Cinco bandas brasileiras gravam versões doom metal de canções de Billie Holiday, Hank Williams e Bo Diddley

entrevista de Guilherme Lage

Algumas ideias são legais demais para ficarem apenas em meio a um grupo de amigos. Pense aí, em uma noite com umas cervejinhas a mais você também já deve ter pensado em algo genial que nunca tomou forma.

Não precisa ser aquele velho clichê de dizer aos seus camaradas: seguinte, vamo ficar rico! Ideias geniais podem se tratar de arte, de imortalizar registros de uma época especial da vida, mesmo que não seja da sua.

Dessas lampadinhas brilhantes que aparecem no topo da cabeça de alguém de vez em quando, tomou forma neste ano de 2025 bem aqui no Brasil.

Primeiro, vamos propor uma viagem no tempo. Nos anos 50 quando Ozzy Osbourne e Tony Iommi ainda chupavam os dedos (aceitem, eles inventaram a porra toda), e a galera do Candlemass nem sonhava em nascer, o rock n’ roll já existia nos Estados Unidos.

E se clássicos dessa década ganhassem versões doom metal? Foi isso que a galera da banda paulista Brainscanner decidiu fazer. Versões soturnas de nomes como Billie Holiday, Hank Williams e Bo Diddley. Assim nasceu a coletânea “Doomed Jukebox 50s” (2025)01.

Para isso, foram escalados os grupos camaradas Presidente Judas, Stoned Pipe, Cleef e Concrete Monkey, para engrossar a toada sorumbática de clássicos dos anos 50.

O guitarrista da Brainscanner, e idealizador do projeto, Ricardo Siqueira, contou um pouco sobre a coletânea, escolha das bandas e a resposta para a pergunta; E aí, virão coletâneas de outras décadas? Confira o papo!

Uns anos atrás, a Grudda Records fez uma coletânea com bandas punk tocando clássicos brasileiros dos anos 60. Essa coletânea te inspirou de alguma forma pro projeto ou você não conhecia?
Não conhecia essa, mas até fiquei com vontade de procurar. Conheço e gosto de vários álbuns tributos, alguns de uma banda especifica como o “Graven Images: A Tribute To The Misfits” e o “Rise Above (24 Black Flag Songs To Benefit The West Memphis Three)”. Pensando em décadas especificamente, gosto muito do “Sucking The 70’s” lançado pela Small Stone Records.

Então me conta um pouquinho sobre como foi encabeçar esse projeto. Como surgiu a ideia e como foi a seleção das bandas?
Lá em 2022 eu estava conversando com o Alê (baterista da Brainscanner) e disse que acharia bem legal gravarmos um cover dessas músicas. Ele concordou, mas me perguntou se eu tinha ideia de como lançar. Faríamos um álbum inteiro de covers? Um EP? Só um single? Pensando em álbuns tributos como os mencionados anteriormente que gosto muito, propus fazer um álbum, mas convidar outras bandas para o projeto. Ele gostou da ideia e já começamos a ir atrás.

Chamamos bandas de nossos amigos que gostamos e acreditávamos que comprariam a ideia e fariam algo criativo. No fim das contas não participaram todas as bandas que gostaríamos. Algumas não se interessaram no projeto outras não puderam gravar por motivos diferentes. As que conseguiram participar nos deixaram MUITO orgulhosos com o resultado. Acho que cada um colocou sua voz nos clássicos e todas ficaram com muita personalidade.

Brainscanner gravou “Rumble” (Link Wray)

Cada banda escolheu a própria música ou já tinha uma listinha?
Cada banda escolheu a própria música. Colocamos apenas duas regras: não pode repetir música que outra banda vai gravar e a música precisava ter sido lançada nos anos 50. Uma música do Chuck Berry de 1961 não poderia entrar.

E como surgiu seu interesse pelos anos 50? Ali foram os primórdios do rock, há até algo folclórico em torno de canções feitas nessa época. Talvez esse lado evocativo, imaginativo, tenha chamado atenção pra mesclar com o doom?
Um pouco sim! Gosto muito de várias coisas dessa década, mas acho que na maior parte do tempo esses sons ficam muito esquecidos. Quando saiu aquele filme do Elvis alguns anos atrás ele até ficou um pouco em alta depois, mas não durou muito. Eu achei que ia ser legal relembrar esses sons, ainda mais criando algo novo com eles. Não me lembro de ninguém ter tocado Bo Diddley tão pesado como o Concrete Monkey fez. Acho legal fazermos essa ponte entre sons antigos com o barulho que fazemos atualmente.

Presidente Judas gravou “I Cant Hardly Stand” (Charlie Feathers)

A ideia de evidenciar bandas também foi do caralho, acho que falta, muitas vezes, certo interesse e visibilidade para bandas desse segmento aparecerem. A ideia de ser essa coletânea com uma galera surgiu daí mesmo? “Olhem, há uma cena! Somos um nicho que existe e é forte”?
Também! Gosto muito dessas bandas e acredito que todas poderiam cair no gosto de muita gente que não as conhece. Acho que esse álbum também funciona como uma entrada para quem não conhece essas bandas, mas gosta dos clássicos. “Você gosta do Charlie Feathers? olha como essa banda chamada Presidente Judas gravou a música dele!”.

De uns anos pra cá o doom e o sludge brasileiros ganharam um certo destaque, muito talvez pelo boom que o Jupiterian teve, muita gente começou a se interessar. Como você avalia a cena pra esse tipo de som hoje em dia?
Acho que teve sim um aumento no numero de bandas e com bastante diferenças nas vertentes também. Tem sludge podreira como Finis Hominis, tem death doom como Nameless Gods, tem doom com pegada setentista como Cleef, stoner clássico como Marenauta, stoner com pegada grunge como Stoned Pipe… Banda boa não falta! Com relação a publico, eventos e espaços, acho que está um momento um pouco “travado”. Por um lado estão trazendo bandas clássicas de fora como The Obsessed, Pentagram e Corrosion Of Conformity para tocar aqui, mas por outro fico com a impressão que é a mesma galera que cola nesses rolês. Acho que falta um fest só com bandas nacionais do gênero ou a presença de bandas do gênero em eventos grandes. Seria muito foda ver um Fuzzly ou Águapesada tocar num Bangers sabe? Talvez o Pesta tocar num Knotfest. Acho que isso é algo que fariam o público dessa cena crescer bastante.

Stoned Pipe gravou “Lady Sings The Blues” (Billie Holiday)

E me fala um pouco sobre o Brainscanner: além deste EP, o que vocês têm no horizonte? Já está na hora dessas nuvens negras sludge tomarem o Brasil!
Estamos trabalhando no nosso segundo álbum nesse momento. Vai ter umas 10 ou 11 músicas. Algumas já estão fechadas e algumas ainda faltam alguns retoques. Também pretendemos lançar nos streamings uma versão que gravamos de “Got A Lot To Say” dos Ramones que fizemos para um álbum tributo do podcast Sabbra Cadabra, que fizemos parte no ano passado. Além disso temos mais alguns shows para anunciar ainda esse ano.

Agora você tocou num ponto bom. Tem muitos músicos, alguns que fazem som elaboradíssimo que dizem que fazer um cover de uma música simples é bem difícil. Fazer uma versão dos Ramones foi desafiador pra vocês?
Acabamos fazendo uma versão até que meio próxima da original, então acabou sendo meio simples na verdade hahah Tocamos na nossa afinação e eu acrescentei um solo de slide, mas no resto foi bem próximo da original. É uma das minhas favoritas deles então eu honestamente me diverti tanto fazendo que acabou sendo bem fácil.

Cleef gravou “Alone And Forsaken” (Hank Williams) 

Sludge é uma mistura de doom com hardcore, e ainda que o hardcore seja mais notável nos acordes do que no tempo, gostaria de te perguntar: o quão importante o punk é pra você como músico?
Além das bandas que eu gosto do gênero, acho que no espirito DIY. Nós mesmos fazemos tudo: gravação, marcar show, mixagem, master, videos…

Voltando ao EP, como tem sido a recepção do público? A galera recebeu bem as versões?
Olha, a gente tem mandado para absolutamente todo mundo que a gente conhece (risos). Mas a resposta tem sido boa sim, muita gente parou pra elogiar, tanto a ideia “pô, pegar dos anos 50, que diferente!” quanto as versões em si, sabe?

Internamente, no grupo do whatsapp que a gente estava combinando tudo com o pessoal das bandas, está, putz, um elogiando a música do outro, e assim por diante. Então tem sido bem satisfatório nesse sentido.

Acho que essa mistura de rock anos 50 com stoner rock, com doom, pega as pessoas meio desprevenidas, porque é inesperado (risos). O pessoal acaba comprando a proposta.

Concrete Monkey gravou “Pretty Thing” (Bo Diddley)

E por fim, Ricardo, quando a gente fala de anos 50, ainda que seja rock, é música pop. Podemos esperar outras coletâneas de outras décadas?
Sim, total! A ideia é fazer realmente uma por década. Eu até brinquei no dia em que a gente lançou o “Doomed Jukebox 50s”: estava todo mundo no grupo, um dando parabéns pro outro “ah, legal, fizemos!” e eu já falei: beleza, galera, vamo começar agora a dos anos 60 (risos).

Então, sim, a ideia é fazer de todas as décadas mesmo, e também não só por esse tema, a gente queria fazer por outros também, por exemplo: tem dois que eu gostaria muito de fazer. Um só com músicas de álbuns que foram rejeitados, sabe? Tipo, o “St. Anger”, do Metallica, aqueles álbuns que os fãs das bandas não gostam (risos). Eu queria muito fazer um com esse tema.

E eu queria muito também fazer um com o tema nós mesmos, sabe? O Brainscanner gravando uma música do Presidente Judas, o Presidente Judas gravando uma música do Stoned Pipe, e assim por diante. A ideia é esse “Doomed Jukebox 50s” ter sido só o primeiro.

– Guilherme Lage (fb.com/lage.guilherme66) é jornalista e mora em Vila Velha, ES. Leia outras entrevistas dele!

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