entrevista de Jullie Piva
No início dos anos 90, os irmãos Mike e Tim Kinsella não deveriam imaginar que mais de 30 anos depois de tocarem músicas e formarem bandas entre amigos na sala de uma casa em Chicago, nos Estados Unidos, eles se tornariam ícones internacionais do hoje conhecido midwest emo – vertente de artistas do centro-oeste estadunidense voltados à segunda onda do emo – e chegariam a influenciar artistas do underground internacional (e brasileiro).
Juntos, eles formaram uma das mais importantes bandas da cena, o Cap’n Jazz, que, depois de alguns hiatos e 30 anos após o lançamento de seu único álbum de estúdio “Burritos, Inspiration Point, Fork Balloon Sports, Cards in the Spokes, Automatic Biographies, Kites, Kung Fu, Trophies, Banana Peels We’ve Slipped On, and Egg Shells We’ve Tippy Toed Over” (1995) se reúne em turnê internacional, com show único no Brasil, neste próximo sábado, dia 8 de novembro, no Cine Joia, em São Paulo.
Hoje, no entanto, já não é novidade que os irmãos Kinsella tem base fiel de fãs brasileiros, afinal o País também viveu uma grande cena emo nas grandes metrópoles, com direito a matéria no Fantástico, e que, de forma inversamente cronológica, levou o público às origens do gênero, principalmente pela extensão de consumo de música facilitada pela internet.
Em 2011, esse amor pelos irmãos aqui no Brasil já ficava evidente: Tim Kinsella lotou as duas sessões seguidas de sua apresentação solo no Sesc Belenzinho, em São Paulo, onde a maioria dos presentes pediam músicas de seus projetos, como o próprio Cap’n Jazz, Joan of Arc e Owls. Já em 2023, sete anos após o inesperado retorno da também icônica American Football, em que Mike sai da bateria para o microfone, a banda desembarca para sua primeira apresentação no Brasil, emocionando todos os fãs que, anos atrás, nem sonhavam que o grupo se reuniria, muito menos que lançaria novos álbuns e menos ainda que se apresentariam por aqui.
“Não sabíamos se haveria interesse real ou se eram apenas 11 pessoas pedindo ‘please come to brazil’ em todos os posts”, disse Mike, relembrando o show de dois anos atrás, no Balaclava Fest 2023, em que pôde comprovar a emoção com que os fãs brasileiros receberam a banda e também o Owen, projeto solo do artista. Em conversa com o Scream & Yell, Mike Kinsella falou sobre como é voltar a fazer turnê com o irmão Tim e com o Cap’n Jazz, como são seus processos de composição, sua relação com fãs brasileiros e seu último álbum, “The Falls of Sioux” (2024). Confira abaixo a conversa exclusiva.
Como está a divulgação do seu último lançamento, “The Falls of Sioux”? O que você tem feito desde que ele saiu (em abril de 2024)?
Já faz tempo suficiente desde que lancei o álbum e fiz alguns shows, mas não tantos assim. Desde então voltei ao mundo do American Football, depois entrei no mundo do Cap’n Jazz, depois voltei ao mundo do American Football e agora estou de volta ao mundo do Cap’n Jazz esta semana. Este deverá ser o primeiro show do Owen em talvez cinco ou seis meses, talvez durante todo o verão. Estou meio nervoso… e animado.
Estava curiosa sobre o nome “The Falls of Sioux”. O que inspirou o título e as músicas?
Bem, há uma espécie de história. Sioux Falls, na Dakota do Sul, é uma cidade onde o Cap’n Jazz tocou algumas vezes quando eu era adolescente, e era o lugar mais a oeste que eu tinha ido até então. Então, na minha mente, acabou se tornando uma visão romântica, tipo explorar, ser jovem, conhecer novas cidades e estados e viajar de forma geral. Então, foi uma espécie de retorno àquele sentimento de excitação por viajar e explorar.
Como você se sente sobre a evolução das suas músicas desde o álbum de estreia do Owen até o último?
Boa pergunta. Acho que estou melhorando nisso. Antes eu pegava uma guitarra, tocava, e o que saísse eu pensava: “Bem, isso deve ser uma música porque eu toquei”. Ou eu tentava soar como uma banda que eu gostava. Agora sou um pouco mais… muito mais crítico, tipo: “Ok, isso é derivativo? Posso fazer melhor? Posso tornar isso mais interessante?”. E, liricamente, é o mesmo processo de tentar várias letras, várias maneiras diferentes de cantar sobre a mesma parte e ver qual soa mais natural ou mais impactante, eu acho. É, acho que agora estou escrevendo com mais intenção e antes eu apenas gravava o que saía ou algo assim.

É verdade que você não gosta do seu álbum de estreia do Owen? Vi isso em um post no Reddit.
Como adulto, acho que faz parte do processo que me trouxe até onde estou agora. Mas aquelas músicas não foram escritas para ser um álbum. Elas eram só eu aprendendo a usar o software ProTools. Então eu estava tipo: “Ok, como que se adiciona uma faixa? Beleza. É assim que se adiciona uma faixa. Como adiciona reverb?”. Sabe? Acho que as músicas não eram o foco. Era mais o processo. E quando terminei, a Polyvinyl disse: “Ok, você tem essas músicas, podemos lançar.” Então, eu não diria que não gosto, mas também não diria que gosto. Aconteceu, sabe.
É como uma tatuagem antiga…
Exatamente. Sim. Eu nunca… Eu realmente não penso muito sobre isso. É exatamente como uma tatuagem antiga.
Como você se sente sobre essa evolução? Você se sente diferente, tocando melhor e o processo…
Sim, eu me sinto, no geral, mais confiante. Talvez… por exemplo, ontem à noite não consegui dormir, e escrevi uma letra que gostei ou meio que descobri sobre o que uma nova música seria. Quando acordei a adicionei numa melodia e depois trabalhei nela por mais uma hora ou algo assim, a tornando mais interessante. Mudei algumas partes, no começo era em primeira pessoa, depois passei para segunda pessoa, depois deixei um pouco mais “cru”, se faz sentido – uma forma que para mim tem mais impacto. Então sim, estou apreciando novamente o processo – gosto de chamar de trabalho – e de trabalhar me desafiando ou me mantendo interessado, eu acho.
E quando está escrevendo, você já sabe se a música é uma música do Owen, do American Football ou de outro projeto?
Sim, é meio óbvio. Definitivamente, liricamente, é definir qual tipo de persona. American Football é muito mais sincero, ou definitivamente costumava ser. Ainda é mais sincero e um pouco mais sério. E eu meio que estou consciente de que o que eu digo pode refletir outros seres humanos que talvez, sabe, não escreveriam certas coisas. Então tenho que estar atento a isso.
Com Owen é realmente egoísta, quase como se eu pudesse dizer qualquer coisa que eu quisesse e não houvesse consequência. Então, musicalmente a maior parte do que escrevo é acústico e é obviamente Owen.
Mas há confluências às vezes, e geralmente eu pergunto: “Alguém quer pegar isso para o American Football?”. E algumas vezes acontece. Normalmente eles dizem: “Não, estamos bem”.
E você sente, quando toca músicas do American Football em shows do Owen, que as músicas são mais parecidas com as músicas do Owen, tipo “Home is where the Haunt is”?
Sim. Quero dizer, as únicas que eu toco… Isso não é totalmente verdade. Eu toquei “Never Meant” em shows do Owen.
Porque é o hit…
Sim, é o hit. Tipo, parece que estou fazendo um cover neste caso. “Home Is Where the Haunt Is” eu teria escrito do mesmo jeito, meio que como uma música do Owen. Ela foi meio que desenvolvida com esse intuito. Essa foi uma que eu pensei: “Ei, vocês querem fazer isso funcionar para o American Football?” e eles gostaram o suficiente para trabalharmos nisso e deu certo.
Qual era aquela… Oh, não consigo lembrar o nome. “Sound Falls” também. Mhm. Não consigo lembrar. Posso apenas… (canta o riff) Acho que é a quarta música (nota: “Cursed ID”)… Enfim, é uma música do “The Falls of Sioux” que tentamos colocar no American Football, e cada vez que a banda tocava, parecia tão diferente do demo original, da vibe original. E pensei: “Esqueçam, quero essa pra mim”. Então, sabe, funciona. É fluido, eu acho.
Falando nisso, eu estava no show do American Football em 2023 e no show do Owen. Você lembra que teve problemas com o cabo durante a apresentação?
Sim.
O que aconteceu? Todo mundo pergunta até hoje. Nós lembramos muito de você pedindo caipirinhas (enquanto os técnicos tentavam resolver o problema).
(Risos) É essa tatuagem. Caipirinhas (mostra a tatuagem que fez em homenagem ao drink brasileiro). Acho que o cabo de conexão estava dando curto, então tinha muitos estalos, se eu me lembro bem. E (quando isso acontece) é uma distração, é difícil… pois já me sinto um pouco vulnerável (no palco), e se algo der errado, eu meio que fico irritado.
Mas você foi ótimo.
Ok, legal.
Foi uma ótima forma de fazer as pessoas rirem, etc.
Perfeito.
E como você se sente sobre os fãs brasileiros? Estive no show do American Football também, foi um momento muito emocionante para nós fãs. Nunca imaginávamos que a banda se reuniria há 10 anos e nem que vocês viriam ao Brasil. Foi como um sonho para todos. Vocês sabiam sobre os fãs brasileiros? Imagino que sim pelos comentários “please come to Brazil” nas suas redes sociais…
O meme, a piada, sim (risos). Mas acho que sabíamos, sim. Não sabíamos se haveria interesse real ou se eram apenas 11 pessoas pedindo “please come to Brazil” em todos os posts. Mas foi uma escalada, o que é legal. Então, sim.
Vocês ficaram surpresos com o público?
Ficamos surpresos. Definitivamente surpresos. Sempre que viajamos para fora dos Estados Unidos, ficamos confusos sobre como as pessoas ouviram o álbum ou como ele ressoa. Especialmente o “LP1” (álbum de estreia do American Football, de 1999), que é um produto do tempo e do espaço de uma pequena cidade em Illinois, sabe, nos Estados Unidos. Então, acho que não percebemos que se traduziria para o mundo todo ou algo assim.
Vamos falar sobre o próximo show do Owen. Alguma surpresa no setlist, além das novas músicas de “The Falls of Sioux”?
Provavelmente algumas. Tento (pensar em tocar coisas diferentes)… só porque sei que não volto ao Brasil com frequência. Vou tentar achar algum lugar onde esteja escrito o que toquei da última vez. Mas há algumas músicas que toco sempre, só porque me fazem sentir confortável. Teremos algumas das novas com certeza, só porque são as que estou mais animado para tocar. É tipo uma mistura de tudo.
E você nunca toca com bandas, só você como Owen.
Como Owen sou só eu (no palco).
Porque sinto que você está experimentando mais músicas instrumentais, tipo banda, nos últimos álbuns.
Há muita coisa que falta (ao vivo), mas eu gosto de ter controle, gosto de poder fazer a piada sempre que sinto vontade. Posso deixar coisas mais baixas ou mais altas, conforme eu estou sentindo o momento. Então consigo ler melhor o ambiente.
Como foi voltar a tocar com seu irmão e com o Cap’n Jazz depois de tantos anos? Para nós fãs brasileiros, é outro sonho.
Sei como são meio selvagens, relativamente selvagens, os shows do American Football, então imagino que eu tenha grandes expectativas para o show do Cap’n Jazz, que é super divertido e muito confortável. As músicas não são necessariamente músicas que eu escreveria agora, mas definitivamente ainda estou apegado a elas. É visceral de um jeito que American Football e Owen não são. Então é uma boa forma de se soltar. Gosto de estar atrás (na bateria) nesse projeto. Então isso é divertido. Sabe, o Tim faz a parte dele na frente. Deve ser ótimo. Talvez dure só por um tempo ou talvez dure para sempre. Não sei. Estou apenas esperando ansioso por isso. Vou tentar aproveitar (o momento).
Já ouviu falar do coletivo/festival Banda de Casinha aqui no Brasil?
Acho que não.
É um coletivo/festival com bandas emo e independentes. Banda de Casinha é tipo “little house bands”, com logotipo e festival inspirados na casa do “LP1” do American Football.
Ah, legal. Isso é incrível. Não sei como explicar. Acho que simplesmente é como a casa do American Football, a casa de verdade. Nós estamos constantemente tentando pensar em maneiras legais de usá-la na comunidade ou, sabe, para ajudar os fãs e tal. Então, é legal.

E vocês têm um Vans agora (com a arte da capa do “LP1”)…
Sim, temos um Vans agora, certo!
Falando sobre bandas independentes, que conselho você daria para bandas e artistas brasileiros tentando se estabelecer?
Já disse isso antes em entrevistas, e meu conselho é: se você gosta de fazer, continue fazendo. Tipo, se parece trabalho ou se você fica estressado com isso, ou se não está funcionando, se você não consegue pagar o aluguel de jeito nenhum, talvez queira tentar outra coisa. Mas se você consegue se virar, tipo dormir no chão de um amigo por alguns meses e continuar na banda e gosta disso, faça. Eu estou onde estou agora só porque continuei fazendo, eu fazia quando ninguém estava ouvindo, eu fazia quando poucas pessoas estavam ouvindo, eu ia fazer de qualquer jeito porque gosto, de novo, do processo. Eu gosto do processo. Então, continue fazendo isso.
Há algo mais que você queira falar que eu não perguntei?
Só o quanto estou animado por estar de volta. Mal podemos esperar. Estávamos tipo, “temos que voltar para a América do Sul”. American Football fez acontecer. Então estou feliz que o Cap’n Jazz também. Mal posso esperar.
– Jullie Piva é jornalista e escreve sobre música desde 2010 para diversos sites, artistas e projetos.