Teatro: Com humor e sabedoria, “Selvagem”, de Felipe Haiut, é um respiro de leveza frente ao conservadorismo

texto de Renan Guerra

A grande maiora das pessoas LGBTs têm memórias claras de como a infância pode ser um campo de batalha forte para as construções de gênero: “meninos usam azul, meninas usam rosa; meninos não cruzam as pernas, jogam futebol e não gostam de cantoras pop; meninas andam de saia, não sentam de pernas abertas e não jogam futebol”. O universo ao nosso redor sempre colocou sobre os nossos corpos os ditames de gênero. Mesmo antes de qualquer entendimento sobre nosso gênero ou sexualidade, o mundo já nos aponta o dedo e nos coloca em caixas que causam violências, dores e apagamentos – e muitas vezes isso vem dos próprios adultos que deveriam nos proteger e nos acolher. É sobre essas crianças selvagens e livres que são podadas pela heteronormatividade que se desenha o espetáculo “Selvagem”, monólogo criado e encenado por Felipe Haiut sob a direção de Débora Lamm.

Seguindo uma tendência contemporânea ampla de autores que versam sobre suas próprias biografias para a criação de autoficção, Haiut retorna a sua infância para criar um espetáculo que olha com bom humor para as feridas do passado, transformando as violências e as dores em expurgo no palco. O ator-autor volta para o momento em que seus pais colocam o pequeno Felipe em um tratamento psicológico que teoricamente iria curá-lo dos sintomas “afeminados” que ele vinha demonstrando. A partir desse ponto de partida, “Selvagem” se desdobra em uma viagem temporal que passa pelo pequeno Felipe apaixonado pelos ritmos sedutores da axé music e pela dupla Sandy & Júnior, por suas descobertas do desejo e do amor e por sua curiosa relação com uma assinatura da revista Playboy feita por sua família como medida do tal tratamento psicológico charlatão.

As memórias de Haiut poderiam ser lidas por um caminho de rancor ou de dor, mas no palco ele faz outra opção: ao invés de seguir atribuindo grandes importâncias a quem o cerceava ou lhe apontava o dedo, “Selvagem” busca celebrar a pequena criança que ele já foi um dia, coroando no palco a selvagem liberdade de ser quem se é, de gostar daquilo que nos faz bem e de dançar conforme a música que quisermos. Haiut trafega no palco por uma selva de cabos, conexões e antigas TVs, materiais que servem de apoio para que ele dê vida às histórias contadas no texto, seja com a inserção de imagens da época ou de imagens atuais de sua família. Para completar as experiências catárticas, a cada sessão o ator recebe no palco um cantor ou cantora que interpreta alguma canção que marcou a pequena criança selvagem que eles já foram um dia – na sessão a que assistimos, a cantora Assucena revisitou o repertório de Whitney Houston dos tempos de “O Guarda-Costas” (1992).

Considerando um histórico recente das artes em que vivenciamos a perseguição e o encerramento de exposiçōes que ousavam versar sobre o tópico das infâncias queer, o texto de Felipe Haiut é um alento, é um respiro de leveza frente ao conservadorismo. Com humor e sabedoria, “Selvagem” trafega por uma série de referências que são bastante marcantes dos anos 1990 e da virada do século, um deleite para quem viveu um mundo em transição entre o analógico e o digital. Mesmo assim, todos os universos que cercam esses pontos referenciais seguem bastante atemporais e reforçam o diálogo direto do texto com o público – tanto que foi publicado pela Editora Cobogó dentro de sua coleção Dramaturgia.

“Selvagem” funciona de forma bastante catártica, como um afago nas crianças que fomos um dia, nos relembrando que precisamos ajudar a construir futuros mais seguros e acolhedores para os pequenos, para assim, quem sabe, desenharmos futuros mais diversos e livres.

“Selvagem” tem sessões agendadas no Teatro Sérgio Cardoso dias 24, 25 e 26/10

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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