entrevista de Bruno Capelas e Igor Müller, do Programa de Indie
Quando os neozelandeses do The Beths começaram a tocar, em 2014, tudo o que eles queriam era encher o Whammy Bar – uma casa de shows para 250 pessoas na capital do país, Auckland. Dez anos depois, eles chegaram bem mais longe. Com o sucesso do álbum “Expert on a Dying Field”, de 2022, o quarteto liderado por Elizabeth Stokes está com a agenda cheia de shows pelo Hemisfério Norte e acaba de lançar “Straight Line Was a Lie”, seu primeiro trabalho por um selo americano – o Anti, casa de queridinhos indies como Waxahatchee e MJ Lenderman.
“Quando você começa uma banda, nunca pensa que vai fazer quatro discos. Faz parecer que temos uma discografia, parece uma obra de verdade”, brinca a vocalista e guitarrista, ao contar sobre como foi o processo de composição do novo álbum, lançado no final de agosto nas plataformas digitais. Apesar da evolução, o caminho entre os dois trabalhos não foi fácil: além de se acostumar com o mundo pós-pandêmico, Stokes teve de lidar com problemas de saúde, questões mentais e até mesmo um bloqueio criativo – solucionado com a ajuda de uma máquina de escrever. “Escrever dessa forma me permitiu processar as coisas melhor do que eu normalmente processo”, explica a guitarrista.
Casada há 10 anos com o parceiro de banda Jonathan Pearce, Stokes também fala nesta entrevista sobre as novidades sônicas de “Straight Line Was a Lie”, um disco que mantém as guitarras lá no alto, mas as combina com sonoridades mais calmas. “Para o próximo trabalho, talvez nós possamos abrir mão da regra de não usar sintetizadores”, brinca a guitarrista. “Mas mesmo que às vezes nós toquemos coisas diferentes, a adolescente que mora dentro de mim quer estar numa banda de rock.”
Durante a entrevista a seguir, concedida inicialmente ao Programa de Indie e agora publicada no Scream & Yell, Stokes também fala sobre temas que parecem apocalípticos, como desastres climáticos, uso de antidepressivos e a necessidade de se reinventar a todo momento. “Não sei se para todos os millennials, mas pelo menos para mim, a vida tem sido uma repetição de passos atrás. Parece que, a cada punhado de anos, nós temos um grande retrocesso e é preciso repensar nossa vida inteira do zero”, diz a vocalista do The Beths. Apesar disso, é um papo cheio de bom-humor – com direito até a piadas sobre Lennon e McCartney. Com a palavra, Liz Stokes.
Ouça o disco na integra abaixo
The Beths não é uma banda nova, mas ganhou muita atenção com o último trabalho, “Expert On a Dying Field”. Como foi criar um sucessor para um disco que deu tão certo?
Liz Stokes: Dá medo, sabe? (risos). Quando você começa uma banda, você nunca pensa que vai fazer quatro discos. Chegar ao quarto disco faz parecer que temos uma discografia, parece uma obra de verdade. Nós precisamos descobrir para onde queríamos ir. O novo disco abre as portas para novos sons que podemos criar, porque já estamos mais seguros e confiantes do que sabemos fazer. Acredito que enquanto tivermos os instrumentos nas nossas mãos e eu puder escrever as canções, sentiremos que será um álbum do The Beths.
De um lado, conquistar o sucesso fez a banda crescer de tamanho. Do outro, esse crescimento também veio com pressão e com uma série de problemas pessoais. O que aconteceu nos bastidores nesses três anos entre um disco e outro?
Foi um período bem cheio para nós, sabe? Fizemos a turnê de dois discos de uma vez só, por conta da pandemia. “Expert On a Dying Field” começou a ir muito bem, de maneira que continuamos tocando enquanto estávamos no processo de planejar o que seria o próximo disco. Tínhamos mais ou menos um ano para pensar e não sabíamos como começar. Nesse ínterim, tive problemas de saúde, descobri que tenho doença de Graves [uma condição autoimune que causa hipertireoidismo]. Quando você tem problemas de saúde física, é comum também ter problemas de saúde mental. Fiquei bem mal e precisei me cuidar, comecei a fazer terapia e tomar antidepressivos para tentar encontrar uma nova rotina. Em meio a tudo isso, tive problemas para escrever. Era bom não ter mais ansiedade, algo que sempre me acompanhou, mas isso veio junto com um bloqueio criativo. Tentei ao máximo não entrar em pânico. O que me ajudou foi começar a escrever cerca de 10 páginas por dia em uma máquina de escrever, só pra ver o que poderia acontecer. Isso me permitiu alcançar temas que normalmente eu teria medo de abordar, ou que são profundos demais para serem examinados. Escrever dessa forma me permitiu processar as coisas melhor do que eu normalmente processo. Escrevo músicas pensando nas emoções e metabolizando esses sentimentos em canções – e a máquina de escrever me ajudou muito.
O dia-a-dia de quem toma antidepressivos tem muito a ver com o título do disco, “Straight Line Was a Lie”. Acho que também é uma frase que fala muito sobre ser millennial. Somos uma geração que cresceu com a ilusão de que bastava estudar e trabalhar duro para tudo dar certo, mas… o sucesso não é uma linha reta, né?
Claro que não. Não sei se para todos os millennials, mas pelo menos para mim, a vida tem sido uma repetição de passos atrás. (risos) Parece que, a cada punhado de anos, nós temos um grande retrocesso e é preciso repensar nossa vida inteira do zero. Particularmente, esse título tem a ver com uma sensação muito específica que tive quando estava tentando sair desse buraco mental. Quando você está no fundo do poço e começa a melhorar, é normal pensar que a melhora vai seguir para sempre, e para sempre, e assim por diante. E não é assim que funciona, óbvio. É preciso ter uma perspectiva mais ampla, sabe: isso é a vida? A gente avança pela vida, mas não faz isso de maneira linear. Às vezes, a gente vai para trás. Às vezes, a vida gira em círculos. Faz parte.
Outra faixa marcante do disco é “Mosquitoes”, que é baseada em um desastre climático que aconteceu na Nova Zelândia. Como essa música surgiu?
Bem, essa música conta a história de Oakley Creek, que é uma pequena reserva natural aqui em Auckland. Nela, tem uma cachoeira que não é muito grande… sei lá, ela tem uns nove metros. É um lugar em que as pessoas vão muito para caminhar. A história dessa música fala sobre uma enchente. Ultimamente, temos tido muitas enchentes em Auckland, assim como em muitos lugares do mundo. É um padrão que tem se repetido globalmente: normalmente, há uma enchente a cada 100 anos, mas agora parece que elas acontecem todos os anos.
Pois é, aqui no Brasil isso tem acontecido também.
Exato. E bem, a música conta a história desse lugar. Ela fala sobre como foi ir até Oakley Creek depois das enchentes, percebendo como tudo mudou. As pontes foram destruídas, as árvores caíram, tudo mudou. É um lugar que esteve lá durante muito tempo, mas, de repente, as coisas ficaram diferentes. Acho que é possível extrapolar o sentimento dessa música para algo que segue acontecendo com todo mundo. Hoje, parece que o mundo muda muito rápido e a toda hora é preciso descobrir quem nós somos depois dessas mudanças.
“Straight Line Was a Lie” tem uma expansão sônica do que vocês costumam fazer, ainda que vocês mantenham algumas regras – como a de não usar sintetizadores, como o Queen.
Sério? Que legal!
Pois é! Eles tinham essa frase escrita em alguns discos. Se você olhar em “A Night at the Opera”, por exemplo, vai ver que está escrito “No Synthesizers” no encarte.
Isso é muito legal. Eu não sabia disso!
Não é? Como foi esse processo de compreender a identidade sonora do The Beths, ao mesmo tempo em que era preciso evoluir e criar coisas novas?
Nesse disco aconteceu uma mudança muito importante na forma como componho. Antigamente, quando eu compunha, eu usava o Reaper, um software de gravação de demos. Nele, eu só gravava a guitarra e a voz, no máximo um backing vocal ou uma segunda linha de guitarras. Por conta disso, acho que boa parte do ritmo das músicas tinha de vir das guitarras, sabe? É uma demo, não tem baixo nem bateria. Em “Straight Line”, mudei meu método de trabalho. Comecei a usar um software no qual podia adicionar baixo e bateria, de maneira bem básica, ao que estava escrevendo. Isso me deu mais espaço e deixou as canções mais arejadas – o que é interessante, especialmente porque nossa música é densa, cheia de guitarras. Sinto que eu precisava tocar a cada colcheia e agora, não mais: as guitarras podem ser mais esparsas. Isso se transferiu para o que nós fazemos com a banda. Acho que há ritmos e ideias que não usamos anteriormente. Mas, ao mesmo tempo, ainda somos nós tocando os instrumentos, por isso temos confiança de que o The Beths ainda soa como o The Beths. Mas você tem razão, é uma diferença grande.
Todas as músicas do The Beths são o que chamamos no Programa de Indie de “rock de guitarras”. Você acredita que haverá um futuro em que o The Beths não será uma banda de guitarras?
Acho que não. (risos). Não sei! Mas acho que para o próximo disco, talvez nós possamos abrir mão da regra de não usar sintetizadores. (risos) De qualquer maneira, nós gostamos de guitarras. Elas são o motivo pelo qual comecei uma banda. Eu queria ter uma banda de rock para tocar guitarra e, bem, eu ainda quero estar numa banda de rock. Mesmo que às vezes nós toquemos coisas diferentes, a adolescente que mora dentro de mim quer estar numa banda de rock.
The Beths nunca tocou no Brasil ou na América Latina. Algum plano de vir para cá?
Estamos trabalhando nos bastidores, porque queremos muito tocar aí. Adoraríamos ir, de verdade. Mas sei que este ano não vai acontecer, porque vamos tocar até o final do ano sem pausas no Hemisfério Norte. Adoraria ir ao Brasil em 2026.
É interessante pensar nessa divisão, né? Muitas bandas fazem “turnês mundiais” apenas tocando no Hemisfério Norte.
Pois é… mas estamos desesperadamente tentando tocar no México e na América do Sul. Nós chegamos a tocar na Indonésia, que é o país natal da minha mãe, mas também não tocamos muito na Ásia até agora. Queremos ir lá também. Estamos trabalhando nisso!
Além de ter uma banda, você tem um relacionamento dentro da banda – o guitarrista Jonathan Pearce é seu marido. Alguma dica para quem quer ter uma banda com um parceiro?
Tem que ser a combinação certa! Mas isso é bastante comum. Há muitas bandas por aí em que há um namoro entre os membros, embora as pessoas não saibam. Acho que é sempre importante ter uma parceria, seja um relacionamento afetivo ou uma amizade como a de Lennon e McCartney. É sempre bom quando duas pessoas estão “dirigindo o ônibus”. Torna as coisas mais fáceis. Embora essa não seja uma boa analogia – normalmente só uma pessoa dirige um ônibus, né? (risos).
Talvez um avião?
Isso, um avião! Quando você tem um piloto e o copiloto, fica muito mais fácil ter uma banda. Você tem mais gente pensando – e tem alguém pra dividir a bucha quando está em uma fase ruim.
Bem, tem muita gente que diz que Lennon e McCartney tinham um relacionamento de fato…
Olha só. Eu shiparia esse casal! (risos).
Para fechar, temos uma pergunta clássica no nosso programa, uma coisa bem “Alta Fidelidade”. Quais são os cinco discos que você levaria para a ilha deserta?
Top cinco? Putz, isso é muito difícil. Acho que consigo fazer uma lista que valha para hoje, porque é o tipo de lista que muda todos os dias.
Para nós também!
Ok, vamos lá. Vamos começar com… “Give Up”, do Postal Service. “The Night Fly”, de Donald Fagen.
Wow!
Bem, é o como estou me sentindo hoje. Putz… vou com o primeiro do Alvvays. Chama “Alvvays” mesmo, né? Não consigo lembrar.
O que tem “Archie, Marry Me”.
Sim! O que mais? Acho que vou com aquele do Big Thief… como é que chama mesmo? “New Dragon Warm Mountain”? É um título tão grande.
Lá vamos nós pro trava língua: “Dragon New Warm Mountain I Believe In You”
Amo esse disco. É um disco bom demais para ser tão longo. É tão bom. (risos) Numa ilha deserta, acho que poderia ouvi-lo bastante. E não sei, acho que preciso de algo meio doido… meio maluco mesmo. Então, para fechar, vamos com “The Stranger”, do Billy Joel, só para ter algo diferente.
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010. Igor Müller é locutor de rádio e um dos responsáveis pelo Programa de Indie.