Ao vivo: Refused incendeia São Paulo pela primeira e última vez

texto de Fabio Machado
fotos de Douglas Mosh

Na saída do já histórico show de estreia e despedida do Refused no Brasil, este jornalista pôde ouvir alguns relatos de jovens que também haviam acabado de assistir a apresentação. E a julgar pela juventude, a missão dos suecos foi cumprida. Curtiram as inevitáveis rodas de mosh da noite, os discursos certeiros de Dennis Lyxzén e principalmente a devoção do público que compareceu: “os caras cantaram as músicas o show inteiro”. Além de ser um termômetro bom sobre tudo o que rolou naquelas horas dentro do Terra SP, é também a constatação de que a mensagem do Refused continua extremamente relevante e atinge não apenas quem era jovem na época de lançamento do “The Shape of Punk to Come”, em 1998 (ainda que essa amostragem representasse a maioria dos presentes no local).

Também é importante dizer que a abertura ficou a cargo do Eu Serei a Hiena, outro grupo que fez história no underground paulistano com sua abordagem única que une post-hardcore, influências jazzísticas e paisagens instrumentais reflexivas. Veteranos de outras grandes bandas da cena, Fausto Oi (guitarra), Juninho Sangiorgio (guitarra), Nino Tenório (bateria) e Wash de Souza (baixo) estavam tranquilos no palco e focados em fazer música, e se o público ainda não estava totalmente presente durante a abertura, quem já estava perto da grade desde cedo conferiu e aprovou o som.

Eu Serei a Hiena

Seguiu-se um pequeno intervalo para que o palco fosse preparado para a chegada dos suecos enquanto o som da casa procurava agradar a galera com uma playlist que foi de Turnstile a Bad Brains, passando por Rage Against the Machine – aliás, logo após os acordes de “Bulls on Parade” entram em cena Dennis Lyxzén (vocal), David Sandström (bateria), Mattias Bärjed (guitarra) e Magnus Flagge (baixo). No telão atrás do palco, uma única frase já daria o tom do que viria pela frente: “This Is What Our Ruling Class Has Decided Will Be Normal” (isso é o que a nossa classe dominante decidiu que será normal), frase atribuída ao militar norte-americano Aaron Bushnell antes de se auto-imolar em protesto ao genocídio israelense em Gaza em 2024. Não é por acaso, portanto, que o show comece com “Poetry Written in Gasoline” e seja o suficiente para incendiar (metaforicamente) quem estava aguardando algumas décadas para testemunhar o Refused ao vivo e a cores.

Com uma qualidade de som poucas vezes vista em shows desse porte por aqui – em especial para o som da bateria – Dennis cumpriu a promessa dita em entrevista ao Scream & Yell de “dar o que as pessoas querem” berrando as letras de “The Shape of Punk to Come” e “The Refused Party Program”, ambas do disco “The Shape of Punk to Come (1998)”. E os jovens mencionados no início do texto estavam certos: quase todos ali estavam berrando as letras-palavras-de-ordem junto com Dennis, deixando a catarse fluir no mosh ou de forma mais quieta, agitando em seus próprios lugares.

Refused

Esse clima seguiu com “Rather Be Dead”, tema mais conhecido do álbum “Songs to Fan the Flames of Discontent” (1996) que aqui ganhou uma pegada ainda mais nervosa e pesada que o da gravação original. No palco, a energia da banda é visível e mesmo aos 53 anos e recuperado de um infarto em 2024, Dennis Lyxzén ainda arrisca vários pulos pelo palco enquanto agita o cabo do microfone pelo ar. Eles realmente decidiram por terminar quebrando tudo, e ao vivo é perceptível que não é só da boca para fora.

Em meio às músicas, também houve espaço para reforçar o posicionamento político do conjunto. Para além da bandeira palestina visível em um dos amplificadores, Dennis também fez comentários sobre a situação política mundial e as guerras culturais que são criadas como distração enquanto genocídios acontecem. “Se você tiver força, lute pelos mais fracos. Se você tem voz, fale por quem não tem voz. O jogo político às vezes pode tirar a nossa força, essa é a intenção deles”. E para quem tinha alguma dúvida sobre a postura do Refused, outra fala importante do vocalista deixa muito explícito o que está em jogo: “Se vocé pensa que pessoas trans, imigrantes ou LGBTQIA+ são o problema, é você que pode ser o maldito problema”. Pode parecer trivial ou desnecessário falar que a plateia apoiou e aplaudiu, mas em tempos como os nossos é sempre uma esperança ver que a despolitização cada vez tão presente na indústria do entretenimento passou longe nessa noite.

“‘Come to Brazil’ finalmente se tornou uma realidade”, comenta Dennis sobre a passagem do grupo pela primeira e última vez em terras brasileiras, antes de explicar que em 1998 o primeiro término do conjunto foi algo muito triste e patético, mas que agora era uma celebração. E pediu licença para tocar músicas do início dos anos 1990, quando a intenção do Refused era ser uma banda de hardcore old school: “Circle Pit” (do “Rather Be Dead EP”, de 1996) e “Burn it” (de outro EP, “Everlasting”, lançado em 1994), com uma sonoridade mais direta e influenciada pelo crossover entre hardcore e metal que fez a cabeça de muita gente à época, em comparação aos ritmos frenéticos e caos semi-controlado de “The Shape of Punk to Come” – registro que seguiu representado no setlist em temas como “Summerholidays vs. Punkroutine” e “The Deadly Rhythm”, que nessa execução teve um trechinho de “Raining Blood” do Slayer (uma das poucas bandas que conseguem unir punks e headbangers) no meio da música.

Refused

Ainda que os nativos de Umeå façam o possível para deixar o setlist variado, trazendo tanto canções do início da carreira como outras mais recentes, como “Malfire” e “Economy of Death” (de “War Music”, 2019), é o álbum de 1998 que causou a maior comoção entre os presentes, causando reações que vão da euforia até lágrimas nos olhos, o que não deixa de ser irônico sendo que “The Shape of Punk to Come” criou um grande ponto de interrogação no público do Refused quando foi lançado e, de certa forma, contribuiu para a primeira dissolução da banda, ainda no fim dos anos 1990. Mas isso são águas passadas para os músicos e também para os fãs, que ainda foram presenteados com vários outros temas do álbum, como a profética “Refused are Fucking Dead”, “Worms of the Senses/Faculties of the Skull” e o ponto alto da noite, com a dobradinha “New Noise” e “Tannhäuser/Derivè”.

Antes de mandar a mais aguardada da noite, Dennis falou sobre a necessidade de ação e organização política: “Se nós não falarmos sobre isso, somos cúmplices. Falem com seus amigos e familiares. Free Free Palestine!”. Essa foi a frase reforçada no telão enquanto o riff inicial de “New Noise” era executado, com milhares de celulares filmando a tensão crescente da música até o auge emocional com a pergunta primordial de Dennis: “Can I Scream?” e a resposta veio com o grito de “YEEEAAAAAH” de todos que estavam no Terra SP. E o vocalista faz o que pode para manter a intensidade da música até o fim, indo além do palco e gritando junto à galera da grade, e vai até o chão recitando o mantra final “a new beat…a new beat…a new beat”.

Uma avalanche emocional que foi seguida por outro monolito, a quase progressiva “Tannhäuser/Derivè” com seus quase dez minutos de variações, bateria pesadíssima e riffs atmosféricos. Foi assim que o Refused se retirou do palco, apenas para voltar mais tarde poucos minutos depois com outras duas músicas feitas em extremos diferentes da carreira, porém igualmente explosivas: “Pump The Brakes” (do primeiro disco “This Might Just Be…The Truth, de 1994) e “REV001” (do último disco, “War Music”, lançado em 2019). Um jeito simples, porém efetivo, de mostrar o início e o fim de uma carreira musical que, se não foi exatamente consistente, esteve sempre marcada pela confrontação musical e ideológica. E que continua emocionando e inspirando as gerações mais novas, a julgar pelas impressões daquele grupo de jovens no trem: O Refused estará em breve “morto pra caralho”, mas as semestes de revolução estão bem encaminhadas.

SETLIST

Poetry Written in Gasoline
The Shape of Punk to Come
The Refused Party Program
Rather Be Dead
Malfire
Liberation Frequency
Summerholidays vs. Punkroutine
The Deadly Rhythm
(com interlúdio de “Raining Blood” do Slayer)
Circle Pit
Burn It
Economy of Death
Refused Are Fucking Dead
Worms of the Senses/Faculties of the Skull
Elektra
New Noise
Tannhäuser / Derivè

Bis:
Pump the Brakes
REV001

 

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos. 
– Douglas Mosh é fotógrafo de shows e produtor. Conheça seu trabalho em instagram.com/dougmosh.prod

One thought on “Ao vivo: Refused incendeia São Paulo pela primeira e última vez

  1. Show para entrar no Top 5 do ano. Foda do início ao fim. E ver ao vivo coisas como “Worms of the Senses/Faculties of the Skull”, “Liberation Frequency” e “New Noise” são para deixar qualquer coração punk transbordando. Bandaça.

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