entrevista de João Paulo Barreto
Um dos destaques da primeira edição do Lumen – Festival de Cinema Independente do Rio de Janeiro, “Jamex e o Fim do Medo” (2025), traz o artista plástico baiano Jamex recebendo uma proposta de venda de um de seus quadros e a missão de entrega-lo em mãos ao misterioso comprador. Em todos os percalços pelos quais ele passa em direção ao seu contratante ao transitar por “Salvadolores”, uma versão futurista e quase pós apocalíptica da metrópole baiana, o filme exibe a ideia da necessidade vs. esforço hercúleo de se tentar sobreviver de sua própria arte e ganha uma nível pertinente de discussão para além da eficiente metáfora trazida neste seu mote central. Trata-se de um obra cujo tema central encontra paridade com a sua própria produção.
Mas “Jamex e o Fim do Medo”, primeiro longa metragem de Ramon Coutinho, experiente cineasta com diversos curtas no currículo produzidos desde 2011, quando foi um dos fundadores do CUAL – Coletivo Urgente de Audiovisual, oferece algo para além disso. Na cidade de Salvadolores, local vitimado pela radiação que leva seus habitantes a usar óculos no sentido de se proteger e que registros do passado mostram ao surpreso jovem Jamex a possibilidade das pessoas se reunirem em praias sem qualquer risco de contaminação, uma sombra de um passado recente e pandêmico parece sobressair.
Jamex passa por essas imagens, trazidas aqui ainda em VHS, e o filme de Ramon Coutinho cria com isso um modo de refletir o próprio estilo de arte do pintor, que, em certo momento, é arguido se é pintor de parede ou de quadros. Oriundo do bairro do Nordeste de Amaralina, em Salvador, o jovem artista plástico de 23 anos tem em sua trajetória exposições e a presença de obras no acervo permanente do Museu de Arte Moderna da Bahia. A exposição “Fim do Medo “, que apresentou em 2021, trazia em seu título uma frase que ele costuma usar como um manifesto urbano em paredes e muros localizados entre as ruas de Amaralina e do Rio Vermelho. Foi uma delas que chamou a atenção do diretor Ramon Coutinho.
Diretor de filmes marcantes como “Ritual Pam Pam Pam” (2014) e “Gaivotas ou O Que Fazer com os Braços” (2015), para citar apenas dois dos muitos realizados pelo CUAL, Ramon tem em seu cinema um símbolo que representa bem o audiovisual feito na Bahia por uma nova geração de realizadores desde a década passada. E na obra de Jamex, alguém de uma geração ainda mais recente dentro das artes, essa busca por um meio de se expressar ganha uma reflexo importante dentro deste primeiro longa metragem dirigido por Coutinho.
Com “Jamex e o Fim do Medo”, esse cinema se torna representado dentro da sua própria criação, de seu próprio produto, e utiliza a própria temática de seu material para demonstrar essa representação. Em determinado momento, vemos a própria equipe aparecer em quadro, algo que confirma o que foi pontuado anteriormente em relação à paridade entre o tema da obra e o seu modo de execução e resultado final. Um filme baiano a usar a capital soteropolitana como um pulsante personagem na melhor tradição de clássicos como “Meteorango Kid” (1969), de André Luiz Oliveira, e “SuperOutro” (1989), de Edgar Navarro.
Neste papo com o Scream & Yell, Ramon Coutinho aprofunda essa experiência de criação de “Jamex e o Fim do Medo”. Confira!
O filme traz uma reflexão impactante sobre a ideia da arte como meio de subsistência. Ao conhecer Jamex e perceber o potencial fílmico de sua trajetória como artista plástico, essa ideia de refletir essa reflexão através de um longa foi algo que te despertou para essa possibilidade?
Entre as ruas de Amaralina e o Rio Vermelho, vi pichações que me intrigavam pela potência e amplitude de um pequeno manifesto urbano: “fim do medo”. A imagem dessa frase em um muro rachado já parecia cinematográfico por si só, mas quando conheci Jamex através da produtora do filme, Luísa Maciel, pareceu natural propor que filmássemos algo a partir do cotidiano dele com a cidade. Foi aí que, em 2022, realizamos um curta totalmente livre chamado “Jamex em Busca de Tela”, uma espécie de filme-pesquisa que nos deu a base inicial pra elaboração de um roteiro aberto às mesclas do real com ficcional. A gente queria realizar uma espécie de documentário fabulado, delírio cru do real, onde pudéssemos fazer essa crítica a partir de cinema irreverente, “gastão”, um cinema que brinca ao mesmo tempo que questiona formatos. Jamex realiza seus trabalhos em todo tipo de suporte, de madeira a telas de tecido, nos muros da cidade, tudo que é, enfim, pintável. Ao passo que senti que há no modo de trabalho dele um espelhamento do meu modo de fazer cinema. Um pintor que cruza a cidade pra entregar seu trabalho, que no final das contas é parecido com o corre de tantos outros trabalhadores. Nesse processo, Jamex me apresentou outros vídeos e filmes que outros realizadores haviam feito com ele. Era evidente que a figura dele era cinematográfica. E foi massa ver esses filmes e perceber que nos interessava inventar uma outra coisa, não realista, meio que uma distopia de quintal, onde pudéssemos usar tudo a favor do filme, inclusive o que não desse certo na produção. Queríamos pensar nessa arte como delivery, como produto, que apesar de pertencer a um universo de aparente prestígio, não garante nada ao trabalhador da arte, menos ainda a um artista periférico. Esse tema nos guiou inicialmente e nos fez encontrar temáticas paralelas ao longo do processo.
Salvador aparece como essa cidade (dando as devidas proporções, claro) quase pós apocalíptica, na qual a radiação solar requer uma proteção ocular para seus personagens, algo que remete um pouco ao período pandêmico com as cruciais máscaras. Como foi a criação dessa cidade e desse ambiente quase claustrofóbico com Jamex sendo um observador?
Para o filme me pareceu instigante inventar um tempo/espaço próprio pra a aventura acontecer. Tinha uma ansiedade de um filme que reenquadrasse a cidade como um personagem monstro, muito familiar, mas, também, carregado de estranhezas, situações absurdas e inesperadas. Por isso, junto com o roteiro, elaboramos uma geografia fílmica por onde Salvadolores passa e se rearranja a partir de elementos de ficção científica, dilemas reais da cidade de Salvador: a difícil mobilidade, o cenário de ruínas e descaso, os medos e paranoias da violência. Isso tudo está no filme de algum jeito, tendo Jamex como personagem que observa, se espanta e reage à cidade. Acho que nossa distopia já é viver sob esse regime de vida que gera tantas tragédias e a pandemia parece como um desses efeitos. A radioatividade do filme foi um elemento ficcional que tenta refletir sobre tudo isso, tendo nos óculos um modo de proteção, assim como as máscaras nos foram e ainda são. Objetos de proteção contra algo que está no ar, nesse sentido tem mais haver com uma radiação atmosférica que contamina pelo olho, uma metáfora direta de como nossos olhos são contaminados todos os dias por imagens e informações que levam a distorções e criam reações. O olho aí como porta de recepção do externo, um comentário sobre o próprio cinema ou dos regimes de imagem que nos guiam nesse agora feito de realidades de redes sociais.
Jamex caminha pelas regiões de Salvador meio que como um observador das mudanças sociais e seus contrastes e reagindo a eles. Insistindo em sua tentativa de permanecer nela como artista. Em certo momento, vemos a própria equipe do filme aparecer, em uma rima precisa dos dois tipos de arte.
Sim, reagindo à cidade com um cinema crítico-brincante, que tenta, erra e segue insistindo um formato de produção que também privilegia o processo e o envolvimento artístico da equipe. A cidade tal como ela é, cenário vivo e caótico que trouxe ao filme mais elementos do que inicialmente havíamos premeditado. Esse filme é feito assim por um coletivo de artistas que pôde se aventurar com liberdade em um projeto apoiado por políticas públicas que não quer repetir as lógicas de produção de um cinema industrial consolidado. Pelo contrário queremos um cinema anti-industrial, imperfeito, artesanal, que nos faça descobrir nossa cidade, fazer amigos, afirmar o encontro sobretudo. Afinal se estamos falando de um artista tentando sobreviver em uma realidade desfavorável, esse é também um dever urgente das pessoas da própria equipe do filme. Quando a equipe aparece é pra evidenciar isso, que se a rua do nosso bairro é cenário, nós também estamos nele. Foi assim que conduzimos o processo com sets de quatro, cinco horas de gravação, onde as pessoas estão envolvidas afetivamente, sem hierarquias rígidas, onde todos sentem o movimento que o filme produz para si, e é por isso acredito que a tão complicada “distribuição do cinema nacional” deva partir como um valor de bem estar social que afeta inicialmente aqueles que fazem os filmes. Esse cinema que nos interessa viver é inevitavelmente ativado por esse tipo de insistência que desobedece certas lógicas de uma idealização de um cinema empresarial tão em voga na nossa cidade.
E como foi inserir-se no filme ao lado de Marcus Curvelo como personagens guias para Jamex em sua saga?
Engraçado pensar nos personagens que eu e Marcus Curvelo fizemos como guias, talvez sejam coisas que se revelam depois do filme pronto, porque inicialmente não tínhamos esse objetivo. O personagem de Curvelo por exemplo foi definido quase um dia antes da gravação, e havia pensando em um personagem pra mim que mais desnorteava e confundia a trajetória de Jamex. De certa forma, todos os personagens do filme são uma espécie de guias no caminho errático de Jamex, mesmo aqueles que parecem atrapalhar, acabam por ajudar a inventar um caminho próprio e é essa a questão do filme.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.