Steven Wilson ao vivo em São Paulo: uma viagem sensorial além da música

texto de Paulo Pontes
fotos de Fernando Yokota 

A palavra experiência anda desgastada. Hoje tudo é “experiência”. É uma daquelas palavras que a gente gasta sem perceber. Serve pra um prato novo no restaurante, pra um filtro de Instagram, pra uma compra no e-commerce. Tudo virou “experiência”, e justamente por isso ela foi esvaziada. Mas há vivências que realmente são experiências diferenciadas. Elas te atravessam, reorganizam teus sentidos e te obrigam a perceber o mundo de outro jeito. Foi isso que Steven Wilson fez em São Paulo.

Na última sexta-feira, 17, no Tokio Marine Hall, o artista inglês subiu ao palco com a The Overview Tour e entregou algo que transcende a ideia de “show”. Desde o primeiro acorde, o ambiente se comportava como outro organismo: som, luz e imagem se entrelaçando em um mesmo pulso. Não era uma apresentação para ser apenas assistida, mas absorvida.

Wilson abriu a noite com a execução integral de “The Overview” (2025), álbum formado por duas longas faixas, “Objects Outlive Us” e “The Overview”, inspiradas no overview effect, a mudança de percepção que astronautas relatam ao ver a Terra do espaço. E é exatamente isso que o show provoca: a sensação de enxergar tudo de um ponto de vista novo. Foda!

Projeções monumentais, luzes coreografadas e timbres que pareciam em rotação orbital criavam uma paisagem quase cósmica. O som ganhava corpo nas mãos da banda formada por Nick Beggs (baixo e Chapman Stick), Randy McStine (guitarra), Adam Holzman (teclados) e Craig Blundell (bateria). Cada músico entende o papel de ser parte de um sistema, sem ego, sem exibicionismo. Tudo ali serve à imersão. E o público agradece.

Tanto no intervalo (cerca de 20 minutos após a execução da íntegra de “The Overview”) entre as duas partes quanto nos minutos que antecederam a apresentação, um aviso no telão pedia para o público evitar filmar e fotografar. E, para surpresa geral, a maioria respeitou. Não por devoção, mas porque era impossível competir com o que acontecia no palco. Foi quase comovente ver centenas de pessoas escolhendo a presença em vez da captura.

O segundo ato foi iniciado com “King Ghost” e “Home Invasion”, que abriram o caminho, e Steven Wilson se soltou. Conversou com o público, relembrou que na primeira vez que veio ao Brasil “tinham umas dez pessoas na plateia”, e celebrou o fato de agora ver a casa cheia: “Hoje estou me sentindo muito bem!”, disse, sorrindo.

O setlist então virou uma viagem pela própria trajetória: “Regret #9”, “What Life Brings”, e duas visitas ao Porcupine Tree, “Voyage 34 (Phase I)” e “Dislocated Day”, reinventadas com novas texturas eletrônicas e improvisos que mostravam um artista reinterpretando a própria história.

O clímax veio com “Pariah”, “Luminol” (geral foi a delírio), “Harmony Korine” e “Vermillioncore”, antes de um bis de arrepiar: “Ancestral” e “The Raven That Refused to Sing”. O final parecia projetado pra deixar o corpo no presente e a mente em outro lugar, um êxtase controlado, entre o peso e a delicadeza.

E talvez aí esteja a essência do que Steven Wilson faz: provocar uma espécie de overview effect particular. Durante mais de duas horas, ele desloca a plateia do chão. Faz você observar a música de uma distância segura o suficiente pra perceber o todo.

Em um mundo que confunde barulho com intensidade, Steven Wilson mostra que a experiência mais poderosa ainda é aquela que te desloca o olhar, que amplia a perspectiva e faz você sentir a música como um todo.

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/ 

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