texto de Leandro Luz
A maternidade, o “amor só de mãe” (para citar o inesquecível curta-metragem de Dennison Ramalho, lançado em 2003) é um assunto que aparece com muita frequência nas narrativas do cinema brasileiro e mundial. Quando atrelado ao cinema de horror – e fantástico, de modo geral -, a pregnância desse tema é ainda mais forte. De “O Bebê de Rosemary” (1968) a “Hereditário” (2018), de “Os Filhos do Medo” (1979) a “O Babadook” (2014), de “Carrie, a Estranha” (1976) a “As Boas Maneiras” (2017), todos esses filmes lidam, de forma mais ou menos frontal, com um trauma conectado às dores e às delícias de ser mãe (ou de ser filho). É um tema que costuma render filmes curiosos, uns mais genéricos do que outros, e que se caracteriza por ser um gerador eterno de conflitos, principalmente para narrativas que adotam o gênero do terror como norte.
Em “Herança de Narcisa”, descobrimos logo de cara que iremos nos embrenhar – com moderação, vide a grande inclinação ao drama – por esse caminho. Paolla Oliveira dá vida à Ana, uma mulher que passa por um período de grandes mudanças em sua vida e que abre uma janela no tempo para voltar ao lar da sua infância após a morte de sua mãe, Narcisa. O objetivo é fazer uma faxina completa na casa – enquanto assimila o luto -, e talvez colocá-la à venda. Tudo o que sabemos da relação entre Ana e Narcisa nos é apresentado em pequenas doses. Nesse sentido, a presença de Diego, o irmão da protagonista, interpretado por Pedro Henrique Müller, acaba tendo uma importância muito grande para a dinâmica emocional do filme. A sua participação é relativamente pequena, mas marcante. Tanto é que, assim que ele sai de cena, sobra um tremendo vazio.

Não que Paolla Oliveira tenha dificuldades para conduzir o filme por conta própria (quer dizer, difícil acreditar que ela estava sozinha ali com todas as incorporações que a narrativa propõe), mas existe uma densidade dramática no filme que parte muito da relação dos dois e que, depois, com a saída dele, se esvanece. A cena da piscina, por exemplo, é uma das mais interessantes por conseguir mesclar humor, horror e trauma, a partir dessa colaboração rica entre os dois. Lembra um pouco as ferramentas usadas por Mike Flanagan na brilhante minissérie para a TV, “Missa da Meia-Noite” (Netflix, 2021). É por meio dos diálogos e da relação tipicamente afetuosa e conflituosa dos dois que descobrimos que Narcisa tratava Ana de um jeito totalmente diferente da maneira como tratava Diego. Ela sempre fora a favorita, e precisa conviver com essa e outras lembranças, sobretudo porque também está para se tornar mãe em breve.
“Herança de Narcisa” mergulha fundo nos traumas e nos afetos possíveis estabelecidos entre mãe e filha no passado – e, o filme insiste, inclusive no presente. A rejeição, o amor incondicional, os ciúmes… tudo o que pode conter na memória de um filho enlutado vem à tona durante a obra de Clarissa Appelt e Daniel Dias, que escreveram o roteiro durante a pandemia e que também assinam juntos a direção (de acordo com eles próprios, de uma maneira bastante colaborativa, ainda que Appelt tenha se dedicado mais ao elenco e Dias à equipe técnica). Há uma porta trancada na casa, cuja chave Ana faz questão de esconder, que é a representação desse vespeiro que chamamos de passado – ou de ancestralidade, para pegar emprestada uma palavra da moda. Logo nas primeiras sequências do filme, uma vizinha excêntrica insiste em fazer um ritual de limpeza espiritual na casa, e quando se aproxima da porta notamos muito rapidamente que tudo culminará ali.
Ecos de Dario Argento (“Suspiria” e “A Mansão do Inferno”, principalmente) dão ao terço final uma emoção mais intensa. Em alguma medida, os diretores vão esticando cada vez mais a corda das exigências técnicas necessárias para que os recursos de linguagem escolhidos sejam efetivos e sirvam à narrativa. Desde a complexa coreografia e a difícil movimentação de câmera na cena da festa – um plano-sequência que chega na hora certa – até os efeitos especiais usados para representar Ana / Narcisa tendo o seu corpo completamente içado pelas fitas vermelhas, impressiona a capacidade da direção em aliar apuro técnico e intenção dramatúrgica, objetivo nem sempre alcançado por filmes que se impõem desafios semelhantes.
Ao passo que Ana vai sendo cada vez mais desafiada em sua reconexão com Narcisa e, sobretudo, vai tendo que assimilar a sua própria condição maternal, o jogo de duplos também vai se consolidando. São muitos os objetos que possuem uma função dramática específica: espelhos, discos, fotografias, roupas e, fundamentalmente, um laço de fita vermelha que protagoniza a cena mais arriscada do filme. Zhai Sichen, diretor de fotografia, enquadra com muita destreza os espaços internos da mansão, buscando sempre composições limpas, ainda que recheadas de detalhes que contribuem para o clima tenso da obra. Chama a atenção o fato de o filme equilibrar bem as cenas diurnas e as noturnas, evitando o clássico “vamos filmar tudo à noite para disfarçar melhor a falta de grana”. Não, aqui a escuridão é importante para determinadas situações, evidentemente, mas somos brindados inclusive com externas diurnas e mesmo com internas noturnas, estas iluminadas com muitas fontes de luz que valorizam a direção de arte e o figurino cuidadosos de Fernanda Teixeira e Roberta Pupo, opção que confere ao filme um acertado tom de melodrama hollywoodiano.
Embalados pelo espírito de um tipo vedete bem brasileiro, à la Carmen Miranda, o espectador de “Herança de Narcisa” pode até sentir falta dos sustos ou se ressentir pela quebra de expectativas empreendida no clímax do filme, mas certamente será brindado por uma atmosfera sempre inquietante, por uma Paolla Oliveira que sabe navegar bem pela sobriedade e pelo exagero, quando assim solicitados, e por uma encenação bastante meticulosa, responsável por fazer do filme um dos exemplares mais interessantes de seu gênero em 2025.
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– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.