Geordie Greep no Bar Alto: emoção, samba e muito suor em modo crooner

texto de Alexandre Lopes
fotos e vídeos de Bruno Capelas

Na quarta-feira, 5 de novembro, o Bar Alto, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, recebeu um convidado improvável para seu pequeno palco como aquecimento para o Balaclava Fest 2025: Geordie Greep, ex-Black Midi, em seu primeiro show solo no Brasil. Desta vez, o guitarrista e vocalista britânico veio acompanhado de uma banda inteiramente brasileira, formada por Vitor Cabral (bateria), Fabio Sá (baixo), Chicão Montorfano (teclados, também presente na gravação do disco “The New Sound”), Daniel Conceição (percussão) e Filipe Coimbra (guitarra).

O clima era de expectativa e muito calor humano – até por conta da alta temperatura que se fez durante o dia na cidade. A sala destinada ao show do Bar Alto estava lotada, e com apenas dois dos três aparelhos de ar-condicionado funcionando (fora o do palco), o público se espremeu no limite entre algum conforto e o balcão do bar nos fundos, que afunilava ainda mais o espaço. Era o tipo de intimidade que você não planeja estar: próximo o suficiente do seu colega de plateia para sentir a respiração (e o suor) no mesmo compasso. Um show precisa valer muito a pena pra isso.

Greep e banda atravessaram a multidão rumo ao palco às 20h27, abrindo caminho em meio a fãs que se acotovelavam em busca de um bom lugar. Ao som de sua própria “Holy Holy” em playback, o músico chegou sorridente e soltou um enigmático “Welcome to your music”, antes de iniciar o repertório ao vivo. A frase, meio brincadeira, meio provocação, soou como uma convocação à sauna experimental que se seguiu.

A abertura veio com “Walk Up” e Greep começava a mostrar sua nova persona, mais maestro canastrão do que membro de um grupo de exibicionismo técnico. Em seguida, veio “Terra”, um samba de gringo recebido de forma tão quente que parecia evaporar o pouco oxigênio que restava na sala, marcado pela força da percussão de Daniel Conceição.

Mais à vontade como crooner do que como guitarrista, Greep reservou o instrumento para momentos chave, como na versão viajante de “The New Sound”, que ganhou vida com improvisos e mais solos. Em “Through a War”, a banda se atrapalhou logo no começo, gerando um false start e uma empática confissão de Greep: “ok, este é nosso primeiro show”. Na segunda tentativa, o resultado foi um samba-jazz sinuoso com pitadas latinas.

Dava para perceber que o grupo tocava como quem ainda estava se descobrindo em tempo real, com Greep dando deixas para as mudanças das partes musicais. E essa vulnerabilidade, longe de ser um problema, de certa forma foi o coração do show – uma confissão pública de que aqueles músicos ainda estavam processando como transpor aquela beleza no palco.

Greep voltou a empunhar a guitarra para uma curta jam bluesística, que se transformou em “Blues”. O público reagiu de forma calorosa, mas a verdadeira catarse veio quando “Holy Holy” foi tocada de verdade. A canção foi ovacionada, e o sexteto a esticou com liberdade, com Greep soltando solos de guitarra embebidos em um efeito flanger enquanto a banda flutuava musicalmente em torno dele. Depois desse número, houve quem tivesse desistido de lutar contra o calor e se afastou do palco, enquanto o restante do público derretia em slow motion.

Uma jam instrumental introduziu “Bongo Season”, seguida por “As If Waltz”, em que o músico precisou literalmente relembrar a melodia aos colegas antes de começar. O encerramento veio com a épica “The Magician”, e a longa passagem de piano se mostrou um desafio para fãs mais do que iniciados. Uma canção de doze minutos realmente não é para qualquer um.

No total, Greep apresentou quase todo o disco “The New Sound”, deixando de fora apenas “Motorbike” e “If You Are But a Dream”. O show terminou às 21h53, depois de pouco menos de uma hora e meia de um set que oscilou entre uma banda se conhecendo em meio a jams sacolejantes e a leveza de um artista orquestrando tudo aquilo, vocalizando um personagem de suas letras de forma exagerada, enquanto sua em bicas trajando um terno.

Se no Black Midi, Geordie Greep era um dos cérebros por trás de uma música conturbada que desafiava estrutura e lógica, aqui ele parece mais interessado em outro tipo de linguagem: a teatral e emocional. Este novo formato de show soa como uma tentativa de reconciliação entre interpretação vocal, pesquisa rítmica e prazer, com alguma vulnerabilidade. Ainda que o entrosamento com a banda brasileira esteja em processo, o que se viu no Bar Alto foi um músico testando novas peles. E que ele venha buscar esses novos caminhos mais vezes aqui pelo Brasil.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.

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