texto, fotos e vídeos de Bruno Capelas
Surgida na era da Jovem Guarda, ao lado dos irmãos no Trio Esperança, a cantora Evinha fez, entre o final dos anos 1960 e meados dos anos 1970, uma série de grandes discos solo. Passeando entre o pop, a MPB, o soul e as baladas românticas, os trabalhos reúnem canções de compositores como Marcos Valle, Antonio Adolfo, Ivan Lins, Gutemberg Guarabyra e Zé Rodrix – além dos irmãos da família Corrêa, que deu ainda origem aos Golden Boys. Com repertório estrelado, a cantora marcou época em seu tempo, a ponto de vencer o FIC de 1969 com “Cantiga por Luciana” e colecionar sucessos como “Teletema”, “Casaco Marrom” e “Ben”, versão para o hit de Michael Jackson.
No meio da década de 1970, porém, ela saiu em excursão internacional com o grupo do maestro Paul Mauriat, se apaixonou pelo pianista Gérard Gambus e foi viver na França, retomando sua carreira discográfica de maneira esporádica ao longo das décadas seguintes – e de forma mais firme e intencional desde 2016, com o lançamento do disco “Uma Voz, Um Piano”. A despeito da retomada recente, sua obra permaneceu até pouco tempo atrás como um segredo bem guardado entre colecionadores de discos, nostálgicos ouvintes e melômanos de toda sorte – amarga ironia para quem tantas vezes cantou “olha eu aqui, ô ô ô”.

Tudo mudou, porém, no começo de 2025, quando o rapper BK’ decidiu samplear duas canções de “Cartão Postal” (1971) – “Só Quero” e “Esperar Pra Ver” – em seu mais recente álbum, “Diamantes, Lágrimas e Rostos Para Esquecer” (presente na lista da APCA). Como se precisasse de mais, “Esperar Pra Ver” também foi remixada por Alok neste ano. Num passe de mágica, Evinha virou hype. Pela primeira vez em mais de uma década, ela esgotou ingressos para se apresentar em São Paulo – e não só por uma, mas por duas noites. O palco era nobre: a Comedoria do Sesc Pompeia, em meio ao celebrado festival Sesc Jazz. E, na noite do último domingo, 26 de outubro, o espaço se encheu de sorrisos ansiosos para ouvir uma das vozes mais bonitas que o Brasil já conheceu.
Diferentemente de outras passagens recentes, quando se apresentou apenas acompanhada do marido ao piano ou das irmãs Marizinha e Regina na voz, Evinha trouxe a São Paulo uma banda calcada em baixo, guitarra, bateria e violão, formada quase toda por sobrinhos, marcando a presença de mais uma geração da família Corrêa na música. A não ser pelas duas canções pinçadas por Abebe Bikila, o repertório não trouxe muitas novidades para as apresentações recentes de Evinha na cidade.
Na abertura, apareceram “Teletema” (de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar), “Virou Lágrimas” (de Luís Vagner), “Olha Eu Aqui! Oh! Oh! Oh!” (do irmão Roberto, com Jon Lemos). Outras canções lembradas foram “A Cidade e a Neblina” e “Deixa Chover”, ambas releituras de Guilherme Arantes, motivo de um álbum-tributo pela cantora em 2019. “Ele era um gato quando surgiu”, brincou Evinha ao apresentar as canções. Ainda no território das semelhanças, outra repetição para o repertório das últimas apresentações foi a maravilhosa “Ilha Deserta”, de Zé Rodrix – registrada no temporão “Uma Voz, Um Piano”.

Já o clima era bem diferente das últimas passagens da cantora pela cidade. No lugar do público que a escutava em sua época e alguns poucos incautos, a simpatia de Evinha parecia se tornar ainda maior com o abraço da juventude, que também se empolgou com a participação especial de Marcos Valle. Superando problemas recentes de saúde, mas ainda mexido com a morte da cachorrinha Merlot, Valle trouxe um bonito balanço ao espetáculo. Usando uma camiseta com a foto do pet, o eterno garoto dourado da bossa nova fez todo mundo dançar com os grooves “Parabéns” e “Água de Coco”, além do clássico “Mentira”.
A escolha pode até ter sido fortuita, mas traçou um bonito paralelo entre a história recente de Valle e a que está se desenhando agora para Evinha. Sucesso nos anos 1970 e resgatada da poeira dos vinis pelo Planet Hemp em “Contexto” (de “A Invasão do Sagaz Homem-Fumaça”, de 2000), “Mentira” ajudou a dar novo impulso à carreira do compositor carioca, ajudando-o a rodar novamente o mundo como um dos papas do groove brasileiro. Mais que isso, salvou-o do apelo fácil da nostalgia, dando à sua obra caráter de culto e devida apreciação.
Se isso aconteceu com Valle, nada mais justo que também se passe com Evinha – ainda mais pelo que os dois mostraram juntos quando a cantora retornou ao palco para um delicioso dueto em “Que Bandeira”. Ainda juntos, a dupla também relembrou “Pigmalião”, tema que Valle escreveu para Evinha cantar na trilha sonora da novela global “Pigmalião 70”, baseada na obra de George Bernard Shaw.

Uma pena, porém, que o dueto em “Pigmalião” tenha ido mais para o lado do improviso vocal, deixando de lado versos deliciosos como “a verdade pode estar na caspa e não no xampu”. Por outro lado, vale ressaltar que a opção talvez tenha sido necessária para justificar a inclusão da apresentação em um festival como o Sesc Jazz, além de servir para ilustrar a potência e a versatilidade vocal de Evinha.
Já sem Valle, a cantora deu sequência à apresentação com dois de seus maiores hits. Primeiro, veio a indefectível “Casaco Marrom”. Depois, para aclamação geral, “Esperar Pra Ver”, cantada a plenos pulmões pelo público presente. Ao final, depois de um muito requisitado bis, a cantora e o compositor cariocas subiram ao palco novamente para reprisar “Que Bandeira”, em mais uma leitura emocionante.
Em pouco mais de uma hora, que bom foi ver uma cantora incrível receber merecidos aplausos em vida. Que bom que, do alto de seus 74 anos, Evinha não teve de esperar ainda mais para ver um novo interesse surgir por sua obra. Agora, resta torcer para que essa não seja uma onda passageira. E é bom que se diga: que bandeira tanta gente deu por não valorizar esse ícone antes.
Setlist
01) Olha Eu Aqui Oh! Oh! Oh! (Jon Lemos e Roberto Corrêa, 1974)
02) Ilha Deserta (Zé Rodrix, 2016)
03) Só Quero Ver (Dal, Tom e Lilito, 1971 / BK, Matheus Henrique Gonçalves e Paulo Vitor Guedes, 2025)
04) Virou Lágrimas (Luis Vagner, 1974)
05) Teletema (Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, 1969)
06) A Cidade e a Neblina (Guilherme Arantes, 2019)
07) Deixa Chover (Guilherme Arantes, 2019)
08) Água de Coco (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, 2004)
09) Mentira (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, 1973)
10) Parabéns (Marcos Valle e Stephen Bond, 2004)
11) Pigmalião (Marcos Valle, Novelli e Paulo Sérgio Valle, 1970)
12) Que Bandeira (Marcos Valle, Mariozinho Rocha e Paulo Sérgio Valle, 1971)
13) Casaco Marrom (Danilo Caymmi, Gutemberg Guarabyra e Renato Corrêa, 1969)
14) Esperar Pra Ver (Gutemberg Guarabyra e Renato Corrêa, 1971)
*O ano se refere à data de gravação por Evinha ou por Marcos Valle, não necessariamente o ano da composição

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.