Entrevista: Elogiada por Rodrigo Lima (Dead Fish), a Budang fala de seu disco de estreia, “Magia”

entrevista de Bruno Lisboa

Formada em Florianópolis em 2019, a Budang está lançando “Magia”, seu disco de estreia, pela Deck, com produção de Rafael Ramos. Guilherme Larsen Güths (voz), Vinícius Lunardi (guitarra), Pedro Sabino (baixo) e Felipe “Minhoca” Royg (bateria) combinam canções enérgicas e diretas com uma forma bem-humorada de observar o dia a dia, algo que combina com a versão pesada de “1406”, do Mamonas Assassinas, que eles registraram no álbum.

Ainda que “Magia” seja o primeiro disco cheio da Budang, o quarteto tem no currículo mais quatro EPs, um split (dividido com a banda Jovens Ateus) e já conquistou elogios de um veterano da cena: Rodrigo Lima, do Dead Fish. “O elogio é sempre um incentivo e uma forma de mostrar que estamos ‘no caminho certo’”, explica Vini. “Pra gente é sempre uma honra, e claro, uma responsa, mas no bom sentido”, completa o guitarrista.

Felizes com o resultado alcançado em estúdio (“É claramente uma evolução do nosso primeiro trabalho até agora. Tudo muito bem maturado e amadurecido”, acredita Vini), o quarteto faz planos de rodar o país e a América Latina (“Queria muito tocar em BH, Santos, Fortaleza”, confessa Gui. “Uma tour na América Latina ia ser o deboche”) enquanto lista discos (de Turnstile, Bad Brains e Makalister, entre outros) que serviram de referência pra “Magia” em uma conversa feita por e-mail.  Leia na integra abaixo e assista ao clipe de “Mágica”.

O hardcore tem muitas vertentes e possibilidades. O som de vocês flerta com referências antigas e modernas. Como vocês chegaram nessa fórmula?
Vini: Acho que isso rolou naturalmente, como em qualquer banda talvez. Temos uma ideia na cabeça de cada um como as coisas devem soar, e trazemos isso pro nosso som. Cada um tem uma referência, desde rock classicão, grunge, indie, rap, brasilidades, música alternativa nacional, gringa, etc. Essa mistura de várias fontes e a individualidade de cada um cria o nosso som, que é único e ao mesmo tempo também nem tanto.

Minhoca: Falando por mim, eu não conhecia muito de hardcore e na época surgiu essa ideia de fazer uma banda de hardcore por diversão. Então eu sempre estive na transição dos sons que eu tocava antes (mais puxado pro grunge) pro hardcore, e acho que a gente acabou caindo nesse limbo de atingir um som massa que a gente curte fazer mas nunca chegou a ser totalmente o hardcore.

“Magia” tem uma pegada mais descontraída nas letras. Foi uma escolha consciente ou foi simplesmente natural quando vocês se juntaram para compor?
Gui: Ah é natural né? As letras da Budang sempre foram assim. Pessoalmente, acho um pouco estranho letras de músicas que claramente não condizem com a forma que o compositor fala normalmente, a não ser que seja proposital, entende?

Vini: Como o Gui disse, não achamos muito interessante falar do que não se vive, do que não se entende. As letras são cheias de piadas internas, de coisas que rolam no cotidiano da banda, dos amigos, dos rolês… então sempre rolou de forma bem natural, não foi de caso pensado, apenas algo que sempre nos pareceu “certo”.

Florianópolis é muito presente no som e nas letras de vocês. Rola algum tipo de contraste entre a estética do hardcore e a cidade? Qual a influência ela exerce no som de vocês?
Gui: Daonde eu sei, o hardcore vem da ideia de não somente apontar os erros do entorno, mas fazer algo sobre isso, se juntar com quem pensa assim para atuar. Em Floripa temos uma cena muito unida, seja na propagação dessas ideias e eventos na mídia pelo Mancha (Eutha / ND TV), na culinária e organização de eventos pelo Félix (Mandarina / Feira Vegana / Kamikaze), no skate pela rapaziada do Entulho e Baipaidai, nos diversos rolês que são organizados pelos selos/bandas para/com fins sociais (Urtiga, Lodo, Bruxa Verde). Enfim, não é feito somente rolezinho pra banda tocar. Então, eu não vejo um contraste com a ideologia que o hardcore propõe.

A produção ficou a cargo do veterano Rafael Ramos. Como foi trabalhar com ele dentro do Estúdio Tambor? Quais as contribuições ele trouxe para a gravação do novo repertório?
Vini: Foi uma experiência única, fenomenal. A estrutura e o acolhimento que o Rafael e o Jorge Guerreiro, do estúdio, nos deram, e toda galera da Deck, foi muito legal de verdade. Acho que nunca imaginamos que nosso som um dia soaria assim. A contribuição do Rafa existe desde o dia um, e nos influencia, as vezes até de forma espiritual. Ele não precisa dizer muita coisa que a gente já capta a mensagem e acho que isso que traz a mágica pra todo o role. Mas não teve nenhuma coisa de produtor clichê, a gente fez o disco que a gente queria, o Rafa nos deu muita liberdade pra gente se expressar de forma bem pura.

Como foi o processo de composição do “Magia”? Acreditam que ele dialoga ou se distancia do que vocês lançaram anteriormente?
Vini: Acho que ele dialoga sim, muito bem. É claramente uma evolução do nosso primeiro trabalho até agora. Muitas viagens, rolês, shows, vivencias fizeram a gente crescer o suficiente pra falar “agora a gente tá pronto pra fazer um álbum, com a cara do que a gente quer tocar”. A composição veio de anos, desde a pandemia até agora. Canções de violão que foram evoluindo e se transformando coletivamente a cada ensaio, foi tudo muito bem maturado e amadurecido.

A sonoridade de vocês é permeada por uma série de camadas – tem groove, tem peso, tem melodia. Quais foram as bandas ou discos que serviram de referência direta durante do álbum?
Vini: Sempre admirei bandas brasileiras que conseguem chegar num som muito bom com os recursos mais limitados que temos no nosso underground, como o MEE, Surra, Burrice Precoce. Ai a gente pode falar também de gigantes como Chico Science, que peso, melodia e groove com certeza nos influenciam. Charlie Brown também. Aí posso falar agora mais em som de guitarra, Nirvana, Trapped Under Ice, End It e Speed me influenciam muito em timbre, riffs e composições.

Gui: “I Against I’, do Bad Brains; ‘Heatwave”, do TUI; “Rock the Fuck on Forever”, do Angel Du$t; “Step to Rhythm”, do Tursntile; “Cantigas para Não Dormir no Ponto”, do Beli Remour; “A Volta da Esperança”, do Makalister; “One Way Track”, do End It; e “With Regret”, do Expire.

Com disco na área, qual é a expectativa de vocês para esse novo momento na história da banda? Sentem que estão perto de um “pulo” maior?
Gui: Não sei se esse pulo vem, mas se vier, que seja pra viabilizar shows em lugares que nunca fomos. Queria muito tocar em BH, Santos, Fortaleza, e outros picos que eram pra já ter rolado e deu ruim. Sonho em conhecer a Colômbia, Panamá, México, uma tour na América Latina ia ser o deboche, instalando duolinguo pra afiar o espanhol neste exato momento.

Rodrigo Lima (Dead Fish) já elogiou vocês publicamente. O quanto esse tipo de reconhecimento pesa ? Rola uma pressão ou só fortalece o corre?
Vini: Fortalece sempre, o elogio é sempre um incentivo e uma forma de mostrar que estamos “no caminho certo”. Pra gente é sempre uma honra, e claro, uma responsa, mas no bom sentido, nada como uma cobrança ou algo do tipo. Mas uma responsa de talvez estar na vanguarda dessa nova geração de bandas e a possibilidade de influenciar umas pessoas pra ter cada vez mais banda nova fazendo um som e mantendo o rolê aceso.

Quais são os planos futuros?
Vini: Para agora é continuar trabalhando esse álbum, tocar em lugares que a gente ainda não chegou, no brasil e se rolar fora, e é isso. vai rolar uma tour esse ano, ano que vem vão ter muito show também, queremos rodar o máximo que der, e tentar lançar esse disco em vinil 🙂

 Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. 

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