textos de Leandro Luz

“Romaria / Romería”, de Carla Simón (2025)
Carla Simón atribui um forte senso de peregrinação à jornada de sua protagonista, que empreende uma viagem até a região da Galicia para conhecer as famílias de seus pais que morreram quando ainda era criança. O objetivo primeiro de Marina é encontrar o certificado de óbito de seu pai, comprovação necessária para conseguir uma bolsa de estudos. A roteirista e diretora espanhola inventa a sua romaria não como abstração religiosa, mas com o desejo de, com esta palavra-título, atribuir movimento ao filme. Na medida em que essa história se relaciona com a sua própria vida, Simón adota uma dimensão confessional que justifica e até pede esse movimento ritualístico. Para que a estratégia funcione, para que memória e identidade se conectem sem engasgos à ficção, alguns expedientes são escolhidos: os capítulos que marcam a narrativa em cartelas, o diário escrito pela mãe, os registros em vídeo feitos pela protagonista. São camadas e pontos de vista diferentes que se unem para navegarmos com Marina pelas águas tortuosas de um passado que ela não conheceu: a personalidade do pai, o jeito de se expressar da mãe, os festejos populares de sua cidade natal. O fato de Marina querer estudar cinema e carregar consigo uma câmera portátil embala o filme, que adota as próprias imagens da câmera como uma perspectiva possível dentre uma rede de mentiras – ou falsas lembranças – na qual ela precisa confrontar. Há alguns abismos entre Marina e os seus familiares. Interessa ao filme essa desconexão entre o que a jovem sabe ou imagina e o que os outros contam a respeito de seus pais e da juventude coletiva vivida em pleno anos 1980 (o filme se passa em 2004). Um desses abismos é a diferença de classes, questão que irá render os momentos de tensão mais interessantes do filme, como o primeiro encontro com a avó e como a fila dos netos para ganhar a mesada do avô. Boa atriz, ainda que extremamente jovem, Llúcia Garcia é contida, mas expressa bem esses conflitos. Dito isto, que paulada é essa digressão para o passado, com esses fantasmas apáticos flutuando pelas paisagens que vimos no decorrer de todo o filme, pelados, se drogando, se amando, existindo. Um dos melhores filmes do ano.

“Valor Sentimental”, de Joachim Trier (2025)
A quê se refere o valor sentimental do título do novo filme de Joachim Trier, vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes deste ano? O diretor norueguês se deslumbra com o fato de ter à disposição Elle Fanning, Stellan Skarsgård e Renate Reinsve em seu elenco, e às vezes se esquece de que o seu filme poderia ser bem mais do que um arremedo de Bergman. No entanto, Trier parece entender algo que as pessoas eventualmente esquecem: há humor no cinema bergmaniano – principalmente o de “O Sétimo Selo” (1957) e “Morangos Silvestres” (1957) -, e aqui ele usa e abusa dessa característica. Voltando ao título, para cada cômodo da mansão-personagem de “Valor Sentimental” (“Sentimental Value”, 2025), uma lembrança se impõe, de formas diferentes, para Nora e Gustav. Pai e filha, irreconciliáveis. Um homem de seu tempo, uma jovem em conflito para encontrar o seu. Tem também a irmã no meio disso tudo, Agnes, interpretada por Inga Ibsdotter Lilleaas, menos rebelde e desconfiada do que a irmã – no tempo de criança, participou como atriz de um dos filmes mais cultuados do pai. Para Gustav, um diretor de cinema cujas glórias ficaram no passado, um convite para a filha, atriz, ser a protagonista de seu nome filme é um gesto grande o suficiente para quebrar as barreiras da incomunicabilidade. Para ela, estrela dos palcos (ainda que tenha fobia deles, como demonstra a cena de apresentação dela), o convite é um ultraje. Jamais poderia filmar com uma pessoa com quem não se consegue conversar. Sobra, portanto, para Rachel, estrangeira de si mesma, assumir a personagem norueguesa. O jogo psicológico entre Gustav e Rachel rende bons momentos de sádica diversão, mas é uma pena que, para isso, o filme jogue Nora tanto para escanteio, privilegiando o procedimento divertido, porém previsível da performance entre diretor e atriz.

“Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”, de Mary Bronstein (2025)
Rose Byrne faz um trabalho bem interessante em “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” (“If I Had Legs I’d Kick You”, 2025), longa-metragem de Mary Bronstein, ao encarnar esse grande mal-estar do nosso tempo que é a impotência diante da impossibilidade de se controlar tudo. No afã de ser uma mãe consciente, uma esposa atenta, uma terapeuta responsável e ainda por cima se manter de pé mesmo após o teto do quarto cair em sua cabeça, Linda, vivida pela Rose Byrne, se vê esmagada pelo mundo ao seu redor. A cineasta reforça toda essa agonia com uma proposta claustrofóbica, meio violenta com a personagem até. É fascinante e sádico ao mesmo tempo. Linda é jogada de um lado para o outro, mil problemas aparecem, e muito rapidamente compreendemos que o que vemos na tela é próprio do sistema da subjetividade. Há no diálogo entre Linda e a médica que cuida do caso de sua filha – a Dr. Spring, interpretada pela própria Bronstein – uma frase que revela o dispositivo. Tudo o que vemos e ouvimos está filtrado pelo ponto de vista da protagonista, causando distorções importantes para a condução narrativa do filme. O roteiro abre caminhos pouco habituais. Um exemplo é a personagem de A$AP Rocky, que escapa dos clichês e se situa quase como um espectador daquele caos do motel que Linda e a filha acabam se mudando, com Byrne tendo que propor inúmeras variações de expressão ao receber rasteira atrás de rasteira, uma cada vez maior do que a outra. O principal diferencial, ou seja, aquilo que chama a atenção imediata do espectador está no fato da câmera nunca revelar o rosto ou mesmo o corpo inteiro da criança, interpretada pela pequena Delaney Quinn. Sabemos que a menina tem uma doença e precisa de cuidados constantes, mas nunca nos é revelado o quê exatamente. Aliás, essa escolha por esconder a criança parece fazer sentido com o que Bronstein tenta criar, mas, no fim, se revela um dispositivo meio bobo. A grife A24 prevalece, nem sempre a favor do filme.
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– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.