Crítica: “The Mastermind”, de Kelly Reichardt (de “First Cow”), revisita os filmes de crime a partir de sedutora narrativa autoral

texto de Renan Guerra

O cinema de crime tem múltiplas facetas, das mais pop às mais violentas. Por um lado, podemos lembrar dos filmes charmosos, que desenham um universo sedutor da ilegalidade, como Frank Sinatra e George Clooney em “11 Homens e Um Segredo” (Lewis Milestone, 1960 / Steven Soderbergh, 2001). Por outro lado, podemos lembrar das saborosas comédias de erros, que riem dos desalinhos da malandragem, e aí vem a mente “Fargo” (1996) ou “Matadores de Velhinha” (2004), dos irmãos Ethan e Joel Coen. “The Mastermind” (2025), da celebrada diretora Kelly Reichardt, joga nesses dois campos, utilizando alguns pilares desse universo dos filmes de gênero para assim construir a sua própria espécie de filme de crime. Estrelado por Josh O’Connor, o filme estreou nos cinemas brasileiros numa parceria da Imagem Filmes com a MUBI.

Ambientado nos anos 1970, na Nova Inglaterra, isto é, no nordeste dos Estados Unidos, o filme acompanha a trajetória de JB Mooney (O’Connor), um carpinteiro desempregado que vive uma vida comum classe média ao lado da esposa e dos filhos, e que, vira e mexe, conta com o auxílio financeiro dos pais, especialmente da mãe, que o ajuda a encobrir muitos de seus fracassos. Numa jogada que ele considera de mestre, JB organiza um roubo a um museu local, onde ele decide formar uma trupe (bastante mambembe) de ladrões destinado a roubar obras de Arthur Dove, um dos primeiros nomes do modernismo norte-americano e considerado por muitos o primeiro pintor abstrato dos Estados Unidos. Obviamente o roubo se transforma no pontapé de uma série de infortúnios.

Essa narrativa inicial é vagamente inspirada no roubo do Museu de Arte de Worcester, em Massachusetts, em 1972, no qual dois Gauguins, um Picasso e um Rembrandt foram roubados por dois mascarados. Esse universo de roubos de arte até lembra, em alguma medida, o filme sueco “E Agora? Roubei Um Rembrandt” (Jannik Johansen, 2003), sobre desajeitados ladrões que roubam um quadro que vale milhões, mas não sabem o que fazer com isso: como vender esse quadro? Como fugir da polícia e de outros ladrões de arte? Em “The Mastermind”, nosso protagonista JB até parecia saber o que fazer, mas as coisas se desenrolam no campo do inesperado. E é nesse desenrolar que a mão da autora de autora do celebrado “First Cow” (2019) e de “Wendy e Lucy” (2008) se mostra forte, reafirmando-a como uma das vozes mais consistentes do cinema independente americano contemporâneo.

A trama de “The Mastermind” se desenrola nos  anos 70 em meio a uma ebulição cultural, social e política que movimenta a juventude norte-americana. O sonho americano é constantemente colocado à prova e, nesse cenário, a vida pacata – e um tanto mal-sucedida – de JB é colocada em xeque. Com este pano de fundo, a diretora se aproveita dos alicerces do cinema de gênero, celebrando o universo dos filmes de crime, ao mesmo tempo em que trilha uma narrativa bastante autoral, em que ambição, fracasso e desilusão se entranham nas bases do sonho americano.

De forma quase contemplativa, Reichardt vai desenhando o universo de JB e pincelando o microcosmo que o circunda, de sua esposa quase complacente aos seus comparsas de crime. Sua esposa, aliás, é interpretada por Alana Haim, do grupo musical Haim, que ganhou destaque em recente colaborações com Paul Thomas Anderson, em “Licorice Pizza” (2021) e “Uma Batalha Após a Outra” (2025). Em “The Mastermind”, Alana aparece em performance no campo do ordinário, sua personagem tem poucos momentos interessantes de cena e ela não parece aproveitá-los de forma plena. Para além disso, o filme tem outros nomes em seu elenco, mas todos em papéis menores: Bill Camp, John Magaro, Gaby Hoffmann; de todo modo, esse é praticamente um filme de um ator: Josh O’Connor.

O’Connor se encontra aqui de forma plena com o universo de Reichardt. Além de diretora, ela é roteirista e editora de “The Mastermind”, por isso mesmo o filme soa como uma troca muito bem estabelecida entre os dois. Ela o guia e o chama para essa dança e ele se entrega à vulnerabilidade dessa coreografia. JB Mooney, o personagem-protagonista, trafega entre dois polos: ora pela ousadia e por uma malandra sagacidade, e ora por uma canhestra fraqueza, um desajuste de quem anda sem rumo, em uma interessante dualidade. Portanto, vale frisar que, em um primeiro plano, Josh O’Connor é filmado de forma sedutoramente cafajeste; e aqui não estamos abertos ao debate sobre a beleza e o charme do ator, tire suas conclusões pessoais por aí, mas por aqui celebramos todo o je ne sais quoi que O’Connor tem. Por segundo, reforçamos que ele é um dos atores mais interessantes de sua geração, e isso está provado em seus múltiplos trabalhos, de seu turbulento personagem em “God’s Own Country” (Francis Lee, 2017) até seu interessante jogo de seduções em “Rivais” (Luca Guadagnino, 2024). Em “The Mastermind” ele consegue construir um personagem tão humano que se torna cativante, nos engendrando em suas trapalhadas, tanto que em momentos que deveríamos sentir raiva, conseguimos apenas rir e pensar “ai, o jeitinho do nosso menino”.

Até aqui passamos por diferentes pontos, mas não podemos deixar de citar a fundamental trilha sonora de Rob Mazurek. Artista extremamente prolífico, o compositor e trompetista norte-americano tem na base de seus sons o jazz, mas já navegou por diferentes universos e experimentações – incluindo uma temporada brasileira no início dos anos 2000, onde criou o grupo São Paulo Underground ao lado dos músicos Maurício Takara e Guilherme Granado. Em “The Mastermind” é seu jazz sincopado que dá o tom do filme; se a câmera de Reichardt parece flanar pelos espaços, seu som nos deixa pregados na cadeira, criando ambiências ambíguas, que nunca esclarecem, mas apenas ajudam a expandir as dualidades do filme.

“The Mastermind” é uma experiência exploratória de Kelly Reichardt sobre o cinema de crime e isso pode ser delicioso para quem se abre ao seu ritmo na mesma medida em que pode ser enfadonho e sem nexo para quem desconhece os códigos sobre os quais ela caminha. Tanto é que que muitos espectadores deixaram a sala de cinema na sessão de pré-estreia, abandonos que nos deixaram curiosos: o que distanciou tanto uma parcela do público? O que os causou desânimo, desencanto ou até mesmo repúdio? Por aqui enxergamos a experiência proposta por Reichardt como uma obra de quem ama o cinema, de quem celebra sua história, mas que também entende a urgência de bagunçarmos os cânones. Tanto que “The Mastermind” nos bagunça com refinamento, com charme e com um humor especial. Por isso, não se acanhe, deixe-se seduzir por Reichardt e O’Connor.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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