texto de Davi Caro
Mesmo após mais de 50 anos, a trajetória do Secos & Molhados ainda é um dos fenômenos mais surreais da história da cultura popular brasileira. O grupo, que em sua formação clássica juntou Ney Matogrosso (vocais), João Ricardo (violões e vocais) e Gerson Conrad (violões), possui até hoje um indisputável apelo em meio aos fãs antigos e novos, entre testemunhas de primeira hora e aqueles convertidos após a fragmentação do trio. Este apelo se torna ainda mais impressionante quando se considera o contraste entre a curta carreira da formação, que se encerrou em 1974, e o impacto gerado pelos dois discos lançados pela venerada banda.
Esse mesmo impacto, em grande parte alimentado pela ruptura prematura, demorou muito para resultar em uma tentativa aprofundada de documentar, com minúcia, precisão, e comprometimento, o meteórico período de um ano no qual os Secos foram de um burburinho underground para um estouro massificado. “Primavera Nos Dentes: A História do Secos & Molhados” (2025), minissérie documental em quatro episódios dirigida por Miguel de Almeida (que é autor do livraço de mesmo nome, também dedicado à história da banda), e cujo primeiro episódio chega agora ao Canal Brasil, vem com a promessa de retificar essa pendência histórica, contando com a participação tanto de Ney e Gerson, como também de inúmeros colaboradores, influenciados, comunicadores, e colegas que testemunharam o princípio, o fim e o imensurável legado. E, dados os consideráveis desafios e empecilhos pelo caminho, já dá para adiantar: o resultado é mais do que positivo.
A série não espera para endereçar os ditos obstáculos que teve que enfrentar, já nos primeiros minutos, para sequer existir: a ausência de um terço da formação original. Isso porque, além de recusar o convite a conferir seu depoimento, e dar a própria versão dos fatos que viveu, João Ricardo – que é dono do nome do grupo, e fracassou monumentalmente ao tentar dar sequência ao sucesso conquistado, embora sem seus instrumentais colaboradores – também bloqueou o acesso da produção às composições que havia feito para a banda. Isso faz com que a trilha utilizada ao longo dos episódios abarque faixas compostas e gravadas especialmente para a série, por Willy Verdaguer (baixo) e Emilio Carrera (piano), músicos que acompanharam a banda em sua fase áurea.

A ausência do músico, que poderia prejudicar uma produção menos dedicada, passa longe de comprometer a narrativa dos eventos que antecederam a formação do grupo: Ney recapitula a infância turbulenta frente ao pai, um militar conservador, e sua migração para o Rio de Janeiro, e depois, Brasília, já na segunda metade da década de 1960. Ao mesmo tempo, Conrad rememora os primeiros passos na música, quando o interesse inicial pelo piano passou para o violão, e já indica a veia rock que o S&M traria para as envernizadas composições que registrariam. Foi apenas uma questão de tempo até que o instrumentista visse seu caminho se cruzar, em São Paulo, com o de João Ricardo. Este último, filho do poeta português João Apolinário (que havia vindo ao Brasil fugido do chumbo da ditadura salazarista de seu país) é citado como um violonista então rudimentar, porém extremamente criativo – um fator que contribuiria na relutante dinâmica de composição e arranjo junto a Gerson, mais tarde. Após uma experiência frustrada, porém decisiva no teatro, Matogrosso acabaria se encontrando com a violonista e cantora Luli, que encorajou o jovem a cantar.
O processo que desembocaria na formação dos Secos terminou sendo o produto de mais de dois anos de experimentações de Conrad e Ricardo, que acabou tendo a ideia de musicar grandes nomes da poesia brasileira. Mas após conhecer a já citada Luli (que seria sua parceira no futuro clássico “O Vira”), João viu erguer-se a ponte em direção à peça que solidificaria sua visão criativa: sob recomendação da amiga, os dois parceiros (que já utilizavam o nome Secos & Molhados) foram até o Rio de Janeiro para se encontrarem com o cantor que, imaginavam, seria o elemento final para o grupo vocal com o qual sonhavam. Mais velho e vivido, Ney abraçou a oportunidade trazida pelos entusiasmados músicos, e chegou para ficar em São Paulo.
Enquanto o primeiro capítulo se concentra em recapitular os caminhos individuais trilhados pelos três integrantes que seriam catapultados ao estrelato, os três episódios subsequentes se debruçam sobre a solidificação da identidade musical do grupo, bem como sobre a elaboração dos (então) chocantes, provocativos, e (ainda) icônicos visuais do grupo. Ao mesmo tempo em que detalha a criação estética que o levou a criar e incentivar o uso das maquiagens, que imortalizariam o trio – inspiradas pela imortal “O Rei da Vela”, peça teatral de José Celso Martinez Correa – Ney também revela sempre haver confiado no repertório compilado por João e Gerson. A recíproca não é verdadeira, todavia, no que diz respeito às personas que os três passariam a adotar no palco, principalmente frente a plateias menores. A escandalização do público, em uma época onde o conservadorismo e a opressão eram ameaças mais reais que nunca, gerou preocupação (especialmente por parte de João) de que o grupo seria tido apenas como uma provocação homossexualizada. Em tempo: a produção também toma cuidado para dar o devido crédito aos pioneiros do Dzi Croquettes, responsáveis por anteceder o S&M em sua abordagem teatral. Mas, desde a estreia dos Secos, na Casa de Badalação e Tédio de São Paulo, o aparecimento do grupo não apenas foi uma válvula de escape para a verve teatral de Ney, mas também uma oportunidade de “barbarizar”, nas palavras do próprio.
Os figurinos e as máscaras, no final, foram decisivos para o estouro que se materializou em seguida. Mas a dedicação aos ensaios e ao processo de refinamento de arranjos foram, no mínimo, igualmente importantes: o comprometimento dos três em se prepararem por um ano antes de estrearem com seu primeiro disco, pela gravadora Continental, em 1973, acabou por calar uma mídia que já havia começado a, de forma totalmente rasa e equivocada, rotular os três como um “grupo andrógino, gay”, como lembra Gerson. Mas tudo conspirou a favor: sob a tutela do empresário Moracy do Val, Conrad, Ricardo e Matogrosso se distanciaram do balaio do rock brasileiro mais subterrâneo e pós-Tropicalista de então, sendo abraçados igualmente pelos intelectuais engajados que já abraçavam a MPB. E de forma singular, uma vez que, como diz o produtor João Marcello Bôscoli em determinado momento, o S&M alçou vôo próprio, sem terem por que se preocupar com serem acusados de copiar ninguém.
A chave para o êxito da série está no espaço dado a Ney e a Gerson, para que os antigos companheiros de banda possam se aprofundar nos processos que conduziram as gravações dos dois discos registrados na fase original do projeto. Sejam as obras disruptivas que os antecederam e inspiraram, ou a vivência no palco, onde aprenderam na raça a ocupar um espaço ora pequeno demais para suas ambições, ora muito além das ambições que eles poderiam ter tido. E é aqui, todavia, em que o elefante na sala se faz mais presente – ou ausente: a veemente recusa de João Ricardo em participar do projeto, bem como as disputas relacionadas ao direito do uso da marca, vão muito além de simplesmente privar a produção do uso de algumas das canções mais belas já cantadas em português. No que diz respeito ao processo de organização do repertório, por exemplo, os comentários mais pertinentes partem das mais do que capacitadas palavras de outros especialistas. Charles Gavin, que foi responsável por supervisionar o trabalho de restauração e remasterização dos dois discos em relançamentos posteriores, é um dos que mais fornecem detalhes sobre as gravações de hinos como “Sangue Latino”, “Rosa de Hiroshima”, “Assim Assado” (do primeiro álbum, homônimo, de 1973), “Flores Astrais”, “O Patrão Nosso de Cada Dia”, “O Hierofante” e “Oh! Mulher Infiel” (do também autointitulado segundo disco, de 1974), juntamente com Willy Verdaguer e Emilio Carrera.
Para além do baterista e ex-titã, que aproveita para recordar, atônito, as inúmeras possibilidades que o S&M abandonou com a dissolução (como a atenção e o entusiasmo em conquistar uma carreira internacional, uma vez que o trio tinha um impressionante público na América Latina), “Primavera Nos Dentes” conta com um impressionante time de convidados, entre aqueles que se fizeram essenciais para o êxito da banda – como o poeta Paulo Mendonça, os diretores teatrais Helena Ignez e Oswaldo Mendes – e pessoas que testemunharam e foram, mais tarde, apresentadas ao grupo através de eventos canônicos, como a antológica apresentação na TV Tupi, em 1973, a consagradora apresentação dos Secos no Maracanazinho, no mesmo ano, ou a exibição do clipe de “Flores Astrais” no Fantástico, já em 1974, precedida por um comunicado do grupo anunciando seu fim – Roberto Frejat e o já citado Gavin, assim como Duda Brack e Ana Cañas, entre muitos outros. Em depoimentos, o que impera é um misto de admiração infinita e perplexidade diante da transformação que os três provocaram, em um período tão curto.
Para além de discussões francas e cândidas sobre os conflitos que acabaram culminando no fim do S&M como se tornaram mais conhecidos – em um processo conturbado que envolveu a demissão do também depoente Moracy Do Val como empresário, e a tentativa de instalar João Apolinário na função (acompanhada de um novo contrato, não aceito, segundo o qual Ney e Gerson seriam oficialmente “contratados” de João Ricardo), outro grande atrativo de “Primavera Nos Dentes” é “Ouvindo o Silêncio”, composição de Paulo Mendonça e Conrad que conta com este, e com Matogrosso, nos vocais. A primeira (e belíssima) colaboração dos dois em décadas é responsável por concluir uma produção criativa e que evita o óbvio, fazendo uso de escolhas criativas nas quais um acervo impressionante de imagens da banda é entrecortado com intervenções de reportagens de época, sobrepostas de tal modo que também ajudam a criar um ambiente de desorientação que combina bem com a carreira meteórica do grupo.
Ao final, os louros a serem colhidos por “Primavera Nos Dentes” não são poucos, e são merecidos. Transparece a cada segundo a intenção de documentar um capítulo importante da história da música e cultura pop brasileira – e que, em retrospecto, funciona como um prelúdio à carreira de Ney Matogrosso, por si só objeto de outros documentários e de uma (respeitável) cinebiografia – de maneira embasada, e que não mede esforços ao retratar os acontecimentos da maneira mais factível e crua possível. Ao encerrar o último episódio com Gerson e Ney no estúdio, reunidos com seus antigos escudeiros, dispensando preocupações em documentar a errática trajetória posterior de João Ricardo sob o nome do grupo, Miguel de Almeida entrega um trabalho bonito, valiosíssimo e essencial. Um projeto capaz de contornar todo e qualquer obstáculo para documentar uma jornada árdua, radiante, dolorosa e longeva, que até hoje gera intriga, fascínio e devoção. “Primavera Nos Dentes: A História do Secos & Molhados” é um testamento de como a imensa constelação do pop nem sempre é fácil de explicar – mesmo que o que importe, no fim, seja apenas contemplar, e sentir.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.
Pena a ausência de João Ricardo. E o fato tbm é que os discos (alguns deles) posteriores ao Ney brigam em pé de igualdade com os dois clássicos. O soldado e o anjo, por exemplo, é uma das mais belas canções dos secos e molhados e não faz parte do pensamento de ser aceita como tal. Assim como anônimo brasileiro…