texto de Marco Antonio Barbosa
fotos de Fernando Yokota
Desde a desintegração do pós-punk no começo da década de 1980, o rock britânico se definiu por uma obsessão com o passado. O pastiche nostálgico conhecido como Oasis é apenas o exemplo mais evidente da tendência – um traço que segue contaminando até os nomes mais progressistas. O Primal Scream não é exceção a essa regra, muito pelo contrário; poucas bandas britânicas dos últimos 40 anos são tão assumidamente passadistas. A diferença entre o combo liderado por Bobby Gillespie e os demais pasticheiros é que o Primal Scream sempre usou o passado como um mapa para o futuro. Pergunte a qualquer testemunha do único show que o grupo escocês fez no Brasil, na noite de 11 de novembro, na Audio (SP). Todas as influências e referências estão ali escancaradas. No entanto, nada soa como mera cópia nem como falta de criatividade. Com mais de 40 anos de estrada, ao vivo o Primal Scream destila sua essência regressiva em um espetáculo ruidoso e dançante – e soa novinho em folha.

O Primal Scream safra 2025 retomou sua fixação rollingstoniana, uma das fundações do grupo desde 1982. O recente “Come Ahead”, primeiro LP desde 2016, se inspira no lado mais negro e funky da cartilha de Jagger & Richards. Seu repertório formou a base do show, que traz sete músicas do álbum de 2024. Bobby – esguio como sempre, terno branco skinny, camisa vermelha de cowboy – ainda conta com os velhos parças Andrew Innes (guitarra) e Darrin Mooney (bateria). A baixista Simone Butler (e suas longas pernas desnudas) acompanha os véios desde 2012 (substituindo Mani, baixista também do Stone Roses, que veio ao Brasil com o Primal Scream em 2011) . Terry Miles (teclados) e Alex White (sax) completam o line-up; suprindo os cruciais backing vocals, Martha Evans e Roslyn Adonteng, apresentadas por Bobby como as “Sisters with no mercy”.

O octeto pareceu precisar de um tempinho para se aquecer. Abriram com “Don’t Fight It, Feel It”, um dos clássicos de “Screamadelica” (1991), e até o segundo número, a soulzêra de “Love Insurrection”, alguns ajustes na mixagem dos instrumentos se fazem necessários. Na terceira música, uma coriscante versão de “Jailbird” (1994), tudo se encaixa melhor. Com a confiança em alta, o grupo progride com um setlist muito bem pensado. As suingadas “Innocent Money” (dedicada por Bobby ao Lula!) e “Deep Dark Waters” se alternam com uma furiosa “Medication” (1997) e com a baladaça “Heal Yourself”. Provocam os fãs veteranos com “I’m Losing More Than I’ll Ever Have”, aquela que foi transformada por Andrew Weatherall em “Loaded” – “Tem uma moça aqui na frente pedindo para baixar o volume da guitarra”, comenta Bobby marotamente ao fim da canção. E se aproximam do funk branco a la Jamiroquai nas aceleradas “Love Ain’t Enough” e “The Centre Cannot Hold”. Já seria um show do cacete se terminasse aí.

Mas, ainda bem, não terminou. O grupo desafia as probabilidades ao conjurar quatro picos sucessivos de empolgação, cada um mais alto que o anterior: “Loaded”, “Swastika Eyes” (infelizmente a única do “XTRMNTR”), “Movin’ on Up” e “Country Girl”, esta última em uma versão gigante, volume no talo, plateia na mão. Bobby aproveita para pendurar uma bandeira da Palestina no pedestal do microfone antes do (primeiro) fim do show. O bis é outro prodígio de dinâmica, esfriando o clima com a leseira de “Damaged”, incitando o transe com “Come Together” e reacendendo a fogueira com “Rocks”. Premiando aqueles que ainda relutavam em partir, o Primal Scream ainda retornou mais uma vez para tocar “No Fun”, dos Stooges – e rolou até uma rápida invasão ao palco.

O Primal Scream segue usando a história do rock para escrever seus próximos capítulos. Sobreviveu às drogas, à morte de um membro fundador, a incontáveis modismos musicais e visuais e continua acelerando. O momento mais simbólico da noite foi quando um fã no gargarejo passou para Bobby um poster do grupo Johnny Thunders & The Heartbreakers. “Vamos nos divertir, por Johnny Thunders”, disse o vocalista, aproveitando a letra de “Loaded”. Johnny, Iggy, Mick, Keith, Lou, Rob, todos esses gigantes malditos do passado estiveram no palco da Audio na última terça. O magrelo cabeludo de terno branco só foi o cavalo.
– Marco Antonio Barbosa é jornalista (medium.com/telhado-de-vidro), músico (http://borealis.art.br) e escreve ótimas pensatas no Substack.