texto de Marcelo Costa
fotos de Fernando Yokota (Codeine / Etran De L’Äir)
fotos de Douglas Souza (The Whitest Boy Alive)
Codeine no City Lights Music Hall, São Paulo (11/10/2025)
Formado em 1989 e finado em 1994, o Codeine viu sua fama crescer entre jovens bandas nos anos seguintes de maneira tão silenciosa quanto o slowcore que a banda entregara nos discos “Frigid Stars” (1991) e “The White Birch” (1994). O relançamento em vinil dos dois álbuns deu fôlego para a primeira reunião da banda em 2012 (o Scream & Yell os viu no I’ll Be Your Mirror, em Londres, e publicou uma entrevista com o trio) e o lançamento de “Dessau” em 2022 (disco originalmente gravado 30 anos antes) serviu como mote para mais uma turnê silenciosa, que, para surpresa de muitos, pousou no aconchegante City Lights Music Hall. Daqueles shows que trazem a etiqueta de “imperdível” (sabe-se lá quando o trio irá se reunir novamente… e tocar no Brasil outra vez), o Codeine ao vivo é capaz de render frases tão insólitas quanto verdadeiras como as ouvidas em meio a audiência em São Paulo: “Como três caras podem fazer tanto barulho?”, diz uma pessoa. “Como o barulho pode ser tão silencioso?”, questiona outra. Entre estes dois vértices, Stephen Immerwahr (vocal e baixo), John Engle (guitarra) e Chris Brokaw (bateria) fizeram uma apresentação emocionantemente quieta, e merece reconhecimento o público presente, que soube valorizar os silêncios (uma peça primordial do som do Codeine) prestando atenção nas inflexões lentas e belas de canções como “D” (que abriu o set), da intensa “Cigarette Machine”, da deliciosamente arrastada “Barely Real” (a materialização da frase de Brokaw, que certa vez disse que conseguia “tocar uma batida na caixa, ir pegar uma cerveja e voltar para a bateria antes da próxima batida”) e da sublime versão de “Atmosphere”, do Joy Division (que, como já descreveu outro, é a angustiante “desconstrução de uma música que já era essencialmente uma desconstrução”), além, claro, das mais esperadas pelo pequeno, mais fiel séquito: “Pickup Song”, “Pea”, “Cave In” e “Summer Dresses”, as duas últimas já no bis, encerrando um show tão intensamente minimalista que merecia ter trechos guardados em pequenos frascos tal qual a obra “50 centímetros cúbicos do ar de Paris”, de Marcel Duchamp, para que os fãs sempre lembrassem da importância do silêncio (e da beleza de assistir ao Codeine ao vivo).

The Whitest Boy Alive na Audio, São Paulo (30/10/2025)
Erlend Øye é um herói da classe trabalhadora publicitária. Seja com o Kings of Convenience – poucas vezes um nome soou tão apropriado a uma banda –, duo folk-pop-bossa-indie que ele formou em 1999 na Noruega ao lado de Eirik Glambek Bøe, seja com este The Whitest Boy Alive, que surgiu quatro anos depois com amigos em Berlim, Erlend carrega nas costas a árdua missão de ser o porta-voz passional desse grupo social tão massacrado pela mídia – antes que alguém peça a palavra para atacar, é preciso aceitar que todos os grupos sociais merecem seu quinhão de diversão, sem julgamento ou crítica. Dito isso, diante de casa cheia, o quarteto norueguês-alemão deu a partida com “Keep a Secret”, que abre o segundo álbum da banda, “Rules”, de 2009, e a batida dançante da canção transformou rapidamente a pista da Audio em uma balada, com diversas pessoas de braços estendidos, mãos jogadas ao ar e olhos fechados, a imersão em estágio pleno. Notadamente, o público já estava nas mãos de Erlend desde os primeiros segundos do show, mas ele, escolado nas estratégias de marketing da estrada, quis garantir a vitória já na primeira música, deitando-se no chão do palco enquanto tocava guitarra para, um minuto depois, emergir ao alto saltando como um canguru, gesto copiado automaticamente e repetidamente pela plateia, e muito mais eficaz que um “tira o pé do chão” de Ivete. “High on the Heels”, outra de “Rules”, permitiu observar as credenciais do trio que acompanha Erlend: a cozinha – formada pelo baterista de trejeitos jazzistas Sebastian Maschat e pelo baixista Marcin Öz – é econômica e eficaz, mantendo o pique do show no alto sem arroubos gratuitos de técnica nem experimentações desnecessárias. Já o tecladista Daniel Nentwig, alternando-se entre um piano Rhodes e um sintetizador Crumar, é o responsável por dar uma certa cara ao som do quarteto. As canções, de nomes curtos, se seguem: “Timebomb”, “Intentions”, “Serious”, “Courage”, “Island” e a apropriada “Burning” propõe um clima de festa antecipada de fim de ano de agência, mas, calma, estamos adentrando novembro e tem Maroon 5 aqui mesmo na Audio em dezembro, para alegria do gerente de projetos, da área criativa e da turma do atendimento: todo mundo merece ser feliz.

Etran De L’Äir no Sesc Pompeia, São Paulo (1/11/2025)
Das areias do deserto do Saara para o calor fumegante da comedoria do Sesc Pompeia, a presença do quarteto de Niger foi um dos grandes acertos da curadoria do Sesc Jazz em 2025 e uma das apresentações mais concorridas do ano na cidade de São Paulo, daquelas que o boca-a-boca aumenta ainda mais a expectativa. Felizmente, Moussa “Abindi” Ibra (guitarra e vocal), Abdourahamane “Allamine” Ibrahim (guitarra, vocal e baixo), Abdoulaye “Illa” Ibrahim (guitarra, vocal e baixo) e Alghabid Ghabdouan (bateria) não sentiram a pressão, entregando não apenas um show memorável, mas uma apresentação que fica fervendo na mente do ouvinte por dias e dias a fio. Direto da capital das guitarras, Agadèz, e devidamente paramentados de turbantes e sandálias belíssimas, o quarteto tuareg disparou seu blues do deserto, árido e contagiante, por quase duas horas ininterruptas, e para entender o pique e a felicidade do quarteto é preciso pensar na cena em que a banda surgiu, em 1995: oriunda do circuito profissional de festas de casamento de Agadèz, o que permite aos integrantes, todos familiares próximos, sobreviverem sem depender de sucesso mainstream, o Etran De L’Äir lançou seu primeiro disco, “Nº1”, apenas em 2018 – o mais recente, “100% Sahara Guitar”, é de 2024. Quem buscar paralelos com Mdou Moctar, nome badalado da cena local que ganhou o mundo nos últimos anos, não irá encontrar nada. Pois enquanto Mdou relê o indie rock de uma maneira tuareg, o Etran De L’Äir faz música para bailar… no deserto. A título de comparação, o que o Etran De L’Äir faz ao vivo está mais próximo de uma rave movida a guitarradas do que de um show de “rock”: Ghabdouan não é apenas preciso na condução da bateria, como faz viradas típicas de música eletrônica enquanto seus parceiros brincam de tocar guitarra, como se conhecessem o instrumento desde quando eram pequenos (Ibra, um dos guitarristas, tinha apenas 9 anos quando a banda foi formada, e hoje conduz o grupo com solos impecáveis e sorriso largo. Foi um show longo para os nossos padrões, mas errados (e desacostumados) somos nós: se estivesse presente, até Zé Macaxeira, que era o noivo, dançaria a noite inteira sem parar. Eita banda de casório boa, um dos grandes shows do ano

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br
Showzaço do Etran De L’Äir apesar da última meia hora realmente ter cansado um pouco. Músicos excelentes e um baterista infernal. Um dos shows mais legais que vi esse ano.