texto de Nelson Oliveira
fotos de Vini Simoni
O que pode acontecer em quase uma década e meia? Este escriba confessa: pelos mais diversos e tolos motivos, não via Criolo no palco desde 2012, quando a Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, fervia – lotada – sob a tensão de uma greve da Polícia Militar e o clima quente de fevereiro, embrasado pelo então recém-lançado “Nó na Orelha”. Eram dias em que o rap brasileiro, ainda olhado meio de soslaio por quem não era da cena, começava a furar a sua bolha e o paulistano surgia como um de seus mensageiros. Treze anos se passaram – dos 50 que o artista celebra na sua turnê de aniversário – e o tempo, que é senhor de tudo, moldou o músico e o homem.
O Criolo de hoje, cinquentão, já não é o mesmo porta-voz daquela geração, ainda que alguns cenários sigam pouco mudados – como os que envolvem a polícia, protagonista dos shows de 2012 e 2025, por razões diferentes. Cada vez menos doido, como indicava sua alcunha artística inicial, e, por outro lado, mais versátil e cercado por uma aura de tranquilidade enigmática, Criolo é um artista que escolheu o caminho da fusão, dissolvendo o rap em samba, em MPB, em dub, em reggae, em tudo o que couber naquilo que restou de fé e de sentimento. Essa mesma reflexão podia se instalar nas mentes de quem esteve naquela Concha repleta, vários verões atrás, e na que ficou cheia por três quartos nesta primeira noite de novembro. E aí, alguém nos ajude, Lázaro, a entender quais os caminhos que a vida e a carreira de um cantor/rapper podem tomar, a partir de suas decisões e novas influências, ao longo de 13 dos seus 50 anos.

O show soteropolitano da turnê “Criolo 50 anos” começou com “Mariô”, e o som bastante ruim foi um imprevisto que ameaçou travar a engrenagem de uma noite que prometia. A plateia esperava um reencontro, mas Criolo precisou lidar primeiro com problemas técnicos para poder ser escutado plenamente. Em “Duas de Cinco”, ainda se buscava a melhor equalização, mas sem sucesso. O artista precisou interromper o show para ajustes e só quando veio “Sistema Obtuso” – entrecortada por uma interpolação de “Canto de Xangô”, transformada num funk ao final – o som começou a se ajeitar, permitindo que o espetáculo respirasse e os arranjos inéditos, preparados para a turnê, ganhassem corpo. Lá de cima, o áudio ainda soava confuso; nos degraus mais embaixo, perto do palco, o público começava enfim a sentir o peso das batidas e escutar os versos entoados pelo paulistano.
Em seguida, a reprodução de um depoimento do baiano Tom Zé sobre o seu modo apocalíptico de produzir arte deu o tom da transição para “Esquiva da Esgrima”, e, em seguida, o DJ Dandan – um dos fundadores da Rinha dos MCs ao lado de Criolo – preparou o terreno soltando “Is This Love”, antecipando a levada reggaeada de “Samba Sambei”. Depois, “Sucrilhos”, reconfigurada num híbrido de dancehall e dub sobre base boombap, ratificou a importância da mistura de gêneros no trabalho do paulistano, como forma de expressão de novos sentidos e de objeção. A mesma oposição normativa que ele evocou, diversas vezes, em discursos sobre como a cultura produzida na Bahia, em especial pelos povos de origem africana, “até parece entretenimento, mas é resistência”.
Em seguida, Criolo poderia ter optado por fazer fan service e atravessar searas com batidas mais animadas em seu trabalho, na busca por agradar a um público já entregue. Mas, hermético, emendou duas faixas de teor político e religioso de “Sobre Viver”, seu (bom) e mais recente álbum de estúdio, lançado em 2022 (e comentado faixa a faixa pelo próprio Criolo aqui no Scream & Yell). O paulistano invocou “Ogum Ogum” e, logo depois, desceu para o meio da plateia em “Yemanjá Chegou”.

Cercado pelo público, Criolo avistou um bebê de colo carregado pelo pai e, com a serenidade de quem transforma dor em reza, dedicou palavras e os versos apaziguadores das canções às crianças das favelas, pedindo proteção para suas vidas e consolo para as famílias que perderam entes queridos por ações da polícia e por envolvimento com o tráfico de drogas. Especialmente aquelas afetadas pela megaoperação policial mais letal da história do Brasil que, no fim de outubro, deixou 121 mortos no Rio de Janeiro, dentre os quais 117 moradores da Vila Cruzeiro.
Desde antes do início do show, o telão já anunciava o tom da noite, projetando mensagens que denunciavam a chacina do povo da favela disfarçada de guerra ao tráfico. E as forças policiais, que em 2012 estavam em greve e haviam mergulhado Salvador numa onda de violência justamente nos dias em que Criolo se apresentava na Concha, voltavam a ser tema central 13 anos depois. Pouco ou nada mudou – nem nas favelas, nem na corporação que ainda insiste em chamá-las de campo de guerra e tratar seus moradores como alvo preferencial.
O Criolo de tom político – mais direto nos primeiros trabalhos e mais alusivo, quase metafórico, nos mais recentes – voltou a ganhar corpo no palco. Envolto numa bandeira da Anistia Internacional, que recebeu de alguém no gargarejo, o artista discursou sobre direitos humanos e a matança nos morros e vielas. Inclusive, voltou a fazê-lo explicitamente mais tarde, após “Menino Mimado” e seu mantra “meninos mimados não podem reger a nação”. Ele apontou para o telão, que exibia as frases “quem patrocina o crime organizado não mora na favela” e “chega de guerra, a favela pede paz”, e pediu para o público ler junto, em tom de grito de torcida, o que estava escrito.
Antes disso, o paulistano entoou o hino urbano “Não Existe Amor em SP”, que ganhou tom de lamento às águas, como se Salvador emprestasse por alguns minutos sua maresia à solidão cinza paulistana – ainda que a Soterópolis de hoje venha se tornando uma selva de pedra e cimento, com o patrocínio da gestão municipal. Depois vieram as cadeiras, o clima de boteco, e um bloco de samba, focado no álbum “Espiral da Ilusão”, de 2017, tomou conta da Concha. Iniciado com a já citada “Menino Mimado”, o segmento trouxe, em “Lá vem você”, um Criolo mais terno, que se alternaria com o poeta de habituais palavras cortantes até o fim da apresentação.

A reta final começou com “Linha de Frente”, abrindo uma sequência de momentos altos, com a Concha embarcando na cadência do samba. Xeina Barros foi chamada ao palco para cantar “Alguém me Avisou” e “Sonho Meu”, em tributo a Dona Ivone Lara, antes de Criolo soltar “Retalhos de Cetim”, eternizada por Benito di Paula.
Em que pese a influência do samba na trajetória de Criolo, ele é um rapper, afinal. E os últimos momentos da apresentação tinham que contar com o fundamento, onde tudo começou, no Grajaú e nas batalhas de rimas. Em “Subirusdoistiozin”, um rapaz do público pediu para subir ao palco, dançou, apresentou suas rimas e terminou até trocando telefone com Edy Trombone – um lampejo de espontaneidade que lembrou o espírito primordial, da cultura hip hop regada a rua, improviso, irmandade e fortalecimento do coletivo. Perto do fim do hit, o paulistano resolveu se desdobrar em “Oceano”, de Djavan, cantada a cappella. E ainda houve tempo para outra surpresa: o último refrão veio com ecos de um inusitado beat em drum ‘n’ bossa, ao estilo Fernanda Porto.
O fechamento do show veio com “Grajauex” e “Convoque Seu Buda”, que inflamaram o público e encerraram uma travessia entre o ontem e o agora. “Bogotá” ficou de fora da seleção de 18 músicas, mas ninguém pareceu sentir falta. O Criolo de 2025 não precisa repetir os passos do de 2012: ele os reconfigurou, absorvendo o tempo, suas feridas e seus ensinamentos, com a experiência que só a vivência pode dar.
O que mudou nesses 13 anos? O Criolo que retornou à Concha Acústica do TCA talvez não seja mais uma porta de entrada para o rap, gênero que hoje ocupa um espaço consolidado e já não depende de poetas que misturem gêneros e versos afiados para serem ouvidos por quem antes ignorava a cultura hip hop. O cenário se ampliou, ainda que, como efeito colateral, boa parte dele tenha sido tomada por traps de baixa qualidade que cumprem, à sua maneira, o papel de popularizar o ritmo. O paulistano, porém, continua sendo uma janela aberta para entender o Brasil que insiste em rimar tragédia e esperança. Afinal, as polícias, essas sim, seguem assustadoramente parecidas com o que eram em 2012.

– Nelson Oliveira é jornalista e fotógrafo residente em Salvador. É diretor da Calciopédia, foi correspondente de esportes do Terra na Bahia e colaborou com UOL, VICE e Trivela.
– As fotos que ilustram o texto são de Vini Simoni, baiano, fotógrafo/filmmaker, publicitário