entrevista de Alexandre Lopes
Há meio século o Jaguaribe Carne desafia o silêncio. Surgido em 1974, quando o Brasil ardia sob o auge da ditadura militar, o grupo pessoense criado pelos irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró tornou-se um dos coletivos mais inquietos da música brasileira, conectando a tradição popular nordestina à vanguarda mais radical da época. Um verdadeiro laboratório de sons, ideias e “guerrilha cultural” (como eles próprios definem) que atravessa gerações.
A história é conhecida entre quem acompanha as frestas da cultura paraibana: os irmãos cresceram no bairro Jaguaribe, reunindo músicos, poetas, estudantes e curiosos para performances em praças, teatros e ruas. O som? Uma amálgama de cirandas, rock, barulho e improviso; algo entre o tropicalismo e a pulsação da Zona da Mata.
Apesar de já ter contado com nomes como Chico César, Escurinho, Totonho e Jarbas Mariz em seus anos iniciais, o Jaguaribe Carne nunca foi um grupo “importante” em um sentido institucional da palavra. Não tinha escritório, nem empresário, nem palco fixo. Era um bicho indomado que decidiu fazer arte com fitas cassete gravadas das plateias de seus shows, com latas de lixo como tambores, poesia mimeografada e eletrodomésticos usados como instrumentos.
Entre performances censuradas, apresentações interrompidas pela Polícia Federal e arranjos marcados por ruídos e vocalizações espontâneas, o Jaguaribe Carne fez da linguagem popular e da transgressão seu método criativo. Misturando ciranda, baião, poesia e política, sua trajetória inclui os álbuns “Jaguaribe Carne Instrumental” (1993) e “Vem no Vento” (2003, com participações de Zeca Baleiro, Elba Ramalho, Xangai e Vital Farias), além de uma histórica apresentação no Festival de Jazz de Montreux, em 1999.
À margem do mercado, o grupo manteve uma expressão que ainda reverbera entre músicos, estudantes e movimentos culturais da Paraíba. Em 2023, Paulo Ró participou da faixa “Ruínas”, do álbum “Lampião Rei”, da banda Papangu – um dos nomes mais inventivos da cena nordestina atual, herdeira do espírito político e indisciplinado do Jaguaribe. A colaboração funciona quase como uma passagem de tocha simbólica, em que a energia de uma geração se reflete na outra.
Depois de 22 anos sem lançar um álbum de estúdio, o Jaguaribe Carne emerge novamente, com o disco “Isabel, Sete Cirandas Negras e Um Apito” (2025) – lançado em vinil e CD em edição limitada pela Taioba Music em setembro. Gerado a partir de poemas que Pedro Osmar escreveu após a morte da mãe e transformados em melodias por Paulo Ró, a obra traz oito faixas que brotam do luto e formam um ritual sonoro entre missa e psicodelia popular. O Coro das Praias, formado pela esposa e filhas de Paulo Ró, canta como quem reza, entoando cirandas e cocos de roda acompanhadas por Paulo (voz, violão, percussão), Pedro (voz, percussão) e Marcelo Macedo (guitarra, violão de aço).
Gravado no Estúdio Peixe Boi, em João Pessoa, o disco une a pulsação do Nordeste em formato de cantigas como “Ciranda na Rua da Paz”, “Hora Certa” e “Cocada”, abrindo espaço para ousados momentos guitarreiros em “Ecoou” e “Beca”, com direito a uma cítara indiana sublime em “Tambores” (com participação de Felipe Kariri).
Num país que insiste em esquecer seus próprios rebeldes e transformá-los em “poetas malditos”, o retorno do Jaguaribe Carne é um lembrete de que a vanguarda nordestina nunca morreu, apenas mudou de frequência. “Isabel, Sete Cirandas Negras e Um Apito” não é apenas sobre a saudade de um ente querido; é também sobre continuar mantendo a fé absurda no poder de uma ideia.
Na longa conversa com o Scream & Yell a seguir, Paulo Ró revisita essa trajetória com serenidade. Fala sobre as origens do Jaguaribe Carne, as experiências de censura e improvisação, o novo disco, a parceria com Pedro Osmar, as conexões com a cena musical paraibana atual e o público jovem que redescobre o grupo. Um testemunho de que fazer arte livre continua sendo um ato político, de coração e certeiro – mesmo quando o retorno não é financeiro, mas afetivo.
Paulo, o Jaguaribe Carne nasceu em 1974 num contexto político e social muito específico, durante a ditadura militar no Brasil. Como você enxerga aquele momento do surgimento do grupo e, olhando hoje, o que o Jaguaribe representava para você e para o seu irmão, Pedro Osmar?
Naquele momento eu acho que a gente não tinha muita noção desse contexto político, do problemão que estava acontecendo. A gente fazia nossas músicas e, mesmo que fossem de teor político muito forte, a gente estava simplesmente falando da vida da gente, do que estava acontecendo, do que a gente estava vivendo. Em 1974 eu tinha uns 17 anos, mais ou menos. A gente ia fazendo o que achava que devia fazer musicalmente. Pedro, que é uns três ou quatro anos mais velho que eu, escrevia as letras dele muito contextualizadas com a política. Mas mesmo quando a gente sofria censura, continuava fazendo, sem saber que aquilo poderia ser um grande problema. Eles censuravam nossas músicas, o jeito como a gente cantava, e as coisas iam acontecendo.
Tem até uma música de Chico César [e que Lula Queiroga gravou – ouça abaixo] que dizia assim: “Quando eu fui tocar rasgado / um rapaz do jornal documentou / que um infame, um imoral entrou em cena / desrespeitando o bonito, esculhambando o visual / Só porque eu entrei no peito / só porque eu entrei na marra / com a camisa da alma aberta e desesperadamente cantei / e lindamente escarrei minha fome / que é de mau gosto, infame, sinceramente imoral”. Essa letra expressa bem o que a gente vivia: um escancaramento da nossa situação, sem ter noção do peso que aquilo tinha.
Hoje em dia continuamos esse trabalho de música política, avançada, que muitas vezes não cai bem no ouvido das pessoas. Aquela coisa estranha, barulhos que hoje o pessoal chama de “noise”. E seguimos assim. Todo mundo acha lindo o disco novo, mas tem coisas ali que eu não sei se não são violentas também. Outro dia, numa entrevista na Rádio Tabajara, disseram que nossa música é muito violenta, que agride muito. Eu disse: “Não, peraí. Você não sabe o que está dizendo. Vou lhe desmentir agora”. E coloquei uma música – acho que foi “Tambores”. Hoje talvez sejamos mais românticos, mais suaves, mas continuamos com essa ideia. Eu costumo dizer que o Jaguaribe não bate na porta: ele quebra a porta, quebra o portão, para poder entrar e fazer o que tem que ser feito.
Você falou da censura. Lembra de momentos exatos em que vocês sofreram com isso em apresentações, por exemplo?
Sim, algumas músicas de Pedro foram censuradas… Você sabe como funcionava, né? A gente ia fazer o show, levava a relação das músicas com as letras – às vezes até com o áudio das músicas – e entregava tudo pros censores. Eles olhavam e diziam: “Essa frase aqui não pode, essa estrofe aqui não pode” e riscavam várias partes. O pior é que só devolviam o material na tarde do show, sem tempo pra resolver nada. Aí era isso: ou você cantava ou não cantava. E nessa mesma tarde a gente tinha que fazer o show pra eles ouvirem. Dois caras da Polícia Federal sentavam no teatro e assistiam a tudo.
Teve um show em que mandaram proibir todas as letras. Todas. Aí não tive o que fazer. Então tive a ideia de colocar o nome das músicas em sequência e recitar textos improvisados. Por exemplo, “Mulher pula do oitavo andar com dois filhos nos braços.” Era algo real, sabe? Aí eu completava: “Este país é lindo. Vamos amar.” E dizia depois: “A Polícia Federal não quer que vocês saibam dessas coisas, porque a Polícia Federal sabe o que é bom pra vocês”. Então cada música virou um experimento improvisado.
Teve também um outro evento marcante: o festival Nordestino de Música, em Recife, onde apresentamos “Baile de Máscaras”. Na hora do ensaio, Pedro, que é danado, disse: “Vamos cantar ali embaixo, naqueles três microfones dos apresentadores.” O pessoal da TV disse: “Não pode, não.” E ele insistiu: “A gente quer cantar ali mesmo.” Ficou aquela confusão e acabamos perdendo o tempo de ensaio. À noite, quando fomos entrar, resolvemos improvisar. No ônibus, tínhamos recebido uns folhetos evangélicos e o percussionista carregava uma receita de remédio. Eu estava com um livro de poemas de Ulisses Tavares, de São Paulo. Então combinamos: eu recitaria o poema, Pedro leria o folheto e o percussionista leria a receita. Quando entramos no palco, Pedro ainda levou uma lata de lixo que achou atrás do teatro e isso já causou estranhamento. Eu comecei recitando: “Trocaria a presidência da República por um café bem dado.” Pedro lia o folheto, o percussionista lia a receita, e as vozes se misturavam: “presidência… Jesus… remédio…” até que o som foi cortado. Descemos do palco e havia um corredor de policiais dos dois lados. O diretor do festival, um senhor idoso, começou a gritar: “Esses comunistas vieram pra acabar com meu festival!” Levaram a gente pra uma sala e depois pra Polícia Federal. Ficamos lá de noite esperando o delegado. Quando ele chegou, perguntou o que tinha acontecido. A gente explicou e ele disse: “Meu plantão acabou, esperem o próximo”. O delegado seguinte perguntou se conhecíamos alguém em Recife. Eu disse: “Conheço Lenine.” Aí ligaram pra ele e Lenine foi lá de manhã, conversou com o delegado e explicou: “Esses meninos são gente boa, fazem uma música diferente, mas não é nada demais.” E foi assim que liberaram a gente. Podia ter dado ruim, né? Mas deu tudo certo.

Quando vocês começaram a realizar saraus, exibições de filmes e performances em João Pessoa, quais eram as principais inspirações e referências artísticas de vocês?
Quando eu era adolescente, a gente ouvia muito rádio, que era o que tinha. Depois, começaram a tocar Caetano, Gil, Chico Buarque, Raul Seixas, Ivan Lins… isso em 1973, 1974. A gente percebeu que havia algo diferente surgindo, vindo dos festivais. Logo depois, apareceram artistas mais de vanguarda: Hermeto Pascoal, Walter Franco (que lançou um disco totalmente extravagante). E, claro, Beatles. A fase do Álbum Branco, “Revolution 9”, aquelas coisas que não tinham nada a ver com nada, mas que achávamos interessantes exatamente por isso. Rolling Stones também, aquele rock sujo do começo.
Lembro de uma prima nossa que uma vez foi lá em casa. Estávamos ouvindo Bread, depois colocamos Rolling Stones. Ela disse: “Mas que moléstia é essa? Vocês estavam ouvindo uma música tão linda, agora essa porcaria de bêbado cantando?” (risos) Pra gente era normal. Dizíamos que era democrático. Gostamos de ouvir todo tipo de música e até hoje é assim. Mas no fundo, o nosso início foi com a cultura popular. Em Jaguaribe tínhamos grupos que saíam às ruas: burrinhas, cavalo-marinho, caboclinhos, blocos de carnaval, frevo. Nossa tia Iraci, irmã do meu pai, morava em frente de onde saía uma romaria pra Nossa Senhora da Penha. Enquanto esperavam os romeiros, tocavam ciranda e coco de roda. Nós éramos crianças, adolescentes, e crescemos com isso. Então a cultura popular está dentro da gente desde cedo. A gente não é pesquisador de cultura popular: a gente vivenciou. Crescemos ouvindo, aprendendo, tocando. E com o tempo juntamos essa base popular com a música de vanguarda. Esse caldeirão é a música do Jaguaribe Carne.
E é incrível a forma como vocês misturam isso. E como você mesmo disse, sempre houve improvisação e experimentação na obra do Jaguaribe Carne. Mas como você encara o papel da espontaneidade no processo criativo do grupo?
Rapaz, essa pergunta é muito filosófica, muito difícil… A gente sempre foi muito “irresponsável” com a nossa música, sabe? Uma vez eu estava numa reunião na universidade e o Carlos, que era professor de composição lá, me convidou para falar aos alunos sobre esse processo. E eu disse: ‘Olha, a gente é muito irresponsável com relação ao nosso fazer musical’. Aí ele me perguntou: ‘Mas como assim, irresponsável? O que é ser responsável?’.
Deixa eu contar uma história: em 1976, Pedro, junto com algumas pessoas, criou uma coisa chamada Coletivo de Música da Paraíba. Aconteceu durante um mês, toda quarta-feira tinham três shows. Num desses dias a gente ia tocar: eu, Pedro e Chico César. Estávamos lá atrás conversando e, de repente, anunciaram: ‘Agora com vocês, Jaguaribe Carne!’. Entramos sem combinar nada, nenhum repertório. A gente olhou um para o outro e pensou ‘eita, lascou. A gente vai tocar o quê mesmo?’. Aí a gente começou improvisando; um cantava, outro fazia um improviso de voz, depois alguém puxava uma música, depois vinha um improviso instrumental, e ia se criando esse rodízio sonoro. Tudo totalmente espontâneo. Ninguém dizia: ‘Vai ser assim’, simplesmente acontecia. Nossos últimos dez shows foram nesse espírito, com o nome de ‘música de livre improvisação’. Subíamos ao palco e tocávamos. Chamávamos alguns músicos para participar, quem tivesse interesse e coragem entrava na festa. Um pegava sua guitarra, outro sua bateria, outro um pífano, e a coisa ia acontecendo. Não tinha tom definido, não tinha ritmo marcado. O que estivesse acontecendo na hora, o camarada entrava.
Mas nem sempre foi assim. Nosso primeiro show como Jaguaribe Carne foi em 1974, chamado ‘Espadas’, no Santa Rosa. Era eu, Pedro e Vandinho de Carvalho, nosso primeiro percussionista. Nesse espetáculo, a gente cantava as músicas embaixo do palco, porque em cima a gente colocou eletrodomésticos, enceradeira, som, rádio, liquidificador… todos fazendo barulho. De vez em quando, alguém subia, ligava um aparelho, fazia um solo de liquidificador, e aquilo virava parte do show. Teve até um momento em que nós três subimos juntos e cada um fazia o seu ‘barulhinho bom’, como dizia Marisa Monte. Esse primeiro show foi meio ensaiado, meio não. Mas depois, quando criamos o show instrumental, aí sim ensaiamos muito. Eram músicas difíceis, que a gente tinha na cabeça, mas não conseguia tocar sem ensaio. Então ensaiamos até conseguir. Esse espetáculo instrumental foi apresentado várias vezes, em várias formações. Depois foi ficando mais elétrico: chamamos gente para tocar guitarra, baixo, bateria.
Essa coisa da espontaneidade sempre esteve presente com a gente. Porque a música que a gente faz é para se divertir. A gente não gosta daquele show engessado, que não pode errar. E é por isso que eu não toco com muitos artistas. Essa obrigação de não poder errar não me interessa. Não é que você não vá errar, é que não pode. Lembro de um workshop com Hermeto Pascoal, num festival em Brasília, que perguntaram a ele: ‘Hermeto, quando você erra uma nota, o que faz?’. E ele respondeu: ‘Primeiro, não existe nota errada; existe nota não programada. Então eu sigo o caminho dessa nota não programada, vou para cá, vou para lá, até voltar para a nota programada’. Então ele improvisava a partir do erro, e isso é exatamente o que a gente gosta de fazer. Claro, eu já toquei com alguns artistas, mas foram poucos, uns dois ou três, que eram muito próximos: Adeildo Vieira, Milton Dornellas… amigos com quem eu convivia, tocava em casa, brincava de ouvir a música um do outro. Mas esse negócio de ensaiar para tocar com alguém em que você não pode errar, isso não rola comigo.

Recentemente vocês fizeram um show de lançamento do “Isabel, Sete Cirandas Negras e Um Apito” no Clube Veteranos, em Jaguaribe, com participações de C4r4, Totonho e Escurinho. Como foi? Vocês ensaiaram direitinho para esse show?
A gente tocou as músicas do disco. O guitarrista é Marcelinho Macedo, dono do estúdio Peixe Boi, onde o álbum foi gravado. Então ele já conhecia todas as músicas. Mandei as gravações para Jorge Negão, do baixo, e para o baterista. Uma semana antes marcamos os ensaios. Hoje em dia os músicos são muito ocupados, cheios de compromissos. Então fizemos três ensaios no total. Claro, no show nunca é igual ao ensaio. Sempre há erros, atravessadas. Quando um erra, os outros vão junto. Essa ligação sonora é o que dá graça. Lembro que uma vez teve um show do Zé Ramalho em João Pessoa em que o baterista errou e ele quase bateu na cabeça do cara! (risos) Mas para nós, o erro faz parte. Não sou do tipo que impõe: “Tem que ser assim”. Eu prefiro que cada músico coloque o seu sentimento na melodia, porque senão perde a graça.
Mas esse show do disco novo é muito curto: são oito músicas, dura uns 30, 40 minutos. Tenho pensado em conversar com os meninos para acrescentar mais músicas e alongar o repertório. Então a primeira parte só com as cirandas e depois outras canções do Jaguaribe Carne, com improvisos, para dar mais tempo de show.
Mas voltando ao repertório do “Isabel, Sete Cirandas Negras e Um Apito”, como foi que as cirandas surgiram?
Essas músicas nasceram assim: Pedro escreveu as letras depois que nossa mãe morreu. Ele chegou com a ideia “Olha, vou escrever umas letras para a gente fazer umas cirandas”. Eu disse: “Tá certo, escreva”. Demorou um pouco, até que um dia ele veio aqui em casa e trouxe quatro letras, e na hora mesmo fez mais duas. Fiquei com as letras em casa. Meu método de compor é assim: eu leio a letra e fico esperando a melodia. Para mim, é como se a melodia já estivesse dentro da letra. Eu olho e ela salta para a minha cabeça. Tenho essa fantasia. Por isso às vezes faço muitas músicas em pouco tempo. E foi o que aconteceu: um dia peguei aquelas letras e fiz as cirandas de uma vez. Quando alguém diz: “Vou te dar uma letra para você fazer música”, então eu peço logo umas dez. Porque se me der só uma e eu não gostar, não sai nada. Mas com dez, é impossível não sair pelo menos duas. Depois lembrei de uma música instrumental que tinha [“Ciranda Satélica”] e achei legal colocá-la dentro desse universo. Colocamos também “Ciranda na Rua da Paz”, escrita pelo Totonho. E foi assim que nasceram as cirandas.
Depois inscrevemos o projeto num edital da prefeitura. Demorou para sair o resultado, mas saiu. Então fomos gravar no estúdio Peixe Boi, onde fizemos todos os discos do Jaguaribe Carne. A ideia de Pedro era: “Esse disco vai ser só voz e percussão. Nada mais. Para ser bem tribal”. Mas na gravação sentimos falta de uma harmonia. Entraram violão, baixo, até participações com cítara e trombone. As cantoras que você ouviu no disco são minha esposa, minhas duas filhas e minha cunhada. Elas cantam comigo há muito tempo. Eu costumo compor em tons altos, e não alcanço. Então coloco elas para cantar. No disco, elas fizeram os vocais, e ficou o “coro das praias” porque moramos na praia. Para o disco, seguimos a ideia de Pedro, mas as necessidades da música foram aparecendo. Quando mostrei para ele, já doente [nota do editor: Pedro Osmar convive há anos com um quadro severo de diabetes e recentemente teve um AVC], ele perguntou: “Cadê Jimi Hendrix? Cadê a guitarra?”. Eu disse: “Mas você disse que era para ser só voz e percussão!”. Ele riu: “Mas tinha que ter botado uma guitarra!”. Então no show nós colocamos. Tinha guitarra, baixo e bateria. E eu disse: “Tá vendo? Aí está a guitarra que você queria”. Quem sabe num futuro próximo a gente grave esse show com a formação atual.
A Jaguaribe Carne sempre teve uma postura crítica frente ao mercado musical. Como é a sua posição hoje, no mundo dominado pelo digital, algoritmos, redes sociais?
Olha, eu particularmente nunca me preocupei com essa coisa de música de mercado. O Jaguaribe Carne também não. A música que a gente faz não rola no mercado. Lembro da primeira vez que gravamos o Jaguaribe Carne Instrumental, em Recife. Gravamos as músicas, e uma delas ficou com sete minutos. O técnico disse: “Rapaz, essa música nunca vai tocar no rádio”. Perguntei: “Por quê?”. Ele respondeu: “Porque é muito longa”. Mas se tivesse três minutos, também não tocava (risos) Então, nunca nos preocupamos com isso. Fazemos músicas porque sentimos vontade de fazer, e continuamos assim até hoje.
Se alguma música nossa ou só minha já tocou no rádio, eu nem sei. No meu primeiro disco solo, “O Jardim dos Animais”, não tocou. No segundo, “Olhos de Proa”, as pessoas diziam que gostavam muito, principalmente de uma música que minha esposa cantava, mas também não tocou. Esse disco nasceu de poemas de um jaguaribense [Vergara Filho] que foi morar no Pará, convivendo com pescadores. Fiz dez músicas a partir dos poemas, e minha esposa e as irmãs dela participaram nos vocais. As pessoas sempre elogiavam justamente essa música que ela cantava.
No terceiro disco [“Cantus Popularis”, de 2011], foi pior ainda: era um álbum de músicas folclóricas tocadas com uma banda de rock. A ideia era juntar tradição popular com rock. O Cristovam Tadeu, que foi diretor da rádio Tabajara, me disse uma vez: “Paulo, teu disco é maravilhoso, mas não posso tocar. É tradicional e rock demais”. Ou seja: não era comercial. Depois fiz outro disco [“Sob o Sol”] com um poeta do Piauí [Fabio Kerouac], e de novo a música que minha esposa cantava foi a mais comentada. Mas também não tocou no rádio. O último foi com o poeta Lau Siqueira, chamado “Quarta Capa”.
Tem uma música minha com Totonho, chamada “Cenas de um Filme Inglês”. Eu nunca tinha gravado, só cantava nos shows. Gravei num DVD, e as pessoas adoram. Vários artistas já cantaram. Mas, claro, não é música de sucesso. E eu digo: sou um péssimo compositor de sucessos, não tenho nenhum! (risos) Quando vou a escolas falar sobre música, digo sempre: hoje em dia você tem que escolher entre ser “mais um” ou ser “único”. Se você escolhe ser mais um, pode até ficar rico, mas não vai ser feliz. Se escolhe ser único, nunca vai ficar rico, vai ser pobre a vida toda, mas será único. Os que são mais um fazem sucesso, os que são únicos fazem música. Nós escolhemos fazer música, por isso não fazemos sucesso, nem conseguiríamos, porque o que a gente faz não chega nesse patamar. (risos)
Já que você falou em discos, músicas e registros: nos anos iniciais, vocês gravavam ‘fitas alternativas’ com ensaios e apresentações e algumas delas também chegavam ao público. Existe a intenção de organizar e disponibilizar esse acervo antigo?
Olha, essas gravações são ruins. A gente usava aqueles gravadorzinhos pequenos da National, retangulares, e alguém ficava na plateia registrando o show. Não sei se dá para melhorar aquilo. Dia desses eu achei duas fitas alternativas guardadas, de um show chamado “Repercussão”, que a gente chegou a lançar para vender. Era uma fita que tinha os dois lados só com percussão. Também encontrei uma gravação de um show com eu, Pedro e Chico César. Não lembro quem era o percussionista, mas, rapaz, era muito doido. As músicas que a gente fazia eram diferentes de tudo o que se fazia na época. As letras eram difíceis de digerir ou agressivas demais.
Sabe aquele disco “Vem no Vento” do Jaguaribe Carne? A ideia dele foi justamente tentar fazer um disco diferente, mais perto do comercial. A gente chamou uma banda top, montou arranjos com uma ambiência mais próxima do mercado. Mas não deu: as letras eram agressivas, ou incompreensíveis. As pessoas ouviam, mas não entendiam. Então, mesmo tentando, não conseguimos ser comerciais. Depois a gente vai entendendo: não é que não pudesse ser daquele jeito, mas talvez fosse possível ser um pouco menos agressivo. Só que com música instrumental e experimental não dá. É aquilo. Não tem como fazer uma música experimental romântica. Tem que ser na porrada mesmo. (risos)
Entendo. Mas seria interessante lançar esse material, mesmo se a qualidade for baixa. Porque é um documento histórico, as pessoas precisam ouvir. Ou então regravar uma parte dessas canções com os equipamentos de agora…
Tem um amigo nosso chamado Alfredo, o DJ Tudo, que Pedro conheceu aí em São Paulo, e ele gosta muito do nosso trabalho. Ele tem um selo chamado Mundo Melhor e faz um trabalho super importante, documentando grupos de tradições populares pelo Brasil. Eu até mandei algumas coisas e ele disse: “Olha, vou deixar guardado. Se aparecer oportunidade de lançar, eu lhe aviso”.
O Pedro não se importa muito com isso de documentar. Ele acha ótimo quando alguém faz, mas ele mesmo não liga. Eu até me preocupo, mas tenho dificuldade técnica. Não tenho software de áudio no computador. Gravo num MP3zinho, passo para o computador… fica ruim, mas é o que dá para fazer. Minha preocupação quando fiz o DVD foi justamente registrar músicas que nunca tinham sido documentadas. Algumas só tinham sido cantadas em shows. Acho que gravei 20, 22 músicas, com a banda tocando. Há uns dois anos atrás, comecei a pensar nisso: registrar as coisas, mesmo sem saber se vou lançar. Agora descobri aqui no centro [de Lucena] um cara que tem um estúdio pequeno, caseiro. Vou para lá, toco minhas músicas, faço no violão, só para registrar. Não tenho intenção de lançar, só guardar.
Por exemplo, compus várias músicas na pandemia. Funcionava assim: alguém escrevia uma frase no Facebook, e eu fazia uma música. (risos) Teve uma engraçada: Chico César postou uma foto dele em Paris com o Salif Keïta. Eu comentei: “Eita, Salif Keïta!”. No outro dia acordei com uma melodia na cabeça e fiz uma música. No total, compus umas 8, 9 músicas desse jeito na pandemia. Fiz uma live, depois registrei, só para guardar mesmo. Não tenho intenção de gravar para lançar, mas penso em registrar em estúdio, talvez colocar no streaming. Esse negócio de streaming foi engraçado, porque nunca tive vontade, mas minhas filhas e netas vivem me pedindo. “Vô, pelo amor de Deus, coloca os discos na internet para o povo ouvir!”. Eu dizia: “Eu não sei fazer isso, não”. Mas aí botei tudo no YouTube. Os discos inteiros, faixa a faixa. Depois elas ficaram me aperreando para colocar no Spotify. Eu não sabia como, mas agora o Sérgio [Pacheco, dono da Taioba Music] botou. Porque é justamente o que você falou: as pessoas precisam ouvir, precisam saber que essas coisas existem. Tem gente que faz uma música que não é para o mercado, mas é música, né?
E como você sente a recepção do público jovem ao entrar em contato com o seu trabalho e o da Jaguaribe Carne hoje em dia?
Ah, a gente chega em lugares que você não imagina, sabe? Olha, eu conheci um cara chamado Rico Venerito, que um dia eu tava aqui em casa e ele ligou chorando, falou: “Ó, eu estou aqui ouvindo o seu disco ‘O Jardim dos Animais’, eu estou chorando”. Aí eu disse: “Mas rapaz, será possível essa coisa?” Aí toda vez que ele fala comigo, ele fala: “Po, sua música me faz não sei o quê”. Aí esse último disco, quando eu fui lançar também, chegou uma menina lá que disse “sua música faz as pessoas sentirem uma coisa no coração, sabe? No coração, é um sentimento, muito sentimento”. Aí outra irmã dessa menina disse: “Paulo Ró, eu vim para cá chorando, botei o disco para tocar no carro, comecei a chorar e vim chorando até aqui.” Aí eu disse: “Será possível uma coisa dessa, alguém que faz uma música pro povo chorar? Pode um negócio desses?” (risos)
Outro dia uma professora mandou uma mensagem: “Paulo Ró, eu sou professora de uma escola aqui em Mangabeira”, um bairro que tem em João Pessoa… “Os alunos estão fazendo um trabalho sobre o Jaguaribe Carne, estão pesquisando sobre a história de vocês. Eu queria saber se você poderia vir aqui na escola para conversar com eles.” E vou com muito prazer, né? Aí assim, quando eu cheguei no portão, já tinha um grupo de alunos com cartaz na mão: “Bem-vindo Paulo Ró”, não sei o quê, tal. Aí é uma coisa engraçada, né? Você vai para uma sala, eles começam a conversar, a perguntar. Só que eles sabem mais coisas sobre mim do que eu mesmo, entendeu? Hoje em dia, tem coisas que você não lembra mais, né? Aí eles leram livros, viram todos os documentários que tem no YouTube, viram matérias de jornais, tudo, tudo, tudo. Isso é muito importante para mim, porque você percebe que o seu trabalho tem valido a pena. Porque é isso que você sempre quis fazer, né? Você sente que sempre quis democratizar a arte, principalmente pela escola.

E agora até virando tema de trabalho na escola…
Sim, né? (risos) A escola pra gente é assim uma coisa muito importante, porque digamos assim, a escola abre as portas para você. Só que para isso você tem que pesquisar, estudar, tem que querer, né? Porque se você não quiser, não adianta nada. Nada adianta se você não quiser ser ajudado… Essas coisas de trabalhos com comunidade, a gente adora fazer, vai pro sindicato, para a população lá… Tem que ter pessoas para mostrar os caminhos. Aí a gente faz isso através das escolas e desses lugares que as pessoas não têm acesso à arte, à cultura, pra gente é bom demais. É maravilhoso.
Quais artistas ou movimentos contemporâneos você enxerga como herdeiros ou afinados com a proposta do Jaguaribe Carne?
Aqui tem um curso de música popular na universidade, já faz alguns anos. Então, esses músicos que estão passando por esse curso, eles estão saindo de lá com a cabeça e a música ‘lá em cima’, com um grande conhecimento musical. E muitos dos professores que estão lá na escola foram as pessoas que começaram a tocar com a gente, que na época estavam começando. Helinho, Xisto Medeiros, Léo Meira… E aí assim, essas pessoas hoje são os professores desse curso de música e sempre falam sobre o Jaguaribe Carne na sala de aula. Teve um menino que disse assim: “Rapaz, essa noite de sábado me deixou em êxtase”, depois do show do disco. Aí assim, a música que a gente faz, pra gente é uma coisa tão simples que é… sei lá, peculiar e familiar, sabe? Coisa da vivência. Não fiquem pensando que eu tô esnobando, né? Porque quando a gente faz, a nossa intenção é passar o sentimento de comunidade, para todo mundo. Mas aí a música se transforma numa coisa grande. Nesse show, as pessoas têm falado muito sobre isso, que a música é linda, os arranjos, as vozes, as letras. E não é intencional. A gente faz a música como uma coisa simples, né? Se chega na cabeça das pessoas com essa lógica, é maravilhoso pra gente.
Mas outra coisa: a música instrumental que a gente fazia era muito complicada. Muito difícil. Aí hoje em dia os meninos tocam isso como estudo. Eu fui tocar lá um baião que eu fiz, um ritmo de baião que tem no instrumental. Quase que eu não toco. Vou tentar tocar mais lento, inclusive, porque senão não consigo tocar. Mas é uma música bem difícil de tocar tecnicamente, entende? A melodia, claro, é complicada. Porque essas pessoas que estudam, os estudiosos, eles têm essa coisa de gostar de ouvir para aprender. E foi o que a gente fez com os nossos Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, Walter Franco, Ravi Shankar, Youssou N’Dour, Jocy de Oliveira, né? Toda essa gente fez isso, ouviu muitas músicas e sentiu essa necessidade dentro desse universo, diversificou, entrou e ficou.
Mas é boa a receptividade. E assim mesmo as pessoas que não são músicos, que não são cantores… Você via o grupo na frente, via que as pessoas estavam ouvindo mesmo, curtindo a música, se emocionando. Quer dizer, são pessoas que ouvem a música de verdade.
Em 2023, você participou da faixa “Ruínas” do disco “Lampião Rei” da Papangu. Como é que aconteceu isso?
Ah, a história com o Papangu é longa… O pai de Pedro [Francisco] e Rodolfo [Salgueiro], Odair Salgueiro, gravou o primeiro disco do Jaguaribe Carne, o “Jaguaribe Carne Instrumental” em uma sala de cinema [o Cine Bangüê, hoje em dia Sala José Siqueira]. Ele era professor de música da Universidade Federal da Paraíba, levou os equipamentos e fez a captação das músicas. Foi tudo gravado durante a madrugada. Depois ele gravou meu disco “O Jardim dos Animais”. Eu achei um livro de um cara lá de Belo Horizonte, um professor de literatura chamado Ronald Claver. Eu vi esse livro e fiquei louco, porque os textos eram loucos e as ilustrações mais loucas ainda. Aí eu disse: “Eu vou fazer a música desse negócio aí”. Peguei o livro, levei para casa e comecei a fazer as músicas, em uma semana. Fiz um monte de show desse repertório. Era eu tocando violão, minha filha mais velha tocava piano, e a mais nova cantava, e a minha esposa fazia vocal e percussão. Chegou um pessoal e falou “rapaz, tu vai ter que gravar esse negócio em disco”.
Aí liguei para ele [Odair Salgueiro] e disse: “queria mostrar um trabalho para a gente fazer.” Aí eu levei a fita cassete que eu tinha gravado com Glória tocando piano e eu cantando. Aí teve um dia que ele ligou e disse: “Olha, você tem dinheiro para gravar isso?” Eu disse: “Nem um tostão.” Aí ele me disse: “Bom, é o seguinte: você não tem dinheiro, eu também sou uma pessoa que não tenho posses.” Mas ele: “vamos gravar esse negócio, porque você não vai sair da pobreza com isso, nem eu vou ficar mais rico gravando. Então vamos gravar porque esse negócio aqui é muito bom e precisa ser gravado”. Daí eu passei um ano gravando. Tem muitas participações, de Cátia de França, Paulinho, meu irmão Pedro cantou uma música.
Na época, os meninos [Pedro Francisco e Rodolfo Salgueiro] eram pequenininhos. Pedro era uma criancinha de fralda. O Rodolfo, acho que ele tinha uns 10, 15 anos. Aí passou um tempo, o pai deles faleceu e houve um distanciamento. Depois, encontrei com Pedro [Francisco] na universidade e ele me disse: “a gente gravou um disco de blues em inglês e queria que você ouvisse.” Aí ele me deu. Aí passou outro tempo, botei ele para tocar sanfona em alguns shows que fiz. Porque ele toca de tudo, né? Aí um tempo depois ele disse: “Rapaz, a gente tá com um grupo de rock aí. Gostaria muito que você participasse” E eu: “É o quê? Rock?” E ele: “Rock pesado.” Eu disse: “Tenho interesse”. Eu gosto muito de rock, né? Aí ele me disse: “Vou fazer a música, depois mando para você escutar. Se você quiser tocar percussão, violão, voz, você faz o que você quiser.”
Aí ele mandou a música, e fiquei assim procurando onde entrar, né? Aí eu: “Já sei, vou fazer aquelas percussões vocais que a gente gosta de fazer”. Depois eu levei uma moringa para tocar. Aí tudo que tá lá foi improvisado na gravação. E deu naquela música, que é maravilhosa. Aliás, o disco todo é um negócio maravilhoso… Nesse show que a Jaguaribe Carne fez agora, Pedro e Hector estavam lá. Eu falei “queria registrar aqui a presença dos meninos do Papangu. Vocês já ouviram Papangu? Se não ouviram, escutem, porque o negócio é sério mesmo. Pode escutar Papangu, viu?” É uma coisa que vem de longe, que foi legal demais. E eles sempre fazem esses improvisos, né? Possivelmente eles devem ter pego isso do Jaguaribe Carne também. É por isso que eu gosto de dizer que o Jaguaribe Carne teve a coragem de fazer o que as pessoas não têm coragem até hoje. Existem pessoas que fazem música de mercado boa, mas tem coisas que não pode fazer. E eles fizeram, eles vão lá e fazem mesmo, não querem nem saber. Porque precisa de coragem para fazer uma música única, e é o que faz deles um grupo único. E é isso que a gente gosta muito neles. É uma música muito boa, uma composição muito boa. Eles são excelentes músicos, são criativos. E além disso, são ótimas pessoas.
Mas voltando à fase atual da Jaguaribe Carne: tem mais shows marcados? Vocês pretendem tocar mais por aí?
Temos um no dia 10 de outubro, no Casarão Criativo, no centro histórico de João Pessoa. Vamos tocar lá, num evento com a Orquestra de Música Negra. Mas fora isso, não temos uma agenda fixa. Não somos produtores. Eu mesmo, para produzir um show, não faria. Ultimamente temos tocado através de editais ou convites. Por exemplo, a Energisa sempre faz um evento de Natal e nos chama. Fizemos lá três ou quatro vezes. Então esperamos convites. Porque eu não sei vender apresentações. Fazer música eu sei, mas vendê-la, não. Quando lançamos um CD, se alguém pergunta o preço, eu digo “R$ 20”. A pessoa responde: “Rapaz, caro demais”. Eu já não sei o que dizer, então eu tomo o disco de volta ou acabo dando de presente. Se a pessoa quiser mesmo, leva. Mas eu não tenho esse tino para comércio…
A gente nunca prezou por isso não. Quer dizer, não é que nunca se preocupou. Hoje em dia eu já estou mais preocupado com essa coisa do financeiro. Mas isso não quer dizer que, se um grupo tiver um trabalho cultural, um coletivo num bairro, e convidar a gente para tocar, a gente não vá. A gente vai, não tem problema nenhum. A gente está se preparando. Jorge Negão, o menino do baixo, diz sempre que cada show é um ensaio. Então quanto mais ensaios e apresentações, mais preparados nós vamos estar para fazer esse trabalho.
Por mim, vocês deveriam fazer mais shows, porque eu gostaria de ver a Jaguaribe Carne ao vivo também, quem sabe até aqui no Sudeste?
Maravilha! Vamos pensar no caso, né? (risos)
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br. A foto que abre o texto é de Foto: Genesis Santana