Entrevista: A banda mineira Pelos fala sobre “Noturnas”, seu quinto álbum, um disco mais arejado, boêmio e livre

entrevista de Bruno Lisboa

Dois anos após o impacto de “Atlântico Corpo” (2022), a banda mineira Pelos retorna com “Noturnas” (2025), quinto álbum de estúdio da carreira. Se o disco anterior era, assumidamente, uma obra conceitual sustentada pela investigação de ancestralidades, pretitude e tradições musicais negras, o novo trabalho evita repetir os mesmos discursos e estéticas, pois “a racialidade está mais evidente nas melodias, timbres, ritmos”, observa o vocalista e pianista Robert Frank. “A musicalidade negra da banda se percebe pelos timbres vocais, por fraseados e ambientações”, completa o guitarrista Herberte Almeida.

Com produção de Henrique Matheus e Thiago Corrêa e mixagem e masterização de Leonardo Marques (os três da banda Transmissor), “Noturnas” valoriza cada acorde, timbre e respiro, permitindo que as nuances das canções ganhem relevo e peso. O resultado é um registro coeso e sofisticado, mas que preserva a energia crua das gravações ao vivo de Robert Frank (voz e piano), Heberte Almeida (guitarra e voz), Kim Gomes (guitarra), Thiago Pereira (baixo) e Pablo Campos (bateria e voz). “O disco tem músicas distintas e diferentes, mas que nesse contexto da noite cria uma narrativa sobre esse sentimento e sensações que vivemos”, pontua Kim Gomes.

Na conversa abaixo, feita por e-mail, o quinteto fala sobre o processo de criação e gravação de “Noturnas” e o caráter urbano das novas composições: “A identidade sonora da banda carrega uma coisa densa, mas no ‘Noturnas’ tem um frescor, algo um pouco mais arejado”, acredita Heberte. “Não se trata de um disco temático ou conceitual sobre a noite de Belo Horizonte”, esclarece Thiago Pereira. “Tem mais a ver com uma certa subjetividade boêmia, que em tempos de gentrificação tem lá seu caráter de resistência”, pontua o baixista. “Espero que o disco surpreenda quem já conhece a banda e, claro, desperte a atenção de novos ouvintes”, deseja Robert Frank. Leia abaixo a conversa na integra.

Ouça “Noturnas” abaixo

“Atlântico Corpo” foi muito celebrado em 2022, inclusive figurando em várias listas de melhores discos do ano. Como vocês lidaram com essa recepção e de que forma ela pesou no processo de criação de Noturnas?
Heberte: Entre 2022 e 2024, período em que lançamos o “Atlântico Corpo“ e fizemos diversas apresentações do álbum, estávamos celebrando os 25 anos da banda. O reconhecimento que esse disco trouxe era algo que a gente precisava para coroar essa trajetória duradoura. A banda cresceu muito no palco e tocamos muito ao longo de dois anos. Antes de lançar o disco anterior a gente imaginava que a banda iria se posicionar junto a um perfil de público vinculado às práticas culturais e questões da negritude. Mas isto não aconteceu. Entendo que a repercussão desse trabalho como um todo, deu mais energia pra gente gravar um álbum do jeito que a gente quisesse, com muito mais liberdade.

O disco anterior tinha essa costura conceitual mais explícita, mergulhada em pretitude, ancestralidades e gêneros negros. Já em “Noturnas” vocês falam de um direcionamento para o “sentimento oceânico” como “sentimento do mundo”. O que significa essa virada de chave?
Heberte: Foi o primeiro disco com a formação atual da banda. À época vivíamos a pandemia e a gente só se encontrava quando havia recomendação e liberação por parte das autoridades municipais. Quando a gente se reunia era tudo intenso demais e muito do que a gente falava era atravessado por questões raciais. Com o “Atlântico Corpo” a banda manifestava um discurso denso e frontal que refletia vivências diversas de negritude. Tinha um desejo de fazer parte de uma cena da cidade mais vinculada às identidades negras, reafirmando a música neste lugar. Com o “Noturnas”, a gente decidiu mirar primeiramente em boas canções antes de qualquer texto intencional e endereçado. As melodias, refrões e arranjos estão em primeiro plano, amparando letras mais espontâneas. No álbum, a musicalidade negra da banda se percebe pelos timbres vocais, por fraseados e ambientações.

Como foi o processo de composição e gravação de “Noturnas”, especialmente nas sessões de imersão e nos registros ao vivo em estúdio? Isso trouxe mais espontaneidade e organicidade para o resultado final?
Heberte: A banda estava mais confiante e despreocupada pra fazer o disco novo. Em duas sessões imersivas, uma em novembro de 2024 e outra em março de 2025, compusemos todo o material. A coisa mais diferente que aconteceu nestes encontros foi que ninguém mostrou nenhuma ideia de música antes de cada imersão criativa. Isso instaurou uma grande curiosidade e um estado de prontidão no processo de feitura. Teve também uma atuação mais coletiva na elaboração musical das canções. Duas das nove músicas do repertório tem a assinatura de todos os integrantes da Pelos. Dois meses após a última imersão, nós fomos pro estúdio Frango no Bafo pra gravar o álbum. Da outra vez a banda estava tão ensaiada que a escolha pelo registro ao vivo era a mais pertinente. Nesta ocasião, optamos pelo método de gravar um instrumento por vez, descobrindo novos arranjos e a personalidade de cada música. A identidade sonora da banda carrega uma coisa densa, mas no “Noturnas” tem um frescor, algo um pouco mais arejado.

A ideia de “noturno” e de vivências boêmias urbanas atravessa o novo disco. Vocês entendem essas experiências da noite como um contraponto ou como uma extensão natural das discussões de ancestralidade e corpo presentes em “Atlântico Corpo”?
Robert: Acho que tem mais das experiências pessoais, mais espontaneidade, trazendo pro hoje muitos daqueles sentimentos de “Atlântico Corpo”. Enquanto o disco anterior tratava das questões raciais em sua raiz, em “Noturnas” temos isso no lugar contemporâneo, numa vivência mais diversa desses corpos e mentes tratadas no disco anterior. A racialidade está mais evidente nas melodias, timbres, ritmos, mas é inevitável que isso também passe pelos temas das letras, tendo em vista que os três letristas do álbum são pessoas negras. Porém creio que isso esteja muito mais nas entrelinhas do que no front, como foi em “Atlântico Corpo”. Dito isso creio que podemos entender “Noturnas” como uma extensão ou um outro passo em relação ao disco anterior.

Capa de “Noturnas”, da Pelos

A Pelos sempre se destacou por dialogar com múltiplas sonoridades — do rock ao soul, do afrobeat ao jazz. No novo trabalho, que caminhos sonoros apareceram e que vocês almejaram dialogar?
Robert: Acho que “Noturnas” revisita cenários anteriores da banda, de lá atrás quando ainda éramos Pelos de Cachorro, mas também segue abrindo caminhos para coisas novas. Além do já visitado afrobeat e jazz, o disco trilha caminhos experimentais da disco, funk e o universo do clube da esquina. Esse último foi algo bonito e mágico porque não foi proposital. A medida que algumas canções foram ganhando corpo elas foram se mostrando assim e simplesmente abraçamos isso. Algumas canções tem uma certa nostalgia da música mineira, porém trazidas para o hoje, para o nosso universo.

Como vocês equilibram a busca por versatilidade estética sem perder a identidade que já está marcada em duas décadas de carreira?
Robert: Não sei se é algo que nos preocupamos realmente, isso de manter uma identidade. Creio que exista mais uma vontade de fazer músicas que gostaríamos de ouvir e também de explorar universos diferentes, mas como há um núcleo da banda que está junto há pelo menos 20 anos, há uma sonoridade ali que se mantém, que entende das entranhas sonoras de cada indivíduo e do coletivo. Eu particularmente sempre estou buscando explorar lugares da voz que ainda não visitei. Gosto da ideia de não ter um único registro vocal, de explorar dos falsetes aos graves profundos. Acho que esse disco é o mais diverso nesse sentido.

O disco tem produção de Henrique Matheus e Thiago Corrêa e mixagem/masterização de Leonardo Marques, com quem vocês já trabalharam. O que cada um deles trouxe de singular para a sonoridade de “Noturnas”?
Kim: Já tínhamos trabalhado com o Leo no “Atlântico Corpo” e foi uma parceria que deu muito certo. Mas com a ida dele para Los Angeles ficamos num primeiro momento sem saber com quem gravaríamos. Até ele falar que estava produzindo algumas coisas com o TC e o Henrique. Eles são amigos e parceiros de longa data, então o trabalho fica mais fluido. Para o “Noturnas” demos mais liberdade criativa para que cada um participasse mais ativamente da produção. O Henrique conhece muito de equipamentos, montagem e equalização, ele gravou a maioria das músicas. O Thiago é multi-instrumentista e tem muitas ideias boas de arranjos e ficou na função de direção de gravação, além de ser muito bom em montar as músicas no software. O Leo é especialista em timbres e sons vintage, e agora lá em LA tem os melhores equipamentos a sua disposição, e com isso o resultado foi uma mixagem e uma masterização analógica poderosa.

Existe algum fio narrativo ou poético que conecta as faixas de “Noturnas,” ou vocês buscaram construir um repertório mais fragmentado, que represente diferentes estados noturnos?
Kim: O “Noturnas” é um disco com composições mais livres mas que tem um tema recorrente que é a noite. Mais precisamente sobre a noite de Belo Horizonte, sobre nossas relações com o baixo centro, que é o nosso habitat natural. O disco tem músicas distintas e diferentes, mas que nesse contexto da noite cria uma narrativa sobre esse sentimento e sensações que vivemos. Além de fazer homenagens e referências a artistas mineiros que gostamos muito, seja no cinema ou na música, tais como: a produtora audiovisual Filmes de Plástico, a obra do Clube da Esquina, as canções do Pato Fu e a versatilidade do FBC.

A noite em Belo Horizonte sempre foi um espaço fértil para encontros musicais e culturais. Como a cidade atravessa esse novo álbum de vocês?
Thiago: A noite da cidade oferece uma espécie de ‘ambiência’, capturado nas vivências tanto coletivas – como banda – quanto singulares, acredito. Não se trata de um disco temático ou conceitual sobre a noite de Belo Horizonte, mas há, creio, conjugando letras e músicas, um clima mais noturno, uma coisa meio ‘Mesa de bar, 2:45 da manhã, centro de alguma metrópole’, que não necessariamente seja BH. Nesse sentido, não vejo endereçamentos muito particulares, no sentido de cartografar a cidade, como fizemos em “Da Serra ao Bonfim”- tem mais a ver com uma certa subjetividade boêmia, que em tempos de gentrificação tem lá seu caráter de resistência, digamos assim. Talvez quem curta a banda em BH saiba localizar isso a partir de onde normalmente podem nos encontrar fora dos palcos (risos), mas, de fato, acho que não há um mapeamento muito preciso nesse sentido. “Noturnas” chega mais como um estado de espírito mesmo, um sentimento que, em maiores ou menores dimensões, pode ser associado às faixas do disco, mas não de modo ‘conceitual’ ou como uma agenda.

Contracapa de “Noturnas”, da Pelos

Em mais de vinte anos de estrada, vocês continuam falando em “renovação perene” ao invés de simplesmente tentar superar o que já foi feito. De onde vem essa inquietação criativa?
Kim: Acho que é natural essa efervescência criativa nossa. Além do tempo que estamos juntos produzindo, faço música com o Robert e o Heberte há mais de vinte anos e com o Pereira e o Pablo há mais de dez anos, a real é que temos uma amizade e uma admiração mútua que reflete diretamente nas produções. E ao mesmo tempo nos permitimos experimentar e criar coisas novas para além do rock.

Vocês acreditam que a recepção crítica e pública de um álbum ainda molda a trajetória de uma banda hoje, em tempos de consumo fragmentado em plataformas de streaming?
Thiago: Eis uma questão complicada e complexa, que é atravessada por uma série de outras questões: qual o papel da crítica hoje, o que é crítica hoje, o que entendemos como crítica hoje e qual o impacto disso em relação ao público e a uma banda como a Pelos e tantas outras? Dentro dessas perguntas, entram muitas outras e ainda assim acredito que não acharemos uma resposta definitiva ou alentadora. Sendo assim, por exemplo, acho que uma entrevista como essa, num espaço como o Scream and Yell, é um diferenciador e tanto na trajetória de qualquer banda: trata-se de uma, em última instância, referência curatorial histórica e que, naturalmente, é acionada por público e crítica como tal. Ou seja, é um valor importantíssimo para bandas e artistas que não estão dentro do foco principal da plataformização da música, um campo que envolve e é jogado, de forma massiva, pela indústria fonográfica e todas as suas redimensões atuais. Então, acredito que sim, espaços como o SY moldam as expectativas de bandas como a Pelos, no sentido de ser uma visibilidade desejada e, quando conquistada, faz a diferença em relação à percepção da banda. E isso sem dúvidas é muito importante!

Para terminar: o que vocês esperam que o público sinta ao ouvir Noturnas pela primeira vez — e o que esperam que permaneça após muitas escutas?
Robert: Sempre costumo dizer que o que me motiva na música é, antes de qualquer sucesso ou reconhecimento, significar. O que eu espero da primeira audição é que o disco surpreenda quem já conhece a banda e claro, desperte a atenção de novos ouvintes. E sobre o que desejo que perdure é o disco significar, marcar um período mas também esse sentimento do viver a noite e seus mais diversos caminhos.

 Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. 

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