Entre o shoegaze e o slowcore, terraplana e Horse Jumper of Love cativam público em São Paulo

texto de Alexandre Lopes
fotos e vídeos de Bruno Capelas

Às 20h31 da quinta feira (6), os curitibanos do terraplana abriram a noite de aquecimento para o Balaclava Fest 2025 no Bar Alto, em Pinheiros, cuja atração principal seria o trio Horse Jumper of Love, de Boston, escalados para o festival para cobrir o cancelamento da turnê sul-americana do Fcukers, que optou acompanhar o Tame Impala em sua turnê norte-americana.

Stephani Heuczuk (voz e baixo), Vinícius Lourenço (voz e guitarra), Cassiano Kruchelski (guitarra e voz) e Wendeu Silvério (bateria) surgiram discretos, com “Salto no Escuro” soando quase tímida, o som ainda ajustando-se à acústica compacta do espaço. Mas bastou começar “Desaparecendo” para o volume e a confiança do quarteto subirem juntos.

“Charlie”, logo em seguida, trouxe o primeiro momento de peso, fazendo o público se mover mesmo na contenção típica dos shows de shoegaze. Com “Hear a Whisper”, dedicada a um amigo que veio de Los Angeles “dar uma força nos pedais”, o grupo mostrou a face mais polida e marcante de seu som: guitarras que evocam tanto guitar bands britânicas quanto o pós-rock americano, mas filtradas pela melancolia sulista de Curitiba.

“S.N.C.” animou de vez a plateia, e “Amanhecer”, com Vinícius nos vocais principais, revelou a beleza contida do repertório recente. “Todo Dia” mostrou o entrosamento vocal entre Stephani e Vinícius, num diálogo que parece sintetizar o espírito da banda: vocais vulneráveis mas doces, sempre à beira da catarse dream pop.

terraplana

No intervalo entre as músicas, o grupo agradeceu o público e anunciou que os vinis estavam à venda na banca de merch, pois as camisetas já haviam esgotado – um feito digno de nota, pois não é toda noite que uma banda do meio independente consegue realizar essa façanha. “Me Esquecer”, uma das poucas do disco “Olhar Pra Trás” (2020), veio com ataque fuzz mais alto e pulsante, contrastando com a delicadeza das faixas anteriores.

“Airbag” reforçou o caráter coletivo do terraplana, com Cassiano dividindo o microfone com Stephani e trocando olhares cúmplices no palco. O show encerrou com “Morro Azul”, faixa que parece sintetizar tudo o que o quarteto vem construindo: melancolia expansiva, guitarras atmosféricas e lirismo desolador em igual medida.

Às 21h15, a banda se despediu entre aplausos calorosos, deixando o público em um breve transe. Não é à toa que o terraplana desponta cada vez mais como uma das formações mais consistentes da cena indie nacional. Se o show foi um aquecimento para o festival, também serviu como lembrete de que a banda já toca em outro patamar: mais madura, mais densa e, mesmo que não faça questão de grandes interações com o público, mais leve no modo de carregar o próprio nome.

Com um intervalo bastante rápido, a Horse Jumper of Love subiu ao palco do Bar Alto às 21h30, inaugurando sua primeira apresentação em São Paulo. “Snow Angel” abriu o set com o contraste de calmaria hipnótica com um ataque meio moroso que marca o som do grupo: linhas de guitarras que parecem flutuar, um baixo quase meditativo e uma bateria contida, mas precisa.

Horse Jumper of Love

Fazendo contraponto a Dimitri Giannopoulos (voz e guitarra), John Margaris (baixo e backing vocals) impressionou ao construir camadas de backing vocais sutis, lembrando o tipo de harmonia que John Frusciante fazia com Anthony Kiedis em algumas faixas do RHCP. Só que aqui a paisagem é outra: mais nebulosa, mais introspectiva, quase em suspensão.

Depois de “Today’s Iconoclast”, Dimitri pediu desculpas de forma bem hesitante (“Sorry, my portuguese is not good… this is our first time here in São Paulo”) e arrancou aplausos dos fãs. “Wait by the Stairs” veio com um dedilhado arrastado e melodia melancólica, seguida por uma sequência que misturou épocas: “Wink” e “Gates of Heaven”, ambas do mais recente disco “Disaster Trick” (2024), ganharam peso e uma nitidez quase improvável para quem costuma soar etéreo no estúdio.

Bem mais falantes que o terraplana, os americanos mantiveram um clima íntimo, quase doméstico, entre as paredes do Bar Alto. “Bagel Breath” arrancou sorrisos, e um fã mais entusiasmado gritou pedindo “Sun Poisoning”. A banda riu, desviou o assunto com “Spaceman” e acabou atendendo ao pedido mais adiante, num dos pontos altos da noite. Em “Ugly Brunette”, o público sacou os celulares para registrar o momento, transformando o Bar Alto num pequeno mar de luzes.

A dobradinha “Orange Peeler” e “DIRT” mostrou o grupo em sua forma mais robusta, mesclando melodia e ruído em doses equilibradas. Antes de encerrar, Dimitri agradeceu ao Terraplana, à Balaclava e ao público “por ter vindo numa quinta-feira” mesclando inglês e um português simpático e torto. O trio fingiu que encerraria ali, mas diante dos gritos de bis, o vocalista cogitou fazer uma música solo. “Nós esgotamos todo o nosso repertório”, brincou.

Horse Jumper of Love

Mas os três decidiram tocar juntos “The Natural Part”, faixa que fechou o set às 22h25. Foi uma apresentação breve, mas bonita: 55 minutos de um som que parece se arrastar propositalmente, uma beleza em marcha lenta. O Horse Jumper of Love, com seu slowcore melancólico e guitarras quase sempre limpas, encontrou em São Paulo uma plateia pronta para escutar cada silêncio entre as notas. E no embalo do Balaclava Fest, deixou claro que a dor, quando bem tocada, pode ser o som mais doce do mundo para fãs interessados.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.

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