Ao lado do grupo Dialeto, David Cross toca peças de Bartók (severas e saborosas) e pérolas do King Crimson em São Paulo

texto de Alex Antunes
fotos de Marcos Vinicius Troian

Quando se fala em rock progressivo, vêm à mente bandas como Genesis e Yes que – para o bem e para o mal, as que foram mais reconhecidas e imitadas, mas que também as que cristalizaram a ideia de um gênero meio caricato. Outras, por suas idiossincrasias, cavaram um lugar à parte, como Emerson, Lake & Palmer e Pink Floyd. E outras ainda, como King Crimson, Gentle Giant e Van Der Graaf Generator, podem ser consideradas entre as mais experimentais, as que foram mais exigentes com seus ouvintes.

Claro que esse é um balanço simplista; o gênero se estende camadas e camadas abaixo disso, mas foi MUITO visado durante os anos do punk, e sua (má) fama até hoje se ressente disso. O King Crimson dos anos 70 está num cerne de credibilidade (e também foi a que melhor se inventou nos anos 80). Dentre seus discos, “Larks’ Tongues In Aspic”, de 1973, é um marco de inventividade.

Falo disso porque faixas desse disco foram, por assim dizer, o filé das apresentações que o violinista David Cross e o grupo brasileiro Dialeto fizeram nos dias 28 e 30 de outubro, em São Paulo e Porto Alegre (respectivamente no Teatro Sabesp Frei Caneca e Bourbon Country).

Cross está numa posição interessante em relação ao membros daquela formação. Robert Fripp, o líder de sempre do grupo, e único membro constante, liderou diversas voltas, a última delas permanecendo até 2021, o que quase coincidiu com um documentário de 2022, que é um belo balanço dessas décadas. Tido como sisudo e perfeccionista, nos últimos anos se notabilizou por uma persona humorística, postando com sua esposa Toyah Willcox vídeos com releituras engraçadas de clássicos do rock.

O baterista Bill Bruford, ícone do instrumento, depois de muitos anos de aposentadoria e de uma carreira acadêmica (diz ele que durante muito tempo sequer encostou nos tambores), voltou nos últimos anos com um trio de jazz bastante low profile. O baixista e vocalista John Wetton, dono de uma voz e de um timbre no instrumento magníficos (e de uma capacidade de quase dois cérebros de fazer as duas coisas simultaneamente, com divisões totalmente diferentes na voz e na rítmica), foi o que surfou na caricatura do rock de arena, à frente da banda Asia.

E aí vem os mais peculiares (é difícil dizer “mais peculiar” na presença de um Fripp, mas enfim). Um foi o percussionista Jamie Muir, mestre dos instrumentos inusitados e dos ruídos, que teriam uma função lúdica se não trouxessem um clima espantoso, beirando o sinistro. Muir ficou no grupo só durante um disco, esse “Larks’ Tongues”, e se retirou para um mosteiro (eventualmente voltou para uma carreira bastante discreta).

E chegamos a David Cross. Era ele que, entre os extremos sonoros definidos por Fripp numa ponta e Muir em outra, com a sólida cozinha de Bruford e Wetton no meio, fazia uma espécie de costura geral. Com referências na música erudita (mas não na barroca, um truque usual no prog, e sim nas invenções de Bartók e Stravinsky, ídolos de Fripp), fez com seu violino e viola (e eventuais mellotron e piano elétrico) a cuidadosa e imersiva construção de climas.

Dois discos depois, em “Red” (no meio veio “Starless And Bible Black”, ainda mais improvisado em algumas peças), o elegante Cross só estava em duas faixas, se retirando da usina de potência sonora que o grupo se tornou. Mas acabou por dar na mesma, pois Fripp em seguida acabou com a banda.

Hoje, vemos um Cross que envelheceu bem, pisando no palco animado e bem-humorado, e com pleno controle dos recursos eletrônicos que seu violino elétrico e seu set carregam, mudando de oitavas, introduzindo uma saturação que emula o timbre de guitarra do próprio Fripp em algumas músicas, ou disparando eventuais samples. Cross, considerado desde sempre um dos maiores violinistas do rock, mas que em “Red” tinha perdido espaço, encontrou seu caminho com crescente tranquilidade.

Em 2017, quando Nelson Coelho, o guitarrista e líder do Dialeto, resolveu adaptar peças de Béla Bartók no álbum “Bartók In Rock”, a ideia de convidar Cross para a faixa de abertura foi não só uma ótima sacada, como o início de uma parceria sensacional. Vindo ao Brasil para um show de lançamento no Sesc Belenzinho, Cross descobriu seu público brasileiro. E voltou no ano passado, na turnê de “Larks’ Tongues @ 50”, com a sua David Cross Band, na Casa Rocambole, em São Paulo.

Voltar era só uma questão de (pouco) tempo. O show de São Paulo se pareceu muito com o de 2017. Mas, agora, com a obrigação de tocar menos peças de Bartók (toda a primeira parte do show), seis músicas ao invés de oito. Foram duas “Roumanian Folk Dances” (do ciclo de 1915 em que o compositor se aprofundou no folclore da Transilvânia) e dois “Mikrokosmos” (que são ao mesmo tempo um curso de piano, escrito em 153 peças de crescente dificuldade de execução, entre 1926 e 1939), e mais duas composições avulsas, “An Evening In The Village” (1911) e “The Young Bride” (1918).

É um bloco de música severa, ainda que saborosa. É interessante que um dos “Mikrokosmos”, o 78 (conhecido como “Five-tone Scale”), foi escolha de Cross, e não está no disco. Usando uma escala pentatônica (toda a peça se baseia em apenas cinco notas, sem semitons), Bartók explora o máximo de variação melódica, harmônica e rítmica dentro dessa limitação assumida, testando como a simplicidade pode gerar riqueza expressiva. E nessa Cross começa a insinuar uma ponte para as músicas do King Crimson, propondo um arranjo mais variado, com mais dinâmica e contrastado.

E eis que chegamos à parte emocional do show – afinal o público está lá para isso. Em 2017, Cross e o Dialeto haviam tocado “Exiles”, “Talking Drum” e “Larks’ Tongues In Aspic, Part Two” daquele disco (e, no bis, “Starless”, que não, não é do disco “Starless And Bible Black”, mas do seguinte, uma das faixas em que Cross participa, no “Red”). Desta vez, a ementa crimsoniana foi mais extensa.

Aquelas três aparecem, na mesma ordem, intercaladas com “Tonk”, uma original da David Cross Band, de 1997, que originalmente contou com o sempre sensacional vocal de Peter Hammill (do Van Der Graaf). Aqui é preciso falar duas coisas da cozinha de Gabriel Costa, baixo, e Fred Barley, bateria. Primeiro, que estão perfeitos em suas partes. A mixagem da bateria de Barley, inclusive, esteve magnífica no show de São Paulo, um fundamento extremamente sólido da apresentação. Sendo Wetton e Bruford os mestres que são ou foram em seus instrumentos, parabéns aos envolvidos. Mas Costa – fazendo a parte contundente de Hammill – e Barley, as vozes de Wetton, também não decepcionaram.

Cross mostra a que veio. Brincalhão, começa a comandar o show, estendendo uma ou outra parte de um arranjo, colocando o instrumento de lado para dar espaço à guitarra de Nelson, tocando junto de um e de outro membro. Antes do fim da parte principal, com a tristíssima “Starless”, inserem outra faixa de “Larks’ Tongues”, “Easy Money”, uma das que tinha mais presença do vocal de Wetton, além de uma variação dinâmica interessantíssima (e assim tocam dois terços do disco).

O crescendo de “The Talking Drum” é sempre impressionante. Uma espécie de conjura afro-cigana, um ritmo obsessivo através do qual o violino e a guitarra serpenteiam, é o cerne ritualístico daquele disco. A melancolia de “Starless” encerra o show, mas não. Para o bis eles trouxeram duas novidades, a brincalhona mas agressiva “The Great Deceiver” (rara composição exclusivamente de Wetton, e a igualmente contundente “Red”, do disco homônimo, um ponto altíssimo do repertório do KC.

O público mais próximo do palco sofreu um pouco, no início e no fim do show, com o volume meio baixo da guitarra. Talvez por isso (ou pelas entradas e saídas dele e de Cross do palco), no final, o sério Nelson parecia um pouco desconcentrado. Mas fontes de Porto Alegre dizem que lá, com o devido aquecimento, o show afinal foi perfeito.

O que Fripp sempre propôs no King Crimson, nas palavras de Cross, foram “músicas fantásticas – e horrivelmente complicadas”. Como eu dizia no começo, com um certo teor de exigência até para o público. Fripp nunca se conformou, ao que parece, com o “demasiadamente humano”. E Cross se dispõe a tentar explicar, neste próximo domingo, dia 2 de novembro, o que aconteceu ali, em 1973, nas mágicas gravações de “Larks’ Tongues In Aspic”.

É que, no Centro Cultural São Paulo, acontece uma audição comentada do disco. Essa tem sido uma tendência, nos últimos anos: sessões de escuta de discos. Até casas, os “listening bars”, têm sido abertas com esse objetivo, como o Formosa Hi-Fi, de Facundo Guerra, Alê Youssef e sócios, na Galeria Formosa, nos subterrâneos do Teatro Municipal, que foi um sonho de Mário De Andrade.

Acontece que Mário de Andrade também foi o fundador, em 1935, da Discoteca Pública Municipal, que depois recebeu o nome de uma de suas discípulas prediletas, como Discoteca Oneyda Alvarenga. A própria Oneyda criou os Concertos de Discos, as audições que ministrou entre 1938 e 1958. Hoje instalada no Centro Cultural São Paulo, a Discoteca abre com David Cross essa nova série de audições.

Cross deve contar inclusive fatos pouco conhecidos: como o de que aquela encarnação de 1973 do King Crimson surgiu de uma intenção de Robert Fripp de montar com ele, e com Jamie Muir, um trio de ragas indianas (!). Que, rapidamente, com a chegada de Bruford e Wetton, virou o fenomenal quinteto que gravou o fenomenal e misterioso “Larks’ Tongues In Aspic”.

Serviço: Audição de “Larks Tongues In Aspic” com David Cross em São Paulo, 02 de novembro, 19h, na Sala Lima Barreto do Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro 1000, Paraíso, São Paulo – SP)

 

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