Três shows: Humberto Gessinger, Joyce & Jards Macalé, Gilberto Gil (com Roberto Carlos)

Joyce e Jards Macalé – Sesc Pinheiros – 10 de outubro
texto e fotos de Bruno Capelas

Em 1980, a cantora Joyce deixou de ser um segredo bem guardado da música brasileira: ao apresentar “Clareana” no festival MPB 80, ela não só criou um novo nome de menina, como também uma melodia inconteste. “Clareana” foi ainda a ponta-de-lança de “Feminina” (1980), disco marcante tanto pela quantidade de grandes canções (a faixa-título, “Essa Mulher”, “Banana”, “Revendo Amigos”…) quanto pela capacidade de composição a partir do eu-lírico feminino. 45 anos depois, a cantora retomou tal via criativa no disco “O Mar é Mulher”, lançado no 1º semestre e apresentado pela primeira vez em SP em 10 de outubro, no teatro do Sesc Pinheiros (e comentado faixa a faixa aqui). Além de canções próprias – como a bela faixa título, cuja força não foi reduzida pela gripe que acometia a cantora, ou “Adeus Amélia”, resposta ao clássico “Ai Que Saudades da Amélia” –, o trabalho tem ainda uma deliciosa parceria da artista com Jards Macalé. Trata-se de “Um Abraço do João”, que serviu de desculpa para reunir em palco os dois artistas, amigos há quase seis décadas. Foi interessante ver o contraste entre essas duas figuras apresentando duetos como “Doralice” e “Saudade da Bahia”, em homenagem tanto a João Gilberto quanto Dorival Caymmi, ou “Poema da Rosa”, modinha de Jards em parceria com Augusto Boal (e, indiretamente, Bertolt Brecht). Apesar de ambos serem gilbertianos de primeira hora, Joyce e Jards tomaram caminhos diferentes na carreira. Joyce é fina, sofisticada, uma bossanovista de carteirinha. Macalé, por sua vez, já foi “um rapaz muito sério” (e foi hilária a história que ele contou sobre precaver a amiga de “dois maconheiros”), mas trocou a elegância da bossa nova por uma bossa toda particular. Em dueto, Joyce seguia à métrica e regia a banda, mas era incapaz de controlar o ritmo do parceiro, em um colorido especial. A presença de Jards também permitiu uma grata surpresa: já que a voz Joyce estava desfalcada, com um timbre grave que por vezes lembrava Marina Lima, ela abriu espaço na noite para Macalé, sozinho ao violão, fazer duas versões emocionantes de “Movimento dos Barcos” e “Vapor Barato”. No retorno, a cantora trouxe ainda sua banda para fechar o arco da história e revisitar os temas de “Feminina”. Aqui, vale o destaque para a potência de “Essa Mulher”, para uma versão acelerada da faixa-título e para o suingue de “Aldeia de Ogum”, em que se sobressaíram o baixo firme de Rodolfo Stroeter e a elegância da bateria de Tutty Moreno – sempre um dos melhores de sua arte em atividade. Poderia alguém dizer que ainda faltou “Clareana”, mas seria exigir demais da voz de Joyce. Em compensação, Jards e a amiga fecharam o bis com “Um Abraço do João”, num momento tão singelo quanto inacreditável. Bonito, muito bonito.


Humberto Gessinger – Espaço Unimed – 11 de outubro
texto de Marcelo Costa / fotos de Fernando Yokota

Quando a turnê Encontro se revelou um enorme sucesso de público, crítica e cifras milionárias, muita gente começou a especular possíveis bandas que, ao se reunirem novamente, teriam chance de repetir o êxito dos Titãs. Nessa lista, a volta dos Engenheiros do Hawaii com sua formação clássica aparecia com destaque, mas Humberto Gessinger não apenas nunca se animou com o reencontro como colocou ponto final ao explicar, em entrevista ao jornal Zero Hora, que não queria “voltar aos anos 80” com os ex-companheiros Carlos Maltz e Augusto Licks, que começaram a fazer shows com canções do Humberto, mas sem o Humberto, com o impagável nome de Engenheiros sem CREA. Seguindo em frente sozinho em sua infinita highway, Gessinger, por sua vez, anunciou uma nova turnê em que não iria voltar ao século passado, mas sim aos anos 00, revendo os “Acústico MTV” (2004) e “Acústico: Novos Horizontes” (2007) – e, de quebra, lançando um novo produto, o álbum “Revendo o Que Nunca Visto” (2025), que em uma das duas canções inéditas, “Sem Piada Nem Textão”, reúne outra formação dos Engenheiros, a com Adal Fonseca (bateria), Luciano Granja (violão) e Lúcio Dorfman (teclados). Para não deixar dúvidas de que Gessinger vive um momento diferente dos ex-parceiros que gravaram com ele alguns de seus maiores sucessos (apenas 9 deles presentes em um show de 29 músicas), a volta da turnê à São Paulo  (cidade em que o disco foi gravado em fevereiro) colocou mais de 7 mil pessoas no Espaço Unimed, um imenso público que cantou, gritou e chorou canções como “Dom Quixote”, “Até o Fim”, “3×4” e “O Preço”, em novos arranjos que privilegiam gaita, sanfona e viola caipira, demonstrando que Gessinger seguiu em frente, e seus ex-parceiros se perderam em alguma paralela em Belém do Pará. Houve espaço para novas aliterações e aquelas rimas que todo fã de Engenheiros acha genial (“Deep Purple, Zappa, Zeppelin, Sgt Peppers, Pink Freud Flinstone” em “O Papa é Pop” e “Apocalipse Não, Apocalypse Now, como é que eu ganho esse Gre-Nal?” em “Vida Real”) além da participação especial de Esteban Tavares em “Segura a Onda, Dorian Gray” (incluída de surpresa no lugar de “Pose” no set list) e “De Fé”, a boa nova “Paraibah”, parceria com Chico César também presente no disco novo, e, claro, hits dos anos 80/90 como “Infinita Highway”, “Pra Ser Sincero”, “Toda Forma de Poder” e “Piano Bar”, com Humberto comentando após ouvir o imenso coro de vozes: “Até parece que foram vocês que escreveram a letra”! E complementando: “Pode não parecer, mas é um elogio” (risos). No final, ao som de “Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones”, Humberto Gessinger encerra uma grande noite chutando pra longe a reunião dos Engenheiros.


Gilberto Gil no Allianz Parque, São Paulo – 18 de outubro
texto de Marcelo Costa / fotos de Pridia

Quando passou por São Paulo em abril com sua última grande turnê (vale o reforço: Gil não vai se aposentar dos palcos, mas pretende diminuir o ritmo), Gilberto Gil estava fazendo o sexto show da maratona Tempo Rei (a tour foi aberta em Salvador com quatro datas no Rio na sequência), e ainda que já ali tivesse ficado perceptível que o público estava diante de um dos grandes shows do ano (e da carreira do artista baiano), havia pequenas arestas a se aparar. Boa notícia: seis meses depois, a turnê Tempo Rei soa absolutamente perfeita. Nada como a estrada para aperfeiçoar os novos arranjos para as canções clássicas tanto quanto permitir que cada integrante encontre seu espaço em cena. Não bastasse o time estar voando em campo e o som, novamente, estar impecável, a 17ª apresentação de Gilberto Gil acompanhado de uma super banda com metais, cordas e muitos familiares ainda somava um ingrediente especial: na coxia, o burburinho era de que o Rei Roberto Carlos surgiria na Pompeia para retribuir a visita de Gil em seu especial de final de ano na Rede Globo, em 2024 – na noite anterior, Seu Jorge havia sido o convidado especial. O show, sexto e último da turnê na capital paulista, reprisou o set list tradicional da turnê (decupado por Nelson Oliveira quando da estreia em Salvador), mas as canções não apenas surgiram mais fortes, encorpadas, como o próprio Gil estava mais falante e muito mais à flor da pele: em dois momentos da noite, a lembrança da filha Preta, falecida dois meses antes, emocionou o artista – em “Drão”, que Preta (já debilitada pela doença) cantou com o pai em um dos shows em São Paulo em abril, Gilberto Gil mostrou muita força para tocar a canção em meio aos sentimentos intensos que ela trazia (e com diversas fotos da filha Preta ainda pequena no telão). Já na hora de apresentar o filho Bem, definido pelo pai como “um sideman”, o músico que acompanha outros músicos, citou a nora mãeana, demonstrando não existir ressentimentos após o episódio que culminou na separação do casal em 2021 (Bem Gil e mãeana reataram em 2023). Gil ainda defendeu o direito de tocar rock antes de apresentar “Punk da Periferia” e distribuir, no refrão “punk”, o dedo médio em riste: “Aqui pra vocês!”. Na hora de receber o convidado da noite, enquanto tocava os acordes de “A Paz”, apenas falou, pausadamente: “Roberto… Carlos”. O estádio foi tomado por emoção e Gil, ao reencontrar o amigo, comentou ao final: “Você veio!”. E Roberto, tão emocionado quanto todos os presentes, só respondeu: “Eu não poderia faltar!”. O Rei então cantou “Além do Horizonte”, transformando essa é uma das noites mais especiais da temporada, um show para ficar na memória e levar pra sempre no coração, uma turnê que agora segue para suas datas finais. Se você não viu, faça seu corre: esse é o grande show do ano.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

One thought on “Três shows: Humberto Gessinger, Joyce & Jards Macalé, Gilberto Gil (com Roberto Carlos)

  1. Só não digo perfeito porque punk da periferia é eternamente constrangedora e rock da segurança é chinfrin demais. Dava pra trocar essas duas e colocar coisa melhor no lugar. Repertório pra isso Gil tem de sobra.

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