entrevista de Alexandre Lopes
Em uma cidade conhecida por seu passado histórico e espírito interiorano, o som do rock passa a ressoar cada vez mais alto. Nos dias 8 e 9 de novembro, Uberaba voltará a tremer com o Festival da Farinha Podre, que chega à quarta edição (ou oitava, se contadas as etapas seletivas). O evento ocupa novamente o estacionamento do Praça Uberaba Shopping (Av. Leopoldino de Oliveira, 5100), das 14h às 22h, com entrada gratuita.
O line-up deste ano combina veteranos e novas forças da música brasileira. No sábado (8/11), sobem ao palco Ventania, Morango do Horror, Legius, Sons of Guerrilha e uma jam session. No domingo (9/11), é a vez de Ratos de Porão, a local Black Pantera, Uganga e Celulites, representando variadas gerações do rock independente.
Criado pela Ópera Cultural – coletivo formado por Elmiro Luiz da Silva Neto, Douglas Maia e Matheus Costa -, o Farinha Podre desponta como mais um importante ponto de encontro da cena independente do interior de Minas. A edição de 2025 marca também um novo passo em sua estrutura, com o festival aprovado no Edital 11/2024 da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc) garantindo a chegada de headliners de peso e a expansão do público, com excursões confirmadas de cidades vizinhas. “A expectativa é que seja nosso maior público até agora, para consolidar de vez o festival na grade de eventos de destaque da região”, conta o organizador Elmiro Luiz da Silva Neto, em entrevista ao Scream & Yell.
O nome do festival pode parecer controverso à primeira vista, mas faz referência ao antigo “Arraial da Farinha Podre”, denominação original de Uberaba, e sintetiza seu espírito: valorizar raízes locais enquanto desafia o conservadorismo regional como um espaço de convivência e expressão em uma região que ainda enfrenta a falta de apoio de órgãos públicos e empresas privadas para empreitadas culturais e roqueiras. Além dos shows, a programação completa do evento inclui feira de artesanato, praça de alimentação, espaço kids e apresentações artísticas diversas, com o intuito de reunir famílias, roqueiros, outros artistas e curiosos em uma experiência gratuita. “Acreditamos que a cultura é viva e que só precisa de espaço para se manifestar”, resume Elmiro.
A seguir, Elmiro fala ao Scream & Yell sobre os desafios de manter o festival vivo, o impacto na cena local, a importância da diversidade e o papel do Farinha Podre na descentralização da cultura brasileira.

O público do Farinha Podre cresce a cada edição. Quais expectativas vocês têm para 2025 e o que esperam proporcionar de diferente?
A expectativa é que seja nosso maior público até agora, para confirmar esse crescimento e consolidar de uma vez o festival na grade de eventos de destaque da região. A principal diferença nesta edição são os headliners de peso de nível nacional: Ratos de Porão e Ventania. Já conseguimos perceber os impactos do anúncio, pois já temos previsão de ônibus de excursões de cidades como Uberlândia, Araxá e Franca, fora grupos em números menores de outras cidades da região.
O festival chega ao quarto ano de realização. Como vocês avaliam essa trajetória e quais foram os momentos mais desafiadores até agora?
É o quarto ano consecutivo que o festival é realizado, mas consideramos essa como a oitava edição, porque no ano de 2023, as seletivas tinham outra dinâmica e também a infraestrutura para a realização de cada uma era bem maior. Para efeito de comparação, tivemos algumas destas edições em que o público estimado foi de 800 pessoas, ao passo que nas seletivas deste ano, foi menor por terem sido realizadas em local com limitação de público em torno de 150 pessoas. Também tínhamos headliners em cada seletiva; dois deles, inclusive, estarão nesta edição: Uganga e Black Pantera. Isso também se deve ao fato do orçamento dedicado a cada uma das seletivas de 2023 ter sido maior, contando também com artistas visuais, do teatro e circo, além de grupos de dança. Como o festival estava sendo custeado com recursos próprios, tivemos que adequar o projeto. Agora fomos aprovados no Edital 11/2024 da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc) da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de MG e temos uma verba inicial garantida, mas sempre precisamos adequar o orçamento devido aos diferentes valores dos editais.
Cada edição foi desafiadora à sua maneira. A questão do orçamento é sempre um incômodo presente, mas as principais dificuldades que encontramos sempre foram relacionadas à estrutura e local. O fato da Ópera Cultural já contar com equipamento de sonorização e iluminação facilita bastante, mas sempre precisamos buscar parcerias para encontrar locais ideais. O Praça Shopping e a FUNEL (Fundação Municipal de Esporte e Lazer) foram grandes parceiros, e com esta última conseguimos atingir uma das metas do festival, que é levar cultura para as populações de bairros e regiões periféricas da cidade.
Quais mudanças vocês percebem no perfil do público e bandas ao longo dessas edições? Tem alguma geração específica mais interessada ou está mais variado?
Na primeira edição o público foi predominante do estilo rock, mas a partir da segunda começamos a perceber uma mudança, passando a ter um público mais diverso. Podemos atribuir essas mudanças a vários fatores, como a inclusão de mais manifestações artísticas: tivemos um artista de circo (Mayron Engel), declamação de poesia com escritores, artista visual que fez live painting e também maquiagem artística (priorizando crianças), incremento na estrutura com espaço Kids e feira de artesanato. No aspecto musical, incluir headliners de nome como o Black Pantera e também atrações de outros estilos – tivemos uma artista que tocou samba e MPB. Em outras edições, tivemos artistas do movimento rap e hip hop. Então acreditamos que tudo isso colaborou para a diversificação do público e até por isso buscamos outros headliners como o Ventania. A presença de um espaço Kids também pode colaborar para que o público de meia idade continue comparecendo (roqueiro também fica velho), mas certamente a geração dos 15 aos 30 anos é quem mais marca presença – estatística corroborada ao visualizarmos os relatórios de campanhas de redes sociais, que colocam o público dos 18 aos 35 anos como predominante.
Que tipo de experiência o público pode esperar além da música?
Temos como meta proporcionar o máximo de acesso a outras expressões artísticas. Confesso que achava que conseguiria mais intervenções artísticas de dança e teatro, mas a única que esteve presente em todas as edições, além da música, foram as artes visuais. Hoje a galeria do Farinha Podre conta com 13 quadros, todos pintados durante as edições de 2023 e 2024. Já tivemos também artistas circenses, contação de causos e histórias e declamação de poesia. A feira de artesanato também tem destaque, sendo que um que chama bastante atenção é o Sebo da Jozi, que além de livros, também tem material fonográfico disponível em vinil, DVD e outras mídias.
O festival acontece em uma região mais rural e conservadora. Vocês enfrentaram algum desafio ou resistência para consolidá-lo?
Certamente. Não identificamos ações diretas contrárias, mas a falta de apoio de mais órgãos públicos ou empresas privadas nos faz crer e sentir o preconceito com o estilo musical predominante no festival, que é o rock. Tentamos ao máximo buscar ações para desmistificar certos tabus e também levar cultura para quem mais carece dela, e assim atingir um público mais abrangente.

O Farinha Podre sempre valoriza a cena local. Que impacto isso tem para a cidade e para as bandas participantes?
Uma das principais metas desde a origem é valorizar a cena local. Muitos dos elementos que compõem o festival giram em torno disso, como: proporcionar oportunidade de se apresentar ao lado de bandas de renome nacional; fornecer uma premiação justa, pois a maioria das bandas do underground da cidade provavelmente nunca recebeu um cachê que seja próximo do valor da premiação; e estruturação e preparação para participar de processos de seleção. A maioria dos artistas não contava com documentos, portfólio ou clipping, e a exigência desses documentos para participar do Festival impulsionou todos a se profissionalizarem e se prepararem melhor para concorrência em outros processos seletivos ou editais. Também temos produção de material fonográfico e registros fotográficos. Temos gravações ao vivo de várias edições, ainda pendentes de edição e mixagem e este material pode servir como divulgação para as bandas. Além destas ações que geram impacto positivo para as bandas, também sabemos que geramos impacto significativo na economia criativa, com a contratação de profissionais do setor de eventos e alimentação (direta e indiretamente) e também a contratação de vários artistas das mais diversas manifestações culturais. Só em 2023, por exemplo, tivemos 42 bandas, oito artistas visuais, três Grupos de Dança e um de Teatro, além de 92 profissionais diversos (entre bar, alimentação, segurança, produção).
Outro incentivo do festival foi a seletiva para bandas que tenham pelo menos uma mulher na formação da banda. Vocês enxergam um cenário mais igualitário nesse sentido, em comparação às primeiras edições?
O cenário igualitário é uma preocupação constante nossa. Sabemos que é um cenário musical predominantemente masculino e que a presença das mulheres na maioria das vezes é “limitada” ao vocal. Por isso, a categoria de bandas femininas sempre foi uma meta, para proporcionar espaço para mais musicistas. A banda Celulites foi formada após o anúncio desta categoria em 2023 e, apesar de nunca tê-las questionado, gostamos de pensar que, de alguma forma, demos um estímulo para a banda sair do papel. Todas são excelentes musicistas, já consolidadas na cena local e até por isso são influência para mais mulheres se unirem para tocar ou se expressarem como artistas.
Na opinião de vocês, a produção cultural no Brasil ainda é muito concentrada nas grandes capitais ou festivais como o Farinha Podre estão mudando esse cenário?
Definitivamente. Em alguns editais, conseguimos perceber que critérios de pontuação diferentes são adotados justamente para tentar compensar essa diferença na concentração dos eventos em grandes capitais. E quando partimos para o patrocínio privado ou diretamente dependente dele, como as leis de incentivo, é mais fácil ainda perceber como o interior é preterido em decorrência das capitais e grandes centros. As empresas patrocinadoras ainda focam muito na questão da maior visibilidade e exposição da marca. Algumas poucas empresas pensam diferente e se colocam como apoiadoras da cultura de maneira geral, por isso cremos que seria praticamente impossível pensar na realização de festivais como esse sem apoio público. Esperamos que o Farinha Podre possa mudar essa percepção das empresas e mostrar o potencial de movimentação da economia criativa e outros setores relacionados à produção de eventos.
Quais critérios vocês usam para escolher as bandas locais do line-up?
O nosso principal mecanismo é a seletiva de bandas. Pensamos inicialmente em quatro categorias, também abrindo espaço para bandas regionais. Nas categorias de bandas cover e autoral, também temos participação de bandas de outras cidades, com uma curiosidade de que as vencedoras da categoria autoral foram todas de Uberlândia, sendo a Lado Brasil em 2023 e a Legius em 2025. Também temos a categoria feminina, mencionada anteriormente. E como os próprios nomes das categorias sugerem, os critérios de seleção vão variar de acordo, podendo ter critérios extras de desempate como quantidade de músicas autorais, membros do gênero feminino, membros declaradamente negros, pardos ou indígenas, para proporcionar mais inclusão. Além disso, também adotamos critérios ligados a valores que acreditamos, mas também são exigências mínimas para participação em editais, como não tolerar qualquer forma de preconceito de origem, raça, etnia, gênero, cor, idade ou outras. Também precisamos observar leis, como a 25.475 de 2025, que proíbe a contratação, com recursos do estado, de artistas condenados por violência doméstica. Já era algo abominado por nós da organização e que agora passa a ser questão de estar em concordância com as leis.
Existe alguma situação mais inusitada que já aconteceu em uma edição do festival?
Poderíamos citar várias, mas as situações mais inusitadas talvez foram as mais inesperadas, como as relacionadas a imprevistos climáticos. Tivemos edições em que tivemos de suspender o festival temporariamente para garantir a segurança do público e das bandas. Hoje lembramos com um sorriso aliviado, mas na hora que aconteceu foi um susto. A equipe de produção agiu rapidamente para contornar o imprevisto, evitando prejuízos materiais e o público colaborou para evacuar e tornar o local seguro.
Como vocês enxergam o papel do Farinha Podre na cena independente de Minas Gerais e do Brasil? Que legado vocês querem deixar para a cidade e para as bandas?
É um festival que fortalece a cena local e esperamos que alcance a relevância de outros como o Sacra Rock (Sacramento-MG), que é bem mais antigo e consolidado na região, assim como o Sobreviventes do Rock (Araxá-MG) e o Triangulice (Araguari-MG). O cenário musical de Uberlândia é definitivamente mais ativo e já tem grandes festivais, como Timbre, Breve e outros, então nossa meta seria continuar como um festival “satélite”, mas tendo cada vez mais relevância. A nível nacional, podemos dizer que já alcançamos artistas de vários estados do país e acredito que ter o Black Pantera na seletiva de 2023 foi o principal responsável por essa visibilidade. Tivemos inscrições de bandas do Amazonas, Pernambuco, Espírito Santo, Paraná, Piauí, Bahia e outros. Esse fator nos fez pensar em criar uma categoria on-line ou outras formas de fazer com que estes artistas participem. Fora do estado de Minas Gerais, criamos vínculos com produtores de cidades mais próximas da região, como São Paulo, e intercâmbio muito forte com artistas e produtores do Festival Beeswax, de Cravinhos e Ribeirão Preto/SP. E o principal legado é o festival em si. Acreditamos que a cultura é viva e que só precisa de espaço para se manifestar.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.