texto de João Paulo Barreto
Em 2019, Bruce Springsteen lançou seu 19º álbum de estúdio, “Western Stars”, seguido meses depois por um documentário intimista – de mesmo nome – com trechos de performances ao vivo. A introspecção oferecida pelo filme convidava o espectador a conhecer parte da sombra que a depressão representou (e ainda representa se houver um descuido) na vida do músico de Nova Jersey.
Intimista e sincero, o documentário “Western Stars” trata de uma consciência da vida em sua completude. É sobre uma reflexão acerca de erros cometidos nessa trajetória e sobre a necessidade/capacidade de se perdoar. Mas, sobretudo, é uma obra sobre envelhecer com uma consciência tranquila e uma serenidade que pudesse lhe conceder paz. Independente dos percalços que a vida lhe trouxe, o filme narrado pelo próprio Bruce Springsteen oferecia uma reflexão sobre a condição humana em seus tormentos mentais e sobre como se sobressair disso com poucas cicatrizes.
De forma desnuda, “Western Stars” trazia uma análise de uma redenção íntima e uma reflexão sobre como chegar a uma fase madura da vida em paz consigo mesmo, com um homem de então 70 anos abraçando a terceira idade e a clareza que a velhice lhe trazia em relação aos anos da aurora da vida e de tormento mental.

“Springsteen – Salve-me do Desconhecido” (2025, “Springsteen: Deliver Me From Nowhere”), ficção que aborda uma dessas conturbadas fases do músico, bem como a criação de uma de suas obras mais intimistas e brilhantes, o assombroso disco “Nebraska“, lançado em 1982, segue um caminho parecido, mas focando em um jovem Bruce que ainda cruzará caminhos ásperos até chegar à serenidade da velhice.
Tal percurso se assemelha ao do documentário “Western Stars” em termos de uma abordagem que desmitifica a figura do artista ao evidenciar seu próprio reconhecimento de suas fragilidades mentais, inseguranças e sua compreensão e luta, inicialmente solitária, contra a depressão que o afligia.
Na pele de Bruce, o jovem Jeremy Allen White, notório pela série The Bear, encarna os trejeitos do cantor sem necessariamente imitá-lo de maneira caricata, uma armadilha que seria fácil de se cair. Mantendo sua própria voz naturalmente rouca ao reencarnar em conversas o jovem Springsteen com 30a anos de idade, Allen, porém, se transforma no palco, tornando-se o próprio músico de Long Branch, Nova Jersey. E é curioso observar o cuidado do ator em parecer mais rouco que o normal nas cenas que acontecem imediatamente após os shows, denotando exatamente o desgaste da voz de Bruce após as horas no palco.

Na criação da presença ao mesmo tempo taciturna e calorosa do artista, Allen capta de maneira brilhante e dolorosa o modo como a depressão parecia corroer Bruce Springsteen por dentro. Ele busca por ajuda em seu entorno, encontra um breve conforto nas conversas com seu produtor e amigo Jon Landau (Jerry Strong, da série ‘Succession’), se envolve amorosamente com uma jovem fã (que acaba por sofrer em um relacionamento fadado a terminar), e, neste processo, segue em frente aos trancos na tentativa de transformar em música toda aquela fase, algo que viria a se tornar, justamente, o soturno disco “Nebraska”.
Diretor e co-roteirista do filme, Scott Cooper não intenta aqui criar uma cinebiografia completa do cantor, mas destrinchar uma fase tenebrosa de Bruce. Cooper, inclusive, já havia abordado, há 16 anos, os percalços da fama e suas feridas a partir do alcoolismo de Bad Blake, personagem que trouxe o Oscar a Jeff Bridges em ‘Coração Louco” (2009). Em “Salve-me do Desconhecido”, ele consegue um resultado melhor por trazer esse vislumbre das trevas que Bruce Springsteen visita em sua depressão solitária e o modo como isso refletiu na criação de um dos seus mais marcantes discos.
Na narrativa, baseada no livro “Deliver Me from Nowhere: The Making of Bruce Springsteen’s Nebraska”, de Warren Zane, lançado em 2024, Cooper apresenta a maneira como a criação rígida de Douglas Springsteen (vivido com peso por Stephen Graham, da série “Adolescência”) trouxe marcas que refletiram por anos na vida do filho. E o momento em que os dois finalmente deixam para trás esse passado é de uma ternura única e que desenha bem a condição e as amarras da masculinidade daqueles dois personagens.
Enquanto Bruce evoluiu para conseguir expressar em letras musicais sentimentos como aqueles que compartilha com o pai naquele momento, seu velho precisou se tornar um idoso amargurado para finalmente conseguir desabrochar o afeto pelo seu filho. Prova disso está no modo como o ainda jovem Douglas usava as visitas com Bruce ao cinema para sessões de pilares como “O Mensageiro do Diabo” (1955), filme que, aqui, cria uma eficiente rima temática. Isso porque é justamente em tais momentos que, de certa maneira, o Springsteen pai se conectava com aquele que viria a se tornar o boss da música popular estadunidense. Através de uma arte como o cinema.
Assim, o diretor Scott Cooper cria uma precisa metáfora do modo como o cinema daquele país e sua cultura pop influenciaria para sempre Bruce e suas criações autorais. Não por acaso, é a partir de um vislumbre de cenas de “Badlands” (1973), filme de Terrence Malick com Martin Sheen, Sissy Spacek e Warren Oates, que o boss cria um de seus clássicos. E o modo como o longa demonstra esse processo vai no cerne.
“Springsteen – Salve-me do Desconhecido” traz para seu público uma revisita de Bruce nas lembranças de sua vida anterior àquele momento de trevas há quase meio século e o modo como tais passagens de sua vida culminaram em seu momento de ruptura emocional. E ao citar “Western Stars” neste texto, fica a conclusão de que a integridade desse artista e o modo como ele conseguiu confrontar seus demônios foram símbolos da sua busca por paz interior e pela superação daquele momento e de muitos outros.
A impressão que a obra deixa é a de mais um documento biográfico comprovando a sinceridade e honestidade de um artista pleno em sua integridade. Alguém que não esconde os próprios tormentos, preferindo compartilhá-los, distante de qualquer auto-piedade, na busca do evoluir além deles.
“É fácil se perder de si ou nunca encontrar a si mesmo. Quanto mais velho você fica, mais pesado aquela bagagem que você carrega e que não superou fica. É quando você foge. E eu cometi muito desse tipo de fuga ”, afirma Bruce em certo momento do documentário “Western Stars”, em sua inconfundível voz rouca, entregando um dos muitos diálogos redentores do filme de 2019.
Em outro momento, um dos pontos que melhor rima com este lançamento de 2025, Bruce fala justamente sobre seu constante embate contra aquele sentimento que o atormenta, referindo-se à luta contra a depressão que quase o destruiu no começo da década de 1980, e que este novo trabalho conseguiu transmitir com brilhantismo. “Passei 35 anos tentando aprender a deixar para trás as partes destrutivas de minha persona. E ainda há dias em que eu preciso lutar contra isso”.
Ainda bem que ele sempre terá um violão e um caderno de notas para o ajudar. E que bom poder admirar alguém com tamanha sinceridade em seu trabalho, um artista notório por seu carisma e criações capazes de dialogar com um público de diversas classes sociais e etnias. Alguém em cujas letras podemos encontrar um conforto através de abordagens que vão desde paixões amorosas (correspondidas ou não, como é o caso de “Bobby Jean”); dificuldades de uma vida de sufocos financeiros e sonhos despedaçados (‘The River”); superação dessas mesmas dificuldades (‘Better Days”); nostalgia de um tempo bem vivido, mas só reconhecido tardiamente (“Glory Days”); denúncia contra a fascista brutalidade da polícia (“American Skin – 41 Shots”); o peso de uma pátria exploradora e corruptamente bélica (“Born in the USA”), além de um (entre vários) hinos do azarado em busca da própria estrela, como é o caso de “Born to Run”, sendo esse dois últimos retratados no filme de Scott Cooper de maneira a destacar o apuro na recriação desses momentos clássicos da vida do boss.
Bruce Springsteen é aquele tipo de ídolo cuja as letras, em algum momento, vão falar diretamente aos seus ouvidos. Basta ficar atento.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.