Conheça “_MNSTR_”, quarto disco de Jonas Sá, faixa a faixa

texto de introdução de Marcelo Costa

Jonas Sá está de volta! Sete anos após o ótimo “PUBER” (2018), o músico e produtor carioca apresenta “_MNSTR_” (2025), seu quarto registro de uma discografia que merece atenção, pois tanto o disco de estreia “Anormal” (2007) quanto “BLAM! BLAM!” (2015) e “BLAM! BLAM! BLAM! THE RMXs” (2019) estão repletos de joias pop pedindo para serem descobertas.

Dessa vez, Jonas Sá abraça o pop e sai dançando agarradinho com ele em uma festa repleta de suingue, timbres elegantes e falsetes com muita influência da black music americana e do universo de baladas românticas à lá Erasmo e Roberto – mas há espaço para o indie rock, para o bolerão latino e até para provocações políticas (“Tira a Damares do armário – Dama ê / Tira o Carluxo do armário – Nazi ê”, diz uma letra.

_MNSTR_” tem produção assinada pelo próprio Jonas e por Ricardo Dias Gomes (Do Amor), mixagem de Mario Caldato Jr e masterização de Caspar Sutton Jones. A ficha técnica exibe um escrete de luxo: Alberto Continentino, Pedro Sá, Thomas Harres, Thiago Nassif, Marcelo Callado e Guilherme Lírio marcam presença. Abaixo, aprofundamos o olhar sobre esse “_MNSTR_” comentando as 10 canções do disco!

01) DEUS – O álbum abre com uma festa, como se fosse a missa de uma igreja devotada ao amor. A levada é eletrizante, com energia de música tocada ao vivo. Exagerados solos de guitarra e de sintetizadores contrastam com a batida clássica do shuffle. Jonas, o pastor dessa paróquia-coração, canta sobre estórias de amigos e parentes, declara sua paixão por Geraldine (sua amante de longa data), e pondera que qualquer Deus que escolhamos terá o poder de nos levar ao céu ou de nos cuspir no chão. Um coro de super-cantoras (as americanas Gabriela Riley & SahLance) evocam a força do gospel com suas vozes perfeitas que nos fazem acreditar que, realmente, há um(a) Deus(a) por trás de tanto talento e perfeição. Enquanto gravavam o disco, a maioria das músicas (advindas de ideias que Jonas guardava em seus voice-memos do celular) ainda não tinham nem nome e, por isso, ganhavam apelidos. O apelido dessa faixa era “Bo Diddley”.

02) POR TRÁS DA PORTA – Corta para a próxima cena, um funk sincopado e dançante que descreve um “one-night-stand” selvagem mas desprovido de conexão. Jonas canta:

Teu corpo dança sobre o meu, mas você não está
Teus olhos nadam para o fundo de um celular
Tua conversa é toda torta
Eu mal consigo te entender
Diz, quem é você por trás da porta
Por que você insiste em se esconder?

A canção serve como um comentário sobre a formação sentimental das gerações pós-internet que absorve a cultura sexual dos sites de pornografia e sofre de um FOMO severo, não conseguindo se dedicar a aprofundar suas relações, graças ao constante sentimento de que escolher um só encontro é perder todos os outros. O apelido dessa faixa era “Clóvis”

03) MONSTRO – Evocando a forma “slow-cooking” de Curtis Mayfield ao montar climas envolventes que entram no nosso sistema sem nos deixar notar, a terceira faixa de “_MNSTR_” é um soul marcante, com congas abraçando a bateria e um cortante riff de guitarra e baixo sob a voz molhada de Jonas. Os versos discorrem sobre a nossa dificuldade, como sociedade, para lidar com o drama dos moradores de rua, algo que nos leva, diante do contato diário com essa dura realidade, a um estado anestésico e apático. Desenvolvemos vista grossa. Cumprimentamos conhecidos na rua todos os dias, mas somos incapazes de brindar a mesma humanidade a alguém que pode precisar pedir nossa ajuda. Até o dia em que essas pessoas não estiverem mais lá, provavelmente por um motivo trágico. A levada é maldosa, conta com punhaladas de sintetizadores e com um maldito solo de sax performado pelo (genial) Thiago Queiroz. E a música vai crescendo como cresce uma crônica até se desfazer no ar. O apelido dessa faixa era “Curtis”

04) MUSA – Com uma base que pode remeter a alguma balada de Roberto e Erasmo mas também a um “Raul Seixas meets David Bowie”, a quarta faixa do álbum traz a voz profunda de Jonas no papel de um contador de estórias. Um pouco de canto e um pouco de spoken word se misturam para narrar, na primeira pessoa, o encontro entre um rapaz e uma moça que, após se apaixonarem e sob a magia da reciprocidade sensorial dessa entrega, se descobre trans. Os imensos coros de SahLance & Gabriela Riley brindam força, romance e mel à gravação que dura um pouco mais de 7 minutos, mas que passa rápido e faz arrepiar. O apelido dessa faixa era “Bardo”

05) ESCADA ROLANTE – Vindo do inebriante clima da faixa anterior, “ESCADA ROLANTE” espatifa a imagética de filme PB de “MUSA” e rasga pra cena seguinte com um noise-rock de cores estouradas a-la Red Hot Chilli Peppers. Loops de guitarras invadem os parlantes acompanhados de duas(!!) baterias e um baixo agressivo. Jonas e Thiago Nassif (feat da faixa, cantando, compondo e produzindo junto com Jonas e Ricardo) cantam (gritam) sobre a capacidade de se recuperar das quedas e golpes da vida, dançar sobre os problemas, beijar sobre os problemas, ser feliz e esperto. O apelido dessa faixa era mesmo “Escada Rolante”.

06) TU HOMBRE – Abrindo o LADO B do disco, esse bolero inaugura a metade mais relaxada de “_MNSTR_”. Uma das poucas músicas que já estavam completamente escritas antes de Jonas entrar no estúdio, “TU HOMBRE” é uma canção em espanhol de amor apaixonado que lida com a dificuldade do homem branco (logo, de autoestima elevada) em aceitar que a fila andou. É um pouco um paralelo com “Detalhes” de Roberto Carlos. Fala sobre sofrer (muito) de amor acima de tudo, mas tem também um olhar crítico sobre como, na formação dentro do universo masculino, há tanta dificuldade em se assumir vulnerável. O apelido dessa faixa era “Si Otro Cabelludo Aparecer En Tu Calle”

07) QUANTO + IDIOTA, MELHOR – Em vista da escalada da extrema-direita e do clima agressivo que tomou o Brasil e o mundo nos últimos anos, Jonas entendeu que um rap contra a brutalidade dessa gente (gente?) poderia ser relaxado e bem-humorado. O artista assumiu como plot, um riff de violão que vinha dando voltas por sua cabeça há anos e o resultado é uma faixa gostosa e sarcástica com um quase refrão que diz:

Tira a Damares do armário
Dama ê (x2)

Tira o Carluxo do armário
Nazi ê

Tira a Damares do armário
Narguilê

A letra, aliás, busca responder diretamente ao que Jonas acredita ser uma sociedade sem memória, fomentada pelo gabinete do ódio e por seus “herois”(?) de pretensões fascistas. Ainda assim, a faixa conta com um coro de crianças que nos faz lembrar que, se formos resilientes e investirmos em educação, o futuro pode estar em boas mãos. O apelido dessa faixa era “Breeders”

08) VEJA VOCÊ – A próxima faixa pode conter ecos da sonoridade do Bowie de “Scary Monsters”, com suas guitarras borradas e suas levadas emblemáticas. Sobre um riff insistente e acompanhado de um coro lisérgico, a letra contém o sarcasmo (já característico) de Jonas, e comenta os anos de(s) governo brasileiro entre 2018 e 2022. Já próximo ao fim da faixa, um solo de guitarra irrompe, surpreendente, no silêncio e evoca “poética-política”. O apelido dessa faixa era “Phil Collins”

09) TUA CARA – Cheia de vento e mistério, a faixa mais sensual do disco é conduzida pelos famosos falsetes do artista, acompanhados por uma linha de um baixo gorda e pontuda dialogando com a guitarra cheia de cristais. Na cozinha, a participação de Renato Godoy (Dorgas) na bateria, se enroscando com as congas e pandeirola de Thomas Harres. Climática, essa faixa é um filme noir, só que todo azul, onde um casal é observado pelos quadros da parede de sua casa, enquanto se admiram e se desejam de forma beligerante. O apelido dessa faixa era “Miles Dildor Falseti”

10) DE SENTIR VOCÊ – Quando já não se esperava grandes novidades, a última faixa do álbum abre com um Jonas cantando sozinho acompanhado de seu violão de nylon. Meio blues, meio folk, “DE SENTIR VOCÊ” vai crescendo com mais coros do artista, até que, de repente, a banda irrompe na faixa e o som cresce: a bateria de Marcelo Callado, as congas de Thomas, o baixo acústico de Alberto Continentino, o piano de Donatinho, os synths do próprio Jonas e o solo de Dobro de Thiago Nassif. Acústica e profunda, a base conversa com o canto do artista em uma letra que remete à poética envenenada de Luiz Melodia. A música cresce com emoção e as cortinas se fecham logo após se ouvir os versos “Só de sentir você aqui, vai me alegrar”. O apelido dessa faixa era “De Sentir Você” mesmo.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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