Três filmes e um curta: “O Riso e a Faca”, “Copacabana, 4 de Maio”, “Ruas da Glória”, “O Faz-Tudo”

textos de Leandro Luz

“O Riso e a Faca”, de Pedro Pinho (2025)
Tanto “O Riso e a Faca”, do diretor português Pedro Pinho, quanto “A Cerca”, da francesa Claire Denis, outro filme exibido durante o 27º Festival do Rio, se passam em países da África Ocidental e apresentam personagens estrangeiros em contato com as respectivas comunidades locais. Os filmes são absolutamente diferentes – este possui uma direção bastante solta e adota frequentemente uma abordagem documental, com o improviso como parte estruturante de sua narrativa; o outro possui um rigor enorme na encenação. O que os conecta, entretanto, é esse mal-estar de um passado (e presente) colonialista que nunca descansa. A música homônima de autoria do cantor e compositor Tom Zé serve como modelo para a invocação de contrastes – e até chega a ser usada na diegese, com as personagens passeando de carro e cantarolando a canção (ok, esta parte é um pouco inverossímil). “Eu só descanso na tempestade / Só adormeço no furacão”. As frases, quase uivos, saem lamentosas da boca do cantor, acompanhando uma melodia intervalada, repleta de pausas e surpresas. Pinho opta por filmar em película, e convida o brasileiro Ivo Lopes Araújo para o desafio da direção de fotografia. São inúmeros os planos bem compostos do filme. A maioria deles explora com habilidade as grandes paisagens desérticas pelas quais o protagonista passa até chegar à cidade que irá se instalar. O final revela uma narrativa cíclica, com Sérgio, interpretado por Sérgio Coragem, colocando-se novamente em movimento, pegando a estrada e o rio para inequivocadamente realizar o trabalho pelo qual fora chamado. “O Riso e a Faca” é uma coprodução entre Portugal, Brasil, Romênia e França. A atriz Cleo Diára, que interpreta uma mulher misteriosa que desperta fascínio no protagonista, venceu o prêmio de melhor atriz em Cannes na mostra “Un Certain Regard”, competição paralela à Palma de Ouro. As suas três horas e meia de duração não passam voando, entretanto, também não geram momentos tediosos. As características mais fortes de sua narrativa aproximam o filme de uma lógica de romance literário de memórias, um movimento ousado do roteirista e diretor que é recompensado por grandes momentos, como todas as cenas mais coletivas, com o estrangeiro perdido entre as festas e as bebedeiras que encontra pelo caminho, mas que também encontra dificuldades, sobretudo quando precisa colocar Sérgio, melancólico e patético, em contato com a sua própria solidão.


“Copacabana, 4 de Maio”, de Allan Ribeiro (2025)
O que separa um bom de um mau documentarista? Não que cinema documentário, no stricto sensu da coisa, seja a melhor definição para enquadrar os filmes de Allan Ribeiro, mas a questão se aplica à sua filmografia como um todo. Com muita frequência, o diretor elege elementos ficcionais que, com muita intensidade, servem para esticar a corda de suas narrativas. Em “Copacabana, 4 de Maio”, no entanto, esse arsenal ficcional é deixado de lado e vemos um filme mais concentrado nas ações do presente, capturado entre a expectativa e o gozo diante de um dos maiores espetáculos que o Brasil já viu: Madonna em Copacabana. Madonna em Copacabana, palavras que vão bem juntas. Um bom documentarista entende a urgência de um plano e, em última instância, a urgência de um filme. Sabe o momento certo de ligar a câmera e, principalmente, quando é melhor deixá-la desligada. Entende que nem todas as conversas com uma personagem precisam ser objetivamente a respeito do tema central do filme – se é que há a necessidade de eleger um grande tema (resposta: não há). A escolha por personagens tão distintas faz muito bem à narrativa, porque dá a ver essa diversidade que o Ribeiro busca representar. Tirando uma ou outra entrevista que soa excessiva, todo o filme flui de uma maneira bastante viva. Ao apresentar a sessão, o cineasta contou que se inspirou muito em “Babilônia 2000”, de Eduardo Coutinho, documentário feito sobre e durante a virada do milênio em uma favela do Rio de Janeiro. A presença de Madonna Louise Veronica Ciccone nas areias de Copacabana talvez tenha sido mesmo esse evento mítico, marcante e misterioso, mesmo que não tenha sido previsto por Nostradamus. E que bom, para nós e para o cinema brasileiro, que tínhamos alguém sensível por lá, com as ferramentas necessárias à mão, pronto para encapsular o intangível.


“Ruas da Glória”, de Felipe Sholl (2025)
Corpos de plástico, personagens de porcelana. É tudo muito bonito e tal, iluminação impecável ajudando a registrar pele sobre pele, mas do vazio o filme não escapa. E nem é o tipo de obra que pretende defender esse vazio do ponto de vista filosófico. Pelo contrário, as personagens exprimem os seus conflitos e os seus desejos, mas sempre por meio da exposição. As longas cenas de sexo tentam a todo custo preencher o que falta, mas não conseguem justamente porque são executadas de forma acidentalmente mecânica – são intensas, não frias, mas há de se evitar a confusão entre intensidade e densidade. O protagonista de “Ruas da Glória” (2025), dirigido por Felipe Sholl, é um professor de cursinho pernambucano que se descobre livre no Rio de Janeiro. Recife, o pai castrador, os anos de armário ficam para trás – só a avó permanece no cotidiano dele, mas pouco sabemos dela ou da importância que teve para o neto. Na cena mais arriscada do filme, a do programa dentro do carro, já perto do final, Felipe Sholl não consegue criar a complexidade exigida. Nas ruas da Glória ou da Cinelândia, impera o artificial, e mesmo que tudo tenha partido de uma história real, das experiências do próprio diretor, o nível fica muito aquém do que precisaria para expressar qualquer coisa de autêntica. Na sessão deste filme no 27º Festival do Rio foi exibido anteriormente o curta-metragem “O Faz-Tudo”, de Fábio Leal, que escolheu palavras ótimas para definir o seu filme durante a apresentação no Cine Odeon: “uma pequena pornochanchada”. O tom jocoso é o que faz desta uma obra fora do comum em meio à seriedade vigente do nosso cinema. A rebeldia de se fazer um curta de 5 minutos de duração (quando a maioria tem dificuldade para ficar abaixo de 20) é admirável, assim como a vocação para o libertário. Escancaram-se as regras: por meio da linguagem do videoclipe, o diretor convida um homem que é baterista, marceneiro, eletricista, entre outros ofícios, para protagonizar, nu, o seu filme. O homem aceita, mas com uma condição: tocar a sua música preferida. Uma canção pop inesperada, que serve para abrigar o humor e o desejo. Enfim, esta foi a maneira que Leal encontrou para reivindicar a pornochanchada como um autêntico gênero brasileiro.

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– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É BrasilPlano-Sequência e 1 disco, 1 filme.

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