Outlaw Festival 2025 ou um dia com Bob Dylan (sendo vaiado), Willie Nelson, Sheryl Crow e Waxahatchee em Noblesville

texto de Diego Queijo

Neste mês de outubro, Bob Dylan retoma sua turnê “Rough and Rowdy Ways” com um show na Finlândia. Até o fim de novembro, ele deve cruzar parte da Europa com um show mais longo do que o que gerou polêmica nas datas do Outlaw Festival ao longo do verão nos Estados Unidos. Ainda que este texto pareça um pouco fora de timing, o Scream & Yell acompanhou uma das últimas datas do Outlaw em solo norte-americano, que reuniu – além de Dylan – Willie Nelson, Sheryl Crow, Waxahatchee e Madeline Edwards no famoso Ruoff Music Center (antigo Deer Creek) em Noblesville, dia 18 de setembro.

Ruoff Music Center / Foto de Diego Queijo

O show foi o penúltimo da turnê, dois dias antes da apresentação no Farm Aid que teve transmissão ao vivo. Noblesville é uma cidade pequena nos arredores de Indianápolis, e é famosa por abrigar o anfiteatro criado em 1989 que é considerado um dos melhores do país e que hoje é gerenciado pelo monopólio da Live Nation. Com a temperatura passando fácil dos 30 graus, a maior parte do público de meia-idade e aposentados está ali pelo nonagenário Willie Nelson, e aguarda o sol ir embora sorvendo doses cavalares de Bourbon e Budweisers. Esse contexto pode explicar em parte a receptividade um tanto hostil e/ou indiferente aos artistas que se apresentaram antes, inclusive ao Bob Dylan, que – spoiler – foi vaiado.

Madeline Edwards / Foto de Chris Shaw

Madeline Edwards é uma cantora e compositora que vem se destacando na nova cena country por sua capacidade de fundir estilos como jazz, soul, R&B e pop contemporâneo. O show começou cedo, com o público ainda entrando. Nascida no Texas e radicada em Nashville, ela ganhou projeção nacional após sua performance no CMA Awards em 2022 e com o lançamento de seu único álbum até o momento, “Crashlanded” (também de 2022). Canções como “Mama, Dolly, Jesus” e “The Wolves” representam essa nova geração de artistas calcados no country mas com um pé nas realidades culturais do século XXI. Aproveitando a vitrine do festival, ela voltaria ao lado de Sheryl Crow e Waxahatchee para cantar no fim do show de Willie Nelson.

Waxahatchee / Foto de Chris Shaw

Waxahatchee, por sua vez, projeto de Katie Crutchfield, já tem estrada o suficiente para apresentar um show coeso e muito bom. Desde o disco de estreia “American Weekend” (2012), ela desenvolvido uma força poética séria, com arranjos cada vez mais limpos. No ótimo “Tigers Blood” (2024), seu último álbum até agora, Waxahatchee reafirma essa força com profundidade e contemporaneidade, sem deixar de lado as tradições que os caipiras do sul dos Estados Unidos vangloriam, aqui, com a bênção de Willie Nelson.

Sheryl Crow / Foto de Chris Shaw

Com o público já bastante embriagado e falando alto, Sheryl Crow fez um show perfeito. Não faltam hits e simpatia para a moça – que falou bastante com o público. Surgida no rastro do rock adulto alternativo dos anos 1990, ela se tornou uma espécie de síntese entre a estética californiana dos anos 1970 e o pop radiofônico da MTV, dominando o espaço entre a autenticidade e a conveniência comercial. Crow construiu uma carreira sólida e autônoma, mas também marcada por uma tentativa constante de equilibrar a persona da artista de estrada — folk, blues, americana — com a imagem polida e midiática que o sucesso lhe impôs. Mas, aos 63 anos, ela parece ser bastante coerente e respeitada por aqui, ainda que apenas pela parte do público realmente interessada na música.Esco rada em uma banda extremamente competente, Sheryl enfatizou a importância de dividir bastidores com pessoas do calibre de Dylan e Nelson. Um dos destaques do show foi “Redemption Day”, composição do álbum de 1996 que foi regravada por Johnny Cash e lançada em uma versão bíblica no disco póstumo “American IV: Ain’t no grave”, da série de gravações idealizada pelo onipresente Rick Rubin.

Visão do palco de Bob Dylan… ele está lá atrás das luminárias / foto de Diego Queijo

Mas vamos ao que realmente foi o motivo de toda essa viagem: Bob Dylan. O palco vai sendo montado enquanto o público levanta para buscar aquele goró. Ao retornar e olhar para o palco, a disposição dos instrumentos parece estranha. Não pelo piano de madeira no meio e todos os outros equipamentos próximos e ao redor dele, mas pela altura e pela posição. Há um abismo entre as teclas e o público. O instrumento por si só, do jeito em que está, impediria que qualquer ser humano que sentasse ali naquela noite fosse visto. E mais. A visão é blindada ainda com várias lâmpadas e candelabros.

Com tudo pronto, sem mais nem menos, o fiel escudeiro de Dylan, Tony Garnier (baixo) adentra ao lado de Anton Fig (bateria), Bob Britt (violão e guitarra), Doug Lancio (também violão e guitarra) e a novidade da noite e da turnê, Matt Katz-Bohen (ex-Blondie) nos teclados. Os cinco cavaleiros do apocalipse surgem das sombras e se posicionam ao redor do piano. Em breve todos irão mostrar a que vieram. De repente, o riff de “Masters of War” surge como um trovão. O som dá uma leve falhada, o piano é martelado e o arranjo é apocalíptico. A voz cavernosa e esganiçada brada e chama pelos mestres da guerra para desejar suas mortes. Ok, é impossível não assistir a um show de Dylan sem pensar no mito que está (em partes) diante dos nossos olhos e no contexto de Trump, o Nero moderno a queimar a Roma do nosso tempo (será?).

É interessante observar que, em muitos desses shows de festival, Dylan não está usando seu repertório mais “clássico absoluto”. Ele parece optar por misturas de suas fases mais recentes com algumas canções mais antigas, o que oferece um panorama de sua trajetória e evolução musical – só para relembrar, em São Paulo, 2012,  foram oito canções dos anos 60 contra uma dos 70, uma dos 80, três dos anos 90 e quatro do novo século. Sabemos que o homem costuma reconfigurar suas músicas, alterar arranjos, mudar ritmos, modificar letras, ou seja, cada show “é Dylan revisitando Dylan”. Mas o público, já em alta octanagem, não aceita esse tipo de arte, e fica rude e grosseiro.

Bob Dylan / Foto de Jada Aidun

“Masters of War” é uma das músicas mais politicamente carregadas de Dylan – do álbum “The Freewheelin’ Bob Dylan’ (1963). Inserir essa canção num festival com Willie Nelson, artista ligado a ideais “outlaw” e liberdade, é um ato de continuidade: Dylan reafirma que ainda é possível resgatar sua voz crítica. Ainda há “inimigos invisíveis” que precisam ser interrogados, mesmo (ou ainda mais) na época do Tiktok. Essa escolha de abertura e essa disposição de palco sugerem que, mesmo em um ambiente de celebração, Dylan não abandona seu lado provocador. “I can see through your masks”, diz o velho profeta.

Ele emenda com o cover de “I Can Tell”, lançada por Bo Diddley em 1962. Depois, vem “Forgetful Heart”, do álbum “Together Through Life” (2009), e a banda começa a parecer mais entrosada. O som melhora. A concentração de todos começa a se tornar absoluta. Vemos o pé de Dylan marcando o ritmo e seu capuz. Sim. Além de todos os artifícios do mobiliário do palco, ele está de moletom e capuz em meio à noite calorenta de Indiana (ele repetiu a vestimenta na noite seguinte da turnê, em Wisconsin, encerramento da turnê) .

Vem mais um cover, “Axe and the Wind”, de George “Wild Child” Butler, que nos shows de 2025 entrou pela primeira vez no repertório de Dylan. Então surge “To Ramona” ao piano, mais valsa do que folk. É interessante notar que nos shows de Dylan o público não canta, pois é impossível. Assim, as pessoas sussurram as letras baixinho, quase como uma multidão se confessando. “Everything passes, everything changes / Just do what you think you should do”. Sessenta anos de estrada depois, impossível esse conselho juvenil não soar como epitáfio e manifesto. Dylan não canta para Ramona, ele também canta para si mesmo, como todos nós. É nela também que surge pela primeira vez no show o som da gaita de boca.

De “Tempest”, álbum de 2012, “Early Roman Kings” faz a banda executar um blues áspero. “All the early Roman kings / In their sharkskin suits”. Dylan ironiza o poder, a corrupção e a repetição da história. Os reis continuam iguais, apenas trocam as roupas. Mas seria na próxima canção que os músicos criariam uma atmosfera mágica, rara e inesperada durante a execução de um tema da fase média ou subestimada de Dylan: “Under The Red Sky” (1990).

A letra parece uma canção religiosa disfarçada de canção infantil. Na gravação original, o dono do slide é ninguém menos que George Harrison. Aqui, a banda parece completamente à vontade. Dylan está cantando bem e tocando muito bem o piano, com direito a solos. A versão vai crescendo com as guitarras cobrindo todos os detalhes mas deixando espaço para o respiro em silêncios certeiros. Tudo culmina em um solo de gaita no final. Se alguém aqui se importa com a música, o que está acontecendo é quase inacreditável. Dylan sopra a gaita com o pé marcando o ritmo enquanto as notas mudam e ele improvisa. Ele está sorrindo. A impressão é que ele fosse levitar junto com o anfiteatro, mas a música termina… e algumas pessoas parecem voltar a si e a se incomodarem com tudo.

A temperatura esfria no palco e esquenta no público. Vem mais um cover, “I’ll Make It All Up To You”, e então “All Along The Watchtower”, talvez para muitos uma das mais esperadas da noite. Alguns tentam cantar, mas não conseguem e começam algumas vaias. Sim. Bob Dylan está sendo vaiado. Uma senhora ao lado, extremamente frustrada, chegou a chamar a situação de ‘bullshit’ (“palhaçada”, em tradução livre e generosa). E na verdade chega a ser engraçado mesmo. “There must be some way out of here”.

O ápice lírico da noite foi mesmo “Desolation Row”. A galeria surrealista foi executada em plena semana dos 60 anos do álbum “Highway 61”, e sussurrá-la pareceu um gesto de celebração ao lado literário da sua obra. A versão de “Love Sick”, do excelente “Time Out of Mind” (1997) foi nada menos que sublime. Assim como “Blind Willie McTell”, um dos grandes inéditos redescobertos da carreira de Dylan.

O show termina com as poderosas “Highway 61 Revisited”, em uma versão tensa e maravilhosa, e “Don’t Think Twice, It’s All Right”, lenta e chorosa, com Dylan falando e cantando sobre passagens de piano envolventes e as linhas principais dos guitarristas. Fãs casuais se animaram com a última, e alguns certamente a reconheceram do filme “A Complete Unknown”.

Bob Dyan

O que Dylan oferece hoje em dia é mais uma exploração do jazz americano do que um show de rock ‘n’ roll. Ele está lá para se divertir e tocar. Sim, as pessoas vão reclamar. Vão comer frango empanado, derramar ketchup nos dedos, virar cervejas, conversar alto com os amigos, mexer no celular e tentar tirar selfies com Dylan ao fundo. Mas ele está defendendo sua arte no meio do furacão. E ele não comemora o aniversário de “Highway 61” com bolo nem velas. Celebra-o como sempre fez, desconstruindo, desviando, deixando o público no fio da navalha. Ao final, levanta-se. Aparece. Se mostra. Faz um gesto de agradecimento como alguém que termina um trabalho com a sensação de dever cumprido. Apesar do que poderia ser, o show de Noblesville não foi uma retrospectiva nostálgica, e sim um ensaio vivo sobre tempo, memória e resistência. Um artista lendário sendo um artista. E isso pode ser tudo o que realmente importa.

Com a chegada do senhor Willie Nelson, bradando patriotismo, o anfiteatro vem abaixo. Ele é uma lenda unânime com pouca concorrência nos dias de hoje. Ele cancelou vários shows no verão passado por motivos de saúde. E o verdadeiro motivo do festival é celebrá-lo. Dylan também está aqui para honrá-lo. O show é ótimo. A banda reduzida faz com que o velho Willie se concentre em sua voz e violão. Entre os músicos está Waylon Payne, que duplica muitos dos vocais e assume a liderança em algumas canções, incluindo “Me and Bobby McGee”, “Help Me Make It Through the Night” e “Workin Man Blues”. Isso dá a Nelson a chance de recuperar o fôlego e se preparar para a próxima música.

Standards como “Angel Flying Too Close to the Ground” e “On the Road Again” soaram absolutamente majestosos e nos lembram de que este homem escreveu uma boa parte do Great American Songbook. Ao fim da apresentação, Willie ainda joga algumas bandanas vermelhas com o nome dele para o público. Algo como as famigeradas rosas do Roberto Carlos, mas para cowboys de 90 anos.

Um dia, Dylan e Willie viajarão em pessoa pela estrada do destino para longe de nós. Mas, por enquanto, ainda estão aqui mostrando suas artes e compartilhando seu tempo conosco. Ainda que por um dia. Nos arredores de Indianápolis. Longe de qualquer mapa turístico. Tocando a todos os que sentem o poder, por vezes solitário, mesmo entre multidões, da comunhão pela música.

Willie Nelson com Madeline Edwards, Sheryl Crow e Waxahatchee / Foto de Diego Queijo

– Diego Queijo é jornalista! Acompanhe: instagram.com/diegoqueijo

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