texto de Renan Guerra
Jafar Panahi apresentou seu primeiro filme, “O Balão Branco”, na 19ª Mostra de São Paulo, em 1995, levando para casa o prêmio Bandeira Paulista da Competição Novos Diretores Em 2018, recebeu o Prêmio Leon Cakoff na 42ª Mostra, ainda quando estava impossibilitado de sair do Irã. Em 2025, o cineasta iraniano veio à São Paulo apresentar pessoalmente seu novo filme, “Foi Apenas Um Acidente” — vencedor da Palma de Ouro em Cannes —, e recebeu em mãos o Prêmio Humanidade, honraria que celebra sua obra e sua importante ação política em defesa da liberdade e dos direitos humanos. A presença física de Panahi na Mostra é um marco simbólico e importante da celebração da arte, do cinema e da liberdade. Por isso se faz necessário um preâmbulo antes de falarmos de seu novo filme: é preciso que se reconte de forma breve sua biografia recente para que se entenda de forma completa o que vem a seguir.
Celebrado como um dos mais importantes nomes do cinema iraniano contemporâneo, Panahi só conseguiu exibir um único filme comercialmente em seu país de origem. Suas obras sempre tiveram prestígio internacional na mesma medida em que eram censuradas e questionadas dentro de seu próprio país. Explicar todo esse pano de fundo complexo da cultura iraniana após a revolução de 1979 comandada pelo aiatolá Khomeini é algo que não cabe aqui nesse pequeno texto, então caso alguém queira se aprofundar na raiz disso, recomendamos a leitura de “O Novo Cinema Iraniano – Arte e Intervenção Social” (2006), de Alessandra Meleiro (disponível aqui).
Panahi foi oficialmente condenado judicialmente em 2010, junto de sua esposa, sua filha e mais 15 amigos. As acusações incluíam propaganda contra o governo do Irã e obscenidade. O cineasta foi sentenciado a seis anos de prisão e uma proibição de 20 anos de dirigir filmes, escrever roteiros, dar entrevistas e sair do país. Em prisão domiciliar, ele não obedeceu às restrições e em 2011 filmou “Isto Não é Um Filme”, espécie de diário-documental. O filme saiu de sua casa em um pen-drive, escondido dentro de um bolo, e de lá foi direto para o festival de Cannes. Em mais de dez anos de exílio dentro do seu próprio país, Jafar Panahi não parou de filmar e lançou obras excelentes como “Cortinas Fechadas” (2013), Taxi Teerã” (2015), “Três Faces” (2018) e “Sem Ursos” (2022). Ainda em 2022, ele foi preso após protestar contra a prisão de outros diretores; ele só foi libertado em fevereiro de 2023, após uma greve de fome.
Ainda sem autorização legal para filmar dentro do Irã e com financiamentos internacionais, “Foi Apenas um Acidente” foi gravado de forma secreta, em uma logística de guerrilha: Panahi acompanhava seus atores e uma equipe mínima, preparada para agir de forma ágil frente a qualquer possibilidade de fiscalização ou batida policial. O filme começa com uma narrativa simples: uma família sofre um pequeno acidente na estrada, seu carro entra em pane e a partir disso desencadeia uma história que vai se desdobrando de forma cada vez mais complexa; o tal pai da família acaba sendo identificado como um possível torturador, sendo assim um grupo de cidadãos organiza um plano de vingança contra esse homem que eles acreditam ser seu torturador.

Esse resumo pode até levar a determinadas leituras, mas lembre-se que estamos falando de cinema iraniano e estamos falando do universo de Jafar Panahi. Aqui a possibilidade da vingança já é um caminho por si só: o encontro desses personagens com esse passado já é o motivo de todos os movimentos do filme. O mecânico Vahid (Vahid Mobasseri), o primeiro a identificar o tal torturador, tem a opção de se vingar solitariamente de seu algoz, mas na dúvida de sua identidade, acaba indo atrás de um grupo de pessoas que passou por experiências semelhantes a sua. O fluxo narrativo escolhido por Panahi é parte singular de seu filme, cada peça cênica ajuda a construir um quebra-cabeça especial dessas experiências e desses personagens.
A partir dessa construção, “Foi Apenas um Acidente” se transforma no filme mais politicamente direto de Panahi: nada mais aqui fica subentendido, nada mais é feito de simbolismos; tudo é direto. Os personagens falam abertamente sobre as censuras, sobre a não-liberdade de pensamento e, de forma ainda mais clara, sobre a tortura e a violência enfrentada por aqueles que ousam confrontar os ditames governamentais do país. Além dos detalhes e pormenores políticos, há algo muito simbólico neste filme: é o primeiro filme de Panahi em que as mulheres aparecem em diversas cenas sem véu.
Em nosso pensamento ocidental, pode parecer algo banal, mas essa é uma das proibições mais simbólicas que recaem sobre a dramaturgia iraniana: mulheres devem sempre ter a cabeça coberta, seja com o hijab, o chador ou mesmo a shayla. Considerando o fato de que as mulheres geralmente não usam véu dentro de suas residências, alguns cineastas optavam por filmar mulheres apenas em espaços públicos — isso pode ser observado em filmes de Abbas Kiarostami e Mohsen Makhmalbaf —, mesmo assim, o véu é sempre uma questão.
Em “Dez” (2002), de Kiarostami, o véu da protagonista parece quase como um dispositivo de tensão, pois ele está sempre prestes a cair e deixar à mostra seus cabelos. Em “Meu Bolo Favorito” (2024), Maryam Moghadam e Behtash Sanaeeha ousaram filmar suas mulheres sem véu e ainda incluir uma emblemática cena em que a protagonista questiona isso perante autoridades; obviamente os dois diretores sofreram sanções do governo, tendo seus passaportes confiscados e sofrendo perseguições até o presente momento.
Enfim, tudo isso cria panos de fundo e ajuda a guiar o olhar do espectador que pode não estar familiarizado com o cinema iraniano e seus ditames, mas apesar de todas as questões reais que atravessam o filme, esse ainda segue sendo um filme de ficção e precisamos pensar sobre esses pormenores. E é aí mesmo que “Foi Apenas um Acidente” se destaca: se nos últimos 15 anos a forma era menor diante da tese nos filmes de Panahi, agora ela é tão importante quanto. A vingança e as dores políticas dos personagens centrais só ganham na medida em que o filme se mostra mais e mais enquanto cinema, crescendo em narrativa e estética.
A vingança que poderia se encher de rancor e de virulência, se constroi na verdade em humanidade e complexidade: esses personagens que buscam vingança são apresentados em sua beleza e fragilidade, em sua mais humana dubiedade, em sua complexa definição de bem e mal. Eles querem vingança, mas eles não são iguais ao seu algoz. E é na hora de construir essas diferenças que o cinema de Jafar Panahi se mostra mais mágico. Cenas banais: o nosso grupo de vingadores reunidos empurrando uma van pelas ruas movimentadas de alguma grande cidade iraniana — seria Teerã? não fica claro —; eles fugindo dos subornos de uma sociedade enraizada na vigilância constante dos erros dos outros; eles reunidos para cumprir certas tradições clássicas que necessitam ser simbolicamente respeitadas. Tudo amarra esses personagens em um cenário de palpável humanidade.
Cenas construídas em takes de delicada beleza. Se recentemente o cinema de Panahi era marcado pelas câmeras clandestinas, enquadramentos indevidamente gravados dentro de carros, câmeras na mão andando pelas fronteiras e movimentos documentais de uma câmera urgente, aqui ele se dá o direito de flanar pela tela. O take amplo e aberto da desértica cova preparada para o torturador; a interessante mise-en-scène das fotos pré-casamento de dois dos personagens em um universo completado por pássaros em revoada; as luzes que filmam os personagens a partir do ângulo do porta-malas da van; tudo é muito bem construído apesar das limitações; a partir das limitações, para além das limitações.
O bonito aqui é que o filme é enraizado na vingança e nos horrores ditatoriais do atual Irã (mesmo que sirva para diferentes cenários de cerceamento, seja no ocidente ou oriente), porém os mais belos galhos dessa narrativa florescem nos momentos em que o filme se dispersa do horror e opta por tatear o sublime do cotidiano. A conversa dividida no tempo de um cigarro tragado na rua; a briga banal de uma amizade de quem se conhece intimamente; a preocupação conjunta de cuidar de forma paternal de uma criança que chora. Para os desatentos, esses pormenores podem ser frivolidades na narrativa, “encheção de linguiça”, mas para quem está de peito aberto, esses são alguns dos momentos mais belos do filme, aqueles em que nos relembram da unicidade do cinema iraniano e do fator que sempre o fez tão especial: a capacidade de capturar com naturalidade aqueles vislumbres metafísicos encontrados no cotidiano, no banal, no comezinho.
“Foi Apenas um Acidente” é, sem sombras de dúvida, o filme politicamente mais incisivo de Jafar Panahi, é aqui que ele ataca de forma mais direta às violências e desumanidades do governo iraniano, é aqui que ele fala de forma mais explicítica sobre censura, tortura e violência. E ainda assim, é o filme em que Panahi nos lembra de forma mais clara sobre a humanidade, complexidade e dor daqueles que resistem, daqueles que seguem lutando, aqueles que persistem na sua terra e que ainda acreditam na mudança — tal qual ele próprio. Se “Sem Ursos” era o filme da dúvida, a quase descrença, a intenção de fuga de sua terra, “Foi Apenas um Acidente” é a definição de que, mesmo à distância, ele não nega quem é e sua arte segue sendo essencialmente sobre o Irã e sobre todos aqueles que acreditam em um país livre e mais humano.
O cinema de Jafar Panahi sempre foi complexo, dúbio e cheio de camadas, porém aqui ele tateia um novo patamar. Aqui ele nos coloca em dois cenários que nem sempre andaram juntos: o cinema como ato político ao lado do cinema enquanto sublimação do real. Cinema com letra maiúscula, Arte com letra maiúscula. Humanidade ao nosso alcance.
“Foi apenas um acidente” chega aos cinemas brasileiros no dia 4 de dezembro em uma parceria da MUBI Brasil com a Imovision, está última a empresa responsável pela distribuição brasileira de todos os filmes de Panahi desde 1995. Legalmente, o filme causou impasses diplomáticos entre representantes políticos da França e porta-vozes do governo iraniano; ainda assim o filme foi oficialmente escolhido como o representante oficial da França no Oscar de Filme Internacional — essa escolha pode gerar debates sobre o que cada país pode selecionar como seu representante, mas ainda assim representa um movimento ousado da França, considerando que Jafar jamais teria a possibilidade de disputar um prêmio assim caso dependesse do apoio de seu país.
Distribuído por diferentes selos em cada região e país, o filme de Panahi ganhou distribuição norte-americana da Neon, a mesma empresa responsável pelas campanhas norte-americanas de “Sentimental Value”, de Joachim Trier, “Sirãt”, de Óliver Laxe, e do brasileiro “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho; todos filmes bem cotados para a categoria internacional do Oscar. Enfim, Neon é um dos nomes responsáveis por alguns dos principais vencedores da premiação nos últimos anos, então tudo que podemos prever é que será uma boa disputa entre grandes filmes – seja qual o for o vencedor, o cinema mundial já ganhou.
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– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava.