Três shows: Negro Leo & Giovani Cidreira, Lamp, Rogério Skylab

Negro Leo & Giovani Cidreira na galeria lapa, lapa (25/09)
texto de Alexandre Lopes / fotos de Bruno Prada

O show conjunto de Negro Leo e Giovani Cidreira marcou a estreia do projeto Quinta Lapa, idealizado por Anna Vis. Em uma sobreloja com varanda e janelas amplas que serviam de fumódromo para os presentes e quando fechadas davam em um eco bonito, o espaço era perfeito para a sonoridade da noite. Recebidos pelo anfitrião Gabriel, que circulava entre convidados de forma acolhedora, os presentes acompanharam os dois cancioneiros criando versões acústicas e improvisadas de suas canções. A tocante “Oceano Franco”, de Giovani, ganhou percussão feita por botas batendo no chão e o público cantando as estrofes. Em “Saudade de Casa”, o cantor convidou todos ao “la la la” da melodia, enquanto em “Vai Chover” pedia atenção e silêncio em momentos mais delicados. O público respeitou a performance, limitando conversas e interagindo quando os músicos provocavam. Embora parecesse mais interessado em deixar Giovani brilhar, Negro Leo contribuiu com vocais de apoio e instrumentação – inclusive usando um antigo pianinho Amadeus, depois um isqueiro e letras em papel como percussão – mas também apresentou suas criações em arranjos minimalistas, como “Esferas” e “Fera Mastigada”, imprimindo sua identidade irrequieta ao encontro. O tom do show não estava apenas nas composições, mas na conexão entre os músicos: enquanto ambos tocavam seus violões, demonstravam admiração mútua e arriscavam improvisos e vocalizações agudas, como no álbum “Ogum, Xangô”, de Jorge Ben & Gilberto Gil. Essa interação, permeada por sorrisos, troca de olhares cúmplices e várias mudanças no ritmo das canções, transformava a apresentação em um diálogo musical. O público era convidado a participar em coro diversas vezes, completando o clima de intimidade. Ao final, a sensação era de ter assistido a algo raro: um show em que sensibilidade e improviso se encontravam em perfeita sintonia. Cada detalhe – a baixa iluminação, as obras e instalações, o calor da sala em contraste com o frio lá fora, a participação respeitosa do público – contribuía para uma experiência envolvente. Foi uma estreia delicada e bonita, preparando o terreno para que o projeto Quinta Lapa siga com parcerias sensíveis e inspiradoras como essa (Juçara Marçal e Marcelo Cabral estrelam a vindoura segunda edição).


Lamp no Cine Joia (05/10)
texto de Alexandre Lopes / fotos de Fernando Yokota

São Paulo recebeu o único show em solo brasileiro do trio japonês Lamp. Conhecido por seu som nostálgico que mistura city pop, bossa nova, jazz, soul, pop e soft rock dos anos 60 e 70, o grupo apresentou repertório que percorreu nove álbuns, privilegiando os discos “Phantasma” (2008), “For Lovers” (2004) e “Soyokaze Apartment Room 201” (2003). Do recente “Dusk to Dawn” (2023), apenas “Moon Ride” entrou na setlist. Pontualmente às 21h, Taiyo Someya (guitarra e violão), Yusuke Nagai (vocais, guitarra, teclados e violão) e Kaori Sakakibara (vocais, flauta e teclados) subiram ao palco acompanhados por mais quatro músicos de apoio. Depois de uma abertura bem bonita com “Hatachi no Koi” e “Telephone Call”, o trio principal de músicos tentou quebrar o (próprio) gelo algumas vezes, mas deu pra perceber que interações com a plateia realmente não era o forte deles. Não que o público tenha recebido mal seus ídolos; sempre que Kaori assumia os vocais ou a flauta, todos reagiam com palmas e sorrisos, e quando Someya comentou em inglês que ouve música brasileira desde os 17 anos, houve aplauso geral. Mas o real talento do grupo era criar belas pérolas pop revisionistas e isso foi confirmado com uma competente habilidade técnica no palco, mostrando um dos sons mais redondos que já ecoou pelo Cine Joia. E os fãs devolviam essa qualidade ficando bem atentos à apresentação e limitando o uso de celulares. Lembrando um Lenine japonês quando empunhava o violão, Nagai trouxe momentos intimistas ao puxar os dedilhados de “Hisoyakani” e “For Lovers”, devidamente ovacionados pelo público.“The Night Squall” e “Sachiko” tiraram suspiros dos fãs e “Yume Utsutsu” e “Hiyayakana Jokei” alternaram trechos delicados e dançantes, com palmas e coro de “Lamp eu te amo”, a ponto de Nagai elogiar: “Nice audience”. O trio tentou encerrar a apresentação com “Love Letter” e “Ame Furu Yoru no Mukou”, se despedindo às 22h29. O público pedia bis, e a banda retornou ao palco com bateria e percussão em puro samba. O show terminou com “Last Train at 25 O’Clock”, com a exibição de uma bandeira do Brasil com uma montagem da banda feita pelos fãs, enquanto os músicos tiravam fotos do palco. Sem exageros performáticos, o Lamp entregou uma apresentação delicada e contida, provando o quanto sua música ressoa além do Japão. Já dá para voltar mais vezes.


Rogério Skylab no Carioca Club (10/10)
texto de Alexandre Lopes / fotos de Douglas Mosh

Poucos artistas operam há tanto tempo no mesmo terreno que Rogério Skylab; aquele ponto onde a canção popular colide com o absurdo, a escatologia e o status cult. Neste show, o poeta carioca reafirmou sua vocação para o caos e a linha tênue entre devoção e provocação. As cortinas abriram às 22h48 para revelar Skylab e banda com “Aquela coisa toda” e “Cadê meu pau?”, enquanto um fã agitava um fantoche de meia para o cantor, que se mantinha impassível. “Mictório” se alongou por ruidosos solos de guitarra antes de “Nas canções de amor”, quando um cigarro jogado no palco sinalizou que algo sairia dos trilhos mais tarde. Rogério parecia se divertir com seu samba disfuncional e torto, enquanto um casal se beijava durante “A Máquina Fantástica”. A guitarra com efeito flanger e o baixista fazendo tapping imprimiam uma sonoridade viajante. Após “Metrô”, o cantor se dirigiu ao público: “Boa noite, hoje aqui tá uma maravilha. Vou terminar às seis da manhã!”, antes de apresentar os músicos João Pedro (guitarra), Gabriel Planners (baixo) e Aécio Sousa (bateria). Durante “Édipo”, a plateia voltou a arremessar cigarros e um deles atingiu Skylab no rosto. Veio o sermão: “Qual é o filho da puta que tá jogando cigarro na hora que eu tô cantando? Tem que fazer na hora certa, porra! Se jogar eu paro e não tem show”. A horda de devotos e sádicos entendeu o recado. De volta à normalidade, “Você é feia” arrancou o primeiro coro uníssono. “O corvo” trouxe o artista interpretando a ave com uma cenoura na boca, depois mastigando e cuspindo pedaços em todas as direções, como se espalhasse bênçãos sob a plateia, enquanto o casal apaixonado se acotovelava para receber uma cusparada. Em “Rainha do Mar”, Skylab dançou com braços erguidos, pedindo palmas para Iemanjá, em um misto de paródia e homenagem. O clímax veio com “Tem cigarro aí?”, provocando uma chuva de cigarros no palco. A partir daí o show pegou fogo: “Empadinha de camarão”, “Carrocinha de cachorro-quente”, “Música para paralítico” e “Fátima Bernardes Experiência” levaram a plateia a rodas punk. Satisfeito com a entrega dos fãs, Skylab apresentou a banda novamente e anunciou o clássico “Matador de passarinho”. Mas o público não aceitou o fim e exigiu bis. A banda voltou sem Rogério para tocar “Você vai continuar fazendo música?”, enquanto fãs invadiam o palco para roubar o microfone e os seguranças fingiam ter algum controle. O caos terminou às 0h40 sob aplausos e uma certeza: Rogério Skylab ainda é uma figura única ao mesclar o litúrgico e o grotesco de uma forma que cativa e fascina o público.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.
– Douglas Mosh é fotógrafo de shows e produtor. Conheça seu trabalho em instagram.com/dougmosh.prod
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/ 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *