Entrevista: Cayo Carig & Dr. Drumah misturam Jodorowsky, mitologia e Piratas do Caribe em “Onde Nascem as Flores”

entrevista de Fabio Machado

A cultura do remix é uma das bases fundamentais do hip hop, não apenas em seu nível mais básico com o uso de trechos instrumentais para criar samples e beats, mas também incluindo referências que podem tanto falar do que está acontecendo nas ruas naquele momento como abordar temas mais filosóficos e esotéricos. Se A Tribe Called Quest e De La Soul já haviam mostrado esse potencial criativo do estilo ainda no século passado, 2025 nos prova que ainda há muito o que ser explorado nos limites do hip hop nacional com trabalhos como “Onde Nascem as Flores”.

O nome corresponde à mais recente colaboração feita de forma independente entre o carioca Cayo Carig (responsável pelos versos, mixagem, masterização e elementos gráficos do disco) e o baiano Dr. Drumah (que assina a produção do disco além de ser beatmaker que também atua como baterista no conjunto instrumental IFÁ), que se conheceram em 2019 e a partir daí, foram reunindo sem pressa as diversas peças do quebra-cabeça que compõem este registro. A riqueza de detalhes já aparece na capa, com referências a simbologias ligadas à mitologia, espiritualidade e natureza – temas centrais da narrativa de Cayo Carig. Nos materiais de divulgação, o carioca deixa claro a intenção conceitual: “É uma história, como se todas as músicas juntas fossem uma única música explorando o conceito de florescer”.

E ao ouvir o disco, a impressão é realmente essa: uma história que começa de forma intrigante através dos climas de teclado e spoken word da intro “Sementes”, e segue com os versos de Carig e os beats de Drumah formando paisagens vívidas em meio a instrumental que bebe do jazz, afrobeat e neo soul e que fala sobre florestas da memória, ciclos interplanetários, visões cósmicas e outras referências que podem estar um pouco além do que estamos acostumados dentro do estilo. Em entrevista a Scream & Yell, a dupla fala um pouco mais sobre os livros, sons, filmes, pessoas e outros elementos que o inspiraram até aqui: tem de tudo e mais um pouco, como manda a boa cartilha do hip hop. Confira os principais momentos na conversa a seguir.

Ouça “Onde Nascem as Flores” na integra abaixo

Queria que vocês contassem como surgiu essa parceria e as ideias que deram origem ao “Onde Nascem as Flores”.
Cayo: Foi pelo Facebook, o Drumah conheceu meu trabalho através de um compartilhamento da música “Ouriços” feito pelo Slow da BF (Mc do grupo raíz daqui do RJ, Esquadrão Zona Norte) e me chamou pra fazer um EP. Eu ouvi alguns trabalhos da discografia do Drumah naquele mesmo dia e achei muito bom, diferenciado. Ele tem uma grande referência de som. Eu também sou beatmaker e por isso mesmo me identifiquei com o trampo dele.

Drumah: Eu gostei do flow, das letras e dos beats do Cayo. Eu já tinha alguns beats que seriam usados para um trabalho solo que viria a ser o álbum “Nu-Konductor” (de 2021) mas que acabaram sendo usados em “Onde Nascem as Flores”.

Cayo: Começamos a desenvolver esse trabalho em 2019 e fomos desenvolvendo sem pressa, em paralelo com nossos projetos e trampos. Claro que a pandemia também contribuiu para esse tempo mais demorado, mas eu também estava trabalhando bastante e me mudei de cidade várias vezes nesse período. Mas aos poucos foi saindo. Era para ser só um EP, e aí acabamos com material para um disco cheio. Além disso, durante esse período eu também fui aperfeiçoando mais sobre mixagem e masterização, são coisas que exigem tempo para fazer e que influem diretamente na qualidade do trabalho.

Lanço músicas desde 2005, mas a primeira vez que me senti satisfeito com a mixagem e masterização de um lançamento foi em 2024 com o compacto “Espírito Dentro Da Máquina / Grandes Ideias”, senti que a qualidade estava a par das tops do mercado, busquei isso durante muito tempo na minha caminhada e finalmente atingi. Tanto que esse ano, antes de lançar o “Onde Nascem As Flores” até soltei o meu primeiro álbum “O Folclore Do Monstro Gigante” remasterizado junto de um clipe da faixa “Catrina” que desenvolvi durante anos que seria a materialização do universo que desenvolvi nesse primeiro álbum e que tem continuidade na história no “Onde Nascem As Flores”.

Drumah: Nesse meio tempo eu lancei alguns trabalhos como por exemplo o “The Confinement, Vol. 1 – Africa”, em 2020. Nós não nos preocupamos muito com o tempo, fazendo sem pressa e pensando em fazer algo de qualidade. Nosso mantra era “tudo no seu tempo”. Até na questão dos feats, pensando em trazer participações que não fossem só por questões de mercado, e sim que fizessem sentido para nós, de uma galera que agregasse as músicas.

Cayo, você também foi influenciado por alguns livros para criar os temas do disco, certo?
Cayo: Sobre livros, eu estava lendo bastante na época de criação das letras, posso citar alguns: “Tao Te Ching” do Lao Tsé, alguns livros de contos folclóricos e de literatura oral brasileiros e japoneses, “Mayombe” do Pepetela, o Joseph Campbell em “As Máscaras de Deus” (uma série de quatro volumes sobre mitologia de várias partes do planeta, publicada pelo escritor norte-americano entre 1959 e 1968) apesar de eu achar que ele tem uma visão um pouco eurocêntrica, me interesso sobre como ele traça um paralelo entre todas as religiões do mundo.

Esse próximo eu não tenho e só conferi alguns trechos, mas vale citar “Religião e Mitologia Kadiwéu”, de Darcy Ribeiro (livro dedicado ao estudo da tribo que dá nome ao livro, publicado em 1950 pelo antropólogo e historiador brasileiro), que foi de onde surgiu a referência de Nibetad (na música “Sozinho Na Floresta”), até com o intuito de apresentar esse ser mitológico da nossa cultura que por incrível que pareça é tão pouco conhecido. Outra criatura da mitologia brasileira que sinto que é pouco conhecida e também é citada na obra é o Gorjala, que é um gigante protetor das matas.

Outra referência literária foi o “Mitologia dos Orixás”, de Reginaldo Prandi (publicado pelo sociólogo e autor brasileiro em 2001), em especial pela história dos Ibejis que enganam a morte por meio da música (na tradição da umbanda e do candomblé, os Ibejis são orixás-gêmeos que representam a brincadeira e a infância; eles conseguem ludibriar Iku, a representação da morte, tocando tambores de forma tão envolvente que nem mesmo Iku consegue parar de dançar).

Essa história é citada na letra de “Visão Cósmica”, no trecho: “Agora entendo bem o momento/Que Erê e Ibeji tapearam Iku”. Mas existem várias outras referências interessantes ao longo do álbum, não só de mitologia e literatura mas também de obras de artes como as “harpas douradas de Uruk”, referência aos Sumérios e a uma das obras mais antigas da humanidade, que eram harpas douradas com cabeça de touro. A ideia desse álbum é ser como se fosse uma enciclopédia que conta uma história. Os samples são outro exemplo. Drumah, de onde você tirou aquele “O tempo está acabando, Jack” (no final da faixa “Flores”)?

Drumah: É do “Piratas do Caribe” (risos). É um trecho em que um dos personagens está falando com o Jack Sparrow (nota do redator: pela descrição durante a entrevista, parece ser uma referência à “Piratas do Caribe e o Baú da Morte”, de 2006).

Cayo: Então, nos samples temos referências que vão do “Piratas do Caribe” ao Alejandro Jodorowsky (há um sample de uma fala do cineasta francês-chileno na faixa “O Templo”, sétima faixa do disco). O sample do Jodorowsky é do primeiro filme dele, “Fando e Lis”, de 1968, que achei quando assisti esse filme pela primeira vez. Gosto muito do trabalho dele, tanto que até já lancei uma beat tape chamada “Holy Mountain” cuja capa chamou bastante atenção, até demais (risos).

O saxofonista Victor Lemos é um dos músicos que participam desse trabalho. Como foi o processo de colaboração dele nas faixas? Vocês tinham a sonoridade de algum saxofonista em específico como referência para o disco? E em relação a outras participações do álbum, como surgiram e quais foram as contribuições?
Cayo: Tudo correu de forma bem natural em relação aos músicos, são pessoas que eu tanto já tinha uma relação de amizade quanto conheci no caminho enquanto finalizava esse álbum. Através de mim participaram o Mv Hemp, Victor Lemos, Nicole Rossi, augras, Dora Viva e Lucas Felix na voz e o Drumah trouxe DJ Simão Malungo nos scratches na faixa “Ache Onde Os Mundos Se Conectam”. Em relação ao Victor, eu cheguei no estúdio junto com ele com a ideia de gravar a linha do refrão de “Rosas” no saxofone e fazer uma intro explosiva em “Visão Cósmica”, mas fomos trabalhando com base no que ele propunha com o instrumento e ele acabou fazendo diversos solos muito bons pra “Rosas”, foi uma sessão de estúdio lendária. Acho que esse álbum ficou bem Lonnie Liston Smith (risos) (tecladista e compositor norte-americano referência do spiritual jazz), que tanto eu quanto o Drumah curtimos bastante o trabalho.

E falando sobre referências no geral, quais as principais influências sonoras desse trabalho? Fela Kuti é um nome que vem fácil à mente, pelo que é citado em “Rosas” e na arte gráfica do single.
Cayo: Além de Fela Kuti, Sun Ra é uma outra referência para mim e para o Drumah.

Drumah: Sim, se eu não me engano tenho até um disco dele aqui (Em certo momento da live, Drumah procura e mostra uma cópia do disco “Lanquidity”, de Sun Ra, de 1978).

Cayo: Também posso citar a influência de Parteum, que é uma grande referência pra mim dentro do hip hop nacional, e não só pra mim (risos), acho que muita gente tem ele como referência mas não cita, portanto vale ressaltar, ele merecia muito mais reconhecimento.

Vocês tiveram alguma preocupação em relação a aceitação desse trabalho por parte do público? Digo isso porque é uma proposta bem única, um disco conceitual (que exige uma audição na íntegra) com temas mais reflexivos, um pouco mais distante do tom urbano que é característico do hip hop.
Drumah: Eu notei uma certa resistência do público em relação a esse trabalho, mas acho que é algo natural, porque é um trabalho fora do hype. O Cayo não é um artista que está no hype, eu também não. E além disso, tem a proposta do disco que é algo para ser absorvido com atenção numa época onde a mesma é escassa, tem muitas referências. Mas não nos preocupamos com esse aspecto do mercado, e sim em fazer uma coisa verdadeira.

Cayo: Eu acho que é um lance parecido com o “Krishnanda” (álbum icônico do percussionista e compositor Pedro Santos, lançado em 1968) no sentido de ser um disco que não foi compreendido na época do lançamento e depois de um tempo, o álbum foi descoberto. Então, tem trabalhos que levam algum tempo até serem absorvidos, o importante é que ele está no mundo. Além do fato de que esse é um trabalho que dá pra bater no peito o resto da vida, consigo me imaginar idoso e falando “quando eu era jovem eu lancei esse álbum” (risos).

Drumah: Em relação a sonoridades, não é algo tão distante de outras referências de hip hop como A Tribe Called Quest, De La Soul, e muitas vezes o público nem se importa com o significado das letras em inglês.

Cayo, além do conceito lírico e musical você também criou muita coisa da parte gráfica desse disco. Essa decisão por ser multiartista é questão de necessidade ou você, enquanto artista, prefere mesmo ter controle sobre todas as etapas do seu trabalho?
Cayo: Acho que o principal é que você aprende muito quando resolve fazer as coisas por conta própria. Eu não tenho uma formação acadêmica, mas através da arte consegui desenvolver. E a arte tem essa possibilidade de você se transformar, de criar e aprender novas habilidades no processo. Em breve sai o material audiovisual do “Onde Nascem As Flores”, é tudo corre independente.

Finalmente, quais os planos para “Onde Nascem as Flores”? Teremos shows ao vivo? E a parceria de vocês, teremos mais lançamentos no futuro?
Cayo: Agora o foco é lançar os vídeos para “Rosas” e outras faixas do disco, estou trabalhando neste momento na produção desse material. A previsão é que saia alguma coisa entre o final deste ano e o início de 2026. Sobre shows, nada confirmado ainda, mas queremos muito fazer. Além disso, eu e o Drumah fizemos muitas músicas para esse álbum e algumas não entraram nesse disco.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.

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