entrevista de Fabio Machado
1998. Um ano que, ao menos na memória dos brasileiros, vai ser sempre assombrado pela morte de Tim Maia e pela derrota na final da Copa do Mundo pela França. Mas nem tudo foi tristeza. Mais especificamente no dia 27 de outubro, cinco jovens suecos – Dennis Lyxzén , David Sandström, Jon Brännström, Kristofer Steen e Magnus Björklund – lançaram um disco que se tornaria um divisor de águas não apenas para a cena hardcore de onde vieram e cresceram, mas também como um exemplo de inovação dentro do que pode ser feito na música pesada.
Esse disco é “The Shape of Punk to Come”, do Refused, um registro que não foi bem compreendido na época porque subvertia os próprios limites sonoros do que se entendia como hardcore e punk: os gritos e guitarras urgentes estavam lá, assim como as letras claramente anticapitalistas e antifascistas que nos dizem mais sobre o que vivemos em 2025 do que em 1998. Mas ao mesmo tempo, conviviam samples, trechos de poesia falada, baixo acústico e bateria com levadas de jazz, e muitos outros momentos que vão do ambient ao experimental. Se essa mistura não soa tão impensável aos nossos ouvidos do século XXI, naquele fim de século XX algo assim dentro de estilos mais nichados como hardcore, punk e metal ainda representava um certo tabu.
O resultado é que a recepção fria ao disco se somou a uma turnê malfadada pelos EUA, onde em meio a locais insalubres, plateias alheias e integrantes à beira do colapso, o Refused se declarou “morto pra caralho”, encerrando suas atividades pela primeira vez. Tudo isso é contado com riqueza de detalhes e alguma poesia no documentário “Refused are Fucking Dead”, de 2006, dirigido pelo guitarrista Kristofer Steen (assista logo abaixo). A ironia é que, pouco após o término, veio o reconhecimento tardio a “The Shape of Punk to Come” pela crítica – muito pelo sucesso de “New Noise”, que ganhou um videoclipe igualmente instigante – e posteriormente por músicos de outras bandas. O disco agora era celebrado pela mesma razão que foi desdenhado por ser “pretensioso e estúpido”, nas palavras do vocalista Dennis Lyxzén (também do Internacional Noise Conspiracy), durante entrevista realizada por chamada de vídeo ao Scream & Yell.
Esse revisionismo histórico “do bem” trouxe uma base de fãs que pedia cada vez mais por um retorno. E após anos de rumores e falsas confirmações, o Refused retomou atividades em 2012 (quando fizeram um show demolidor no Primavera Sound Barcelona), restabelecendo a rotina de turnês e gravando mais dois discos de estúdio. Então, porque essa nova declaração de morte? É sobre isso que conversamos com Dennis, que também falou sobre o novo projeto musical envolvendo os mesmos integrantes do Refused, a apreciação aos Mutantes e a vontade de comprar alguns vinis em São Paulo se sobrar algum tempo livre – eles tocam no Terra SP, na sexta, dia 31 (ingressos aqui). Fica a dica aos produtores e lojistas de vinil da capital: separem uns discos de hardcore para negociar com o Dennis!
Para começar, como está indo a turnê até agora? Vocês tiveram algumas datas desde julho desse ano ou antes, é isso mesmo?
Sim, nós começamos em março. Fizemos as datas norte-americanas entre março e abril, então estamos viajando desde essa época e está sendo fantástico. Quer dizer, é meio esquisito estar fazendo uma tour de despedida e terminando com a banda, mas eu diria que provavelmente é a melhor turnê que já fizemos, e isso é meio maluco.
É muito bom saber disso. É sua primeira vez no Brasil e na América Latina, certo? Estou curioso para saber se você escuta alguma banda ou artista brasileiro.
Sim, claro! Quer dizer, tem o Ratos de Porão, mas ontem eu estava ouvindo os Mutantes, que acredito ser uma das minhas bandas favoritas. Eu amo Mutantes. Sim, eu estava ouvindo um pouco deles ontem, mas meu plano é comprar muita música punk, hardcore e psicodélica quando eu chegar ao Brasil.
Legal. Nós temos várias lojas de vinis aqui em São Paulo. Se você tiver algum tempo, espero que consiga comprar alguns discos por aqui.
Também espero que sim. É isso, espero que alguém possa me levar até as lojas legais de discos. Aí eu posso comprar alguns álbuns de punk old school e hardcore.
Agora, voltando ao Refused. A banda tem um histórico com encerramentos, tanto que o nome da tour é “Refused está morto pra caralho, e dessa vez eles realmente estão falando sério” [tradução livre do original: “Refused is fucking dead and this time they really mean it”]. Mas acredito que a motivação dessa vez seja um tanto diferente quando comparada ao primeiro término da banda. Da sua parte, quais os motivos para encerrar as coisas dessa vez?
Quer dizer, dessa vez estamos terminando isso como amigos e estamos terminando porque queremos continuar fazendo música juntos. E da última vez, nós terminamos porque não éramos mais amigos e não queríamos mais tocar juntos. Então, eu acho que foi uma grande diferença.
E dessa vez, digo, da última vez que terminamos no meio da tour, as pessoas estavam chorando. Foi horrível. Mas agora nós decidimos que se vamos mesmo terminar, então vamos celebrar isso. Vamos embora quebrando tudo. Vamos tocar essas músicas mais uma vez. Vamos dar às pessoas tudo que elas querem do Refused. Então sim, quer dizer, emocionalmente é muito, muito diferente.
Ainda dentro desse tema: ao falar sobre as razões para o fim, David Sandstrom (baterista e membro fundador da banda) declarou que o Refused nunca foi algo bom para a amizade entre vocês, pois cada um tinha ideias diferentes para o conjunto. Queria saber se você concorda com ele e como está o relacionamento com David nesse momento, considerando essa última turnê e todos os sentimentos em torno do Refused.
Nosso relacionamento é fantástico. Ele é como… quer dizer, nós nos conhecemos há mais de 30 anos, 35 anos. Ele é como meu irmão. E eu concordo com ele. Acho que David é um artista, e ele é uma dessas pessoas que não quer que a arte seja definida pela economia, o que eu compreendo totalmente. Mas eu sou o tipo de pessoa que quer sair em turnê o tempo todo. Eu quero tocar o tempo todo. Eu sempre quero seguir adiante. E David não quer isso.
Ele não ama sair em turnê e está mais interessado no aspecto criativo das coisas. Então, nós já brigamos muito sobre isso – não o lado musical, porque sempre concordamos no aspecto musical, mas brigamos muito sobre em qual direção levar a banda. E é isso, nunca concordamos (nesse tema). Eu digo sim para cada show que oferecem para nós e David diz não para todo show, o que é algo difícil para o relacionamento.
Bem, é legal saber que a amizade de vocês está ótima. E acredito que o clima na banda seja melhor agora comparando com os anos anteriores, certo?
Sim! Não, está ótimo. E acho que se nós começarmos uma nova banda, que é a nossa ambição, nós podemos desde o primeiro dia falar: “isso é o que ambicionamos, é o que queremos fazer”. O Refused meio que se tornou uma banda grande depois do ocorrido.
Quer dizer, nós terminamos e então o “The Shape of Punk to Come” se tornou conhecido e nós nos tornamos essa banda grande e tem sido complicado de equilibrar e conduzir tudo isso. Mas a nossa ideia é que, se nós fizermos um projeto novo, podemos fazê-lo de forma diferente, falar sobre isso e olhar para isso de uma maneira diferente. E eu acho que isso vai ser ótimo. Acredito que nós somos amigos melhores agora do que nós fomos em um longo, longo tempo simplesmente porque estamos terminando a banda e tendo momentos felizes juntos.

Isso é muito bom. E falando sobre “The Shape of Punk to Come”, esse trabalho atualmente é considerado por muita gente (eu incluso) como um disco inovador e influente. Mas quando foi lançado, ele dividiu opiniões por conta do direcionamento sonoro. Vocês tinham alguma expectativa sobre esse álbum quando estavam no meio do processo criativo, em estúdio?
Sim, quer dizer, eu estava cético. Tenho que admitir, eu estava cético porque era um grande salto em relação ao disco anterior (“Songs to Fan the Flame of Discontents”, de 1996). Então, estava meio preocupado. Aí eu falei para o David que a garotada fã de hardcore não ia entender (o álbum). “Eles não vão gostar do disco”, falei. E David disse: “ah, é um ótimo álbum. As pessoas vão entender”. Então, acho que nós dois estávamos corretos, porque quando “The Shape of Punk to Come” saiu, o mundo hardcore não gostou. Pensaram que éramos pretensiosos e estúpidos. E aí levou algum tempo, e então todo mundo gostou. Por isso eu acho que eu estava certo, e David também estava. Mas quer dizer, é difícil porque quando você cria, está na sua pequena bolha.
E “The Shape of Punk to Come” é um registro que nós escrevemos e gravamos, que levou alguns meses da minha vida, basicamente. E se tornou um grande disco. Isso é meio maluco. Mas quando você está fazendo isso, gravando um disco, você coloca ele no mundo e começa a fazer turnês, aí você termina a banda e fica tipo: “OK, isso não funcionou muito bem. Vamos começar algo novo. Vamos continuar tocando”. E aí o disco simplesmente decolou e se tornou algo grande. Foi muito inesperado.
Sim, Sim. Mas acho que acabou dando tudo certo, né?
Assim, tem algo sobre a vida onde ela te atira um monte de situações fora da curva, mas isso também é meio emocionante. E isso é o que nos levou até onde estamos hoje, porque eu acho que se nós tivéssemos tido um gosto do sucesso lá em 1998 e não tivéssemos rompido, seria pior ainda (risos). Muito pior. Um término em 1999 teria sido ruim pra cacete (risos). Então, acho que está tudo bem (risos).
Depois dessa experiência com “The Shape of Punk to Come”, um trabalho mais experimental, e os anos de hiato, como o processo criativo de vocês mudou nos álbuns mais recentes, como “Freedom” (2015) e “War Music” (2019)?
Eu acredito que não queríamos ficar nos repetindo, porque somos artistas. Acho que a coisa mais segura a se fazer seria lançar um “Shape of Punk” parte 2, sabe? Mas nós tínhamos falado que queríamos criar músicas que gostamos, e que estejam em nosso DNA, sem se preocupar com o que outras pessoas pensam. Então, acho que nós queríamos ser honestos sobre quem somos e quem nós éramos como uma banda, sabe, ao invés de tentar satisfazer outras pessoas.
Eu penso que vocês fizeram algo na discografia de vocês que vai além do hardcore como um gênero, certo? No entanto, eu também diria que a influência punk e hardcore ainda está presente nas decisões e na ética de vocês enquanto banda. Queria saber se você concorda com isso, se vocês ainda são uma banda hardcore no fundo, ainda que o som não seja sempre punk ou hardcore clássico.
Sim. Eu penso que, como você comentou, muitas das ideias e das atitudes que temos, sempre foram fundamentadas no punk e no hardcore. E quero dizer, acho que mesmo com a nossa música tendo se tornado um pouco mais progressiva e esquisita, acho que sempre teve aquela energia e violência do punk e hardcore, que nós amamos. E mesmo agora, nessa última turnê, nós tocamos um monte de músicas realmente hardcore old school dos nossos primeiros dias, até mesmo porque estamos terminando. Então, queremos tocar canções da discografia inteira. Mas é isso, eu diria que somos muito enraizados no hardcore. E mesmo quando falamos sobre nós mesmos, fazemos isso como uma banda de hardcore.
Sim, isso é muito bom. Então, o setlist vai cobrir toda a história da banda, sem estar muito concentrada em um outro disco. Vocês podem fazer músicas de toda a discografia.
É isso. Quer dizer, honestamente, vai ter bastante coisa do “Shape…” porque as pessoas amam esse disco. Mas fora isso, fazemos músicas da nossa primeira demo e também do nosso último álbum. E um pouco de tudo entre esses extremos. Aí nós fazemos um monte de canções do “Shape” porque o público quer ouvir essas, você sabe, querem ouvi-las uma última vez. Então nós vamos dar o que o povo quer ouvir. Mas também vamos tocar um monte de músicas esquisitas e obscuras. Quer dizer, nesses últimos meses de turnê tocamos coisas que não fazíamos ao vivo há 27 anos. Então, tem sido bem divertido.
Isso é bom. Quer dizer que tem algo para todo mundo.
É isso aí.
Eu gostaria de fazer um pouco sobre o tributo “The Shape of Punk to Come Obliterated”. Acho que ficou um disco interessante porque a maioria dos artistas envolvidos realmente se comprometeu a criar algo novo ao invés de tocar as músicas nota por nota. Queria saber se vocês estiveram envolvidos no projeto, se fizeram sugestões sobre as bandas e as músicas escolhidas, coisas assim.
Sim, nós escolhemos todas as bandas. Foi tudo uma decisão nossa. E falamos para todos os artistas: “Simplesmente destruam as músicas. Façam o que vocês quiserem com elas”. E eu acho que ficou um line-up insano. As versões ficaram muito legais porque todos eles trouxeram algo realmente diferente para elas.
Quer dizer, a versão do Cult of Luna para “Tannhäuser” é excelente pra caralho! E aí você tem o Touché Amoré, que pegou uma música mais acústica e estranha e transformou em outra coisa muito legal. Então, acho que tudo ali está exatamente como…é mais do que nós teríamos sonhado.
Mas sim, nós selecionamos todas as bandas (do tributo). Nos sentamos e dissemos: “Quais grupos old school que nós curtimos que poderiam estar envolvidos? E quais dessa nova leva de punk e hardcore que também poderiam estar nessa?” E acho que o disco ficou incrível.
Sim, esse equilíbrio deixou tudo bem legal. Tem as bandas mais old school e outras mais recentes, e sonoridades mais experimentais, porém ainda com base no hardcore e punk. Então ficou muito bom. Foi uma grande recriação do disco.
Sim, eu acho que isso é ótimo.
Ouça o tributo na integra abaixo
Vocês têm falado sobre o desejo de formar um novo projeto, uma nova banda. Dennis, você também sempre esteve envolvido com outros projetos musicais. Mas em relação a essa novidade, você pode contar mais alguns detalhes? O projeto já tem um nome? E em relação à direção musical?
Eu não posso contar muita coisa porque nós ainda não sabemos. A única coisa que sabemos é que vamos ser nós quatro e vai ser uma música violenta, agressiva e pesada. Isso é meio que tudo que sabemos por enquanto.
Acho que vai ser algo mais…bem, eu não sei. O que eu sei é que vai ser uma coisa mais solta que o Refused, muito mais. Um pouco mais experimental, e mais… não será uma coisa cheia de jams, mas acho que as músicas vão ser mais longas. Não serão tão compactas. Mas isso é tudo que sabemos.
Nós não temos falado muito disso, estamos no meio do processo de terminar o Refused. Mas temos alguns riffs e algumas ideias, e acredito que no ano que vem vamos começar a nos reunir e ver até onde isso nos leva. Mas eu penso que vai ser uma nova direção interessante.
É muito bom saber disso. E espero que nós tenhamos mais boas notícias sobre esse projeto assim que possível.
Sim, eu também espero o mesmo!
– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.
Que entrevista fantástica com uma banda inacreditavelmente foda! Imperdível!