Entrevista: Pélico e Ronaldo Bastos se unem em “A Universa Me Sorriu”, e falam sobre a parceria e o disco

entrevista de Fabio Machado
fotos de Rodrigo Ferdinand

O acaso aparece de forma generosa nas canções nascidas da parceria entre Pélico e Ronaldo Bastos. Prestes a completar 20 anos de carreira em 2026, Pélico nunca havia feito uma colaboração oficial em sua discografia, e quis o destino – ou melhor, a “Universa”, no feminino mesmo – que a primeira fosse logo com um herói conhecido pelas ondas do rádio: Ronaldo Bastos, compositor cuja discografia se confunde com a própria história da música popular brasileira: do Clube da Esquina (“Cais”, “Nada Será Como Antes”, “Fé Cega, Faca Amolada”, entre outras) a Lulu Santos (“Um Certo Alguém”), passando por Gal Costa (“Sorte”, “Chuva de Prata”), Marcos Valle, Elis Regina, Ed Motta, Fafá de Belém, Adriana Calcanhotto e muitos outros nomes que ocupariam alguns parágrafos desse texto.

Basta saber, portanto, que Pélico se juntou a um time de peso, e tudo começou graças a outro acaso promovido por outro nome da nossa música: um encontro na casa de Catto, amiga em comum que apresentou ambos em 2012. O encontro virou amizade e evoluiu para o lado musical em 2019, e a partir daí “A Universa Me Sorriu” foi se desenhando, em colaborações virtuais e presenciais entre Pélico e Bastos.

E o acaso mais uma uma vez foi aparecendo, seja em trechos de letras antigas de Ronaldo Bastos que foram musicadas rapidamente por Pélico ou por uma troca de mensagens lúdica entre Pélico e Catto que gerou a música que fecha o álbum, “Deusa Mística” – nas palavras de Pélico, uma “mini-canção-oração” em homenagem à amiga que promoveu o encontro fortuito dos compositores.

O resultado é um trabalho repleto de melodia e arranjos bem-pensados (orquestrados principalmente pelo violão de João Erbetta e pela percussão de Guilherme Kuastrup), com letras que exaltam o amor e o romantismo – mas de um jeito “anti-caretice”, avisa Ronaldo – em um universo fundamentalmente feminino. Na entrevista concedida por e-mail ao Scream & Yell, os compositores deram mais detalhes sobre essa frutífera parceria. Ouça o disco na integra abaixo e confira a conversa na íntegra a seguir.

A faixa-título é também a primeira música desse trabalho, e parece ser uma declaração de intenções sobre o disco, tanto pelos arranjos como pelas letras. Vocês concordam com essa ideia?
Pélico: “A Universa Me Sorriu” foi feita do meio para o final do nosso processo de composição. Depois que ela ficou pronta, já com uma guia de voz e violão, eu e Ronaldo ouvimos e pensamos que seria um bom nome para o disco – porque já tinha o sobrenome (“Minhas canções com Ronaldo Bastos”), mas não tinha o primeiro nome ainda. E um pouco antes de ir para a master, o Jesus Sanchez, que é produtor do álbum, mandou a pré-mix para a gente ouvir, e aí sacamos que o trabalho tinha uma identidade, tinha essa referência ao feminino em várias músicas. Então, isso não foi intencional, foi de uma forma inconsciente ficamos muito mais feliz por esse motivo. Porque a gente não planejou isso, fomos escrevendo, compondo, e de repente, tinha essa identidade. Tem essa identidade.

Ronaldo: Sim, é o convite para mergulhar no álbum. Tanto poeticamente como na estética musical, a canção dá pistas, mas também deixa em aberto o que vai acontecer no decorrer da viagem. Eu e o Pélico gostamos de fazer isso nos nossos respectivos discos.

Como Pélico surgiu na vida de Ronaldo Bastos, e vice-versa? Vocês descobriram o trabalho um do outro por alguma música em particular? E como essa descoberta evoluiu para a parceria criativa de “A Universa me sorriu”?
Pélico: Eu conheço o Ronaldo há muito mais tempo do que ele me conhece, obviamente. Eu ouvia muita rádio, e nos anos 80 era comum os radialistas, locutores e tal darem os créditos aos compositores e compositoras de cada canção. E aí eu ficava doido: “Nossa, o Ronaldo Bastos estava nessa?” Enfim. Mas eu conheci o Ronaldo pessoalmente em 2012, na casa da Catto. Em 2011, ele havia lançado o “Liebe Paradiso” e eu, o “Que Isso Fique Entre Nós” (terceiro lugar entre os Melhores Discos Nacionais de 2011 pela Scream & Yell). E eu lembro exatamente do dia que eu entrei na sala da Catto e vi o Ronaldo, e falei: “Gente, é o Ronaldo Bastos!”

E a gente conversou, eu gosto muito desse disco dele, ele gosta muito do “Que Isso Fique Entre Nós”, e ficamos batendo papo sobre isso, sobre música e muitas coisas. E dali em diante, surgiu: “Vamos fazer alguma coisa juntos? Vamos, vamos”. E na correria da vida, só em 2019 que ele me mandou uma mensagem pedindo algumas melodias e eu mandei umas três para ele. E em poucas semanas, ele mandou uma letra maravilhosa de volta. E daí surgiu a nossa ideia. A gente ia lançar um single, mas entrou a pandemia, engavetamos o projeto, e aí retomamos isso. E quando retomamos, eu pedi para ele: “Ronaldo, vamos gravar um disco?” Ele topou na hora. Então, desde 2012 a gente tem esse sonho.

Ronaldo: Nós nos conhecemos na casa da nossa amiga em comum Catto, em 2012. Eu tinha escutado o álbum que Pélico havia lançado um pouco antes, e tinha adorado. Depois a gente ficou em contato e acompanhando um o trabalho do outro. Alguns anos depois, fizemos à distância nossa primeira parceria, que acabou se chamando “Marinar” e que ficou guardada para a Universa.

Durante o processo criativo, vocês trabalhavam mais à distância ou presencialmente? Alguma dessas canções teve alguma curiosidade ou algo inusitado durante o desenvolvimento, ou todas seguiram mais ou menos o mesmo curso?
Ronaldo: Após as primeiras duas, que foram feitas à distância, veio a pandemia e nós demos um tempo. Mas assim que as coisas se normalizaram nós retomamos a parceria e começamos a compor juntos aqui na minha casa, algo novo e desafiador para os dois. Aí nós vimos que existia muito mais que afinidade. Pélico chegou a fazer a melodia de uma canção a partir de frases soltas que eu guardava em recortes de papel aqui em casa, escritas há algum tempo. A sintonia aconteceu nas situações mais variadas. A Universa nos sorriu.

Pélico: Eu não sei dizer exatamente de que forma a gente trabalhou mais. Eu sei que as duas primeiras a gente fez a distância – eu mandei a melodia, e ele me mandou a letra. Mas em setembro do ano passado, eu passei uma semana no RJ trabalhando com ele lá, e depois, no começo desse ano, eu passei mais uma semana. Foram só duas semanas no total, mas trabalhamos muito e (o processo) rendeu muito. E aí a gente terminava a música ali, e tal, e pensava: “Bom, vamos deixar elas ali, marinando, vamos ver depois…” E sempre nesse depois tinha algum ajuste que a gente fazia.

E cada música tem uma história, saca? “A Sua Mãe Tinha Razão”, por exemplo, foi durante a primeira vez que eu fui lá. Eu mostrei o começo, o primeiro verso é meu, e já tinha a melodia. E o Ronaldo adorou, falou: “Termina a melodia e vamos fazer essa música”. E quando eu voltei para o Rio, a gente terminou ela com o Léo Pereda, que é o companheiro do Ronaldo e que também assina essa canção.

“Sem Parar”, por exemplo, foi vasculhando o baú do Ronaldo, que eu achei essa letra que ele escreveu há muitos e muitos anos e é uma coisa curiosa porque foi a melodia que eu fiz mais rápido na minha vida. O Ronaldo foi fazer um café, e quando ele voltou a música já estava pronta. “É Melhor Assim”, que é uma canção minha e do Ronaldo com o Otto, eu estava numa festa aqui em São Paulo, isso já faz um ano e tanto, e o Otto: “Vamos fazer uma música, vamos fazer uma música!” E eu falei: “Vamos”! E ele: “Liga o gravador, vamos fazer já”. E aí ele já cantou o primeiro verso (cantarola): “Ela não quer mais gostar de mim…”. E aí ele falou: “Pronto, agora termina” (risos). E aí eu sentei com o Ronaldo e foi um barato, a gente criou um personagem que ficava projetando relações em redes sociais. E a gente se divertiu muito na criação desse personagem. Enfim, cada música tem a sua história.

O amor é um dos temas que mais aparecem nesse trabalho. Isso foi algo intencional desde o início da colaboração de vocês ou foi algo que surgiu naturalmente?
Ronaldo: Tanto eu quanto o Pélico adoramos canções de amor. E, na minha visão, as melodias também levavam bastante para esse lado. Aconteceu naturalmente e acho que os dois nos sentimos muito bem representados por esse romantismo contemporâneo, bonito e anti-caretice que as canções do disco trazem.

Pélico: O amor é um tema que eu gosto muito, e o Ronaldo gosta muito também. Então, é natural que falássemos muito sobre isso. Mas o curioso é que, trabalhando com o Ronaldo, eu percebi que somos dois aquarianos, românticos, mas o Ronaldo é um romântico sonhador, utópico, cheio de imagens lindas, e eu sou um romântico um pouco mais realista. Arrisco dizer até que sou um tanto fatalista. E foi muito legal essa mistura, essas duas visões sobre o amor, a minha e a do Ronaldo.

Pélico, em relação aos arranjos, o violão é um elemento constante, mesmo em faixas que incluem elementos orquestrais, guitarras e percussões. Isso foi uma opção desde o início do projeto? A maioria dos arranjos surgiu a partir do violão?
Pélico: Sim, o violão de nylon é o alicerce desse disco, e isso foi pensado desde o início. O Jesus Sanchez, que já havia trabalhado comigo anteriormente, produziu quatro dos meus álbuns, foi ideia dele. Ele falou: “Olha, a gente explorou pouco o violão de nylon na sua discografia. Vamos trazer esse violão com força”. E o Brasil tem uma tradição no violão de nylon, a gente queria trazer isso também.

Então, a gente chamou o (violonista e compositor) João Erbetta para gravar, e aí os arranjos todos foram a partir do violão dele, junto com a percussão do (Guilherme) Kastrup. Outra coisa que fizemos nesse disco que eu não costumo fazer, é explorar muito os vocais. Então, tem a Tati Parra e o Tom Ricardo que cantam praticamente em todas as faixas, abrindo vozes, e isso é uma coisa que eu não havia explorado muito anteriormente.

Ronaldo, em relação às letras, o material de “A Universa me sorriu” surgiu de ideias mais recentes ou você chegou a revisitar letras mais antigas? Você trabalhou em cima dos arranjos já criados por Pélico ou ele criou a música a partir das suas letras?
Ronaldo: Todas as letras são novas, feitas sempre em cima das melodias. Mas teve algumas ideias soltas que eu tinha feito antes e que o Pélico soube aproveitar muito bem. Entre uma cerveja e outra eu jogava na roda e ele sempre me surpreendia com as ideias que pintavam na cabeça dele. As melodias, eu conheci todas na versão voz (sem letra ou com algumas ideias de letra – que eu geralmente aproveitava) e violão. Foi uma alegria escutar elas já com esses arranjos lindos e a produção do Jesus.

Ainda sobre os arranjos, a percussão a cargo de Guilherme Kastrup também tem um papel essencial nesse trabalho, agindo suavemente em temas como “Infinito Blue” ou marcando presença desde o começo como em “Sua Mãe Tinha Razão”. Essa abordagem rítmica já estava nos planos ou foi algo que surgiu durante o processo colaborativo em estúdio?
Ronaldo: Acho que o Pélico, que participou de todo o processo, vai conseguir falar melhor sobre isso. Eu só curti as mixagens já bem encaminhadas, e adorei tudo.

Pélico: O Kastrup foi pensado logo de início junto com o Erbetta. Queríamos o violão de nylon e a percussão do Guilherme Kastrup para trazer brasilidade, e levantamos todas as bases com os dois. E o Jesus Sanchez em algumas, no baixo. Então, eles são fundamentais, eles dão o norte do disco.

Em um álbum que já faz referência ao feminino no próprio nome, dois destaques são participações de mulheres: Marisa Orth em “É Melhor Assim” e Sílvia Machete em “Sem Parar”. Vocês já tinham essas participações em mente ou foi algo que surgiu posteriormente durante a produção do disco?
Ronaldo: Foram ideias do Pélico que eu abracei na hora. Gosto muito de escutar a Marisa e a Sílvia, adoro quando entram as canções com elas cantando.

Pélico: Durante o processo de composição do disco, eu e Ronaldo pensamos na hipótese de ter algumas participações, não muitas. E o curioso é que sempre que a gente falava sobre isso, sempre pensávamos em vozes femininas. “É Melhor Assim” a gente pensou na Orth porque a música tem uma certa ironia, e eu e Ronaldo somos fãs da banda Vexame (nota do redator: conjunto que a atriz fez parte durante as décadas de 1980 e 1990). E a Sílvia Machete porque tem uma voz maravilhosa, canta lindamente e bem em inglês, e a música que ela participou (“Sem Parar”), o refrão é em inglês e eu não sei falar inglês, como diz a própria música. Então, o processo de criação, os arranjos, claro, foram muito pensados e tal. Mas o processo de composição e algumas coisas desse disco, como eu disse anteriormente: não foi nada pensado. O que eu acho mais bonito desse trabalho é que parece que ele saiu do nosso inconsciente e foi direto para a gravação, sem passar pela razão.

A citação ao feminino também aparece na curta “Deusa Mística (para CATTO)”, que encerra o álbum. Podem falar mais sobre essa canção em particular e sua importância para “A Universa me sorriu”?
Pélico: Mais uma vez o acaso. Era um sábado, eu estava aqui em casa, à tarde, e comecei a conversar com a Catto no Whatsapp, trocar mensagens e tal. Aí conversa vem, conversa vai, e em algum momento eu falei: “Deusa”. E ela me respondeu: “Gótica”. Aí eu respondi: “Mística”, ela respondeu: “Esotérica”… e eu achei aquilo muito curioso, aquela brincadeira com as proparoxítonas e tal. E eu logo peguei o violão e comecei “Deusa Mística” e terminei a melodia, essa mini-canção-oração, né? E mostrei para o Ronaldo, ele também gosta muito da Catto, e aí terminamos a letra. Essa faixa tem uma importância muito grande para mim neste disco, porque eu faço uma reverência a uma grande cantora, e eu estou completamente “nu”, só a minha voz (no arranjo). Eu queria muito, achei muito interessante terminar esse disco completamente nu, apenas com a minha voz.

Ronaldo: É uma declaração de amor para nossa musa. Fora que devemos a ela esse nosso encontro. Eu amo profundamente a Catto.

Ronaldo, você tem uma história muito rica dentro da música popular brasileira e uma carreira que continua rendendo frutos e novos trabalhos até hoje, através de uma nova geração (a exemplo do próprio Pélico). O que te motiva a continuar escrevendo e criando?
Ronaldo: A vida. Ao envelhecer nós vamos perdendo coisas, habilidades, até mesmo repertório de palavras. Não vou aqui romantizar o envelhecimento. Mas a vida é tão bonita… E a canção popular é algo que realmente deu certo no Brasil. Eu me sinto afortunado de trabalhar com música e quero sempre merecer essa dádiva. Enquanto tiver fôlego, não custa tentar uma nova canção.

 

Pélico, como foi a experiência de compor com Ronaldo Bastos em comparação ao seus trabalhos solo? Não apenas pensando no processo criativo, mas também pelo fato de trabalhar com alguém que você já admirava.
Pélico: Para mim, foi um grande desafio. Primeiro porque no ano que vem, eu completo 20 anos de carreira, e eu componho há muito mais tempo que isso. Tenho pouquíssimas parcerias. Gravadas, então, acho que não passam de cinco. E eu sempre fiz letra e música. O desafio para mim era… várias vezes eu fiquei perdido, sabe? De não saber, será que essa melodia está legal? Ela se sustenta? Porque eu sempre tive a letra junto ali, indicando caminhos.

Então, mandar uma melodia fechada para o Ronaldo colocar letra era um negócio, foi algo que me angustiava. E aí, o segundo (desafio): Ronaldo Bastos, né? Confesso que nas duas primeiras músicas que fizemos à distância, eu fiquei mais tranquilo; mas quando fui para o Rio (de Janeiro) para compormos juntos… eu lembro exatamente que cheguei e falei: “Olha Ronaldo, eu estou nervoso, você deve imaginar o porquê, né? (risos). E segundo: das poucas parcerias que fiz na vida, eu pegava a melodia ou uma letra e ia trabalhar sozinho em casa. Eu nunca fiz presencial, olho no olho”.

E aí o Ronaldo me respondeu: “Eu também estou nervoso, porque é a primeira vez que faço presencial, olho no olho”. E aquilo me deu um certo conforto. Aí ele quebrou todo o gelo, falando: “Olha, vamos aproveitar a nossa primeira vez e vamos nos divertir (risos)”. Eu achei maravilhoso aquilo.

Finalmente, quais os planos para “A Universa me sorriu”? Podemos aguardar uma nova parceria entre vocês para um futuro próximo?
Pélico: Meu desejo, meus planos para o “A Universa me sorriu”, é que muitas pessoas ouçam e se emocionem com esse disco da mesma forma que a gente se emocionou em fazê-lo. E levar esse trabalho ao vivo, fazer bastante show pelas cidades do Brasil para mostrar essas músicas ao vivo. E já estamos pensando em músicas novas.

Ronaldo: Com certeza nós vamos continuar fazendo canções juntos. Talvez para outros intérpretes, talvez para discos novos do Pélico ou até para projetos meus. Não sabemos, mas queremos e vamos.

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