entrevista de Alexandre Lopes
Demorou, mas aconteceu. Quase 20 anos após o último álbum de inéditas (“The Lemonheads”, de 2006), Evan Dando volta com “Love Chant”, 11º disco de estúdio do Lemonheads, a ser lançado em 24 de outubro. Entre confissões, ironias e um humor auto indulgente, Dando abre o coração em um trabalho que mistura novas parcerias, colaborações de longa data e a sensação agridoce de quem atravessou o inferno das drogas para enfim conseguir redescobrir a própria voz e talento.
“Eu não estava pronto até agora… Comecei a gravar há uns três anos… e aí fiquei pronto. Saí da heroína”, conta Dando, questionado sobre o porquê de tanta demora. “Eu não tinha nada a oferecer enquanto estava usando. Mas quando parei com a heroína e outras drogas de rua, meu coração se abriu, minha cabeça se abriu e os dois começaram a conversar. Eles brigaram um pouco, mas disseram: ‘O que a gente faz agora?’ ‘Vamos fazer um disco. Talvez a gente resolva isso juntos’”, fabulou. E assim “Love Chant” surgiu como um renascimento: um Lemonheads de meia-idade que ainda carrega algum charme do “slacker” de cabelos desleixados e melodias preguiçosamente brilhantes e quase juvenis dos anos 90.
Produzido ao longo de mais ou menos três anos, “Love Chant” traz participações de velhos parceiros como J Mascis (Dinosaur Jr), Juliana Hatfield e John Strohm (Blake Babies) e Tom Morgan (Lemonheads), além de convidados de gerações mais jovens, como Erin Rae, Adam Green e Marciana Jones. Musicalmente, “Love Chant” não reinventa a roda, e nem precisa. A beleza do Lemonheads sempre esteve em ser “apenas” uma banda de boas canções combinando melancolia e doçura entre momentos calmos e ruidosos e vocais que oscilam entre o entorpecido e o encantador. A diferença agora pode estar no tom confessional que o álbum assume: é como se ele refletisse a trajetória de Dando, que não esconde suas cicatrizes, o fim do vício, a noção de realidade retomada e a inspiração que dela brota.
Os singles “Deep End”, “In The Margin” e “The Key of Victory” dão o tom de um disco que equilibra o caos de faixas mais guitarreiras com uma sensibilidade pop e folk-rock. Faixas como “Togetherness Is All I’m After” carregam não só harmonias e refrãos grudentos, mas também a sensação de alguém que, aos 58 anos, reencontrou sentido no ato de compor e gravar novamente. Para além da música, o livro de memórias “Rumors of My Demise”, lançado em 7 de outubro lá fora (ainda sem previsão de versão brasileira), promete acrescentar ainda mais camadas e histórias a um artista que sempre preferiu tropeçar em público a se manter certinho.
Em um papo com o Scream & Yell, Evan contou mais sobre o novo disco, relembrou histórias de bastidores, fez tirações de sarro com o repórter e consigo mesmo, além de mostrar algumas pinturas de sua autoria, recorrendo à parceira Antônia Teixeira para perguntar algumas informações pontuais. Confira na íntegra abaixo.
Evan, você vai lançar um novo álbum depois de todo esse tempo. O último disco com músicas inéditas foi em 2006, certo? Imagino que você deve receber essa pergunta o tempo todo, mas: por que demorou tanto?
Eu não estava pronto até agora. Não estava pronto. Comecei a gravar há uns três anos, talvez dois anos e meio. E aí fiquei pronto. Saí da heroína. Eu não tinha nada a oferecer enquanto estava usando e já fazia uns 20 anos [que não lançava músicas novas], sabe? Eu tentava, mas tudo o que eu tinha era aquilo [as drogas]. E nem era tão bom assim. Mas, enfim, eu não estava pronto. Não tinha nada que eu quisesse dizer na época. E quando parei com heroína e com outras drogas de rua, meu coração se abriu, minha cabeça se abriu e os dois começaram a conversar. E eles brigaram um pouco, mas disseram: “O que a gente faz agora?” “Vamos fazer um disco. Talvez a gente resolva isso juntos.” Porque a realidade voltou, sabe? Eu não uso mais nenhum tipo de droga… Mentira, fumo maconha! (risos) Mas acho que o que aconteceu foi isso: eu fiquei pronto. Antes, eu só estava naquelas turnês infinitas de relançamentos. Era o que dava pra fazer. Fiz uns discos de covers também. Ah, e como o Jon Brion disse que ninguém deveria lançar um disco por 10 anos, eu levei isso ao pé da letra e fui além.
Sei que você também tem um livro de memórias a caminho e está em turnê… Você já disse uma vez que queria ser o rockstar mais preguiçoso do mundo. Agora você acha que as férias acabaram?
Sim, ainda bem! Não dava pra durar pra sempre. Era chato. Eu amo trabalhar. Não gostava de estar naquela situação. Todo dia eu estava tentando conseguir minha dose, sabe? E isso é como se fosse um trabalho em tempo integral.

Sobre o novo álbum: você escreveu o primeiro single com o Tom Morgan, e ele também tem o J. Mascis e a Juliana Hatfield tocando. Esse disco tem mais participações?
Sim! Tem também o Nick Salomon, do Bevis Frond. A Alisa canta um pouco. Tem a Erin Rae, uma garota de Nashville muito boa. A Marciana Jones escreveu algumas músicas. Tem Bryce Goggin, além do David Ashby e Adam Green do Moldy Peaches. Adam me disse: “Evan, acho que você consegue se safar com essa música.” Então ele, meu amigo Jody e eu escrevemos juntos. Saiu legal. [Vira para Antônia Teixeira e pergunta se está esquecendo de mais alguém que participou do disco]. Foi produzido pelo Apollo Nove. Você ouviu o disco?
Sim! Ouvi e gostei muito da segunda metade do álbum.
A segunda metade sempre tem que ser a melhor parte. A faixa 7 tem que ser a melhor. Depois disso, é só descer a ladeira com estilo. (risos) Meus discos preferidos sempre têm o lado B melhor, tipo o “Vol. 4” do Black Sabbath. O lado A tem que ser bom, mas o lado B é que tem que ser o melhor!
Você falou da faixa 7, nesse disco é “Togetherness is All I’m After” e ela é uma das minhas favoritas…
É a minha também! É uma música grande, linda demais! Eu escrevi com o John Strohm, guitarrista na época do Blake Babies. Ele também foi baterista dos Lemonheads, depois virou guitarrista e compositor parceiro, além de meu advogado. É um dos meus amigos mais antigos.
E agora com essas músicas novas, como você está planejando organizar o setlist?
Acho que com uma caneta permanente e um pedaço de papel… (risos). Não sei ainda. A gente vai tocar músicas antigas, novas… É bom mudar um pouco às vezes. Se você tem um baterista novo, tem que manter [o repertório] igual todo dia. Mas normalmente eu misturo. Sempre faço um momento acústico no meio. Tente me impedir! (risos)
Nos anos 90 você morou na Austrália e você disse que isso foi importante pra sua veia de composição. Você acha que está passando pelo mesmo tipo de coisa com o Brasil?
Sim sim! O hemisfério sul foi muito, muito bom pra mim. Acho que pertenço a esse lado. Meu pai sempre dizia: “Evan, se for pra ir a algum lugar, esquece Europa. Vai pra América do Sul. Lá tem oportunidade de verdade.” Ele me disse isso há muitos anos. Ele era um cara esperto. Ele faleceu há uns anos.
Agora, uma pergunta meio chata… Em uma das noites que você tocou no Sesc Avenida Paulista, parecia estar irritado no final. Chegou a chamar o lugar de “shithole”. Lembra o que aconteceu?
[pergunta a Antônia sobre o que aconteceu e ela explica que a organização pediu para encerrar o show pois já estava no limite do tempo] Ah, eu sou assim mesmo! Disseram que o show tinha que acabar e eu fiquei puto. Mas faz parte do show, sabe? Eu não sabia na hora, mas é a forma mais fácil de lidar depois. Desculpa, galera, faz parte. Sou real. Eu queria tocar mais, então surtei. Tento não fazer isso, mas nunca dá pra saber o que vai acontecer. Também é a parte divertida disso tudo.
Mas você curtiu tocar naquele lugar?
Sim! Mas é que às vezes me empolgo demais. É difícil decolar, mas depois que eu decolo, não quero mais pousar. Esteticamente, prefiro que o show termine no auge. Sou do tipo que pensa: “Tomara que essa seja a última música, assim posso sair e dizer que foi ótimo”. É melhor não se preocupar em tocar por horas. Não sou o Bruce Springsteen. E também não vou ficar falando sobre Donald Trump.
Falando nisso, você vai tocar nos EUA. Como acha que vai ser com a situação política atual?
Na minha experiência, é só abaixar a cabeça. Não ver o noticiário… ou ver, mas tanto faz. A realidade nas ruas é quase sempre a mesma. Mas sim, tem muita coisa horrível e nojenta acontecendo por lá. Mas acho que a gente sobrevive. Espero que sim. Aliás, espero que ela [Antônia] consiga entrar no país, porque ela é brasileira. Talvez a gente pare de fazer turnê por lá por um tempo. Mas aí penso: “Que bosta, que atitude covarde”. Então foda-se. A gente vai.
Na conversa anterior com o Scream & Yell, você disse que tinha planos de morar no Brasil e manter uma casa nos EUA. Como está isso?
Já temos uma casa lá e uma aqui. Aqui já está quase tudo certo. Não tenho muito interesse em voltar pra lá. Mas vou pra Martha’s Vineyard [uma ilha em Massachusetts], minha madrasta ainda vive lá. Espero que esteja bem.
Última pergunta: você trouxe suas pinturas aqui. Há quanto tempo você pinta?
Desde criança. Sempre amei Kandinsky. Fui nerd no ensino médio, curtia jazz e música clássica. Larguei o rock por um tempo quando tinha uns 16 anos. Fiquei idealista. Me ligava em Brahms, Coltrane, Elvin Jones, Thelonious Monk, Tony Williams, Paul Chambers, Bartók, Beethoven, Erik Satie… tudo isso. Sou muito influenciado por Kandinsky. A pintura está no meu sangue. O irmão da minha avó por parte de pai era um pintor famoso. Vendia quadros por milhões. O nome dele era Ray Ellis. É meio tradicional demais, mas está no sangue.
Você pretende continuar pintando e fazer exposições?
Já fiz duas exposições. Faturei 30 mil dólares. Tem que diversificar as fontes de renda, né? Mas pra mim é diversão. Se eu puder ganhar dinheiro e deixar as pessoas felizes, ou irritadas, eu faço. Sou auto irônico, egoísta… Mas adoro pintar. É como um canteiro de obras. Tem coisas que são obras. Outras que não são. Alguns quadros são abstratos, outros representativos. Quase todos estão inacabados. Às vezes estrago tudo. Mas sempre digo: se você está aprendendo a andar de snowboard e não cai muito, é porque não está tentando o suficiente. Ainda estou aprendendo a pintar. Quero errar. E ver o que funciona e o que não.
OK, obrigado pelo seu tempo, Evan. Foi um prazer te conhecer.
Sem problema! Ah, obrigado pelo CD! Tenho um CD player em casa. Tem adesivo, ilustração… Legal. Eu sou o Evan. Qual é seu nome mesmo?
Alexandre.
Legal, cara. Você é daqui?
Sou de Santos, mas moro aqui em São Paulo. Aliás, quando vocês tocaram na praia em Santos, em um festival [M2000 Summer Concert, em fevereiro de 1994], eu estava lá com minha mãe. Eu tinha uns 10 anos…
Nossa, Santos! Eu me lembro! Tinha gente reclamando porque tocamos “Big Gay Heart”. Aquilo foi divertido. O [Henry] Rollins bateu a cabeça no próprio joelho e recusou uma toalha que íamos jogar pra ele estancar o sangue. Mas ele é gente boa. A galera de lá é legal!
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.