As 10 músicas mais tocadas de Lô Borges

Lô Borges, tudo o que você podia ser (e foi)
texto de Ismael Machado

fotos por Alexandre Biciati

A carreira de Lô Borges é, por si só, uma lição de independência aliada a talento. Um talento enorme, algo quase impossível de classificar de forma tão linear. Suas canções tem harmonias complexas, mas plenamente assobiáveis, como se fossem a coisa mais simples do mundo.

É comovente, quando, no documentário “Nada Será Como Antes – A Música do Clube da Esquina” (2024), Lô conta o episódio de estar descendo as escadas do Edifício Levy, ainda praticamente um quase adolescente e deparar com aquele jovem negro, Milton Nascimento, tocando violão. É um encontro mágico quase ao nível de Lennon conhecendo Paul. O mundo iria girar diferente a partir desse instante perdido num dia cotidiano qualquer.

Milton tomou Lô e Márcio Borges como amigos, parceiros, cúmplices. E dali surgiu toda uma constelação. A coragem de Milton de levar aquele rapaz cabeludo e com ele tramar o melhor disco de rock e MPB que esse país já escutou, junto a outros jovens talentosos e de ideias musicais libertárias, é algo poucas vezes visto na música pop.

Lô não quis surfar na onda da gravadora. Quase não gravou seu debut solo, recusou a ser fotografado para a capa do disco. Resultou dessa rebeldia, o mais rebelde ainda ‘disco do tênis’, um álbum de difícil absorção em seu início, mas que foi ganhando um status de cult ao longo dos anos. Cult no sentido de cultuado mesmo. Um disco que se comentava a boca pequena como um tesouro a ser descoberto. Um tesouro de poucos.

E Lô se mandou. Foi para a praia, viver em uma comunidade alternativa, tocando seu violão em barzinhos, ao redor de fogueiras, onde seu desejo quisesse. Até voltar, cinco, seis anos depois e gravar o Clube da Esquina 2 com Miton em 1978 e no ano seguinte, desova um clássico absoluto da música brasileira. A Via Láctea mais parece uma coletânea de sucessos tal a quantidade de canções que passaram a fazer parte de toda uma geração que adentrou os anos 80. Sim, os mineiros começaram a gravar seus discos na segunda metade dos anos 70 e o resultado é que quando a nova década chegou eles eram o que havia de novo e de melhor na MPB para os ouvidos mais atentos.

E Lô permaneceria com aquela aura rebelde, contracultural, um rosto eternamente jovem. Da segunda metade da década de 80 passou a ser solenemente ignorado pelas gravadoras. Mas aí era tarde demais. Ele já tinha seus fãs, que sempre lotavam os teatros onde se apresentava.

Nos anos 90 uma nova geração foi trazendo Lô para novos ouvidos. Skank, Nando Reis, Pato Fu, Roberta Campos… bandas como Terno Rei e Arctic Monkeys (e outras aqui mesmo no Scream & Yell)… novos ouvintes para o disco do tênis. E Lô desovando canções. De 2019 em diante era disco para todos os gostos. A ouvidos abertos e atentos. Se aquela sonoridade feita no inicio dos anos 70 havia conquistado toda uma geração universitária, para ficarmos nesse estereótipo, nos últimos anos ela encontrou abrigo em novos músicos, novas plateias. Aquela turma de amigos virou peça musical, documentário, discos tributo. Não é a toa que o último trabalho de Lô tenha sido ao lado de Zeca Baleiro, um maranhense que ama se misturar com todos os que fizeram as músicas inescapáveis dos anos 70. Lô compunha abundantemente, sem se acomodar em um passado confortável nunca renegado, mas jamais colocado em um pedestal intocável.

O Lô Borges que se foi justamente num dia de finados é a síntese de uma juventude possível num país quase impossível. Será lembrado como esse eterno moço rebelde, talentoso, único.

O Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) registrou 234 obras musicais e 444 gravações identificadas de Lô Borges em sua base de dados. Sua música mais regravada é “Clube da Esquina n.º 2”, e entre as mais tocadas nos últimos anos estão “Dois Rios”, “Paisagem na Janela” e “O Trem Azul”.

Foto de Alexandre Biciati

Veja as músicas de autoria de Lô Borges mais tocadas nos últimos cinco anos nos Brasil nos segmentos de Rádio, Casa de Festas e Diversão e Sonorização Ambiental segundo o ECAD

01) “Dois Rios”, de Lô Borges / Skank / Nando Reis
02) “Paisagem na Janela”, de Fernando Brant / Lô Borges
03) “Clube da esquina n. 2”, Marcio Borges / Lô Borges / Milton Nascimento
04) “O trem azul”, Ronaldo Bastos / Lô Borges
05) “Um girassol da cor do seu cabelo”, Marcio Borges / Lô Borges
06) “Quem sabe isso quer dizer amor”, Marcio Borges / Lô Borges
07) “Feira moderna”, Fernando Brant / Beto Guedes / Lô Borges
08) “Para Lennon e McCartney”,Fernando Brant / Marcio Borges / Lô Borges
09) “Tudo que você podia ser”, Marcio Borges / Lô Borges
10) “Sonhando o futuro”, Claudio Venturini / Lô Borges

Top 5 das músicas de autoria de Lô Borges mais gravadas segundo o ECAD

01) “Clube da esquina n. 2”, Marcio Borges / Lô Borges / Milton Nascimento
02) “O trem azul”, Ronaldo Bastos / Lô Borges
03) “Um girassol da cor do seu cabelo”, Marcio Borges / Lô Borges
04) “Quem sabe isso quer dizer amor”, Marcio Borges / Lô Borges
05) “Paisagem na Janela”, de Fernando Brant / Lô Borges

Conheça “Mil Tom”, tributo lançado pelo Selo Scream & Yell

foto de Alexandre Biciati

– Ismael Machado é escritor, jornalista e, por que não, cineasta. Publicou cinco livros e é ganhador de 12 prêmios jornalísticos. Roteirista dos longas documentários “Soldados do Araguaia” e “Na Fronteira do Fim do Mundo” e da série documental “Ubuntu, a partilha quilombola“.

 

 

 

3 thoughts on “As 10 músicas mais tocadas de Lô Borges

  1. Ismael Machado mais conhecido como Bill é um visionário da cultura Brasileira. Parabéns pelo sua matéria. A Via Láctea agradece.

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