texto de Alessandro Andreola
fotos de José Carlos Branco
“Obrigado por terem vindo. Contem aos seus amigos para que a gente possa um dia voltar aqui e tocar para eles também.”
Um franco Tim Booth assim encerrou o show do James, em Curitiba (antes do bis). O recado foi reforçado pelo guitarrista Saul Davies (após o bis — e em português). Ambos se dirigiam a uma plateia de poucos mas dedicados fãs, que dançaram, cantaram e se emocionaram com um desfile dos hits secretos que foram a trilha de suas juventudes.
Nesta noite, o James se encontra em um lugar especial. Não especificamente a Ópera de Arame, este improvável teatro de metal incrustado em meio à natureza no qual a banda se apresentou, mas a cidade de Curitiba, talvez a única no mundo que ergueu um templo para o veterano grupo, e isso há mais de 25 anos. Afinal, foi o James, a banda, que deu nome ao James, a casa noturna mais célebre da cidade. E na plateia se via às dezenas seus frequentadores clássicos — devotos, se você preferir —, velhos de guerra da cena indie local, felizes pelos reencontros que a banda proporcionou, todos eles em diferentes graus de choque e emoção por estarem diante de músicos — e músicas — que marcaram suas vidas. A banda percebeu esse tabuleiro e, mesmo que algumas vezes de forma um pouco desajeitada e algo incomodada pelo status bíblico que seus fiéis lhe conferiam, arrumou as peças de modo a sacramentar o jogo.

Foi rápido: já no início de “Ring the Bells”, a segunda música da noite, o público estava irremediavelmente ganho. O clima geral era de aclamação e qualquer artista mais preguiçoso poderia ter se acomodado numa apresentação protocolar. O que aconteceu, ainda bem, foi bastante diferente — Booth, inclusive, explicou que o setlist era especial para a noite (o que podia ser apenas média com o público) e que eles não costumam repetir as apresentações (o que é verdade).
Não demorou muito para que o vocalista fosse para a galera: ele desceu do palco pela primeira vez em “Say Something” — repetiria o ato na segunda metade do show — e caminhou sobre as poltronas do teatro com passos calmos. Ao passar do meu lado, abraçou um fã como se fossem velhos amigos, e o rosto do rapaz se iluminou. Logo mais, durante “Sit Down”, o cantor flutuou novamente em meio ao público e, enquanto cantava a letra, se deteve um bom tempo parado em frente a um homem que ficou impassível — seria timidez ou talvez o único não fã presente? Parecia uma disputa para ver quem ria primeiro. Ali, era como se Booth topasse a aura de messias indie que público lhe imputou, na tentativa de catequizar um incauto.

O homem não cedeu, mas naquela altura isso já não importava. Conforme o show se desenrolava, a igreja do James crescia em fervor, batendo palmas, se balançando e se esgoelando em “Waltzing Along”, “Getting Away With It (All Messed Up)”, “Laid” e várias outras. Em “Sometimes”, veio o clímax: os fiéis não mais se seguraram e subiram ao palco para celebrar com seus ídolos — a banda, é bom que se diga, pareceu um pouco tensa com a súbita invasão, mas jogou o jogo até o final, e a ousadia do público transcorreu sem maiores contratempos (Booth foi rápido ao retirar das mãos de uma fã, de forma delicada, o celular sacado por ela, e pousá-lo na beira do palco, como se aquilo fosse parte da sua coreografia).
Ao final de uma hora e quarenta minutos de culto à música, a banda se despediu. Seus seguidores, satisfeitos, se enfileiraram em direção à chuva que caia (me controlo para não completar a frase com um “do lado de fora”, porque isso não é bem verdade, já que as goteiras castigavam a Ópera de Arame). Muitos se dirigiram ao James, o bar, na tentativa de prolongar a sensação de plenitude que tiveram ao ver o James, a banda. Imagino que vários deles não rezavam há tempos, mas que, nesta noite, se reconectaram com algo que parecia perdido. Um show como este é também uma celebração de fé — não uma fé religiosa, mas no sentido de acreditar que canções pop perfeitas podem nos elevar. Foi essa a benção que o James ofereceu ao público, que dela comungou. Ou, para resumir em duas palavras muito ouvidas ao fim do show: foi lindo.

Alessandro Andreola é jornalista, autor dos livros “Música do Dia” e “The War On Drugs: Lost In The Dream” e um dos responsáveis pela Editora Barbante