textos de Leandro Luz

“Alpha”, de Julia Ducournau (2025)
Selecionado para a competição oficial de Cannes deste ano, “Alpha” segue por dois caminhos distintos: a inadequação de sua protagonista diante de seus pares, tanto a sua família quanto os afetos e desafetos da escola em que frequenta, e a representação quase metafísica de um passado de trauma compartilhado por mãe e filha. Algo se desvanece no caminho. Julia Ducournau perde o fio da meada em algum ponto e jamais consegue recuperá-lo. Uma pena, porque as sequências de Alpha (sim, o título do filme tem a sua origem no nome da personagem) lutando para encontrar o seu lugar no mundo funcionam muito bem, desde a ótima abertura em meio a uma festa caótica até as diversas situações vividas em ambiente escolar – em especial, um bom momento de suspense em uma piscina olímpica. Outro ponto positivo é a atenção atribuída pela roteirista e diretora à descoberta da sexualidade da personagem, fugindo de clichês e ajudando na construção minuciosa de sua personalidade e de seu temperamento, características que serão muito importantes para o desenvolvimento da trama. A propósito, algo que contribui para o sucesso dessa abordagem é a eficiente atuação de Mélissa Boros, que apesar da pouca idade demonstra um belo controle do próprio corpo e de suas expressões faciais. Em contrapartida, as aventuras com o tio Amim, interpretado por Tahar Rahim (atuação daquelas portentosas, que demandam uma transformação física monumental), não funcionam tão bem, principalmente pelo caminho confuso no qual Ducournau escolhe seguir. Mesmo jogando sujo e incluindo em sua trilha sonora uma belíssima “The Mercy Seat” (com Nick Cave desfilando carisma em sua versão solo ao piano) para embalar um dos momentos mais dramáticos do filme, Ducournau não consegue tirar o gosto amargo de um terceiro ato confuso e excessivamente sentimental. Vale destacar, por fim, a presença da franco-iraniana Golshifteh Farahani, estrela do péssimo “Rede de Mentiras” (2008), de Ridley Scott, e do singelo “Paterson” (2016), de Jim Jarmusch, que interpreta a mãe de Alpha. A atriz segue com boas interpretações fora do cinema iraniano, se colocando disponível para colaborações eventuais com o cinema de Hollywood e, de forma mais frequente, com o cinema francês.

“A Vida Secreta de Kika / Kika”, de Alexe Poukine (2025)
A Manon Clavel defende a sua personagem com destreza, imprimindo muitas nuances no decorrer desse ligeiramente estranho e inquieto filme dirigido por Alexe Poukine. Contar quase qualquer coisa sobre a trama de “A Vida Secreta de Kika” (“Kika”, 2025) seria uma tragédia para quem ainda não o assistiu (até a versão do título para o português já é, em si, um pequeno spoiler). Mas vale ressaltar a maneira corajosa com a qual o filme lida com os sentimentos de dor e angústia da protagonista. A roteirista e diretora acerta em concentrar todas as atenções em Kika e, apesar de nunca nos afastarmos dela, o filme eventualmente se distancia de seu tema central: o ciclo da vida como uma engrenagem implacável. Vacila quando tergiversa por assuntos mais polêmicos. Mesmo assim, o roteiro estabelece uma dinâmica boa entre surpresas e desdobramentos – um exemplo é a maneira como descobrimos, depois de cerca de 20 minutos, o verdadeiro grande conflito do filme. Poukine propõe um jogo intenso entre Kika e diversos coadjuvantes: o marido, o amante, a filha, a mãe e o padrasto, os amigos do trabalho – tanto os do emprego convencional como assistente social quanto os do ofício inesperado que surge no caminho. O pano de fundo envolvendo práticas BDSM acaba se impondo demais, gerando, aliás, do ponto de vista dramático, um dos momentos mais apelativos da obra. No entanto, a sequência final, protagonizada por mãe e filha, recoloca tudo nos eixos. Ambas estão, lado a lado, vivenciando uma apresentação de rua, uma festa popular que remente ao “Día de los Muertos” mexicano. A câmera do Poukine se solta, busca o documental, se interessa tanto pelas personagens fictícias quanto pelo evento real. Passeia pelas ruas, pelo verde das árvores e nos ajuda a digerir todos os acontecimentos que acompanhamos até então. É o momento no qual Kika finalmente parece fazer as pazes consigo mesma e, consequentemente, se abre para a filha. Tudo nesta sequência é mostrado com muita sutileza, com um sussurro no ouvido e olhares carinhosos de relance, fazendo desta conclusão não uma redenção vazia, mas propondo um “respirar fundo” antes que cheguem, mais uma vez e sempre, os novos desafios impostos da vida.

“A Cerca / Le Cri des Gardes”, Claire Denis (2025)
A trajetória da brilhante diretora Claire Denis é marcada, entre outras coisas, por uma necessidade de retorno às próprias origens. Desde o seu longa-metragem de estreia, “Chocolate” (“Chocolat”, 1988), passando por “Minha Terra, África” (“White Material”, 2009) e chegando até o seu mais recente filme, “A Cerca” (“Le Cri des Gardes”, 2025), Denis insiste em refletir acerca das questões geopolíticas da África Ocidental, região na qual morou na infância e na juventude. Para além do fato de serem ambientados em países como Camarões e Senegal e da postura contracolonial de sua realizadora, o ponto de conexão entre esses três filmes pode não ser facilmente discernível. No entanto, há um traço de continuidade que atravessa todos eles: as relações devastadoras entre a ilusão que é o conceito de “Ocidente” enquanto abstração geopolítica e o continente africano. O ator Isaach de Bankolé interpreta em “A Cerca” um homem com cicatrizes no rosto escondidas pela escuridão da noite que exige o retorno do que é seu por direito: o corpo sem vida de um parente assassinado pela construtora estrangeira. O homem é a ponte possível entre dois mundos, não à toa a sua presença se dá em uma fronteira, a cerca que delimita um espaço alienado de exploração, a máquina de moer gente restrita ao pessoal autorizado (capatazes americanos, engenheiros britânicos e peões senegaleses). Alboury é o nome do homem misterioso que desafia os limites dessa demarcação. Denis filma, como sempre, de maneira implacável, aproveitando-se dos espaços e dos corpos para navegar por assuntos muito densos, nunca encarados apenas como tema, mas explorados pela via do cinema. Tudo o que está em jogo “na cerca” interessa, mas Denis se preocupa demais com o trio Matt Dillon, Tom Blyth e Mia McKenna-Bruce – esta última fazendo uma personagem que é usada para desestabilizar um ambiente aparentemente inviolável, mas que pouco sobrevive para além desta função. É um jogo de sedução, culpa e castigo que jamais se materializa em sua maior potência. A impressão é a de que faltou ao filme se entregar aos excessos que lhe parecem tão inerentes.
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– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.