolitana, participa da faixa “O Lobo da Estepe” (sim, a referência é o livro icônico de Hermann Hesse) enquanto Ronei Jorge (que lançou grandes discos com a Ladrões de Bicicleta) assina “Não Tem Nenhum Segredo” com Jajá Cardoso, e Jadsa num feat em “Não Tem Nenhum Segredo”.
“Hasta La Bahia” também consolida uma admiração mútua entre a Vivendo do Ócio e Paulo Miklos, que certa vez, em uma entrevista à Trip, contou que uma de suas canções de rock e de amor favoritas era “Amor em Fúria”, da Vivendo do Ócio, e agora participa de “Baila Comigo”, que abre o álbum. “Volta e meia aparecia a foto do Paulo fazendo um show com a camisa da Vivendo do Ócio – ele chegou até a aparecer na Globo com a camisa. A gente ficou super feliz (com a participação dele no disco)”, diz Jajá.
Na conversa que você lè abaixo, Jajá Cardoso (vocal e guitarra) e Luca Bori (baixo e vocal) – completam o time Davide Bori na guitarra e backings mais Gabriel Burgos na bateria – refletem sobre a mudança de ares de São Paulo para Salvador, e as influências que a cidade natal e sua cena local tiveram sobre “Hasta La Bahia”. Eles também falam sobre como foi abrir a sonoridade da banda para novos sons sem perder a pegada rock característica da banda. Leia o papo na integra abaixo.
Galera, vocês definem esse novo disco como uma “volta pra casa”. O que isso significa, indo além do sentido geográfico, mas pensando no lado emocional e criativo de vocês? Qual é o peso que a Bahia tem nesse sentido em suas vidas?
Luca Bori: A Bahia é, acima de tudo, a nossa terra, então fica difícil que ela fique fora do nosso trabalho. Representar a Bahia está dentro da nossa música de uma forma genuína mesmo. O título do álbum representa essa volta e também tem um significado de conforto do voltar para casa, de estar de volta, de ter aquele abraço amigo e de se sentir na Bahia mesmo, que é de onde a gente vem e onde estão as nossas raízes. É uma sensação de pertencimento estar de volta aqui.
Inclusive, o disco foi inteiramente gravado na capital, Salvador. Dá pra dizer que vocês estão se reaproximando da cena baiana com mais intensidade depois de alguns anos em São Paulo?
Luca Bori: A gente sempre esteve presente, porque, mesmo morando em São Paulo, estávamos sempre voltando. Salvador foi uma das cidades que mais tocamos, mesmo nesses dez anos moramos lá em São Paulo. Mas estar de volta é diferente por uma questão de relação com a cidade, de estar vivendo aqui, de estar se relacionando com pessoas daqui…. toda essa relação que a gente tem, a partir do momento que a gente volta pra Salvador, é automaticamente transferida para o álbum. Tipo o nosso baterista, o Gabriel Burgos, que entrou pra banda e que é de Salvador, e que o convite veio a partir da relação que criamos com ele desde do primeiro contato, que foi um show que fizemos com o Vandal, aí nós o conhecemos, começamos a sair juntos e convidamos ele para a banda. Então, o disco também é sobre essas relações que tivemos a partir do momento que retornamos para cá. Não só a relação com Gabriel Burgos, mas também com a cena, indo nos shows, frequentando e conhecendo todas as pessoas que estão envolvidas no álbum. O André, que é um produtor daqui de Salvador, que sempre quisemos trabalhar com ele e, por estar morando aqui agora, se tornou uma coisa muito mais fácil, né? A Vic Zacconi, que fez a capa, e os músicos que participaram do disco também: o pessoal da Orquestra Sinfônica da Bahia, o Ricardo Correa, na percussão, o Martin Mendonça, que também está morando aqui e que é guitarrista da Pitty… tudo isso está ligado profundamente com esse retorno.
Jajá Cardoso: [Ronei] Jorge também, né? Ele sempre foi uma referência pra mim, desde a banda dele [Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta], que é uma banda lendária, e ele é um cara que faz parte da cena alternativa rock da cidade há muitos anos e está na ativa até hoje, sempre lançando coisas e fazendo projetos. Ele foi uma dessas pessoas que somaram também.
E de que forma vocês estão enxergando essa cena baiana, depois desse tempo todo lá em São Paulo? Conseguem perceber que ela se renovou?
Luca Bori: Acho que é uma cena muito forte musicalmente e que tem uma raiz musical diferenciada. Mas vejo como ponto negativo a falta de incentivo e de bons lugares para tocar. Quando a gente vai para São Paulo, vemos que qualquer casa de show tem um equipamento e uma acústica legal, enquanto aqui em Salvador, principalmente depois da pandemia, muitas casas fecharam. Mas vejo que a cena ainda é muito forte, tem bandas que tem conquistado o público, que estão crescendo e que são muito ricas musicalmente. Vale a pena ir nos shows para conhecer essas bandas novas que estão tocando, porque são de muita qualidade.
Apesar de Salvador também ser uma grande cidade, São Paulo parece ser uma coisa de outro mundo. Pra nós aqui do Nordeste tem até essa coisa de ir pra lá “para dar certo”. Agora que vocês foram e voltaram, como definem isso?
Jajá Cardoso: Acho que a gente teve o nosso momento e aproveitamos a oportunidade. Na época, nós não tínhamos planejado morar lá tanto tempo, as coisas só foram acontecendo. Fomos para ficar uns três ou quatro meses e a banda foi crescendo, foi ficando mais conhecida, começou a rolar convites… sim, acho que quando a gente faz alguma coisa em São Paulo, parece que reverbera diferente, sabe? Quando trabalhamos mais por aqui, parece que fica mais concentrado no nosso estado e na região Nordeste em si. Mas isso também pode ser uma concepção errada da minha parte. Voltar para Salvador foi só o começo de um novo ciclo. Nós conseguimos trilhar um caminho e as portas que abrimos estão ainda abertas pra gente continuar a trabalhar.
Luca Bori: São Paulo é uma cidade que é um ponto de encontro. Tem gente do Brasil inteiro ali, músicos, produtores, estúdios… e acho que por você estar vivendo na cidade facilita nessa questão de fazer contatos, porque a música também é relação. É sobre você conhecer pessoas, fazer amizade, tocar junto… então, o fato de você se relacionar com pessoas do Brasil inteiro acaba ajudando. Quando fomos para São Paulo, as coisas começaram a fluir muito mais rápido e eu acho que tivemos conquistas que, talvez, demoraria muito mais estando em Salvador. Penso dessa forma. São Paulo é uma cidade plural, tem muita gente e muita coisa acontecendo.
Falando de composição e sonoridade, vocês também contam que esse disco é resultado de uma maturidade adquirida nos quase vinte anos de estrada. A banda é considerada parte do rock alternativo, mas não se prendeu a isso dentro do álbum. Quando e como foi esse momento em que vocês perceberam que queriam tentar coisas novas musicalmente?
Luca Bori: Acho que isso foi acontecendo de forma natural desde o “Selva Mundo” (2015). A gente foi inserindo mais elementos de música brasileira, de percussão, de ritmos brasileiros no geral. No nosso disco homônimo (“Vivendo do Ócio”, 2020) também aconteceu bastante e teve mais sintetizadores. No “Selva Mundo” não chegou a ter sintetizadores, mas no [disco] “Vivendo do Ócio” nós inserimos sintetizadores de sopro, por exemplo. E isso, ao longo da carreira, foi só aumentando… acho que isso acontece porque vamos amadurecendo como pessoa e escutando outras coisas, outras sonoridades, e isso tudo acaba influenciando no nosso som. Eu lembro que, lá em 2014, quando eu estava em São Paulo, a gente ouvia muita coisa de música brasileira, tipo Jorge Ben, Novos Baianos, Curumin… tudo isso acabou influenciando no som. E agora, com o disco novo, acho que estar na Bahia só aflorou isso mais ainda, além da presença do Gabriel Burgos, que trouxe uma outra sonoridade rítmica pras batidas do disco, porque ele tem uma influência muito grande de soul e de funk que enriqueceu o álbum. É um som mais dançante, mais disco, que a gente já curtia muito, e que acabou aflorando mais nesse momento.
Como esse conceito de voltar à Bahia aparece dentro das canções? É uma história linear? São várias histórias sobre esse tema? Essa interpretação vai de cada um ou tem um caminho a se seguir?
Luca Bori: Cara, eu estava reparando que quase todas as músicas do “Hasta la Bahia” falam sobre idas e vindas, despedidas, reencontros… mas não foi algo que a gente pensou na hora de montar o repertório, foi algo que aconteceu por algum motivo. Isso estava completamente conectado com o significado do álbum e com o nosso retorno para Salvador. Depois de morar dez anos em São Paulo, estamos voltando para cá, então… se você reparar, todas as músicas abordam esse tema. E tem a faixa-título, que foi uma parceria com um poeta baiano que mora em São Paulo também há muitos anos, o Nivaldo Brito. Ele é escritor e ele me mandou uma letra que falava sobre esse sentimento de estar voltando e de se sentir em casa, aí eu musiquei essa letra uns dois anos atrás e acabou que ela também tinha tudo a ver com o conceito, tanto que se tornou o título do álbum. Lembro que alguém, em um dos estúdios de ensaios, estava procurando um nome pro disco e essa era uma das músicas que a gente estava ensaiando, aí Davide, ou foi Jajá, não lembro, falou que podia ser “Hasta La Bahia” e todo mundo concordou, porque realmente não tinha como não ser esse nome. Tem tudo a ver com o momento que a gente está vivendo, com essa fase e com essa volta.
O “Hasta La Bahia” está muito bem servido quando o assunto são participações especiais, né? A começar pelo Paulo Miklos, que fez história com os Titãs no rock nacional. Como foi esse encontro para vocês?
Jajá Cardoso: Foi como uma conquista mesmo, porque ele é uma referência primordial pra gente. E quando essa música ficou pronta, percebemos que ela tem muito daquele lance visceral do início do Titãs. Um grande amigo nosso, que trabalha na produção do Titãs, fez essa ponte do contato direto com ele. Só que tem uma outra história antes disso… na época, saiu numa revista de grande circulação, a Trip, uma entrevista em que ele dizia que a música de amor favorita de rock dele era “Amor em Fúria”. Nós lemos aquilo ali e ficamos tipo “caramba, o Paulo Miklos gosta da gente?!”. Depois veio um show na Concha Acústica, que é um lugar super emblemático aqui de Salvador, e nós tivemos a felicidade de tocar com os Titãs. Foi nessa noite que nos conhecemos pessoalmente, aí demos camisa, demos vinil… volta e meia aparecia a foto do Paulo fazendo um show com a camisa da Vivendo do Ócio, ele chegou até a aparecer na Globo num programa com a camisa. Mas, sobre a parceria: aconteceu quando teve que acontecer. E a gente ficou super feliz, ele foi super solícito, super gente fina, gravou à distância e mandou pra gente e, pô, ficamos super felizes, cara!
E reforçando essa ideia da conexão com a Bahia, vocês também convidam o Martin Mendonça, Jadsa e Ronei Jorge, por exemplo, que também são artistas daqui do estado. De que forma eles somaram para esse conceito do álbum?
Jajá Cardoso: Quando ecomecei a compor, lá no início dos anos 2000, escutava muito a banda do Ronei Jorge e sempre imaginei escrever algo com ele um dia. E quando compus a faixa “Não Tem Nenhum Segredo” eu não estava muito feliz com o segundo verso da música e estava pensando em chamar alguém pra completar esse segundo verso. Daí veio a ideia de chamar ele, que topou. Ele veio aqui em casa e a gente escreveu. Gosto muito de compor com outras pessoas e é muito massa essa sensação de escrever com uma pessoa pela primeira vez, porque parece um “primeiro encontro”, você não sabe muito bem o que vai acontecer, se a química vai rolar… mas a coisa fluiu de uma maneira maravilhosa e ele trouxe um verso lindo que completou a música. Tem o Martin Mendonça, que é nosso amigo de muito tempo e que já havíamos feito outra contribuição na música “Não Te Digo Nada”, por exemplo. Já tocamos juntos na Concha também, ele participou do show e cantou “Nostalgia” com a gente. Ele morou em São Paulo por muito tempo, então a gente sempre se trombava por lá, ele ia lá em casa, tinha realmente uma amizade. A música que ele participa [“O Lobo da Estepe”] é a mais pesada do disco, digamos assim, é a mais rock and roll. Na época, quando ela não tinha nem letra direito, mandei para ele e falei “vamos terminar essa aqui” e ele: “claro, vamo nessa!”. E aí, quando ele colou no estúdio, fomos escrevendo as coisas e concretizamos a letra, que fala sobre o “Lobo da Estepe”, um livro de Hermann Hesse, que é muito importante para mim.
O que vocês pretendem provocar na cena, tanto baiana quanto nacional, com esse disco? É uma mensagem de “olhar para dentro antes de olhar pra fora”?
Luca Bori: Pensando nesse sentido, eu acho que é trazer a força do rock com a sonoridade baiana e mostrar não só para a Bahia, mas para o mundo todo. Estamos muito empolgados em ter esse trabalho que representa a nossa cidade, com os ritmos, os instrumentos e os músicos daqui e estamos muito felizes de ter lançado e colocado o disco no mundo. O que queremos agora é tocar o máximo que der!
Jajá Cardoso: E pegando esse lance de representar… é sobre representar não só a música do nosso estado, mas representar também o que nós somos como banda mesmo, o nosso crescimento e o amadurecimento que esse disco reflete nesses quase 20 anos. O objetivo é fazer como a gente sempre gostou, que é rodar o Brasil, mas a Bahia é nossa casa agora. Não sabemos do futuro… vai que em algum momento a coisa fica louca e a gente tenha que passar uma temporada em São Paulo?! Mas acho que mudar de mala e cuia, como fizemos quando éramos jovens, não é mais uma coisa. A ideia é ficar aqui mesmo e trabalhar daqui.

– Danilo Souza é estudante de jornalismo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Acompanhe seu trabalho em instagram.com/danilosouza.jornalismo/.
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