Conheça “Noturnas”, novo disco da Pelos, faixa a faixa: “Ele trabalha mais em climas”, comenta Thiago Pereira

texto de introdução e entrevista de Bruno Capelas

Com mais de 25 anos de estrada, a banda Pelos passou boa parte de sua carreira restrita à atuação em Belo Horizonte. De 2022 para cá, isso começou a mudar com o lançamento de “Atlântico Corpo”, trabalho profundo que expõe de forma delicada a realidade e a criação de uma banda “preta, periférica, independente e brasileira” – e que ficou entre os melhores 25 discos daquela temporada na votação deste Scream & Yell. Três anos depois, a pergunta que fica é: como dar sequência à carreira após um álbum tão marcante?

A resposta está em “Noturnas”, disco lançado pelo grupo mineiro no final de agosto. “É um disco que não tem uma narrativa nem uma dimensão conceitual. Ele trabalha mais em climas, em uma ambiência, na busca por boas canções”, destaca de partida o baixista Thiago Pereira, que se uniu à banda antes das gravações de “Atlântico Corpo”. “‘Noturnas’ vai entrando, vai chafurdando pela noite, com momentos mais ou menos sombreados.”

Formado por Robert Frank (voz, violão, sintetizador e piano), Heberte Almeida (guitarra), Kim Gomes (guitarra) e Pablo Campos (bateria e percussão), além de Pereira, o grupo somou diversas influências para a confecção do disco. Na conversa a seguir, realizada entre a Praia da Urca e o Boteco Pasteur, no Rio de Janeiro, Pereira elenca nomes tão variados quanto Mercury Rev, Tim Maia, Curtis Mayfield, The Cure, Beto Guedes ou Minutemen. “É algo que veio das imersões para fazer o disco– que são muito pautadas por beber cerveja, rir pra caralho, fazer churrasco e escutar muita música. Ouvimos muita coisa juntos, um vai aplicando o outro, vamos lembrando de coisas”, conta o baixista.

No faixa-a-faixa a seguir, feito especialmente para o Scream & Yell, o baixista comenta ainda diversos aspectos do disco – das já citadas imersões em Casa Branca, na região metropolitana de BH, às gravações no estúdio Frango no Bafo, de Henrique Matheus e Thiago Corrêa (ambos da Transmissor), passando pela mixagem e masterização de Leonardo Marques (também da Transmissor). Ele ainda ressalta as participações especiais de “Noturnas” – das cantoras Fernanda Valadares e Michelle Oliveira – e a parceria afetiva da Pelos com a produtora Filmes de Plástico, que já dura mais de uma década e volta a marcar presença agora.

Com pouco mais de meia hora, “Noturnas” (ouça na integra logo abaixo ou na sua plataforma favorita) é uma imersão em uma vivência experienciada em Belo Horizonte, mas que pode acontecer “no ‘baixo centro’ de qualquer cidade”, defende Pereira. Ao final do disco, entre bares, incêndios, edifícios e viagens de carro, ele garante que há um alvorecer. “A madrugada acabou. O sol nascerá, já diria Cartola”, brinca o baixista, convidando o ouvinte a seguir em boa jornada noite adentro. Venha com ele.

01) “Santelmo” – “Noturnas” é um disco que não tem uma narrativa nem uma dimensão conceitual, ao contrário do “Atlântico Corpo”. Ele trabalha mais em climas, em uma ambiência, na busca por boas canções. Mas se uma pessoa fosse criar uma narrativa para o disco, seria possível montar um quebra-cabeça no qual “Santelmo” seria a última música – até porque ela tem um clima menos soturno dentro do disco. Quando ela surgiu, sem letra, a banda já desconfiava que ela teria cara de primeiro single, de música de abertura do disco. A música é de toda a banda, a letra é minha. É uma canção de fuga, em uma letra muito pessoal, de capturar um momento… náutico. Ela envolve duas referências muito fortes minhas com o fogo de San Telmo. Uma é a música do Brian Eno: “St. Elmo’s Fire” é minha música favorita dele, e “Another Green World” é meu disco favorito dele. Outra é o filme “St. Elmo’s Fire”, um clássico do Brat Pack dos anos 1980, que aqui no Brasil foi traduzido como “O Último Ano do Resto de Nossas Vidas” e fala sobre essa questão de amadurecer. Já a perspectiva da capa do single (arte abaixo), que é do Robert, tem a ver com a ideia do fenômeno do fogo de San Telmo, um fenômeno meteorológico que aparece do nada, mas costuma ser visto pelos navegantes do mar e da terra como um sinal de boa sorte, de boa navegação.


02) “Incêndios” – É um ensaio sobre o fogo – e sobre as várias possibilidades que a ideia de fogo pode trazer. A música é do Robert e do Kim, a letra é minha. Musicalmente, eu vejo nela uma elegância soul, uma densidade muito interessante. É uma música com uma sensualidade forte, mas ao mesmo tempo, algo sombrio. Por algum motivo, ela me remete à Sade Adu, que é uma referência que toda a banda adora. Além disso, vale destacar a participação da Fernanda Valadares, que é backing vocal do FBC. Os trabalhos mais recentes dele tem uma coisa meio R&B, meio soul, e a participação da Fernanda traz esse diálogo não só com esse universo, mas também com a obra de um artista que a gente ama.


03) “Outros Azuis” – Muito do que fizemos no “Atlântico Corpo” e no “Noturnas” surgiu em imersões que a banda fez na casa da minha mãe em Casa Branca, um distrito perto de Belo Horizonte. E uma coisa que me chamou a atenção foi que o processo do “Noturnas” foi muito rápido: nós fizemos só duas imersões e saímos com umas 15, 16 ideias. E olha que nós tocamos pouco: a maior parte do tempo das imersões é gasto comendo, bebendo, escutando música e falando merda. É o ócio criativo. E eu lembro muito bem do momento em que o Tambor [apelido de Heberte de Almeida] mostrou essa música para gente, acho que já era música e letra tudo junto. É uma música muito bonita, tem um refrão bem Tim Maia – que é outra onda da Pelos. Achamos que essa é a nossa música Inconfidência FM – a rádio nova MPB de Belo Horizonte, rádio FM adulta. Na gravação, com a produção do TC e do Henrique, bem como com a mixagem do Leo, ela deu uma “tameimpalizada”, ganhou uma ambiência muito bonita. Chegou a ser até candidata a single, mas acabamos ficando com “Santelmo”.


04) “Noites Nômades” – É uma música que representa muito o que é o “Noturnas”. De alguma maneira, ela tem um aspecto meio cinematográfico, em uma lírica pontual dessa coisa da boemia, das coisas acontecendo no ambiente do bar, no “baixo centro” de qualquer cidade. A música e a letra são minhas. A primeira curiosidade é que ela é um afrobeat com um “tantim assim de carimbó”, algo que eu faço muito inspirado por estar na Pelos. Como compositor, eu nunca faria um afrobeat por minha conta. Outro ponto importante é que ela tem uma pegada synth anos 1980, que é algo que é muito a cara atual da banda. A letra é muito a cara das nossas vivências: ao longo do “Atlântico Corpo”, nós fizemos mais de 30 shows, estivemos muito juntos. Para além do trabalho, a gente bebia muito junto – e “Noites Nômades” é uma forma de radiografar não só as nossas vivências, mas também de quem estava no entorno do universo da banda, especialmente no [bar] DelRuim, em BH. Para mim, é uma das músicas que melhor captura a ambiance noturna do disco.


05) “No Coração do Mundo”- Há muito tempo a gente queria fazer uma canção discotheque. E ela surgiu de um jeito muito legal: estávamos na imersão em Casa Branca e já estava quase tudo pronto para irmos embora. Só faltava guardar os instrumentos. Dez minutos antes, porém, a gente acabou fazendo “No Coração do Mundo”. Alguém puxou o groove, talvez o Pablo, e pumba, fizemos a música. É algo que, para mim, atesta essa formação como banda, tanto pelo processo como pela gravação. Além disso, é algo que me deixa muito feliz porque discoteca é uma coisa muito importante para mim. É algo que eu escutei muito, que moldou minha visão como baixista. “No Coração do Mundo” é uma discoteca mais roqueira, mas também é a cara da Pelos – como é “Da Serra ao Bonfim”, do disco anterior. A letra é do Robert – e o título faz referência a um filme da Filmes de Plástico, do qual o Robert participou. A Filmes de Plástico tem uma ligação muito arterial com a Pelos: o Gabito [Gabriel Martins, diretor de “Marte Um”] dirigiu o clipe de “Lágrimas Brancas”, existe um videodocumentário da Pelos nos anos 2010 assinado pela produtora – e o Robert, o Kim e o Tambor participam agora do “O Último Episódio”. É uma conexão fraterna e imagino que o Robertinho tenha pensado nisso para batizar a música.


06) “Acaiaca” – Do ponto de vista sônico, “Acaiaca” é um pós-punk clássico, que retoma algo da Pelos do “Paraíso Perdido nos Bolsos” (2017) e até mesmo de antes. Ela nasceu de uma linha de baixo bem The Cure, bem Peter Hook, super reta. A estrutura da música, que é minha com o Robert, nasceu no baixo. Acho que eu cheguei com um pedaço das guitarras para ela também, mirando não só o pós-punk, mas também nesse novo dream pop/shoegaze. E na gravação, com os synths, ela ganha uma coisa meio Legião Urbana. Pessoalmente, é uma das minhas músicas favoritas, até porque tem uma história muito pessoal com a letra. São duas histórias, na verdade. Uma é porque o corpo da letra está composto a partir de outro texto, de um grande amigo meu – e o título da música está relacionado a esse texto. Acaiaca é o nome de um edifício muito imponente em Belo Horizonte, que costuma ser uma escolha comum de suicidas na cidade – e a música tateia esse tema. A outra história é porque eu divido a letra com a Natália Fernandes, uma grande amiga. Nós ficamos amigos a partir de um date, e eu lembro que no nosso primeiro date – terça-feira, 3h da manhã, num esquema bem “noturnas” – ela me falou essa frase que está na letra. “Metade de mim é desastre e a outra metade quer partir e quebrar”. Lembro de falar na mesma hora que eu ia roubar a frase para usar numa música e não ia creditar, porque é assim que funciona. Eu guardei essa frase durante meses, e quando fui escrever a letra de “Acaiaca”, ela veio. Mas como eu não roubo, a Natália ficou como parceira na letra (risos).


07) “Panorama” – A Pelos tem uma cultura de dar títulos provisórios para as músicas – algo que eu acho até perigoso, porque a gente se acostuma com os títulos. O título provisório de “Panorama” era “Gueto Bedes”, em uma homenagem ao Beto Guedes, porque ela tem uma cadência que remete ao lado mais roqueiro do Clube da Esquina, do Beto de “Caso Você Queira Saber”. É algo que veio das imersões – que como eu disse, são muito pautadas por beber cerveja, rir pra caralho, fazer churrasco e escutar muita música. Ouvimos muita coisa juntos, um vai aplicando o outro, vamos lembrando de coisas. E não esqueço que a primeira audição do “Noturnas” foi o “Clube da Esquina”. Até achei que, em algum momento, o “Clube” ia contaminar mais o disco. Ele sempre contamina, mas não contaminou tanto. Lembro da gente escutar o “Clube” juntos mais de uma vez, numa coisa de louvação mesmo – e é interessante como esse disco foi reavaliado hoje em dia, porque durante muito tempo ele era escanteado, havia um preconceito enorme. Voltando ao groove, ele vem do Pablo, e nós fomos construindo na imersão. A letra é do Tambor, e eu acho que é uma letra que ajuda a explicar a ideia do “Noturnas”, que não é só da boemia ou da melancolia. Na minha visão, é o Tambor no carro ou no Uber, fotografando subjetivamente uma grande avenida da cidade, num momento contemplativo, com os atravessamentos do rádio, as ondas de nostalgia. Acho a letra muito feliz.


08) “Insustentável Leveza” – Inicialmente conhecida como “Canção Política para Simone Biles Bailar”, em uma referência ao Minutemen. Mas para não entregar muito o jogo, ela acabou mudando de nome e virando “Insustentável Leveza”. É o comentário político mais evidente do disco. A música e e a letra são minhas, numa forma de declarar meu amor a Curtis Mayfield – um dos artistas que eu mais amo na vida. Tenho uma certa obsessão com ele, como tenho com Stevie Wonder. Ela nasceu a partir de uma linha de baixo que eu ficava repetindo insistentemente na banda. Quando eu mostrei, os meninos encheram o saco: “ah, essa é a porra daquela linha de baixo que você faz”. Ela é uma música composta no baixo e é um comentário sobre o corpo preto, no ponto de vista do corpo preto masculino. É uma música que fala sobre o que pode e o que não pode, sobre quem pode e quem não pode. Ela talvez seja inspirada numa expressão de um poeta genial de BH, o Ricardo Aleixo, que fala do “lugar de falha”. Ele discute muito a pretitude e usa esse trocadilho poético, bonito e muito potente, para contrapor a excelência do corpo preto. O corpo preto é muito colocado semioticamente nesse lugar da excelência no esporte, nas artes, mas… se falhar é complicado. O corpo preto não tem direito ao lugar de falha – o que está explícito no verso “e se Simone Biles bailar, a culpa é do ar”. É uma música que estaria bem no “Atlântico Corpo”. Além disso, tem a participação da Michelle Oliveira, uma grande parceira nossa, uma cantora magnífica de BH que está preparando o primeiro trampo dela. Para fechar, não sei se foi de propósito, mas essa música tem… um gancho, um refrão para ser cantado em show. De maneira geral, é um disco que tem refrões que a gente espera que sejam cantados em show. Ao mesmo tempo que o “Noturnas” tem elementos mais negros, ele também é um disco mais pop, de canções e refrões.


09) “Da Beira de Tudo”- A maior parte das nossas músicas surge sem letra, mas até onde me lembro, “Da Beira de Tudo” já surgiu com letra. É uma música muito própria da banda. A Pelos tem algumas bandas de estimação, que pouca gente referencia, mas que nós amamos. É o caso do Nick Cave, do TV on The Radio, e de outra banda mais insuspeita, que é o Mercury Rev. “Da Beira de Tudo” é o mais próximo que o “Noturnas” tem do “Deserter’s Songs”, no lado barroco, orquestral, épico. É ainda uma música que dialoga com “Tema Para Um Homem Em Queda”, que encerra o “Atlântico Corpo”: são duas canções com protagonismo do piano e que vão sendo construídas em camadas. É uma letra bonita do Robert, com uma construção textual que traz um um fechamento bonito para o disco. “Noturnas” é um disco que vai entrando, vai chafurdando pela noite, com momentos mais ou menos sombreados. Já “Da Beira de Tudo” pode ser lida como um alvorecer. Talvez seja uma imagem possível. A madrugada acabou. O sol nascerá, já diria Cartola.

Pelos / Foto de Daisy Serena

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.

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