49ª Mostra SP: Candidato espanhol ao Oscar, o road movie de horror “Sirāt” é um dos filmes mais divisivos da temporada

texto de Renan Guerra

Escolhido como representante da Espanha para a categoria Melhor Filme Internacional do Oscar 2026, “Sirāt” (2025) chega com diferentes credenciais, incluindo a produção assinada por Agustín e Pedro Almodóvar através de sua El Deseo e o prêmio do júri no 78º Festival de Cannes, realizado em maio de 2025. O filme foi exibido na sessão de abertura da 49ª Mostra de Cinema de São Paulo e, tal qual sua passagem por outros festivais de cinema, dividiu opiniões – é bem na linha dos extremos, meio ame ou odeie. E isso tem seus motivos: o filme de Oliver Laxe acompanha a saga de um pai e filho em busca de sua filha/irmã que desapareceu há cinco meses. Para isso, os dois se embrenham em uma rave realizada no meio do deserto no Marrocos. A partir daí eles embarcam numa jornada que, de forma simplificada, pode ser definida como uma descida ao inferno.

As-Sirāt seria, segundo o Islã, a ponte sobre a qual todos devem passar no Yawm al-Qiyamah, o Dia da Ressurreição, trajeto essencial para entrar no Jannah, o Paraíso. A tradição diz que a ponte As-Sirāt é mais fina que um fio de cabelo e tão afiada quanto a mais afiada faca ou espada – informação que é apresentada logo na abertura do filme de Oliver Laxe. Segundo a tradição, abaixo deste caminho estão as chamas do Inferno, que queimam os pecadores para fazê-los cair. Esse referencial simbólico demarca muito do que veremos em “Sirāt”: Luis (Sergi López) e seu filho Esteban (Bruno Núñez Arjona) viajam pelo Marrocos acompanhados de sua cachorrinha Pipa. Na busca pela filha/irmã desaparecida, eles cruzam um grupo de desgarrados – Stef, Jade, Tonin, Bigui e Josh – que partem de uma rave a outra por dentro do deserto, estes acompanhados de sua cachorrinha Lupita. Nessa jornada, uma série de reviravoltas e plot twits irá modificar para sempre a vida desse grupo e, dito isso, recomendamos que você fuja dos spoilers e evite se aprofundar nos detalhes do enredo do filme, isso é importante para a imersão dentro da história. Por isso, o texto que segue foca nos aspectos técnicos e na construção narrativa tentando ao máximo evitar spoilers centrais.

A narrativa de road movie de horror do filme trafega em um universo que dialoga tanto com o empoeirado mundo de “Mad Max” quanto com o realismo de tramas mais densas do cinema de arte contemporâneo. Enquanto os personagens principais trafegam pelo deserto marroquino, pequenos lampejos informativos deixam ver que o mundo que os cerca parece ruir: rádios falam sobre um amplo conflito armado, tanto que um dos personagens até menciona uma possível terceira guerra mundial. De todo modo, o filme de Laxe se preocupa apenas com esse microcosmo gerado por esse novo grupo familiar que se formou. Luis, seu filho e os desgarrados da rave.

Nisso, o grande destaque fica por conta de Sergi López, importante nome do cinema europeu (César de Melhor Ator em 2000 por seu papel em “Harry chegou para ajudar” e destaque ainda no belo “Uma Relação Pornográfica“) , que aqui consegue construir de forma clara as dores desse pai que enfrenta um universo desconhecido em busca de reunir novamente seu pequeno núcleo familiar. Dito isso, o mais interessante do filme talvez sejam realmente esses arranjos familiares: se o protagonista Luis busca reunir novamente sua família consanguínea, durante o filme vemos o desenrolar de uma relação quase familiar entre todos aqueles personagens, sejam os dois novos chegados ou o grupo de nômades que construiu ali, em suas andanças, uma relação de cuidado e zelo muito particular – um microcosmo de corpos díspares e únicos que se encontram em suas particularidades.

Vale reforçar a presença dos cães nesses núcleos familiares inesperados. Pipa e Lupita são lampejos de leveza no filme, apesar de todos os horrores. As duas intérpretes caninas foram premiadas esse ano em Cannes com o prêmio Palm Dog, premiação paralela do festival que celebra os cães e outros mascotes, e o prêmio foi merecidíssimo, especialmente para Pipa, a pequena cachorrinha que está envolvida em alguns dos momentos mais marcantes da história.

Dito tudo isso, é importante frisar que “Sirāt” se assemelha a uma escola de cinema que busca chocar o espectador, bagunçar os sentidos de quem o assiste, numa linhagem que remete a nomes como Gaspar Noé, por exemplo. Se nos filmes de Noé, a música eletrônica pesada vem acompanhada de cores fortes, no universo de Laxe a música eletrônica vem recheada de poeira; de todo modo, os diretores se assemelham na violência e no derradeiro horror da vida – e talvez no olhar niilista em comum. “Sirāt” se constroi nessa impossibilidade: por mais que se auxiliem e se irmanem, esse grupo de pessoas está fadado a enfrentar uma jornada de penalidades. Laxe se conecta às crenças islâmicas, mas por um olhar cristão ocidental, podemos até pensar no Livro de Jó e todo o seu calvário que testa repetidas vezes a fé humana. Ainda assim, por mais que parta de símbolos religiosos, algo entre o céu e o inferno, o filme de Laxe não está muito interessado na purificação e na salvação, ele está muito mais interessado na jornada desses personagens. E é essa jornada que pode ser incômoda para uma parcela do público.

O que esse filme busca contar? O que essa jornada de penitências de “Sirãt” tem a nos dizer? Isso Oliver Laxe não responde de forma clara. Essa não-resposta pode ser vista como uma falha por muitos, mas é uma das riquezas do filme. Ao subir os créditos resta ao espectador a maquinação e a ruminação em torno de tudo aquilo que foi visto. Esse tour de force ao som de muito techno e com muita poeira é uma jornada que nos lembra que o cinema não é apenas sobre afagos, mas também é sobre provações e desconfortos.

Leia mais sobre a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *