49ª Mostra SP: “Jovens Mães”, dos irmãos Dardenne, é firme na denúncia de que o machismo é devastador

texto de Leandro Luz

Às vezes, para que se retome um bom relacionamento com dada obra ou com determinado autor, é necessário praticar certo distanciamento consciente. No cinema, e nas artes, de modo geral, não raro pegamos bode de um diretor ou diretora, sobretudo se ele ou ela mantém uma carreira prolífica e celebrada há tantos anos, como é o caso dos septuagenários irmãos Dardenne.

Os belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne estouraram ainda no início de uma brilhante e vasta trajetória. Com “Rosetta” (1999), o quarto longa-metragem de ficção da dupla – o segundo a ganhar um lançamento de maior expressão internacional, precedido por “A Promessa“ (1996) -, os diretores, roteiristas e produtores levaram a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em um júri presidido pelo canadense David Cronenberg. Anos depois, a dupla ainda levaria para casa outra Palma para um de seus filmes, “A Criança” (2005), concedida por um júri presidido pelo sérvio Emir Kusturica – obra que, aliás, guarda enormes semelhanças com este novo trabalho. Isto sem contar, claro, inúmeros outros prêmios recebidos na França e ao redor do mundo.

O novo filme da dupla, “Jovens Mães” (“Jeunes Mères”, 2025), recebeu o prêmio de melhor roteiro no 78º Festival de Cannes e colocou a régua novamente lá em cima em uma filmografia recheada de bons momentos (alguns deles brilhantes), mesmo após uma temporada recente de lançamentos menos consagrados pela crítica e pelo público (ainda que nunca tenha faltado prêmios também para estes). Em boa forma, os Dardenne retomam um eixo temático já trabalhado há 20 anos em “A Criança” e, ao invés de se concentrarem somente em um casal de jovens com um filho recém-nascido, concebem uma série de personagens, algumas ainda grávidas, outras com os seus bebês já nascidos, todas unidas por um centro de auxílio à jovens mães na Bélgica e por uma rede de apoio imprevista.

Se no filme de 2005 o mote era registrar a urgência e a aflição de um casal de jovens, com um enfoque bem interessante para o pai inconsequente, nesta nova obra eles apostam justamente na multiplicidade de protagonismos. Em ambos, no entanto, a noção de “criança” pode ser aplicada tanto para os filhos quanto para os pais. Ao conhecermos as personagens de “Jovens Mães”, somos imediatamente confrontados com a nossa própria aptidão para julgar muito rapidamente quaisquer pessoas ou situações. Como uma criança pode ser responsável por criar outra? Como esperar o apoio paterno de meninos entre 15 e 18 anos? É possível cobrar que uma adolescente consiga lidar com a pressão social de se tornar mãe de um dia para o outro?

O roteiro é firme em sua denúncia: o machismo é devastador; a situação de abandono enfrentada pelas jovens mães do título é um problema gravíssimo. Os Dardenne, para não se deixarem cair no famigerado “filme de tema importante”, buscam um equilíbrio na construção de um conjunto de personagens riquíssimo. Cada uma daquelas meninas (forçadas a se tornarem) mulheres possuem uma personalidade e um desafio únicos. Jessica, Perla, Julia, Ariane e Naïma são personagens complexas e muito bem esquadrinhadas. Elas tomam algumas atitudes nobres, outras nem tanto, mas adotam sempre uma postura humana diante das adversidades, ainda que o mundo insista em desumaniza-las.

O filme jamais cai na tentação de contornar as ações condenáveis dessas mulheres ou de criar situações que justifiquem de forma tola os seus erros. Sobretudo, nunca as condena ao julgamento simplório. Em um movimento arriscado, lá pelo final do filme, uma das mães apresenta um problema de saúde e chegamos a cogitar a sua morte, expectativa esta que é felizmente quebrada. Uma delas não consegue se resolver com a própria maternidade antes de se conectar com a mãe que a rejeitou, a outra acredita que o namorado irá cumprir todas as suas expectativas – casamento, emprego fixo, casa própria. Tem a que precisa lidar com o passado abusivo com a mãe e com o padrasto, e a que precisa encarar as responsabilidades maternas mesmo sem uma aparente aptidão para tal. O texto dá conta de conduzir essas nuances no fio da navalha, é afiado e muito bem trabalhado na boca de atrizes tão jovens e inexperientes.

Impressiona como desde a primeira cena os Dardenne insistem em localizar a ação no meio da rua, refletindo toda a poluição visual e sonora dos ambientes no âmago das personagens. Nos momentos de calmaria, frequentemente registrados dentro do abrigo, ainda assim os olhares revelam inseguranças e angústias. Todas ali estão desesperadas, sem saber o que fazer da vida, mas o senso de comunidade as acalenta. Ao final, na medida em que os conflitos vão se resolvendo – nenhum deles de forma fácil, diga-se de passagem -, o caos também diminui. Ouvimos menos barulhos de buzinas de carros e freios de ônibus, somos menos jogados de lá para cá pela câmera, que sossega um pouco, ficamos mais restritos aos ambientes internos e mais controlados. Respiramos, enfim, não aliviados, mas conscientes de que ao menos um passo foi dado. Talvez o suficiente para que se faça nascer um novo dia com algum horizonte possível pela frente.

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– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É BrasilPlano-Sequência e 1 disco, 1 filme.

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