Circuito #4: Em noite de problemas técnicos, Chococorn e Pelados sofrem, mas brilham em São Paulo

texto e vídeos de Bruno Capelas
fotos de Douglas Mosh

Concebido no início de 2025 por Lúcio Ribeiro e pela produtora Mais Um Hits, a série de shows do Circuito – Nova Música, Novos Caminhos é indiscutivelmente uma das grandes ideias da cena alternativa nesta temporada. Por si só, o esforço de colocar bandas para rodar a capital e o interior de São Paulo em uma sequência de poucos dias já vale o destaque. A boa e versátil curadoria – que vai de Supervão a Fausto Fawcett, de Vera Fischer Era Clubber a Jadsa – também é outro grande acerto. Ao longo do ano, a organização soube criar uma expectativa crescente pelas próximas edições do evento – e tal sentimento não foi diferente na quarta edição, realizada entre 9 e 12 de outubro com paradas em SP, Sorocaba, Americana e Campinas.

Para quem observa o festival na capital paulista, a perspectiva era ainda mais interessante. Depois de duas edições no apertado Bar Alto e uma feita de susto no palco alternativo da Casa Rockambole, o Circuito cresceu na edição do dia 9 de outubro. Desta vez, o local era o Cineclube Cortina, cuja capacidade se aproxima das 500 pessoas – a lotação na casa de shows do centro da cidade, porém, passou perto de atingir as três centenas de presentes, no olhômetro. Além disso, o evento ganhou pela primeira vez o apoio da Heineken, marca que possivelmente é a principal patrocinadora de música no Brasil da atualidade.

Para completar, a escalação estava caprichada. Havia uma revelação emo do interior – a Chococorn and the Sugarcanes, dona do cativante “Siamês”, lançado no ano passado. Também estava presente a dona de um dos discos mais elogiados pela crítica em 2024 – Nina Maia, em raro espetáculo ao lado da violoncelista Francisca Barreto. Para fechar a noite, um instigante grupo que acaba de lançar seu terceiro trabalho – a Pelados. Já na abertura, exclusivamente em SP (no Circuito, cada cidade tem um artista local abrindo a noite), a missão ficou com a dupla Kim & Dramma, um dos muitos projetos gestados em uma turma hiperativa que inclui ainda Os Fonsecas, Maria Esmeralda e a própria Nina Maia.

Leandro Serizo, Kim e Nina Maia

A menção à hiperatividade não é à toa: quando sobem ao palco, Kim Cortada (voz) e Quico Dramma (bateria e produção) mostram rapidamente que são capazes não só de deglutir, mas também expressar uma grande quantidade de informação musical. Para um ouvinte desavisado, a impressão inicial é de estar sendo atropelado – pelas batidas de Quico, pelo instrumental bem firmado da banda (menção especial ao guitarrista Caio Colasante e ao baixista Valentim Frateschi, ambos d’os Fonsecas) e pelo célere vocal de Kim, espelhando tanto o ritmo e a poesia do rap quanto certa verborragia à la Arrigo Barnabé.

Quico Dramma

Em pouco mais de meia hora, o grupo fez uma apresentação contagiante – especialmente com as participações de Nina Maia e do cantor Leandro Serizo, cujo dueto com Kim foi um dos momentos mais equilibrados do espetáculo. Mas, às vezes, o excesso de informação atrapalha: Kim canta tão rápido que é difícil compreender o sentido de suas palavras, enquanto a banda rebate tantas influências que é complicado processar tudo ao mesmo tempo.

Não é um fenômeno solitário na atual safra de jovens artistas: do Geese a Ca7riel e Paco Amoroso, a superlotação de ideias parece ser uma tendência. Mas há formas e formas de se fazer isso – e é necessário mais do que só carisma para conquistar uma impressão duradoura no coração de um público neófito, como o que o Circuito se propõe a atingir. Um pouco de maturidade (e calma) não fará mal à nitroglicerina da dupla.

Nina Maia e Francisca Barreto

Perto da explosão de Kim & Dramma, o que veio a seguir, “apesar de tudo, era muito leve”, como diria Wagner Franco. Classificada como “indie cult” pelo curador Lúcio Ribeiro em entrevista ao Scream & Yell, a dupla Nina Maia (voz e sintetizador) e Francisca Barreto (violoncelo e voz) trouxe à tona uma sonoridade sofisticada para o palco do Cineclube Cortina. Acompanhadas de Yann Dardenne na guitarra, as duas exibiram vozes em bonito contraste – a de Nina, grave a ponto de quase não parecer caber em sua caixa torácica; a de Francisca, suave e melodiosa, como se pode conferir na abertura com “Senhora Santana”, composição dela própria.

Nina Maia e Francisca Barreto

Na sequência, Nina releu algumas das faixas de seu disco de estreia, incluindo “Amargo”, “Caricatura” e “Menininha”, com ambiências que soaram promissoras para afastar sua obra de uma tendência de “cantoura-da-nova-MPB” e aproximá-la de um instigante trip hop. Quem mostrou mais potencial, porém, foi a violoncelista que excursionou nos últimos anos ao lado de Damien Rice: no palco, ela exibiu a bela “Habana”, canção do cubano Yaniel Matos, com espaço para deixar soar tanto o instrumento quanto sua excelente voz. Ainda é incerto quando Francisca (ou Chica, como é chamada pelos íntimos) lançará um trabalho cheio, mas ao final da apresentação ficou uma certeza: eis um nome para se seguir de perto.

Nina Maia e Francisca Barreto

Nome mais forte do catálogo da Mais Um Hits, a Chococorn and the Sugarcanes parecia uma das bolas cantadas para estar no Circuito desde a sua primeira edição. A popularidade do grupo – que anda arrastando centenas de fãs não só em São Paulo, mas em diversas capitais pelo Brasil, como evidenciou Lúcio Ribeiro, que os acompanhou em shows em Maceió e João Pessoa (conforme relatou na conversa com o Scream & Yell) –, porém, talvez tenha justificado a demora para que o quarteto de Santa Bárbara do Oeste fosse escalado. E os fãs da banda não decepcionaram, compondo a maior parte dos presentes no Cineclube Cortina.

Chococorn and the Sugarcanes

Jogando praticamente em casa, o quarteto formado por Felipe ‘Pips’ Bacchin (voz e guitarra), Alexandre Luz (bateria e voz), Pietro Sartori (baixo e voz) e Pedro Guerreiro (guitarra, voz e até bateria) trouxe a campo uma escalação mista. No repertório, estavam presentes tanto os hits underground de “Siamês” quanto canções ainda inéditas – com nomes enigmáticos como “30 Dias de Carnaval”, “A Vida de Messi” ou “Palavra de Amigo”. Mas engana-se quem pensa que a partida foi fácil: logo no começo, um problema na guitarra de Pips afetou o entusiasmo da banda, que chegou a interromper o show e pedir a entrada do DJ para ajustar o som.

Chococorn and the Sugarcanes

O entrevero com o instrumento foi resolvido com uma guitarra reserva, mas o ritmo já havia sido comprometido: alma da conexão da banda com o público em apresentações recentes, Pips passou boa parte do show tentando extravasar a raiva que sentiu após o problema técnico. Para piorar, falhas no ajuste do som acabaram por atrapalhar a comunicação entre os artistas e seus fãs ao longo de todo o espetáculo. São questões técnicas que afetam qualquer músico, mas que se tornam um entrave ainda mais significativo no caso de uma banda tão emocional como a Chococorn.

Chococorn and the Sugarcanes e Caru Frascaroli

Felizmente, nem tudo estava perdido – como diria John Lydon, “a raiva é uma energia” muito importante para uma banda que criou para si própria o rótulo de “emo caipira”. Ao longo de quarenta minutos, a Chococorn soube lidar com as adversidades para construir momentos muito divertidos – como a catarse de “Dom Bosco S.A.”, o bonito medley de “O Tusca é Nosso” e “Fiat Marea 2004” ou o mosh de Caru Frascaroli, vocalista da Magnólia, em “Mansão Foster Para Seus Amigos Imaginários”. O placar podia ter sido melhor, não fossem os problemas com o som, mas ainda vale a recomendação urgente de alguns meses atrás: está aí uma banda para ser vista o quanto antes.

Pelados

A qualidade e a equalização do som também foram grandes adversários para a Pelados, que teve o trabalho de encerrar a noite. Os problemas técnicos foram até mais significativos para o quinteto paulistano do que para a Chococorn. O motivo era simples: enquanto o grupo barbarense tem uma sonoridade reta, a banda da vocalista Manu Julian trabalha com ambiências, ruídos e sutilezas sonoras que, infelizmente, passaram praticamente despercebidas no Cineclube Cortina. Sintomático foi o momento, inclusive, em que a baixista Helena Cruz pediu repetidamente por maior volume em seu retorno, quando o som já estava no máximo.

Pelados

Para quem já tinha proximidade com o repertório do grupo, seja no novíssimo “Contato” ou no interessante “Foi Mal”, de 2022, boa parte do espetáculo foi dedicada a buscar decifrar o que estava sendo tocado e cantado no palco por trás da confusão sonora. Para ouvintes de primeira viagem, porém, foi difícil compreender o que Manu e seus colegas – a já citada baixista Helena Cruz, o guitarrista Vicente Tassara, o tecladista Lauiz e o baterista Theo Cecato – queriam passar adiante.

Pelados

Se for possível deixar o aspecto técnico de lado, é preciso dizer que a Pelados fez um grande show. Estruturalmente, a banda aponta tanto para a canção brasileira (Gilberto Gil, Mutantes, Lira Paulistana) quanto para o rock alternativo dos anos 1980 e 1990 (em especial, na trinca de referências surgidas de Talking Heads, Pavement e Yo La Tengo). Mas há mais que isso: em temas como “Planeta Oxxo” e “Enel”, do novo trabalho, ou “Coquinha Gelada After Sex”, há uma capacidade de leitura da realidade paulistana e do comportamento atual que são muito perspicazes.

Pelados

Em paralelo, o grupo também se mostra capaz de criar grandes baladas tortas, canções para corações românticos embebidos de Maria Mole e haxixe. É o caso de “Estranho Efeito”, primeiro single de “Contato”, ou da sensacional “Modric”, que parte do craque croata, carrasco da seleção canarinho, para estabelecer um bonito refrão de desilusão futebolística – que se torna ainda melhor quando o ouvinte sabe que foi composto por Lauiz, zero afeito ao esporte bretão.

Pelados

O nível sobe ainda mais quando tal estribilho é cantado por Manu Julian, que domina o cenário em variados matizes. Da raiva adolescente a certo desleixo sensual, passando por mil caras e bocas, a vocalista se desdobra para passar seu recado, gerando uma impressão impactante no público. Vale o destaque: nos últimos anos, poucos artistas tiveram uma evolução tão impressionante no palco quanto Manu, que paira no espaço, impulsionada pela potência demonstrada pelos quatro companheiros. Uma pena que tanto tenha se perdido nos cabos e capacitores do equipamento do Cortina sem chegar ao público.

Pelados

Ao final da noite, a sensação que ficou na boca foi de um gosto agridoce. Apesar da escalação acertada e do investimento feito para crescer, a primeira noite da quarta edição do Circuito foi talvez a que teve o resultado mais fraco das realizadas este ano, ao menos na capital paulista. Se Kim & Dramma e Nina Maia sofreram menos com o som, mostraram também que ainda carecem de maturação. Já Chococorn e Pelados, que chegaram com espetáculos mais prontos, acabaram pelo meio do caminho – fazendo muita gente imaginar outra realidade. Especulação, porém, não é algo que caiba sempre na crítica. Vale mais ressaltar o ponto do próprio Lúcio Ribeiro: se a cada edição há um aprendizado gigante, eis aqui uma ótima oportunidade para aprimoramento do Circuito, uma das melhores novidades de 2025. A cena merece – e agradece.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
– Douglas Mosh é fotógrafo de shows e produtor. Conheça seu trabalho em instagram.com/dougmosh.prod

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